Séries que não vimos até o fim (2)

Falo aqui de duas séries bem recentes, uma irlandesa, De Belfast ao Paraíso, de 2026, e uma egípcia, Catálogo, de 2025.

Vimos no mesmo dia o início das duas – e não nos animados a continuar. E aí se faz necessária uma rápida explicação: nem sempre Mary e eu desistimos de ver uma série porque ela é ruim. Não necessariamente. Pode ser simplesmente que não aconteceu de nos envolvermos muito com a trama. Ou porque percebemos que não estávamos gostando muito, por não ser, afinal, um tema que nos atraia a ponto de passarmos muitas horas diante dele na TV.

Série, afinal, é diferente de filme – é mais longa, mesmo as que não têm tantos episódios assim. E, diacho, a vida é curta demais – e há séries e filmes demais para ver.

Tá. Mas, se eu não vi o troço até o fim, que autoridade tenho para falar sobre ele? Por que vou postar aqui sobre o troço? Bem. Porque coloco nas minhas anotações informações objetivas, que podem eventualmente ser úteis ao eventual leitor que chegar até aqui.

De Belfast ao Paraíso/How to Get to Heaven from Belfast

De Lisa McGee, criadora, roteirista, Irlanda, 2026

Direção George Kane, Michael Lennox, Rachna Suri

Com Roisin Gallagher (Saoirse), Sinéad Keenan (Robyn), Caoilfhionn Dunne (Dara), Greta (Natasha O’Keeffe)

Argumento e roteiro Lisa McGee

Fotografia Ashley Barron, Nathalie Pitters, Daniel Stafford-Clark

Música Sion Trefor

Montagem Lucien Clayton, Nigel Williams, Ed Coltman

Produção Hat Trick Productions.

Cor, cerca de 400 min (6h40)

(Disponível na Netflix em 2/2026.)

How to Get to Heaven from Belfast, no Brasil De Belfast ao Paraíso, é uma série irlandesa de mistério e humor negro de 8 episódios, lançada na Netflix em fevereiro de 2026. As protagonistas são quatro mulheres que foram amigas inseparáveis na época do ensino fundamental, quando aconteceu algo muito grave. Três delas continuam próximas, vivendo em Belfast, mas se distanciaram completamente da quarta, que passara a viver numa pequena cidade interiorana.

Quando todas estão aí na faixa dos 36 a 38 anos, as três que continuaram próximas, Saoirse, Robyn e Dara, recebem a notícia de que Greta, a que ficou distante, havia morrido. E vão à cidadezinha dela para os funerais.

Saoirse, Robyn, Dara e Greta são interpretadas por, respectivamente, Roisin Gallagher, Sinéad Keenan, Caoilfhionn Dunne e Natasha O’Keeffe;

A família de Greta que elas encontram – marido, filha, cunhado – é esquisitíssima, louquíssima. O caixão está lacrado, mas em um momento em que está sozinha naquele aposento, uma das amigas resolve abri-lo para deixar lá uma foto das quatro quando jovens – e descobre que quem está no caixão não é Greta.

O marido e seu irmão partem para cima das moças, como se fossem atacá-las. Elas conseguem fugir, saem no carro em disparada. O marido e o irmão as seguem.

O carro das três capota.

Logo em seguida, na última tomada do primeiro dos oito episódios, vemos na tela uma mulher que obviamente é Greta, a que estava supostamente morte.

A trama fisga o espectador, deixa o espectador curioso

A trama conseguiu atiçar minha curiosidade, assim como a da Mary. Qual teria sido o evento gravíssimo acontecido quando as quatro eram adolescentes? Quem teria sido a pessoa que avisara as três amigas da morte de Greta? Quem seria a mulher no caixão, se não era Greta? Por que são tão estranhos, esquisitos, loucos o marido e a filha de Greta?

Pois é. Dá uma curiosidade danada. Mas, meu – mais sete episódios? Um total de 400 minutos, quase 7 horas?

Mas não é apenas, claro, a questão da duração. A série passa muito longe do tipo de coisa de que eu gosto – e olhe que eu gosto de quase todo tipo de coisa.

É tudo estudadamente, propositadamente exagerado, farsesco, fugindo de qualquer coisa próxima do real como o diabo da cruz. As três atrizes atuam no mais over do over do over que a gente poderia imaginar que existe. E suas personagens não são simpáticas, interessantes – muito antes ao contrário. A trilha sonora é brincalhona, daquele tipo que tenta ajudar a fazer o espectador dos sustos que a trama provoca. Na minha opinião, para o meu gosto, o mais puro lixo.

Nem minha imensa paixão por tudo o que se refere à Irlanda me fez ter vontade de seguir em frente.

O que é apenas a minha opinião, é claro. No IMDb, a série estava com nota 7,4, média das notas de 2,2 leitores do site.

Catálogo/Kataluj

De Khaled El Halafawy, Egito, 2025.

Com Mohamed Farrag (Youssef),

Reham Abdel Ghafour (Amina, a mulher de Youssef), Retal Abdelaziz (Karima, a filha adolescente de Youssef), Ali El Bialy (Mansour, o filho caçula de Youssef). Khaled Kamal (Hanafy, o irmão mais velho de Youssef), Ahmed Essam Elsayed (Osama, irmão de Amina)

Roteiro Ayman Wattar

Música Mohamed Amin

Na Netflix. Produção Tarek El Ganainy, United Studios.

Cor, cerca de 400 min (6h40)

(Disponível na Netflix em 2/2026.)

