A Vida Invisível

3.5 out of 5.0 stars

(Disponível na Netflix em 6/2025.)

O grande James Baldwin escreveu que era o homem mais infeliz do mundo, por ser, ao mesmo tempo, negro, homossexual e norte-americano. A Vida Invisível, que o cearense Karim Aïnouz lançou em 2019, com base no livro da então estreante Martha Batalha, mostra que ser mulher – não importa a cor da pele, nem a opção sexual – em uma sociedade absolutamente machista como a do Brasil nos anos 1950 é também a garantia da maior das infelicidades que pode haver.

É uma beleza de filme, extraordinariamente bem executado em todos os quesitos, da fotografia admirável Hélène Louvart à direção de arte de Rodrigo Martirena e Maite Zugarramurdi, aos figurinos de Marina Franco e à escolha do elenco, a cargo de Nina Kopko. Com destaque especial para o elenco, homogeneamente bem dirigido por Karim Aïnouz – e, como cereja no bolo, as interpretações de Julia Stockler e Carol Duarte.

Elas interpretam as protagonistas do filme, duas irmãs de um padeiro e sua mulher, ambos portugueses emigrados fazia muito tempo para o Brasil, onde as filhas nasceram e se criaram, na Zona Norte do Rio de Janeiro, em bairros de classe média média para baixa, tão longe da beleza e do glamour da Zona Sul quanto o planeta Terra da estrela mais distante. A história do filme é a história da vida das duas, Guida, o papel de Julia Stockler, e Eurídice, o papel de Carol Duarte.

A ação começa no início dos anos 1950, atravessa toda a década e tem um epílogo já ali pelos dias de hoje, a época de lançamento do filme, final da segunda década do século XXI.

A vida de Guida e Eurídice é de uma tristeza profunda, profunda, profunda – exatamente como o filme de Karim Aïnouz.

Uma tristeza profunda, profunda, profunda. Sem fim. Sem saída.

Guida é vivaz, aventureira. Eurídice é introvertida, insegura

Eurídice e Guida são carne e unha, ligadas como se houvesse cordão umbilical entre elas. Mas são muitíssimo diferentes uma da outra – e é fascinante como o roteiro, a direção e as duas atrizes conseguem transmitir isso para o espectador já na primeira sequência, em que as duas jovens estão passeando em uma floresta, seguramente a Floresta da Tijuca. Guida é extrovertida, vivaz, aventureira, cheia de iniciativa. Eurídice é introvertida, um tanto tímida, um tanto insegura – seus únicos meios de contato com o mundo exterior são a irmã e o piano. Embora classe média média para baixa, a família havia conseguido comprar um piano para Eurídice, e é diante do instrumento que ele passa os melhores momentos de sua vida humilde, simples, acanhada, invisível.

Fiquei pensando que a própria escolha do nome das duas protagonistas foi uma sacada feliz da autora do livro em que o filme se baseia. Uma deixou de lado o nome formal que recebeu dos pais portugueses, Ana Margarida, para adotar o apelido informal, livre leve solto de Guida. Já Eurídice era tratada assim, com o nome um tanto pomposo, que me faz lembrar As Mãos de Eurídice, a peça de Pedro Bloch cujo nome minha mãe gostava de citar.

Por falar em título, é preciso registrar: o livro de Marta Batalha é A Vida Invisível de Eurídice Gusmão. Nos créditos do filme, tanto os iniciais quanto os finais, esse é o título que aparece, inteiro, completo, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão. No entanto, nos cartazes, ele é apenas A Vida Invisível – e assim é citado em vários sites, da Wikipedia ao IMDb.

As duas irmãs que se amam são impedidas de se verem

Quando a narrativa começa, Guida está namorando um marinheiro grego, Yorgos (Nikolas Antunes). Em uma noite em que o pai recebe uma visita muito importante para jantar, o senhor Feliciano (Hugo Cruz), a moça dá o pretexto de que está passando mal e vai ficar em seu quarto – para escapar sorrateiramente de casa e ir encontrar o namorado. Eurídice fica espantadíssima com a audácia da irmã, assim como o espectador tem todo o direito de ficar – eu fiquei. Mas Guida faz a irmã prometer que, à 1 hora da madrugada, abrirá para ela a porta do quintal da casa.

Será pelo quintal da casa que, algum tempo depois, Guida sairá de fininho, levando uma mala, rumo ao porto do Rio de Janeiro. Em carta endereçada ao pai, que a mãe começa a ler, informa que está indo para a Grécia com Yorgos. Seu Manoel (António Fonseca, ator português de Santo Tirso, aldeia próximo do Porto) tira a carta de Dona Ana (Flávia Gusmão, também portuguesa), em gesto que mostra raiva, despeito, frustração.

É linda a sequência seguinte, em que Eurídice, agora desprovida da irmã adorada, seu elo com o mundo, relê em seu quarto a carta que o pai havia jogado no chão da cozinha. Enquanto ela lê a carta, antes de se deitar curvada sobre si mesma como um feto, ouvimos a voz de Guida-Julia Stockler lendo o que havia escrito.

