Tempo de Matar / A Time to Kill


Nota: ★★★☆

Anotação em 1997: Embora partindo de uma premissa absolutamente errada, em termos éticos – em determinadas circunstâncias, quando a Justiça falha, é admissível fazer justiça com as próprias mãos -, o filme é muito, muito bom, assim como deve seguramente ser bom o livro de Grisham que o originou (o escritor, aliás, é um dos três produtores executivos). Aliás, acho que é, até agora, o melhor filme baseado em livro de Grisham, porque Dossiê Pelicano e O Cliente ficam muito abaixo dos textos que lhes deram origem.

O roteiro é muito bom, capta várias sutilezas, histórias parelelas à ação principal, as histórias de cada um; a composição dos vários personagens é muito boa. A câmara é excepcional, tem muita grua, muitos planos longos, os atores estão todos muito bem.

atimeÉ um filme forte, que não sai da cabeça da gente. E discute de forma profunda a questão racial do Sul dos Estados Unidos hoje, mostra como o racismo continua fortíssimo, enraigado, e violento, já passadas décadas das conquistas históricas dos anos 50 e 60; a mancha é muito mais feia do que gostariam que ela fosse os donos do poder, o establishment. E mostra bem como a mídia explora os dramas pessoais, e como as grandes organizações (a Igreja, as entidades de defesa dos direitos humanos) querem tirar proveito das histórias que fazem furor na mídia. Coloca muito bem as sutilezas que dividem os americanos diante das grandes questões dos direitos humanos, como a pena de morte.

O lead é violento, forte, pesado, e muito bom. Dois jovens brancos bêbados e drogados brutalizam e violentam uma garotinha negra de 11 anos de idade. O pai da menina (Samuel L. Jackson, ótimo) procura um jovem advogado branco (Matthew McConaughey, excelente; eu não conhecia) que no passado salvou um irmão seu em um problema jurídico, e diz algo do tipo: “Lembra-se daqueles dois brancos que uma vez violentaram uma negra? Pois é; eles foram inocentados. Se eu me meter em uma grande confusão, você me ajuda?” E faz como anunciou: no dia em que os estupradores de sua filha chegam ao tribunal para a audiência preliminar, ele os mata.

Falei parágrafos acima que o roteiro consegue contar bem a história principal e contar também as várias histórias paralelas dos personagens. É bem verdade. Os filmes anteriores baseados em Grisham mal conseguiram contar a história principal, e este consegue contar tudo muito bem – talvez porque os produtores tenham tomado a decisão, anticomercial, de fazer um filme mais longo que o padrão americano; são duas horas e meia.

É interessante a história pessoal do jovem advogado, que se define como liberal, mas não radical; ao aceitar defender o negro assassino, ele expõe sua família a riscos (a Klu Klux Klan assusta sua mulher e sua filhinha; mais tarde, queima a sua casa); o filme conta bem a atração inevitável que ele sente pela advogada rica do Norte desenvolvido que se propõe a ajudá-lo apenas pela causa (Sandra Bullock, sempre gracinha, embora uma atriz limitada).

O personagem dessa advogada é bem interessante, também; ela é uma ativista contra a pena de morte, enquanto ele, o jovem advogado, não; ele é a favor da pena de morte, e gostaria que ela fosse executada mais vezes; ela se decepciona quando ele diz isso; é o momento em que ele diz ser liberal, mas não radical.

É extremamente interessante também o personagem do velho advogado bêbado (o grande Donald Sutherland), mentor do jovem, proibido de advocar por ter agredido policiais numa manifestação pró-direitos humanos.

Um belo filme. E mesmo a premissa errada – a defesa da justiça com as próprias mãos – fica muito relativizada, quando se vê o júri todo branco querendo acabar logo com aquilo, e quando se vêem as condições em que a Justiça trabalha numa sociedade nojenta e profundamente racista como a que o filme retrata. O que Grisham parece querer dizer é que simplesmente a Justiça não é justa com os negros, e por isso é que nesse caso específico é justo e admissível que o negro faça a justiça com as próprias mãos. A tese é complicada; mas o filme conseguiu me fazer torcer pela absolvição do criminoso. E eu sou um radical radical quanto à pena de morte.

Tempo de Matar/A Time to Kill

De Joel Schumacher, EUA, 1996.

Com Matthew McConaughey, Samuel L. Jackson, Sandra Bullock, Kevin Spacey, Donald Sutherland, Kiefer Sutherland

Roteiro Akiva Goldsman

Baseado no livro de John Grisham

Cor, 149 min

***

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