A Mulher Secreta

0.0 out of 5.0 stars

(Disponível na Netflix em 10/2026.)

A Mulher Secreta, thriller dinamarquês de 2026, começa muito, mas muito bem. Uma mulher bela, atraente, está fugindo de um carro que vem na direção dela em uma grande, magnífica ponte pênsil sobre um braço de mar. Ela pára, olha para o mar lá bem abaixo. O carro se aproxima. A mulher sobe na amurada da ponte – e se lança.

Sobre a tela toda negra, surge o título: Den Hemmelige Kvinde. Este é um daqueles títulos que não permitem vôos criativos dos distribuidores mundo afora. Den Hemmelige Kvinde – o Google mostra – é A Mulher Secreta. Nos países de língua inglesa, The Secret Woman. La Femme Secrète na França, A Mulher Secreta aqui. Ah, vejo agora que há sempre a exceção que confirma a regra: os distribuidores italianos foram de La Donna Senza Passato, e os mexicanos de Una Mujer Sin Pasado.

Bem. O título surge na tela quando estamos chegando ao fim do primeiro minuto dos 118 que dura o filme.

Uma abertura rapidíssima – e, diacho, surpreendente, atraente. Uma coisa que laceia o espectador logo de cara, que prende sua atenção, que o deixa louco para ver o que vem depois. Quem é essa mulher? Quem a está perseguindo, e por quê? Por que ela prefere se jogar da ponte altíssima em vez de se entregar ao perseguidor?

A gente está acostumado a aberturas assim – uma sequência de grande impacto, que fisga o espectador, atiça ao máximo sua curiosidade, para, então, em seguida, voltar ao passado e explicar como e por que se chegou àquela situação estranha, inesperada, impactante, fisgativa. Daria para usar o adjetivo instigante, mas sempre lembro que meu amigo e mestre Sandro Vaia detestava o termo, por causa do excesso de uso.

Os críticos de cinema têm um nome chique para esse recurso narrativo de começar mostrando um evento importante, tipo um pênalti aos 44 minutos do segundo tempo, para só então voltar atrás e contar como a história começou, como foi o jogo desde o começo: “in mídia res”, o latinório para “no meio das coisas”. Eu gosto da expressão “narrativa laço”.

Depois da abertura, depois de mostrar a sequência de grande impacto, corta, e vem o letreiro: “Tantos dias antes”, “Tantos meses antes”, “Tantos anos antes”.

Pois é. Neste A Mulher Secreta, depois da rapidíssima abertura impactante e do título do filme, surge o letreiro – “Dois anos depois”!

Dois anos depois, a mulher vive feliz num lugar lindo

Adorei aquilo! Meu, o filme usa o recurso já tão comum – só que do jeito invertido! Em vez de mostrar o que aconteceu no passado daquela mulher, para o espectador entender os comos e os por quês todos, a narrativa avença para o futuro! E mostra o que está acontecendo com a protagonista da história dois anos depois que ela, para não ser pega por quem a perseguia, lançou-se da grande e altíssima ponte!

Vemos então que a mulher – o papel de Natalie Madueño – vive num pequeno vilarejo cercado de bela mata e debruçado sobre o mar. Os créditos iniciais ainda estão rolando quando ela vai de bicicleta até a beira do mar, para comprar os produtos que os pescadores acabaram de trazer.

Alguém diz: – “Olha a dinamarquesa”.

Ela é bem conhecida ali – e, pela conversa entre a freguesa e os pescadores, ficamos sabendo que se chama Louise.

Vemos logo em seguida que Louise tem um pequeno café junto da casa em que mora com o namorado, Joachim (Pål Sverre Hagen), um cara simpático, com um jeitão de hippie depois da época dos hippies, escritor de novelas policiais ainda não publicado.

O casal que o filme nos apresenta neste comecinho da narrativa é tranquilo, feliz. São jovens ainda, ela chegando aos 40 anos, ele um pouquinho mais velho. Belos, saudáveis, se amam, vivem num lugar lindo e não têm problema algum de falta de conforto material. Em uma das primeiras sequências em que os vemos juntos, estão falando em casamento.

Um navio com turistas se aproxima do lugar em que vivem Louise e Joachim. Um tripulante informa que aquela é a ilha de Tysnes, onde vivem cerca de 2.400 habitantes – e no navio há uma bandeira da Noruega. Um dos passageiros, homem aí de uns 60 anos, vai ao café de Louise. E, depois de estar ali por algum tempo, aproxima-se dela:

– “Helene? Sou eu, Peter. A gente trabalhava junto.”

– “Desculpe, não sou Helene”, ela responde, com um belo sorriso.

