
Nota: 



Anotação em 2007, com complemento em 2008: Eis aí um filme bem impressionante, fascinante, que dá vontade de rever.
Segundo o AllMovie, David Lynch concebeu este Mulholland Drive como o piloto para uma série de televisão, o que poderia ter sido assim uma espécie de novo Twin Peaks, imagino eu. Depois que a rede ABC rejeitou o piloto e se recusou a exibi-lo, a produtora francesa StudioCanal assumiu o projeto; Lynch refilmou e reeditou o material para transformá-lo num filme para ser exibido nas salas de cinema. A nova versão de Mulholland Drive que resultou disso foi apresentada pela primeira vez no Festival de Cannes de 2001, e Lynch dividiu o prêmio de melhor diretor com Joel Coen, por O Homem que Não Estava Lá/The Man Who Wasn’t There.
Sempre tive problema com os filmes de David Lynch. Depois de Veludo Azul, não quis mais ver os filmes dele – ele me parecia doentio demais, propositadamente confuso demais e usando exageradamente sexo, e sexo homo, nas histórias. Mas fiquei surpreso com História Real/The Straight Story, de 1999, em que ele abandonou seu estilo tradicional e fez um filme straight – simples, sensível, emocionante, belíssimo – sobre um velhinho que sai pelas estradas num tratorzinho velho e capenga para acertar as contas com o irmão que não via fazia décadas.
Aí um dia estava zapeando e este filme aqui estava começando, e resolvi ver, apesar da prevenção contra Lynch, e também contra Naomi Watts, com quem nunca tinha simpatizado, que sempre menosprezei como atriz de filminhos de terror para adolescentes.
E, enquanto o filme avançava, me peguei pensando: é um brilho.
E fui me impressionando também com Naomi Watts, fui achando que ela estava ótima.
Na primeira cena de sexo, com a Naomi Watts e essa lindérrima Laura Elena Harring, fiquei bestificado – é terrivelmente sensual, e é linda.
E o que será que essa Laura Elena Harring fez mais na vida, meu Deus do céu e também da terra? E onde é que o David Lynch arranja essas mulheres dos filmes dele, diáfanas, etéreas, pele branquíssima, cabelos pretíssimos, olhos de azul profundo?
Aí, com uns 80% de filme andados, vem a virada – e me senti perdido, completamente perdido. Simplesmente não entendi, a história não batia.
Se você não viu o filme, não leia a partir de agora
Só uns 15, 20 minutos depois que o filme terminou foi que saquei. Quer dizer, não sei se saquei, mas ao menos fiz minha teoria. Os filmes de Lynch são assim mesmo, o espectador pode fazer as teorias que quiser – e ele, o diretor, se diverte com isso.
Bem, mas a teoria que eu fiz é de que toda a primeira parte, os 80%, talvez um pouco mais do que isso, até, é a história idealizada na cabeça da personagem central, Betty, na verdade Daisy, a personagem de Naomi Watts. É como ela gostaria que a história tivesse acontecido – puro wishful thinking. No final, os 20% finais do filme, espectador fica sabendo as linhas básicas do que de fato aconteceu.
Repito: pode não ser isso. Mas foi o que me pareceu – e me pareceu um brilho.
E a Naomi Watts, está absolutamente extraordinária nos dois papéis – primeiro como Betty, a pessoa que ela gostaria de ter sido, alegre, inocente, cheia de esperanças, que, por ser uma boa alma, acaba ajudando a bela moça (essa Laura Elena Harring) que escapou de uma trama assassina por causa de um providencial acidente de trânsito, e depois, finalmente, como ela de verdade, Daisy, uma jovem aspirante a estrela obcecada pela paixão pela mulher que a troca por um diretor de cinema, frustrada, desesperada, louca, chegando por fim a tramar a morte do objeto da sua paixão.
Ann Miller – a atriz-dançarina de pernas perfeitas, estonteantes, de tantos musicais nos anos 30 a 50 – faz o papel de Coco, a zeladora do prédio, na verdade Coco, a mãe do diretor de cinema. Foi o último filme dela. Morreria em 2004, aos 81 anos.
Cidade dos Sonhos/Mulholland Drive
De David Lynch, EUA-França, 2001.
Com Naomi Watts, Laura Elena Harring, Ann Miller,
Argumento e roteiro David Lynch
Música Angelo Badalamenti
Cor, 145 min


5 Comentários
Sergio, como voce ví´, revi , voltei o filme e acabei gostando muito. Não é fácil; é um filme que naõ se gosta de cara. Mas depois ele fica la dentro da cabeça da gente.
Concordo plenamente com você, Célia. É exatamente isso: não é fácil, mas é muito bom, e de fato fica na cabeça da gente. Adorei receber seu comentário. Muito obrigado, e um abração.
Sérgio
Esta é grande definição:fica na cabeça da gente. Passou no Telecine Cult e eu fiquei
incomodado com o final. Não batia com o resto da história. Sentia que era um grande
filme – minha mulher havia detestado o final, e não admitia que eu insinuasse um elogio, sob pena de não assistir mais o filme comigo. Mas ele continuava lá na minha cabeça. Quando saiu o DVD eu comprei – sem que ela saiba – e constatei que, como Veludo
Azuk, é um filme notável, apesar de doentio.
Errata: é “não assistir mais nenhum filme
comigo” e não “não assistir o filme comigo”,
porque não há dúvida de que jamais ela irá
voltar a vê-lo.
Eu dispenso este realizador, está na minha lista negra.
Lembro-me de ter visto “Dune”, “Wild at Heart” e “Blue Velvet” e detestei todos.