Homens e Deuses / Des Hommes et des Dieux

Nota: ★★★☆

Homens e Deuses/Des Hommes et des Dieux, de Xavier Beauvois, foi incensado nos festivais e pelos críticos. No Festival de Cannes de 2010, levou o grande prêmio do júri e o prêmio do Júri Ecumênico. Levou dois Césars, os de melhor filme e melhor ator coadjuvante para Michael Lonsdale. Foi indicado ao Bafta de melhor filme estrangeiro. Foi indicado oficialmente pela França para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. No total, foram sete prêmios e 13 outras indicações.

É um filme sério, que se leva extremamente a sério. Trata de questões importantíssimas, seriísimas: a fé, a entrega dos religiosos à fé, os momentos de dúvida entre fazer o que mandam os preceitos religiosos e a vontade humana de ceder ao medo; a firmeza ou não da fé; o convívio entre pessoas das diferentes fés – o cristianismo e o islamismo –, a convivência com o radicalismo, o terrorismo.

Trata de todas essas questões difíceis, espinhosas, fundamentais, de um ponto de vista corretíssimo. É um filme de moral correta e crença forte na fé, neste mundo incorreto em que a fé é muitas vezes transformada em desculpa para os crimes mais hediondos.

É um filme absolutamente pleno de boas intenções – e realizado com imensa seriedade.

É também um filme excepcionalmente chato. Profunda, gigantescamente chato.

Por que será, meu Deus do céu e também da terra, que alguns realizadores (e tantos espectadores de narizinho empinado) acham que para falar de coisas sérias é preciso ser chato?

Um grupo de monges em bela, pacífica convivência com a comunidade muçulmana

Homens e Deuses mostra o dia-a-dia de oito monges em um monastério num país africano, e a interação deles com as pessoas da comunidade, gente humilde, pobre, quase miserável. Vemos os monges fazendo suas orações bem no início do dia – ao longo do filme, veremos diversas vezes os monges orando no início do dia, às vezes cantando belos cânticos gregorianos. Vemos um monge cuidando do apiário, outro cuidando da horta, outros cuidando da limpeza do terreno do monastério.

Um deles, o frei Luc (uma belíssima interpretação de Michael Lonsdale), é médico; atende com carinho, cuidado, abnegação, mulheres, crianças, homens, num humilde consultório.

Outro, o frei Christian (interpretado por Lambert Wilson), estuda o Corão em seu pequeno escritório.

São benquistos, queridos pelas pessoas da comunidade. Um jovem pai convida os freis para a festa da circuncisão de seu filho; a festa atrai dezenas e dezenas de pessoas, que entoam cânticos em árabe.

Uma jovem da comunidade procura frei Luc à procura de conselhos; pergunta a ele o que é o amor, como se percebe que se está amando, e o velho monge descreve as sensações que se tem quando se está amando. A garota pergunta se ele já esteve apaixonado, e ele diz que muitas vezes, até que, num momento de sua vida, passou a ter um amor diferente, maior, e até hoje continua comprometido com ele.

Com exemplos assim, o diretor Xavier Beauvois demonstra para o espectador que convivem pacificamente, tranquilamente, em harmonia, os religiosos católicos e as pessoas do povo, todos de religião muçulmana. Uns não procuram catequizar os outros. Cada grupo respeita a diferente fé do outro.

Só depois da metade do filme se diz onde se passam os acontecimentos

Não se explicita, até bem depois da metade dos 122 minutos de duração do filme, onde se passam esses acontecimentos, nem quando. Os religiosos são franceses, e muitos habitantes da comunidade próxima ao monastério falam tanto o árabe quanto o francês, o que leva o espectador a supor que se trata de um país africano de colonização francesa – mas não há indicação de que seja o Marrocos, ou a Tunísia, ou a Argélia.

Vamos vendo a rotina daquele grupo de monges, as orações, os trabalhos. Os dias vão se repetindo quase sempre iguais, a rotina vai se repetindo.

Até que surge um grupo armado que, por nenhuma razão aparente, trucida um grupo de homens que trabalha numa obra. Chegam com espingardas, rifles, facões – e cortam os pescoços dos trabalhadores.

