Ricardo III – Um Ensaio / Looking for Richard


Nota: ★★★★

Anotação em 1997: É um gigantesco tour-de-force. Esta, acho, é a definição mais precisa. É também uma explosão do ego de um grande ator, um dos grandes do nosso tempo.

E aí vale lembrar algumas coisas. Al Pacino – ao contrário de tantos atores que fizeram Shakespeare – tem passado de pobre. É filho de imigrantes italianos, trabalhou como contínuo e depois como chefe de obra na construção civil enquanto estudava artes cênicas. É um daqueles exemplos fantásticos de quem teve que brigar muito para subir. Começou no off-off-Broadway. Teve como professor Charles Laughton, chegou ao Actors Studio aos 26 anos, em 1966 (é de 1940). E hoje tem um passado respeitável que permite essa ode ao próprio ego. Em 1982, tornou-se co-diretor artístico do Actors Studio. Já dirigiu na Broadway. Já ganhou um Tony como ator de teatro (em 1977). Já encenou Shakespeare na Broadway (Richard III, em 1979). Teve sete indicações (listadas abaixo) para o Oscar – só na oitava levou o trofeuzinho pra casa, em 1992, por Perfume de Mulher.

As indicações ao Oscar:

Coadjuvante em 1972 por O Poderoso Chefão

Ator em 1973 por Sérpico

Ator em 1974 por O Poderoso Chefão II

Ator em 1974 por Um Dia de Cão

Ator em 1979 por A Justiça é Para Todos

Coadjuvante em 1990 por Dick Tracy

Coadjuvante em 1992 por O Sucesso a Qualquer Preço/Glengary Glen Ross

Ele poderia, é claro, ter simplesmente filmado Ricardo III. Outros grandes atores que viraram diretores se filmaram interpretando peças de Shakespeare: Laurence Olivier e Kenneth Branagh, para lembrar os dois mais óbvios. Orson Welles, que sempre foi ator e diretor, também se filmou (Macbeth, Othelo). Mas Pacino quis fazer mais; especialmente, ele quis fazer mais do que os dois ingleses citados acima, que, além de serem ingleses, tiveram toda a formação no teatro shakespereano. Ele quis fazer mais. Quis fazer um documentário sobre como se faz para encenar Shakespeare, que funciona como um workshop sobre o trabalho de Shakespeare. Fez um filme forte, belíssimo, emocionante.

É um filme que contém discussões sobre Shakespeare, seu tempo, sua obra (até se discute longamente sobre a métrica poética usada em Ricardo III), a verdade histórica que ele retratou poeticamente, ou seja, com liberdades poéticas, na peça; que contém entrevistas com pessoas do povo e com estudiosos e atores sobre a obra do bardo e seu significado, eternamente e neste momento; e que discute sobre o que é encenar ou filmar Shakespeare para a platéia americana de hoje. (Em sua única aparição, o excelente, brilhante ator – de teatro e de cinema – Kevin Kline, ele próprio diretor de teatro, com vários cursos de artes cênicas, se lembra de como detestou quando teve que ver, ainda estudante colegial, uma encenação de Shakespeare, com aquele inglês que ele, garoto americano do Missouri, simplesmente não entendia nem queria entender.)

Então é um filme que contém tudo isso. E contém ainda um documentário sobre como Al Pacino e dois amigos resolveram fazer um filme sobre a encenação e a filmagem de Ricardo III. E contém ainda um filme dentro do filme dentro do workshop: algumas das principais cenas de Ricardo III, não no teatro, mas em cenários (fechados e abertos) de cinema.

Um tour-de-force, uma ode ao próprio ego – um brilho.

Um detalhinho curioso: Pacino se permite até pequenas brincadeiras com as palavras. Na apresentação, aparece:

king richard

E, em seguida, surgem novas letras, para formar:

looking for richard.

Mais tarde, ele brinca com quest e question. Ele pode.

Ricardo III – Um Ensaio/Looking for Richard

De Al Pacino, EUA, 1996.

Com Al Pacino, Alec Baldwin, Harris Yulin, Kevin Spacey, Winona Ryder, Aidan Quinn, Viveca Lindfors. Entrevistas com John Gielgud, Vanessa Redgrave, Kevin Kline, Kenneth Branagh

Cor, 112 min

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