Os Vivos e os Mortos / The Dead


Nota: ★★★★

Texto de Sandro Vaia, convidado especial: John Huston fez grandes e pequenos filmes (de Tesouro de Sierra Madre a Cartas ao Kremlin), dirigiu grandes e pequenos atores (de Humphrey Bogart a Pelé). Poucas obras, porém, se comparam a Os Vivos e os Mortos/The Dead, a obra póstuma que dirigiu em 1987, baseado num conto do livro Os Dublinenses, de James Joyce.

Foi seu último filme. Ele o dirigiu em uma cadeira de rodas.

Um filme curto, de 83 minutos, onde ele parece usar a voz de Joyce para cantar sua última ode à aventura humana, na qual sua participação se encerraria em breve.

O filme se passa em uma noite de Reis, em Dublin, em 1904, e a ação se concentra quase toda na casa das tias de Gabriel Conroy (Donal McCann, extraordinário), que, com sua mulher Gretta (Anjelica Huston, talvez em seu melhor momento) e outros convidados, participarão da  ceia onde se repartirão memórias, poesias, canções, pequenas ironias, pedaços de ganso assado da tia Kate e fatias do Christmas Puddim.

Burgueses comuns, normais, típicos irlandeses do começo do século XX. A plácida normalidade daquele grupo só é quebrada pela tolerável transgressão do primo Freddy, cuja excessiva afeição à bebida introduz na polida e formal conversação dos convivas freqüentes inconveniências que incomodam sua mãe, a velha senhora Mellins, mas não provocam mais do que sorrisos indulgentes nas demais pessoas.

A noitada transcorre serena; quem tem dotes artísticos os exibe, ao piano, ou dançando, ou recitando Jovem Donald, canção irlandesa do século XVIII. Na ceia, as conversas concentram-se em rememorações de momentos musicais, de grandes tenores que cantaram em Dublin, de grandes árias, uma leve e inconseqüente maledicência sobre a vida privada do compositor Giuseppe Verdi. Conroy faz um discurso (trouxe uma ‘cola’ para lembrar dos temas) e propõe um brinde. Rápidas alusões a temas políticos da época são afastadas taxativamente por tia Kate, que não quer estragar a compostura e a leveza da noite com controvérsias dessa ordem.

A câmara passeia leve pelo ambiente, visita toda a casa, o quarto das tias. Huston dá um ar de doçura à noite, que vai se encerrando com suavidade, fraterna e plácida.

Quando o casal Conroy prepara a saída, uma cena lancinante do filme. Gabriel ao pé da escada espera Gretta, que se detém no topo, com o rosto virado para dentro da sala, onde uma voz começa a cantar A Garota de Aughrim. Só se ouve a voz ao fundo, Gretta e Gabriel se detêm, ela ouvindo, ele esperando. Uma das cenas mais marcantes da história do cinema, onde Huston disputa com Joyce mil tratados que ainda serão escritos para explicar onde o som e a imagem se colocam em disputa com as palavras para expressar um instante de devoção à vida e à arte.

Depois da canção, Gretta e Conroy saem numa carruagem rumo ao hotel onde estão hospedados, cruzando uma Dublin suavemente submissa à neve. Conroy sente a melancolia profunda que a música provocou em Gretta e tenta animá-la com o relato de algumas banalidades.

Já no quarto do hotel, Gretta desvenda o segredo de sua ligação com A Garota de Aughrim: confessa que a canção lhe evoca um antigo namorado da juventude, Michel Fury, um rapaz de olhos grandes e escuros, que ‘morreu por mim’, aos 17 anos. Adoeceu e morreu por causa da chuva que tomou quando tentava despedir-se dela, antes de uma viagem.

Depois do relato, Gretta chora e adormece e Gabriel abre a janela do quarto de onde vê a neve cobrindo Dublin. “Que triste papel desempenhei em sua vida”. Com essa frase qualifica a sua existência até aquele momento e começa um monólogo que toma seu fluxo de consciência. E termina assim:

“Sim, os jornais estavam certos: a neve cobria toda a Irlanda.  Caía  sobre  toda a Planície Central, nas montanhas sem árvores, tombando mansa sobre o Bog of Allen e, mais para o Oeste, jazia Michael Furey. Amontoava-se nas cruzes tortas e nas lápides, nas hastes de pequeno portão, nos espinhos estéreis. Sua alma desmaiava lentamente, enquanto ele ouvia a neve cair suave através do Universo – como se lhe descesse a hora final – sobre todos os vivos e os mortos”.

Termina o filme. John Huston morre pouco depois de sua estréia. Poucas vezes o cinema terá alcançado tão notável grandeza ao retratar matizes da condição humana.

Os Vivos e os Mortos/The Dead

De John Huston, Inglaterra-Irlanda-EUA, 1987

Com Anjelica Huston, Donal McCann, Dan O’Herlihy, Donal Donnelly, Helena Carroll, Cathleen Delany

Roteiro Tony Huston

Baseado em conto de James Joyce

Música Alex North

Produção Liffey Films

Cor, 83 min

**** 

Um Comentário

  1. cintia martins
    Postado em 16 novembro 2009 às 2:26 pm | Permalink

    se alguem poder me ajudar, preciso da sintese,analise,conclusão para um trabalho academico ou se não o nome de algum site que posso pesquisar.

    obrigada
    cintia

2 Trackbacks

  1. [...] me impressionei como Os Desajustados/The Misfits, de John Huston, feito no mesmo ano de Julgamento em Nuremberg, 1961, foi um filme de outono, de fim de ciclo, de [...]

  2. [...] sei se tem a ver, mas fiquei com a sensação de que Mrs. Dalloway faz lembrar muito Os Vivos e os Mortos/The Dead, que John Huston fez uma década antes, em 1987, baseado num conto de outro autor das Ilhas [...]

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