Não fica claro quem são eles. Xavier Beauvois parece se comprazer em ocultar informações, em transmiti-las aos poucos, sem maiores esclarecimentos.

Só depois de passada metade do filme virão alguns esclarecimentos. O espectador que estiver vendo o filme no DVD, ou gravado no HD da operadora de TV a cabo, poderá, se quiser (como eu fiz), paralisar a imagem quando uma autoridade apresenta a dois dos freis uma carta de um ministério – e aí, com cuidado e muita atenção, poderá ver que a carta é datada de Alger, em 1996.

Ah, bom! Então é Argélia, 1996!

Um filme sério, importante, que fala verdades que o mundo precisa ouvir

O governo argelino quer que os freis abandonem o monastério, voltem para a França; não tem condições de protegê-los de ataques do que chamam de terroristas. Os terroristas, o espectador terá que inferir por si, parecem ser muçulmanos fundamentalistas. Os fundamentalistas, armados, enfrentaram tanto as forças do governo quanto gente do povo, na Argélia, naquela época.

Depois que o filme acaba, surgem na tela letreiros que indicam que os acontecimentos mostrados aconteceram de fato, que se trata de uma história real. Imagino que para todos os espectadores que vejam o filme sem ler antes sobre ele será um susto, uma surpresa. Para mim e para Mary, foi uma surpresa total.

Insisto: Deuses e Homens trata de questões importantíssimas, seríisimas. E trata delas de um ponto de vista corretíssimo. É

absolutamente pleno de boas intenções, além de realizado com imensa seriedade.

Faz a defesa da convivência pacífica, harmoniosa, entre pessoas de civilizações diferentes, de religiões diferentes. Mais do que isso: mostra que essa convivência é possível, que ela existia, entre aquela comunidade do interior da Argélia e os devotados monges. E mostra que o fundamentalismo, como todo radicalismo, chega para destruir a harmonia, a possibilidade de uma convivência entre díspares.

É um filme sério, importante, que fala verdades que o mundo precisa ouvir.

Não precisava ser tão chato. Não precisava ser tão arrastado, lento, repetitivo.

Mas não tem jeito. Há quem ache que filme sério tem que ser chato.

Bem, mas esta é apenas a minha opinião, e, digo e repito, a minha opinião vale no máximo uns três guaranis furados.

Agora, um belo artigo de João Pereira Coutinho sobre o filme

Assim, em respeito a Homens e Deuses, e aos eventuais leitores que venham até aqui depois de ver o filme, tomo a liberdade de transcrever uma outra opinião, a de João Pereira Coutinho, publicada na Folha de S. Paulo na época da estréia da obra no Brasil, em abril de 2011:

“Pois é: a Europa pode estar em crise, economicamente falando, mas por vezes ainda existem uns sopros de vitalidade. Artística, entenda-se, vitalidade artística. Valha-nos ao menos isso.

O cinema francês é um caso e os brasileiros podem comprovar o que digo. Basta que assistam ao filme de Xavier Beauvois, Homens e Deuses, que finalmente desembarcou nas salas do Brasil. A Páscoa sempre foi um tempo de milagres.

Comentário breve: é a melhor colheita cinematográfica de 2011 até o momento. Desconfio que será a melhor nos meses que faltam.

Comentário longo: é muito mais que um exercício piedoso e ecumênico sobre a tolerância religiosa e inter-religiosa, como dizem os críticos.

É um filme sobre a fé, esse tema arcano e intangível que povoa o melhor cinema dos ‘mestres do norte’, como Carl Dreyer (1889-1968) ou Ingmar Bergman (1918-2007).

E ainda oferece, como complemento, a mais bela ‘última ceia’ que o cinema recente produziu. Mas vamos por partes.

Premiado no Festival de Cannes, Homens e Deuses é a história, aparentemente simples, da vida simples de oito monges cistercienses que vivem, rezam e trabalham em país do norte de África.

Vivem em paz entre si e, mais importante, com a população muçulmana local, que acorre ao mosteiro em busca de consolo físico e até metafísico -cuidados de saúde, conselhos sentimentais, comentários religiosos. O fato de uns lerem a Bíblia e outros o Corão não impede uma irmandade sacramental perante as perplexidades da existência.