Corta, e logo em seguida vemos Eurídice, vestida de noiva, sentada na privada de sua casa – os momentos nervosos, a gente bem sabe, dão vontade de ir ao banheiro (na foto acima).

O roteiro – assinado por Murilo Hauser e Inés Bortagaray & Karim Aïnouz – faz questão de não nos dizer como foi que surgiu na vida de Eurídice aquele noivo, Antenor Campelo (o papel de Gregório Duvivier). Mas dá para o espectador inferir que foi coisa do pai, que muito provavelmente foi Seu Manoel que o apresentou à filha e incentivou o namoro.

Estamos aí com 21 minutos do filme, que é longo, 139 minutos.

Quando estamos com 32 minutos, Guida está desembarcando de um navio no porto do Rio, sem Iorgos e com uma grande barriga.

O pai não a aceita – bota a filha para fora de casa. À sua mulher, diz que Guida morreu. E ordena que ela não conte jamais para Eurídice que a irmã voltou para o Brasil. Havia mentido para Guida que Eurídice conseguira ir para o conservatório em Viena, o grande, o único sonho da vida dela.

Ao longo de praticamente todas as quase duas horas de filme que virão, Guida escreverá cartas para a irmã, enviadas ao endereço dos pais, pedindo que elas sejam enviadas para a irmã em Viena. Ao mesmo tempo em que Eurídice vive sua vida invisível sentindo uma falta imensa de Guida.

Duas irmãs vivendo na mesma cidade, mas sem saber disso. Afastadas uma da outra pelos preconceitos brutais do pai. Um horror, um horror.

Uma história inspirada na vida real de várias mulheres

A autora do livro em que o filme se baseia, Martha Batalha, nasceu no Recife em 1973, mas foi criada no Rio de Janeiro. Cursou jornalismo e depois fez mestrado em literatura brasileira na PUC do Rio, trabalhou vários anos como repórter nos jornais O Dia, O Globo e Extra; até hoje (escrevo em junho de 2025) é colunista do Globo, mesmo tendo se radicado nos Estados Unidos em 2008 para fazer um mestrado em Educação em Nova York; desde 2014 vive em Santa Monica, na Califórnia. (Na foto abaixo, Julia Stockler-Guida.)

Depois de A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, lançou mais dois romances, sempre pela Companhia das Letras – Nunca Houve um Castelo, em 2018, e Chuva de Papel, em 2023.

Em entrevista ao blog Tag Livros, Martha contou: “Eurídice, Guida e as outras personagens femininas são amálgamas das mulheres com quem convivi desde a infância, e que, por variadas razões, não conseguiram se realizar. Elas estavam na minha família, na vizinhança, no conservatório brasileiro de música, onde eu me formei em piano e teoria musical. Muitas estavam no rígido colégio de freiras em que eu estudava pelas manhãs e bordava e tecia durante as tardes. Algumas faziam as pazes com o destino e se resignavam com alguma doçura, outras se apagavam, e havia as que ficavam amargas, mal-humoradas. Na medida em que eu entendia mais sobre o mundo, percebi essa amargura/insegurança/ silêncio/frustração como a justa resposta a um destino que lhes foi roubado. Percebi também que havia em muitas delas um potencial perdido. É claro que nada disso era explícito, acho que nem elas eram capazes de elaborar. Era, enfim, uma visão pessoal, a minha forma de entender essas mulheres, e, com o sucesso do livro, percebi que (…) muitas mulheres poderiam se reconhecer na trama e nas personagens.”

O produtor Rodrigo Teixeira comprou os direitos do livro antes mesmo de ele ser lançado – uma indicação de excelente faro. Ele já havia produzido um outro filme de Karim Aïnouz, O Abismo Prateado, de 2011. Para fazer este filme, sua empresa, a RT Features, teve a parceria de Canal Brasil, Pola Pandora, Sony Pictures e uma produtora alemã, a Filmproduktions.

Pelo que dá para perceber pelas sinopses do romance, o roteiro, assinado, como já foi dito, por Murilo Hauser e Inés Bortagaray & Karim Aïnouz, deixou de lado alguns personagens, como Álvaro, um sujeito

às voltas com o mau-olhado de um feiticeiro, e Luiz, um milionário. Mas deu grande importância, por exemplo, a Filomena, uma ex-prostituta de coração gigantesco cuida de crianças, e se torna uma grande amiga de Guida. Filó é interpretada por Bárbara Santos.

Para obter elementos para o roteiro, Karim Aïnouz contou ter entrevistado várias mulheres de mais de 70 anos, que teriam sido jovens mais ou menos na época de Guida e Eurídice, e perguntado a elas sobre suas primeiras experiências sexuais.

Faz todo sentido. O filme dá bastante importância ao sexo. Há uma longa sequência mostrando a primeira experiência sexual de Eurídice, na noite de núpcias – uma sequência forte, triste, que chega a ser cruel.