– “Como assim?”, o homem pergunta, cara de quem não está compreendendo as coisas.

– “Meu nome é Louise.” Ela pega um menu do café, que leva seu nome, e diz: – “Eu sou esta. Louise Andersen.”

O sujeito faz uma cara de quem não acreditou muito, mas pede desculpas: – “Você deve ter uma sósia”, diz, antes de sair do café.

Louise fica inquieta, vai à polícia

A sequência seguinte é numa festinha em que Joachim e Louise reúnem meia dúzia de amigos em sua casa. Ele anuncia que ela finalmente aceitou o pedido, e ficaram noivos. Faz um discurso e uma apaixonada declaração de amor.

A atmosfera gostosa, simpática, aconchegante, é interrompida com um toque na campainha. – “É o dinamarquês que esteve no café e ficou olhando para Louise”, explica para o grupo uma das amigas, uma garota que trabalha no café.

– “Ele me confundiu com outra pessoa”, Louise diz para Joachim. – “Não quero falar de novo com ele.”

Joachim vai atender a porta. – “Eu quero falar com Helene”, diz o sujeito.

– “Lamento, não tem nenhuma Helene aqui”, diz Joachim.

Louise se aproxima da porta, mas sem ser vista pelo visitante. Ele diz: – “Olhe, tenho algo importante para dizer a ela. É sobre o passado dela, entende?”

– “Desculpe, mas, como dizem em dinamarquês, foi engano.”

O dinamarquês Peter vai embora. E há, então, um diálogo entre Joaquim e Louise que é importante para que o espectador comece a compreender as coisas. Joachim pergunta se ela conhece aquele sujeito, ela diz que não, que não se lembra. – “Não sei se já o vi antes. Acho que não, mas…”

– “Louise, o que está acontecendo? Você está começando a se lembrar das coisas?”

– “Não sei. Mas ele me deixou… com medo.”

Na sequência seguinte, os dois na cama, abraçados para dormir, Joachim volta ao tema: – “Se esse homem instigou alguma coisa na sua memória, se você está recuperando lembranças, fale comigo.”

Ela diz que sim, tudo bem, agradece a ele, e diz que é hora de eles dormirem.

Mas está inquieta. Depois que ele adormece, ela se levanta, anda pela casa, pega uma despensa uma caixa com coisas antigas dela, examina uma preciosa caixinha redonda de metal dessas de rouge, blush, com um espelho todo quebrado. Na caixinha estão gravadas as iniciais HS.

Quando Joachim dcsperta na manhã seguinte, há um bilhetinho sobre o travesseiro dela: “Fui para o continente. Volto na última balsa à tarde. Te amo.”

No continente, Louise conversa num posto de policial com uma oficial fardada.

Na conversa entre as duas, ficamos sabendo agora claramente que Louise tem dúvidas sobre sua identidade. Alguns anos atrás, ela havia sido encontrada inconsciente em um navio quando ele chegou ao porto. Havia batido a cabeça e o pescoço, machucado o braço e algumas costelas. E não se lembrava de como havia ido parar naquele navio. Ficara muito tempo internada, e os médicos identificaram que ela tinha amnésia. A identidade dela havia sido descoberta porque ela tinha na bolsa um documento – Louise Andersen.

A policial norueguesa: – “A polícia da Dinamarca aceitou que você fosse Louise Andersen?”

Ela: – “Sim, porque eu confirmei que era verdade. Eu disse que me chamava Louise e estava recuperando a memória.”

A policial: – “E estava mesmo?”

Ela: – “Não. Eu não tinha idéia de quem eu era.”

A policial: – “E por que não disse?”

Ela: – “É difícil explicar, mas eu tive medo. Eu não sabia quem eu era, e só queria que fosse verdade.”

A policial: – “Você pesquisou sobre você?”

Ela: – “Sim, pesquisei na internet, mas não achei nada.”

A policial sugere que ela faça um exame de DNA.

Entre os 12 e os 15 minutos, surgem muitas informações

Estamos, neste momento, com apenas 12 minutos de filme.

Como faço muitas vezes nestes meus comentários, me estendi longamente no relato do que acontece na abertura da narrativa, nos primeiros minutos do filme. Gosto muito de fazer isso – até mesmo para guardar para mim mesmo, para que eu não esqueça, para que eu tenha sempre registrado do que se trata a história. Mas, principalmente, porque estou convencido de que a forma com que os realizadores abrem a narrativa definem o tom, o clima do filme todo.