Mas essa concórdia será abalada por aqueles que transformam a religião em arma de guerra. O fundamentalismo islâmico começa a rondar a aldeia. Os terroristas também. Existem notícias de massacres contra estrangeiros, mulheres, imãs.

A população é tomada pelo medo. Os monges são avisados pelas autoridades nacionais: para que partam de imediato, antes que a tragédia se abata sobre o mosteiro. Avisos sábios.

Mas como partir assim, de uma hora para a outra, abandonando a aldeia ao seu destino? E partir para onde, se a existência trapista implicou o abandono e a renúncia de uma vida anterior?

São dilemas terríveis e o melhor do filme está nessas agônicas indecisões. E no calvário espiritual que elas implicam: o confronto humano, demasiado humano, com o medo, com a covardia e até com a descrença. ‘Morrer pela fé não deveria impedir-me de dormir’, diz um dos monges insones ao irmão superior, com lágrimas de vergonha. Mas será possível pedir tanto a tão poucos?

A resposta vem no Livro: esse tanto já foi pedido a um só. E não é por acaso que o primeiro confronto com os terroristas se dá na noite de Natal. A noite em que os monges se preparam para celebrar um nascimento humilde que libertou os homens da morte. E do medo da morte.

Libertação do medo da morte: haverá forma mais eloquente de traduzir a fé dos que acreditam?

O irmão superior, em comunicação final aos demais, responde e clarifica: depois da primeira visita dos terroristas, e antes que a última se aproxime, ele entendeu que só havia uma coisa a fazer. Continuar.

Dia após dia, com tarefas de todos os dias: cuidar dos doentes; cuidar dos irmãos; cuidar do mosteiro.

E abandonar todo o medo da morte porque só nesse abandono é possível nascer e renascer outra vez. Como homens inteiros, para quem a vida não é uma desculpa ou um castigo; mas um compromisso até o fim.

Não conto esse fim, filmado sob neve e em silêncio. Prefiro regressar ao mosteiro e vislumbrar, naquelas oito vidas, a metáfora essencial sobre as nossas próprias vidas.

Como os monges, caminhamos sobre gelo fino, que um dia se abrirá para nós também. Mas poucos se lembram dessa verdade que nulifica toda vaidade humana.

E, quando a lembramos, é para fugir desesperadamente dela com simulacros de esquecimento – a tentação da covardia que visitou os irmãos e por eles foi derrotada.

No primoroso filme de Xavier Beauvois, aprendemos que a fé é sobretudo uma forma de coragem: a coragem dos que olham a morte de frente e, apesar disso, ou talvez por causa disso, se recusam ir a enterrar antes do tempo.”

***

Ah, sim, é preciso registrar: de fato, a sequência que João Pereira Coutinho chamou de a última ceia, que poderia também ser chamada de Santa Ceia, é de fato estupidamente bela, uma coisa antológica, especial, maravilhosa. O conjunto de atores dá um show. A princípio me pareceu que “O Lago dos Cisnes”, de Tchaikovski, era uma escolha estranha para servir de pano de fundo à seqüência magistral, mas a verdade é que a melodia, apaixonada, de tons fortes, ajusta-se com perfeição à ação.

É, sem dúvida, uma sequência esplendorosa.

Anotação em janeiro de 2011

Homens e Deuses/Des Hommes et des Dieux

De Xavier Beauvois, França, 2010

Com Lambert Wilson (Christian), Michael Lonsdale (Luc), Olivier Rabourdin (Christophe), Philippe Laudenbach (Célestin), Jacques Herlin (Amédée), Loïc Pichon (Jean-Pierre), Xavier Maly (Michel), Jean-Marie Frin (Paul), Abdelhafid Metalsi (Nouredine), Sabrina Ouazani (Rabbia),

Abdellah Moundy (Omar), Olivier Perrier (Bruno), Farid Larbi (Ali Fayattia)

Roteiro Etienne Comar

Diálogos Xavier Beauvois

Fotografia Caroline Champetier

Produção Why Not Productions, Armada Films, France 3 Cinéma, France Télévision, Canal+, CinéCinéma.

Cor, 122 min.

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