Gigante


Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: Gigante é um ótimo filme; esbanja talento. Tem um estilo muito peculiar, bem pouco comum. É minimalista ao extremo. Conta um fiapinho de nada de história, quase uma não-história. Poderia ser chato – e muita gente pode até considerá-lo aborrecido; não é um filme para todas as platéias. Mas não é chato, de forma alguma; tem talento demais, e uma incomum, sutil, estranha graça.

Claro: tudo é uma questão de gosto, e muito é uma questão da hora, do momento em que a gente vê o filme. Estou velho, não sou crítico de cinema, não tenho compromisso com nada, já chutei todos os paus de barraca possíveis, e então não me envergonho de meter o pau aqui em filmes endeusados, incensados, premiados.

Gigante me surpreendeu em seu minimalismo – mas me conquistou desde o início pelo talento do diretor, dos atores, pela coragem de fazer algo ousadamente com fiapo de história.

O Cinéguide, o guia que consegue fazer sinopses de filmes complexos com menos palavras que um twitter, poderia resumir Gigante assim: Segurança de supermercado se apaixona por mulher de limpeza. Ou então: Segurança de supermercado passa ter fixação por mulher de limpeza. E pronto, é isso o meu baião, e não tem mais nada não. 

É só isso, sim – e no entanto o diretor Adrián Biniez nos envolve com esse fiapo de história; nos envolve, nos emociona, nos deixa tremendamente curiosos para saber no que isso vai dar – embora saibamos que não deve dar em muita coisa, porque o estilo é esse mesmo, mínimo dos mínimos.

Em boa parte, o filme é ótimo por causa dos dois atores centrais, Horácio Camandulle, que faz Jara, o segurança, e Leonor Svarcas, que faz Julia, a faxineira do supermercado. Nunca tinha ouvido falar neles, não tenho idéia alguma a respeito de suas carreiras, suas trajetórias, mas há duas coisas sensacionais neles. Em primeiro lugar, o tipo físico, o tal do physique du rôle. Eles são perfeitos para os papéis, parece que nasceram para os papéis. Horácio Camandulle é um sujeito grandão (daí o título), bem alto, bem gordo. Leonor Svarcas é um tipo bem comum, uma mulher que não chamaria a atenção de ninguém na rua, nem especialmente bela, nem especialmente gostosa, com todo o jeito de pessoa simples, classe média média para baixa, do povo.

Em segundo lugar, claro, o fantástico talento interpretativo. São atuações esplendorosas. Alguém poderia dizer naturalistas. Horácio e Leonor agem diante da câmara com a maior naturalidade do mundo; não parecem estar interpretando, parecem estar vivendo – e poderia haver interpretação melhor que essa?

 E aí, como sempre acontece quando comento sobre filmes feitos por nuestros hermanos de América Latina, não consigo me impedir de fazer a pergunta: por que o Brasil não consegue ter bons atores, com a digna exceção de uns cinco ou seis?

 Mas vamos em frente.  

         Um pequeno tratado sobre a solidão

O filme abre com uma longa seqüência que descreve um dia, ou melhor, uma noite de trabalho de Jara. Ele vai de ônibus, ouvindo música com fones de ouvido – é rock pauleira; Jara é fã de rock pauleira – até o supermercado; passa pelo portão, atravessa longo pátio, anda por longos corredores, vai ao vestiário, bota o uniforme, anda por mais longos corredores, bate a campainha da salinha onde os seguranças controlam as imagens das câmaras de segurança espalhadas pelo grande supermercado; o colega abre a porta, ficam juntos os dois por alguns minutos, o colega vai embora, Jara fica sozinho diante das diversas telas que reproduzem o que acontece nos diversos pontos do supermercado. O turno de Jara começa às 11 da noite; ele chega ao trabalho junto com o batalhão de faxineiras, que trabalhará na limpeza durante toda a madrugada; quando sai, é de dia; de volta ao apartamento em que mora sozinho, vê TV e desmaia no sofá.

O dia seguinte é idêntico ao anterior.

Nos fins de semana, Jara trabalha como segurança em uma boate humilde de bairro.

Todos os dias são absolutamente iguais.

Com dez minutos de filme, o diretor Adrián Biniez já fez um pequeno tratado sobre a solidão das pessoas e sobre como é desumana e quase sem vida a vida de trabalhadores sem especialização, que ganham pouco, não têm opções de lazer.

A essa altura, Mary comentou que então precisava haver alguma história. Eu comentei que não dava para saber, até então, em que cidade, em que país a ação se passava. Poderia ser qualquer cidade grande de qualquer lugar da América Latina – a rigor, poderia ser qualquer grande cidade do mundo; sabemos que é América Latina apenas porque se fala espanhol, as palavras nos cartazes são em espanhol.

