Nevada


Nota: ★☆☆☆

Anotação em 2008: O filme começa bem. O lead, a abertura, é interessante, intrigante – tanto que me pegou na alta madrugada e me manteve disposto a ver o filme. Ele logo se revela uma imensa, gigantesca porcaria, mas vi até o fim, pelo impacto do começo, por curiosidade e, admito, por um pouco de loucura.

Plano geral, silêncio: uma estrada secundária, de duas mãos apenas, no meio do deserto, que o espectador sabe ser de Nevada porque é o título do filme. Lá longe, uma mulher caminha na estrada deserta no meio do deserto. Vem em direção à câmara. Corte, plano de conjunto da mesma cena; a mulher agora ocupa a tela de alto abaixo; a câmara vai recuando num travelling para trás, mantendo sempre a mulher inteira, dos pés à cabeça, no campo de visão.

Vão surgindo os letreiros, os créditos iniciais, enquanto vemos a mulher caminhando a passos largos, decididos. Carrega uma pequena mala numa das mãos e uma garrafa d’água na outra. Usa sapatos de salto alto – não altíssimos, mas de salto, e não um tênis. Usa um vestido estampado vermelho, um tanto curto, um palmo acima do joelho – e o espectador pode se perguntar se ela não viu tantos filmes americanos que mostram perigos ameaçando as pessoas nas estradas desertas do interiorzão bravo dos Estados Unidos.

A tomada é longa, muito longa. Depois há um corte para a mesma situação, só que agora a câmara pegando a mulher de trás. Depois volta para a visão anterior, a mulher caminhando em direção à câmara, a câmara se afastando dela, mantendo-a inteira, dos pés à cabeça, caminhando em frente. La Regazza com la Valigia. Não, não, este é outro filme. 

OK, vamos em frente.

Com uns bons cinco minutos disso, o espectador já teve tempo para pensar e repensar: mas quem é esta mulher? Está fugindo de que, indo para onde? E, raios, por que de sapato de salto? E por que o vestido curto? O vestido curto, mostrando os joelhos e o início das coxas, belas coxas, tem algum sentido, a não ser dar algum prazer aos voyeurs?

O filme demora bastante a responder a essas questões – e esse é um ponto positivo dele, além dessa abertura de fato interessante, que fisga o espectador. Não apenas pela coisa em si, uma mulher andando misteriosamente sozinha no meio de um deserto, mas pela forma, pelos planos longos, bem mais longos do que se usa no padrão do cinemão de Hollywood.

Claro, este não é um filme do cinemão de Hollywood, é uma produção independente; isso já ficou claro nos letreiros; nenhum nome conhecidíssimo; o único que reconheci foi o de Gabrielle Anwar, a atriz que dançou o tango com Al Pacino na refilmagem americana de Perfume de Mulher/Scent of a Woman, e não virou propriamente uma estrela. Há ainda o fato interessante, mostrado nos letreiros, de que três das atrizes do filme, Gabrielle inclusive, são produtoras executivas. Um pequeno e obscuro filme independente – isso é bom, vale a pena ver. 

Antes que aquelas questões básicas sejam respondidas, no entanto, o filme já terá desandado. A mulher com a mala, Chrysty (Amy Brenneman), chega a uma cidade chamada Silver, que nem chega a ser uma cidade, é um vilarejo mínimo com algumas poucas casas bem pobres e trailers. Só se tem acesso ao lugarejo pela estrada de onde Chrysty veio; não tem nada adiante; é um beco sem saída. E Silver é habitada apenas por mulheres, durante toda a semana: os homens todos saem de carro na segunda de manhã para trabalhar na construção de uma barragem, e só voltam na sexta-feira à noite.

Algumas das mulheres recebem Chrysty de braços abertos; outras se enfurecem com a chegada dela. A essa altura já está tudo caricatural: tem a sapatão (não gay, mas sapatão mesmo, uma caricatura), a xerife (de fato, não de direito) mandona (Kirstie Alley), a bonitinha bebadinha (Gabrielle Anwar), a boazinha mas fraquinha que traiu o marido, a bom caráter e bom coração do caminhão de leite, a altruísta da garagem… 

Com meia hora, 40 minutos de filme, quando começam a surgir flashbacks que vão começar finalmente a montar a história de Chrysty e explicar quem ela é, de que está fugindo e etc., qualquer espectador de bom senso teria desistido de acompanhar a história que já se provou frouxa, troncha, imbecil. 

E chega.

Eu mesmo me impressiono como gasto tempo falando de filmes ruins. Credo.

Nevada/Nevada

De Gary Tieche, EUA, 1997.

Com Amy Brenneman, Kirstie Alley, Gabrielle Anwar, Saffron Burrows

Argumento e roteiro Gary Tieche

Produção Cineville.

Cor, 108 min.

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