Obsessão Trágica / The Madonna’s Secret

1.0 out of 5.0 stars

(Disponível no YouTube em 8/2026.)

Um pintor muito rico se torna suspeito de matar uma mulher linda que posava para ele como modelo, na Nova York dos anos 1940. Descobre-se então que, alguns anos antes, em Paris, ele já havia sido suspeito de matar uma outra modelo. Logo uma terceira mulher que havia posado para ele é encontrada morta. A irmã da vítima número 2 se dispõe a trabalhar como modelo do tri-suspeito, como uma espiã da polícia – e, assim como sua irmã e a vítima número 3, apaixona-se perdidamente pelo pintor, um homem instável, ora calmo, sedutor, ora agressivo, quase abertamente violento.

Esta é a trama de The Madonna’s Secret, no Brasil Obsessão Trágica, uma produção B da Republic Pictures de 1946, dirigida por Wilhelm Thiele, com Francis Lederer, Gail Patrick, Linda Stirling e Ann Rutherford nos papéis principais.

Ahnnn – quem mesmo?

Pois é. Mesmo eu, um apaixonado por filmes dos anos 30 a 50, em especial, não conhecia nenhum desses nomes. Mary achou o filme numa das garimpagens que ela faz por velharias da época de ouro de Hollywood no YouTube, e eu gostei da rápida sinopse do IMDb: “A irmã de uma modelo assassinada posa para o mesmo artista na tentativa de pegar o assassino”.

Não que a sinopse do IMDb seja mentirosa. De maneira alguma. Isso aí está lá no filme – mas a trama, criada diretamente para o filme pelo diretor Wilhelm Thiele e seu co-roteirista Bradbury Foote, é bem mais intrincada do que isso. E, na minha opinião, e também na da Mary e da Dona Lúcia, que viu o filme com a gente, é uma absoluta porcaria. Inconsistente, implausível – ruim.

Afe Maria.

O crítico fica impressionado com a modelo de um quadro

A narrativa começa com um homem observando um quadro em uma galeria de arte – um retrato de uma mulher belíssima. Veremos que é John Earl (Edward Ashley), o crítico de teatro do New York Evening Globe. Aproxima-se dele e o cumprimenta Mr. Headley, o dono da galeria. John Earl quer saber quem é a modelo que posou para o belo quadro. – “É linda, não é? Corbin teve um sucesso notável nos últimos quatro anos”, diz Mr. Headley. – “Sim, mas quem é a garota?”, pergunta o crítico, mesmerizado com a beleza da mulher.

– “A mesma garota que ele sempre retrata”, diz o marchand.

– “A mesma?”, espanta-se o crítico. “Mas eu a conheço…”

John Earl chega à sua grande, imponente sala na redação do jornal, cumprimenta sua secretária, a srta. Joyce (Geraldine Wall) – e aí eu poderia ter gritado o primeiro truco! dos vários que o roteiro nos provoca. Não existe esse negócio de crítico de teatro ter uma sala imponente dentro de uma redação de jornal. Isso é coisa de quem jamais entrou numa redação.

Mas vamos em frente.

John Earl comenta com a secretária que ficou com a sensação de que conhecia a mulher que posou para um quadro que estava na galeria de Headley – mas não sabe dizer de onde. – “Uma garota de que me lembro claramente, mas..” A srta Joyce pergunta quem era o autor do quadro. – “Um homem chamado Corbin. James Harlan Corbin.”

Competente, despachada, a secretária procura o nome no catálogo telefônico. Jovens não saberiam o que é um catálogo telefônico, mas de qualquer jeito jovens não veriam este filme…

Uma tomada de James Harlan Corbin (Francis Lederer, o primeiro nome a aparecer nos créditos e nos cartazes do filme), atendendo ao telefone deitado em um sofá na sua casa. John Earl se identifica, elogia o quadro, pergunta quem é a modelo. – “Eu só utilizado uma garota, senhor. Chama-se Helen North”.

Daí a pouco desligam. O pintor se levanta, caminha pelo seu ateliê. A câmara focaliza um quadro que se chama The Madonna’s Secret.

Chega uma senhorinha idosa, rosto simpático, afável – Mrs. Corbin, a mãe do artista (o papel de Leona Roberts). Ela pergunta quem é que havia telefonado. James Harlan Corbin, pintor famoso, vive com sua mamãe em um imenso apartamento duplex em Manhattan – e ela parece observar todos os passos do filhinho, um sujeito aí de quase 50 anos. (Francis Lederer, o ator que faz o protagonista da história, estava com 47 anos em 1946, o ano de lançamento do filme.)

De repente o crítico se lembra quem era a modelo

O crítico de teatro John Earl descobre onde mora a modelo Helen North (o papel de Linda Stirling, na foto abaixo), e vai visitá-la. Só que o rosto de Helen não se parece com o da moça do quadro da galeria – que é também o rosto do quadro O Segredo de Madonna. Ela explica para John Earl que de fato posa para Corbin – mas o rosto que ele pinta sempre é de uma mulher que ela nunca havia visto na vida. Na opinião dela, é uma mulher que não existe – a não ser na imaginação do pintor.

Uma noite, Corbin está saindo de casa para dar uma volta, espairecer – e, naquele exato momento, está passando por ali o crítico John Earl.

Truco!

OK, as coincidências existem. Acontecem a todo momento. Mas essa aí é meio demais da conta, né não?

O crítico de teatro segue o pintor, que entra em um nightclub, em que Helen North, a modelo, está cantando uma canção, encostada em um pedaço de madeira, enquanto um atirador de facas atira facas que se pregam na madeira, pertinho, pertinho do corpo da bela dama.

Sentado a uma mesa, Corbin desenha Helen com uma faca penetrando seu peito, bem no lugar do coração.