O fiapinho de história começa logo em seguida: uma das câmaras mostra uma das faxineiras limpando o chão; ela vai limpando o chão, entre duas prateleiras do supermercado, e andando para trás. Não vê uma gigantesca pilha de sacos de papel higiênico bem no meio do corredor, atrás dela; vai andando para trás – e derruba a prateleira. Um supervisor aproxima-se dela, dá bronca. Jara acompanha toda a cena através de um dos monitores. Coração tão grande quanto o corpanzil, fica com pena da moça. Passa a reparar nela através dos monitores.

E, a partir daí – nesse momento, estamos com uns 15 minutos de filme –, o solitário Jara passará a ter uma crescente paixão, uma crescente obsessão por Julia, a faxineira. 

         Não há glamour algum naquelas vidas

Não são vidas felizes, aquelas, de Jara e Julia. Não há glamour algum, de espécie alguma, em suas vidas tristes, pequenas, duras, solitárias, sofridas.

O filme poderia virar um panfleto contra as injustiças sociais. Poderia virar uma chatice atroz. O diretor optou por um tom sério, que não foge das feridas, mas que ao mesmo tempo não persegue o discurso. É um tom sério porém com um toque de graça, de sutil bom humor. Consegue, com isso, criar um grande filme.

Em determinado momento, Julia vai a uma praia. Há pequenas ondas, e a água é de um azul esmaecido. Como tínhamos pegado o filme na prateleira do cinema latino-americano, e eu não tinha lido uma linha sobre ele, pensei: cacilda, então não é Buenos Aires, e nem pode também ser Montevidéu – em Montevidéu a água é barrenta, mi Rio de la Plata lindo e súcio, como dizia o poema de Horácio Ferrer para a música de Piazzolla.

Mas, sim, é Montevidéu, conforme nos dirá um personagem fortuito, quando a narrativa já se aproxima do fim.

         Um diretor que não parece um estreante, que não faz estripulias

E, depois de ver o filme, fui procurar saber. Sim, Adrián Biniez é argentino, mas tem especial paixão por Montevidéu, a capital que fica do outro lado do Rio de la Plata lindo e súcio. Uma figura, parece ser esse Adrián Biniez. Trabalhou como ator em Whisky, um interessantíssimo filme de 2004, passado em Montevidéu, também minimalista e sobre pessoas solitárias, dirigido pela dupla Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll. Segundo o iMDB, dirigiu apenas dois curta-metragens antes deste Gigante: 8 Horas, de 2006, e Total Disponibilidad, de 2008. Este, então, é seu longa de estréia.

De forma alguma parece um estreante. Ao contrário: parece um veterano, sujeito experiente. Não tenta contorcionismos, fogos de artifício, invencionices, criativóis. Seu estilo é todo sóbrio – minimalista, loucamente minimalista, mas sóbrio.

Mais surpreendente ainda: sua câmara não se move. Contra os 99% dos jovens diretores que fazem as maiores estripulias com suas câmaras, Biniez optou por planos em que a câmara fica fixa, paradona, imóvel. Não há um plongée, um contre-plongée – a câmara está sempre na altura do olhar das pessoas, normal, comum. E paradona, imóvel. É surpreendente, é quase chocante.

E nisso aí não vai juízo de valor, não vai crítica nem elogio. É só uma constatação. Eu, pessoalmente, adoro movimentos de câmara, travellings, plongées e contre-plongées – especialmente quando não são exagerados, repetitivos, vazios, quando querem dizer alguma coisa, quando reforçam a narrativa. Mas também não tenho nada contra se contar bem uma boa história com a câmara paradona. Só estou constatando – é surpreendente, é quase chocante, por ser inusitado, um diretor novo fazer essa opção.

Gigante já amealhou sete prêmios e duas outras indicações mundo afora. Foi escolhido para participar da mostra competitiva do Festival de Berlim, um dos três mais importantes do mundo, em 2009 – e apenas isso já é uma maravilha –, e saiu de lá com três prêmios.

A capinha do DVD informa que o diretor Biniez era marido da atriz Leonor Svarcas quando ele escreveu o roteiro do filme; separaram-se pouco antes das filmagens. Vejo no iMDB que Leonor havia trabalhado em Whisky e nos dois curta-metragens de Biniez, antes de fazer este Gigante. Horacio Camandulle, por sua vez, havia trabalhado antes apenas em um dos dois curta-metragens do diretor.

Que façam muitos filmes na vida, Adrián Biniez, Horacio Camandulle, Leonor Svarcas. O mundo será um pouco melhor se continuarem a espalhar esse talento em novos e novos e novos filmes.

Gigante

De Adrián Biniez, Uruguai-Argentina-Alemanha-Espanha, 2009

Com Horacio Camandule (Jara), Leonor Svarcas (Julia)

Argumento e roteiro Adrián Biniez

Fotografia Arauco Hernández Holz

No DVD. Produção Ctrl Z Films, Rizoma Films, Pandora Filmproduktion, Ibermedia 

Cor, 84 min

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