Quando o filme chega aos 15 minutos, a mulher que nos últimos dois anos era conhecida como Louise Andersen já sabe – assim como o espectador – o que revelaram o exame de DNA e a comparação do resultado com os bancos de informação da Dinamarca. A rigor, a rigor, não seria exatamente spoiler relatar aqui o que é mostrado no filme entre os 12 e os 15 minutos. As sinopses do filme em geral já relatam isso. Mas as informações são todas muito surpreendentes, e então não vou avançar mais na apresentação dos fatos da trama.

Acho que basta dizer que haverá muitas, muitas surpresas a partir daí.

O livro é assinado por uma mulher que não existe

Amnésia é um horror para quem sofre dela – mesmo as pequenas amnésias provocadas pelo álcool podem ser extremamente desagradáveis. Mas, para o escritor de ficção, em especial o escritor de histórias de mistério, thrillers, é um elemento maravilhoso.

Anna Ekberg, a autora do livro Den Hemmelige Kvinde, que deu origem ao filme, soube extrair desse distúrbio uma trama que de fato fascina.

O livro foi lançado em 2016 na Dinamarca. A mesma autora escreveu também os romances Amor entre Adultos e Um Marido Fiel. Aparentemente seus livros ainda não foram lançados no Brasil; em Portugal já saiu uma edição de A Mulher Secreta, das Edições Asa.

Só que… Mas porém todavia contudo…

Pois é. Anna Ekberg não existe.

É o pseudônimo de uma dupla de escritores homens – Anders Rønnow Klarlund & Jacob Weinreich.

Anders Rønnow Klarlund, dinamarquês da classe de 1971, é escritor, roteirista e diretor. Ele e seu conterrâneo Jacob Weinreich primeiro adotaram o pseudônimo A. J. Kazinski, e com ele publicaram em 1970, Den sidste gode mand, em inglês The Last Good Man, no Brasil O Último Homem Bom. O romance introduz o detetive e negociador da polícia Niels Bentzson; foi um grande sucesso, e teve edições em diversos países, inclusive Portugal, pela editora Tordesilhas. O detetive Niels Bentzon voltou no livro O Sono e a Morte, também já publicado em Portugal. Ao todo, foram lançados sete romances assinados por A. J. Kazinkski, o último deles em 2017.

Os autores da trama são dois homens que escreveram o livro sob um pseudônimo feminino. Já a diretora e co-roteirista é mulher mesmo. Barbara Topsøe-Rothenborg, dinamarquesa de Copenhagen, da classe de 1979, começou a carreira de atriz aos 6 anos de idade, no papel título da série infantil Nana, que, segundo o IMDb, ganhou o status de cult – além de prêmios na Dinamarca e nos Estados Unidos.

Fez 9 filmes como atriz, produziu vários programas documentários e criou seu próprio show na TV, “A Galáxia de Barbara”. Viveu uma temporada em Bali, outra em Loos Angeles e, desde 2006, de volta à Dinamarca, estabeleceu sua carreira como roteirista, diretora e produtora.

Este A Mulher Secreta é seu 18º título como diretora. Lançado pela Netflix em 28 de agosto de 2026, estava com nota 6,0 em 10 no IMDb no início de outubro, quando vi o filme. No Rotten Tomatoes, tinha apenas 40% de aprovação entre os críticos e 47% entre os leitores do site agregador de opiniões.

Não entendo por que uma aprovação tão baixa. Não é um grande filme, mas também não é abaixo da média, de forma alguma.

         Anotação em outubro de 2026

A Mulher Secreta/Den Hemmelige Kvinde

De Barbara Topsøe-Rothenborg, Dinamarca, 2026

Com Natalie Madueño (Louise Andersen/Helene Söderberg),

Pål Sverre Hagen (Joachim, o namorado), Claes Bang (Edmund, o marido),

Stina Ekblad (Caroline, a mãe de Edmund), Ingrid Bolsø Berdal (Iben Rask), Lars Simonsen (Aksel Söderberg), David Elting Alexander, o filho de Helene), Ina-Miriam Rosenbaum (Ingrid, a secretária de Helene), Mia Jexen (Louise Andersen), Stine Prætorius (Elisabeth Fauerskov, a CEO da outra empresa), Janek Lesniak (Peter, o empregado da empresa de navegação)

Roteiro Anders Frithiof August & Barbara Topsøe-Rothenborg

Baseado no livro homônimo de Anna Ekberg, pseudônimo da dupla Anders Rønnow Klarlund & Jacob Weinreich

Fotografia Lars Reinholdt

Música Elvin Matz, Aramis Silvereke, Alexander Westlund

Montagem Carsten Søsted, Lars Wissing

Desenho de produção Mathias Holmgren Hassing

Figurinos Charlotte Moe

Produção Marcella Linstad Dichmann, SF Studios Production.

Cor, 118 min (1h58)

**1/2

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