John Earl chega por trás de Corbin e vê o desenho. De repente, não mais que de repente, naquele momento, o crítico se lembra de quem era o rosto do quadro: de Madeleine Renard, uma linda modelo que alguns anos atrás havia sido encontrada morta em Paris – e o principal suspeito era o pintor que então se assinava Corbet.

Na época, no entanto, Corbet/Corbin havia apresentado um álibi sólido, e a polícia o eximira de qualquer participação no assassinato de Madeleine Renard.

(Madeleine Renard não aparece na tela em vida – apenas nos quadros pintados por Corbin. Os créditos indicam que a atriz Anne Chedister posou para os quadros atribuídos a James Harlan Corbin.)

De repente, não mais que de repente, John Earl se lembra de toda a história envolvendo o desaparecimento de Madeleine Renard em Paris anos antes – e ele afirma para o pintor suspeito de tê-la assassinado que a amava!

Truco! Truco! Truco!

Várias belas mulheres se apaixonam pelo pintor

Quando os dois homens conversam ali no nightclub, estamos com 12 minutos dos curtíssimos 79 do filme. Logo em seguida, o crítico vai embora. Não demora nada e Corbin leva Helen North para um passeio em sua lancha – e em seguida o corpo da moça aparece numa margem do Rio Hudson.

Uma segunda modelo que posava para Corbin morta, uma segunda vez em que ele é suspeito do crime – mas, pela segunda vez, ele tem um álibi forte, e a polícia não tem como mantê-lo preso.

É então que vai surgir mais uma bela moça que se apresenta para Corbin como candidata a trabalhar como modelo – Linda, a irmã de Helen (o papel de Ann Rutherford). O espectador sabe que ela fez um acordo com o policial encarregado da investigação da morte de Helen, o tenente Roberts (John Litel).

E surge também uma outra mulher, uma milionária, bonita, elegante, atraente, Ella Randolph (Gail Patrick), que primeiro quer comprar um quadro dele, e em seguida se oferece também como modelo.

Mais adiante, Ella Randolph sai para passear na lancha de Corbin – e em seguida aparece morta.

E mesmo assim, depois de três assassinatos de mulheres próximas a Corbin, uma delas sua própria irmã, Linda está absolutamente apaixonada pelo cara!

Ah, meu! Truco! Truco! Truco!

Nem que o cara fosse um Alain Delon, um Paul Newman, um Terence Stamp! E o cara não passa de um Francis Lederer…

Leitores do IMDb gostaram do filme

Bem, eu não conhecia Francis Lederer, mas aí é falha minha. Foi um ator, diretor e professor de arte dramática importante. Nasceu em 1899 em Praga, então Império Áustro-Húngaro, depois Checoslováquia, hoje República Checa, e não sabia inglês quando, imigrado para os Estados Unidos, começou a trabalhar em Hollywood. O advento do som é que forçou que ele aprendesse a língua.

Foi o fundador da American National Academy of Performing Arts, e continuou a dar seminários sobre atuação até a época de sua morte, aos 100 anos de idade, em 2000. Entre seus alunos está Helen Hunt, aquela gracinha.

O diretor Wilhelm Thiele também nasceu no então Império Áustro-Hungaro, em Viena, em 1890, e fez seus primeiros filmes na Áustria. Teve uma temporada na Alemanha, antes de se radicar nos Estados Unidos – entre 1935 e 1946, fez 11 filmes em Hollywood, dos quais este aqui foi o último.

Dele diz Jean Tulard em seu Dicionário de Cinema – Os Diretores: “Como esse autor vienense de operetas filmadas, como o famoso O Caminho do Paraíso, cantado na sua versão francesa por Lilian Harvey e Henri Garat, tornou-se em Hollywood especialista em filmes de selva com Dorothy Lamour ou Johnny Weissmuller? É um mistério para o qual apenas os produtores têm a solução. Ele fez uma brilhante carreira entre 1950 e 1956 na televisão americana antes de voltar para a Alemanha.”

Ao contrário de mim, leitores do IMDb gostaram do filme. Alguns títulos de comentários:

“Um mistério noir decentemente pintado”;

“Filme de suspense que prende a atenção”;

“Noir estranho e hipnótico”;

“Um mar de climas equilibra sanidade e loucura”.

Leonard Maltin deu ao filme 2 estrelas em 4: “Whodunit (quem matou) OK, envolvendo a caça por assassino de modelos de artista”.

Então tá.

Anotação em agosto de 2025

Obsessão Trágica/The Madonna’s Secret

De Wilhelm Thiele, EUA, 1946

Com Francis Lederer (James Harlan Corbin, o pintor),

Gail Patrick (Ella Randolph, a mulher rica), Linda Stirling (Helen North, a segunda vítima), Ann Rutherford (Linda, a irmã de Helen), Edward Ashley (John Earl, o crítico de teatro), John Litel (tenente Roberts), Leona Roberts (Mrs. Corbin, a mãe de James), Michael St. Angel (Hunt Mason, o apaixonado por Helen), Clifford Brooke (Mr. Hadley, o dono da galeria de arte), Pierre Watkin (o promotor), Will Wright (o homem do rio), Geraldine Wall (Miss Joyce, a secretária de John Earl), John Hamilton (Lambert), Anne Chedister (Madeleine Renard, a Madonna, a primeira vítima), Edythe Elliott (a senhoria do apartamento), Eric Feldary (o lançador de facas), Alex Havier (Ling, o mordomo de John Earl)

Argumento e roteiro Bradbury Foote & Wilhelm Thiele

Fotografia John Alton

Música Joseph Dubin

Montagem Fred Allen

Produção Stephen Auer, Republic Pictures.

P&B, 79 min (1h19)

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