O filme foi muito premiado e elogiado pela crítica

A atriz Carol Duarte nasceu em São Bernardo do Campo, SP, em 1991, e estava, portanto, com 28 quando o filme foi lançado. Antes de interpretar essa triste Eurídice, havia feito duas novelas da Globo, A Força do Querer, como Ivana, e O Sétimo Guardião, como Stefania. Em 2023, fez um dos principais papéis no drama italiano La Chimera, dirigido por Alice Rohrwacher. Sua filmografia tem 8 títulos.

Como Carol Duarte, Julia Stockler é uma atriz global, mas tem filmografia vasta – são 19 títulos, a partir de Duas Caras, de 2008, quando estava com 20 anos – Julia nasceu em 1988, no Rio de Janeiro. Estava, portanto, com 31 anos quando foi lançado o filme em que faz Guida.

O elenco tem uma participação especialíssima da grande dama da arte dramática brasileira. E é interessante a coincidência: exatamente como aconteceria em Ainda Estou Aqui, lançado cinco após este A Vida Invisível, Fernanda Montenegro só aparece bem no final da narrativa, quando há um grande corte no tempo, e avançamos várias décadas na história.

A Vida Invisível foi escolhido para participar da mostra “Un Certain Regard” do Festival de Cannes de 2019, a mais prestigiosa depois da oficial, com os filmes que concorrem à Palma de Ouro. Foi o filme indicado pelo Brasil para con correr a uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Participou de diversos festivais mundo afora, e amealhou 38 prêmios e 53 indicações. Ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, teve indicações em 16 categorias – e levou cinco dos troféus, os de melhor atriz coadjuvante para Fernanda Montenegro, melhor roteiro adaptado, melhor fotografia, melhor direção de arte e melhor figurino. (Na foto, o diretor Karim Aïnouz e as duas atrizes em Cannes.)

A aprovação da crítica foi praticamente unânime. Como registrou a Wikipedia, “a revista The Hollywood Reporter selecionou-o como um dos ‘dez melhores filmes do Festival de Cannes’, Lee Marshall, do Screen Daily, também elegeu A Vida Invisível de Eurídice Gusmão como um dos ‘filmes imperdíveis do festival [de Cannes]’, e, para a Variety o filme é ‘um forte concorrente do Brasil na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro’. Escrevendo para o The Hollywood Reporter, David Rooney elogiou o filme, comentando: “Apesar de suas muitas representações de insensibilidade cruel, injustiça cotidiana e decepção crônica, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão é um drama obsessivo que discretamente celebra a resiliência das mulheres mesmo enquanto resistem em existências abatidas’.”

Merece todas as loas. É um belo filme. Triste, e belo. Tão triste quanto belo.

Anotação em junho de 2025

A Vida Invisível

De Karim Aïnouz, Brasil-Alemanha, 2019

Com Carol Duarte (Eurídice Gusmão Campelo)

Julia Stockler (Ana Margarida Gusmão, a Guida / e Gisele, a neta),

Gregório Duvivier (Antenor Campelo, o marido de Eurídice),

António Fonseca (Manoel Gusmão, o pai de Eurídice e Guida),

Flávia Gusmão (Ana Gusmão, a mãe de Eurídice e Guida),

Cristina Pereira (Cecília Gusmão Campelo, a filha de Eurídice quando adulta), Gillray Coutinho (Afonso Gusmão Campelo, o filho de Eurídice), Bárbara Santos (Filomena Delfina Saraiva dos Santos, a Filó, a grande amiga de Guida), Marcio Vito    (Dr. Osvaldo), Nikolas Antunes (Yorgos, o namorado da jovem Guida), Maria Manoella (Zélia, a grande amiga de Eurídice), Hugo Cruz (Feliciano), Pablo Pêgas (Manoel Gusmão Neto), Thales Miranda (Francisco Gusmão, o Chico, filho de Guida), Maria Carolina Basílio (Cecília Gusmão Campelo, filha de Eurídice, quando criança), Eduardo Tornaghi (Douglas, professor de piano de Eurídice), Flávio Bauraqui (Dr. Alberto Macedo Gomes de Paula), Cláudio Gabriel (Tonico)

e, em participação especial, Fernanda Montenegro (Eurídice Gusmão Campelo idosa)

Roteiro Murilo Hauser e Inés Bortagaray & Karim Aïnouz

Baseado no romance “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha

Fotografia Hélène Louvart

Música Benedikt Schiefer

Montagem Heike Parplies

Desenho de produção Rodrigo Martirena

Direção de arte Rodrigo Martirena, Maite Zugarramurdi

Casting Nina Kopko, Alonso Zerbinato

Figurinos Marina Franco

Produção Rodrigo Teixeira, Viola Fügen. Michael Weber, RT Features, Pola Pandora Filmproduktions. Canal Brasil. Apoio Agência Nacional do Cinema, Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul. Fundo Setorial do Audiovisual. Medienboard Berlin-Brandenburg.

Cor, 139 min (2h19)

***1/2

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