Catálogo, minissérie de oito episódios de 55 minutos cada, é egípcia – e essa é uma característica extremamente atraente, sedutora. A gente não conhece nada do cinema egípcio. Para falar bem a verdade, a gente não conhece coisa alguma do Egito.

Xiii… Generalizei, o que é sempre um erro. Não deveria ter usado “a gente”, e sim algo do tipo “a maior parte dos brasileiros, ou dos ocidentais”. Vai que passa por aqui um eventual leitor que conhece bem a cultura egípcia…

Bem, eu, especificamente, não sei nada da cultura do Egito; de artistas egípcios, só conheço Omar Shariff e Dalida. Este meu site tem cerca de 3.500 posts – e apenas e tão somente dois comentários sobre filmes egípcios. Dos quais, aliás, gostei bastante – O Edifício Yacoubian, de 2006, e Cairo 678.

Catálogo tem outra bela característica: não é sobre super-heróis nem bandidos, como tantos e tantos e tantos filmes e séries, e sim sobre seres humanos comuns, “normais”, gente como a gente, pessoas como a imensa maior parte da população do planeta.

Na primeira sequência da série, um casal da faixa de uns 40 e poucos anos está visitando um cemitério. Youssef, o marido (Mohamed Farrag), quer fechar a compra de um jazigo. O sujeito encarregado da comercialização dos lugares do cemitério bate o olho em Amina, a esposa (Reham Abdel Ghafour), e diz que já a viu em algum lugar. Amina, o espectador fica sabendo de cara, é uma youtuber bastante conhecida. Faz vídeos falando de uma coisa absolutamente fundamental, muito mais importante do que qualquer conhecimento básico de matemática, química, biologia, o escambau: como devemos tratar nossos filhos.

Porque, afinal, como aprendi ainda adolescente, quando não tinha a menor idéia se viria a ter um filho algum dia, as criaturinhas, diacho, não vêm com bula!

Filhos não vêm com bula. A frase, segundo me informou minha amiga Vivina, é atribuída ao psiquiatra e escritor paulista Içami Tiba.

O marido workaholic de repente tem que cuidar sozinho dos filhos

Há aí, nessa aberturada série, uma bela (embora triste) sacada dos realizadores.

Uma tomada em plano de conjunto mostra o vendedor e o casal entrando no jazigo.

Corta, e vemos nova tomada, exatamente o mesmo enquadramento da anterior. Youssef está saindo do jazigo – e um letreiro informa: – “Um ano depois”.

Amina está morta.

Além da dor da perda da mulher, Youssef terá pela frente a tarefa de cuidar dos dois filhos, Karima (o papel de Retal Abdelaziz), uma adolescente aí de uns 14, 15 anos, e Mansour (Ali El Bialy), garoto de uns 7 ou 8.

Karima vai informar o pai – e os espectadores, é claro – que no iPad da mãe estão todas as informações sobre o que ela tem que fazer com os dois filhos a cada dia. Um catálogo com todas as informações sobre as atividades dele, sobre as refeições de cada dia da semana – tudo.

Só que ninguém sabe onde está o tal iPad.

Com uns 15 minutos do primeiro dos 8 episódios da série, estão postas diante do espectador as bases da série – e são bases atraentes, interessantes. Um pai que trabalha demais e não sabe nada, absolutamente nada, sobre as atividades, as necessidades dos filhos, de repente está sozinho, sem a mulher que cuidava de tudo na casa e na vida das crianças – e vai ter que se virar. De alguma forma vai ter que se virar.

Lembrei de Ted Kramer-Dustin Hoffman, tadinho, que se vê numa situação bem semelhante – embora Joanna Kramer-Meryl Streep não tivesse morrido, e sim cascado fora de casa, deixando para o marido a tarefa de cuidar de Billy Kramer-Justin Henry, naquela beleza de filme de Robert Benton de 1979.

Kramer vs. Kramer é um drama pesado. Esta série Católogo parte de uma tragédia na vida de seus personagens, mas o tom é bem-humorado. Creio que ela foi feita para o espectador ter pena, dó, simpatia, desse pobre Yousef – mas também para que as atribulações do protagonista sejam divertidas.

Pois é. Uma série egípcia, sobre história de família, que parte de uma situação intrigante, interessante, que abre a possibilidade de boas situações.

No entanto, quando estamos ali com apenas uns 25 minutos da série que dura cerca de 400, os realizadores nos mostram uma situação absurdamente boba, bocó, sem sentido: no primeiro dia em que o workaholic Youssef leva Karima e Mansour para a escola, os garotos perguntam, junto do portão: tá, mas cadê o lanche?

Já havíamos visto que Karima é uma garota inteligente, safa. Como seria possível, então, que ela não tivesse questionado o pai sobre o lanche antes de saírem de casa?

Youssef se aproxima de duas crianças que estão também chegando à porta da escola e se propõe a pagar pelo lanche delas. A mãe chega, pergunta o que é aquilo, Youssef oferece uma fortuna pelo lanche das crianças. Diante daquele monte de dinheiro, a mãe aceita.

Youssef vai entregar o lanche aos seus filhos – e nós desligamos a TV.

Pode ser que Catálogo se revela uma bela série – e ela estava com a  7,6 em 10 no IMDb em fevereiro de 2026, média da avaliação de 1,1 leitores.. Eu nunca vou ficar sabendo. A vida é curta, e tem coisa demais pra gente ver.

Anotação em fevereiro de 2026

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