Êxtase de Amor / Daisy Kenyon


Nota: ★★★☆

Anotação em 2000: Eis aí um filme extremamente interessante. É um filme sobretudo adulto. Extremamente à frente do seu tempo, 1947 – e ainda hoje, tantos anos depois, pode ser visto sem qualquer desconto pelo fato de ter sido feito quando as censuras – da sociedade e da indústria – eram tão mais fortes.

Essa modernidade dele foi o que mais me impressionou enquanto via o filme. Isso, e mais a comprovação de como o Otto Preminger era irregular. Capaz de fazer este belo filme, e também capaz de uma coisinha leve e descartável como aquele O Leque, baseado em Oscar Wilde, outra tão mediana como A Ladra e de uma bobagem tão grotesca quanto aquele Fallen Angel. Quando eu vi Fallen Angel, me perguntei, com muita propriedade: Dana Andrews está assustadoramente ruim. Como é possível que a mesma dupla tenha feito, apenas um ano antes, Laura, aquele encanto de concisão?

Pois é: como pode a mesma dupla fazer Laura, Fallen Angel e este filme que só vi agora, e do qual não tinha a mínima referência?

Que o Preminger foi corajoso, isso não é novidade. Ele avançou demais em Anatomia de um Crime, no tratamento do sexo, crime sexual – o filme ousava falar abertamente de infidelidade e ainda pronunciava a palavra calcinha, em 1959! -, e isso é história. Também avançou no Homem do Braço de Ouro no tratamento da dependência de drogas. Neste ele avança também nos costumes, embora de maneira mais suave, menos estridente – embora firme – que nos dois exemplos logo acima. Em primeiro lugar, trata de um casal de amantes com a maior naturalidade, quando isso não era propriamente aceito no cinema americano. Me lembro de Esquina do Pecado/Back Street, por exemplo, em que o tratamento do sexo fora do casamento é muitíssimo mais cuidadoso do que neste aqui. Ou Imitação da Vida. Vou checar as datas para não correr o risco de falar asneira.

É isso mesmo. Este filme é de 1947 – Laura é de 1944, Fallen Angel é de 1945. Imitação da Vida é de 1959. Esquina do Pecado é de 1961.

Quando a ação começa, temos que a personagem de Joan Crawford, a Daisy Kenyon do título, é a amante, já faz bastante tempo, de um homem rico e importante, o advogado Dan (Dana Andrews, de novo; teria Dana Andrews sido um caso do Preminger?). Ela ainda o ama, mas já perdeu a esperança de tê-lo só para ela; ele é casado, e não vai se divorciar, ela tem a certeza. Ela está cansada da situação, e quer cascar fora. Conhece então Peter (Henry Fonda), um militar que voltou da guerra e perdeu a mulher em acidente, e está completamente perdido na vida. Ele se apaixona por Daisy, sabendo que ela ainda está muito envolvida com Dan; resolve, conscientemente, se arriscar, e pede que se casem; acredita que vá conquistá-la. Depois do casamento, começa a se reencontrar, volta à antiga profissão – fabrica barcos, e bem. E de fato ela começa a amá-lo, e estão assim quando Dan tem um forte revés profissional, procura Daisy de novo, com a certeza prepotente dos ricos e de quem já foi amante durante anos de que reconquistá-la é fácil.

Nesse momento, Peter, em vez de qualquer reação machista previsível, aposta na maturidade – abre espaço para que ela tome a decisão que achar melhor, retira-se de cena. Vem em seguida um processo de divórcio, com diálogos extremamente modernos ainda hoje – e estamos em filme de 1947, 53 anos atrás.

São três personalidades fortes, cada um em seu estilo – e todos os três adultos, inteligentes. Não há machismos, não há subserviência feminina que até seria explicável pela época. Num determinado momento, há uma fala interessantíssima de Daisy, quando os dois que a disputam estão juntos: “Não quero saber dessa coisa tão civilizada de vocês”. A ausência de brigas e baixarias é tão moderna que ainda assusta a própria personagem.

Ah, sim: ainda mostra violência contra crianças por parte da mãe, a esposa traída do advogado rico. É só essa coragem que o resenha leviana do Maltin reconhece.

Um interessantíssimo filme adulto, avançado, muito adiante de seu tempo.

Êxtase de Amor/Daisy Kenyon

De Otto Preminger, EUA, 1947.

Com Joan Crawford, Dana Andrews, Henry Fonda, Ruth Warrick.

Rot David Hertz

Bas na novela de Elizabeth Janeway

Mús David Raksin 

Direção musical Alfred Newman

P&B, 99 min.

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