Férias de Natal / Christmas Holiday


Nota: ★☆☆☆

Anotação em 2008: Apesar do diretor de prestígio, Robert Siodmak, que fez ótimos noirs, apesar de ser baseado em Somerset Maugham, e apesar de ser dos melhores anos de Hollywood, este filme é uma grande droga. Mas tem Deanna Durbin num papel diferente de tudo que ela fez na vida – e que vida fascinante, a dela.

Os títulos, tanto o original quanto o brasileiro, não poderiam ser mais inadequados. Não é um conto de Natal, desses bonitinhos, róseos, com uma bela lição de vida – é uma história lúgubre, negra, pessimista. A trama também dá uma de Garrincha: finge que vai pra cá, mas vai pra lá. Começa com um soldado com alguns dias de licença, que está à espera de um vôo para sua cidade natal no aeroporto de Nova Orleans fechado por causa da chuva. Ao ser informado que não vai sair avião algum nas horas seguintes, ele resolve ir até a cidade. Lá, acaba conhecendo Jackie, ou Abigail (um dos dois nomes é o artístico), uma cantora de um puteiro.

O que uma moça tão gracinha está fazendo num lixo como esse?, o soldado poderia perguntar. Não me lembro se ele pergunta, mas a moça resolve contar para ele sua triste história, que o espectador verá em looooongos flashbacks.

Então, o filme que começa com um soldado na verdade não é sobre o soldado, é sobre Jackie, ou Abigail. O soldado é só um ouvinte – seria um voyeur?

No passado, Jackie, ou Abigail, conheceu Robert (Gene Kelly), um homem bonito, simpático, elegante, natural dali mesmo de Nova Orleans, descendente de uma antiga família de colonizadores franceses. Encontraram-se num concerto, um indicativo de que era um homem de bem, apreciador de música erudita. Casou-se com ele. Foi sua perdição. Logo revelou-se que Robert era um vigarista, vagabundo, que não queria saber de trabalho; envolvia-se com jogo, perdia dinheiro, devia a bandidos, matou um, foi preso. Ela, tadinha, tendo que se virar, virou cantora de um bordel chique de Nova Orleans, a cidade dos bordéis chiques.     

Finalmente termina o looongo flashback, e estamos de volta com Jackie, ou Abigail, com o soldado. Ele vai ao puteiro vê-la cantar. Ela canta Always, de Irving Berlin, e Spring Will Be a Little Late This Year. A primavera vai demorar este ano; estamos no inverno, e é noite de tempestade. Aí, perigo: Robert, o marido vigarista, fugiu da cadeia, e vai ao puteiro encontrar a mulher. Está armado.

Jackie, ou Abigail, é interpretada por Deanna Durbin. Acho que pouca gente, hoje, conhece Deanna Durbin, mas essa mulher tem uma história extraordinária, muitíssimo mais rica e fascinante do que a deste filme aqui. Nascida em 1921, aos 14 anos de idade ela era a atriz mais bem paga do mundo. Nos anos 40, ela recebia US$ 400 mil por filme – uma fortuna inimiginável para a época. Seus filmes, dizem os alfarrábios, salvaram da falência o estúdio que a tinha sob contrato, a Universal.

Anne Frank, a vítima do holocausto que ficaria famosa no mundo inteiro por causa de seu emocionante diário, tinha duas fotos de Deanna Durbin no sótão da casa onde a família se escondeu dos nazistas em Amsterdã. Assim como Anne Frank, Winston Churchill era fã de carteirinha de Deanna Durbin; conta-se que ele pedia aos exibidores para ver cada novo filme da estrela antes que eles estreassem nos cinemas da Londres então bombardeada pelos nazistas.   

Além de atuar em filmes que arrasavam milhões de corações nos Estados Unidos dos anos da Grande Depressão, antes do início da Segunda Guerra, Deanna Durbin cantava. Gravou One Fine Day, versão popular tirada da ópera Madame Butterfly, com orquestra dirigida por Leopold Stokowski, e a gravação virou um clássico. Havia bonecas Deanna Durbin, roupas Deanna Durbin.  

(Fico imaginando aqui que a estrela infantil do clássico de terror dos anos 60, O Que Terá Acontecido a Baby Jane?/Whatever Happened to Baby Jane?, se inspirou mais em Deanna Durbin do que em Shirley Temple, ao contrário do que eu imaginava. Deanna Durbin, no seu tempo, era maior que Shirley Temple.)

Desde adolescente, Deanna Durbin sempre fez papéis de mocinha inocente e alegre, em comédias e musicais – uma espécie da noviça rebelde de Julie Andrews. Assim, o papel dela neste filme aqui, uma mulher sofrida, trabalhando num bordel, é o contrário do normal – e esta talvez seja a única característica que dá importância ao filme.

Pauline Kael diz que o filme é “um veículo para Deanna Durbin, que já passara de seus grandes dias de cantora adolescente”. E prossegue, naquele estilo cáustico dela: “Embora meio papudinha (é raro as estrelas infantis que amadurecem terem sorte com sua estrutura óssea), ela não está mal no papel de uma jovem cantora de Vermont que se casa com um patife sedutor (Gene Kelly), rebento de uma velha família creole. Mas praticamente tudo é idiota e inverossímil. (…) O filme foi feito nos tempos do Código de Censura, e quando a esposa é obrigada a cantar numa espelunca, temos que aceitar sua palavra de que está vivendo uma vida de degradação, embora pareça cercada por um ambiente angelical.”

Bem. Deixando de novo o filme e voltando a Deanna Durbin, que é o que mais interessa:  

No auge da carreira, estrela mais bem paga do mundo, aos 27 anos, em 1948, ela abandonou tudo. Casou-se pela terceira vez (com Charles David, um diretor), e mudou-se para a França, para a pequena cidade de Neauphlé-le-Château. Em 1949, deu sua última entrevista – e nunca mais falou com jornalistas. Agora, dezembro de 2008, aos 87 anos, continua vivendo longe deste insensato mundo.

 Que figura.

Férias de Natal/Christmas Holiday

De Robert Siodmak, EUA, 1944.

Com Deanna Durbin, Gene Kelly, Gale Sondergaard,

Baseado em romance de W. Somerset Maugham

Roteiro Herman J. Manckiewicz

Produção Universal

P&B, 92 min.

R, *

3 Comentários