A Teta Assustada / La Teta Asustada


Nota: ½☆☆☆

Anotação em 2010: Quem gosta daquilo que pretensiosamente chama de “filmes de arte” deverá achar muitas qualidades em A Teta Assustada, o segundo longa-metragem da jovem diretora peruana Claudia Llosa. Para o resto da humanidade, o melhor seria passar longe dele. É um filme chato de doer.

O fenômeno é antigo: críticos de cinema e pequenos grupelhos de pessoas que se acham melhores que os demais, se dizem intelectuais e têm o narizinho emproado, descobrem maravilhas em algumas obras feitas especialmente para brilhar em festivais. Fazem uma gigantesca mistificação; misturam alhos com bugalhos, belo cinema com embuste puro e simples. Botam na mesma categoria filmes que são de fato importantes com outros que são falsos como notas de 3 guaranis – ou 3 soles, já que este é um filme peruano. Babam diante de obras cheias de maneirismos e parca ou nenhuma substância, e injetam nelas o que gostariam de ter visto – algo mais ou menos como fazem doutos críticos de artes plásticas diante de um quadro abstrato sem qualquer valor ou significado.

A Teta Assustada conseguiu a proeza de levar o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2009 – a Berlinale é um dos três mais importantes festivais de cinema do mundo, ao lado dos de Cannes e Veneza. Foi um dos cinco indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro neste ano de 2010. Ganhou ainda pelo menos 13 outros prêmios nos festivais de Guadalajara, Havana, Lima, Montréal e Gramado.

         Violação, estupro

Antes mesmo de a ação começar, com a tela toda negra, ouvimos uma voz de mulher cantando – numa língua desconhecida e incompreensível – uma canção que fala de violação, estupro. É a voz de uma velha índia peruana, cantando na língua de seus antepassados (quem fizer uma pesquisa na internet, depois que o filme terminar, descobre que aquela língua é o quíchua). Ela está ao lado da filha, Fausta, a protagonista da história (interpretada por Magaly Solier). Momentos após o fim da canção, a mãe de Fausta morre. Do lado de fora do casebre onde ela mora, num quintal, uma moça está provando seu vestido de noiva – veremos depois que é Maxima, uma prima de Fausta –, e reclamando que a cauda de seu vestido tem apenas três metros de comprimento. Fausta sai para o quintal que fica entre seu casebre e o do tio, numa favela nos arredores de Lima, com sangue saindo do nariz – e desmaia.

No hospital para onde é levada, o médico conta ao tio Lúcido (Marino Ballón) que Fausta tem uma batata na vagina, e se recusa terminantemente a permitir que ela seja removida. Ele sabia disso?, pergunta o médico, ao que o tio responde:

– “Ela sangra desde menina, quando fica assustada. A mãe dela acaba de morrer. Por isso ela desmaiou. Fausta nasceu durante o terrorismo. E a mãe lhe transmitiu medo através do leite do peito. É a ‘teta assustada’, como chamamos quem nasce assim, sem alma, porque ela se esconde na terra, de medo.”

         Longos planos silenciosos e estáticos, para aplauso nos festivais

Tá. Poderíamos admitir que, a partir desse início, o filme fosse fazer um relato honesto a respeito dessa história de miséria extrema, de subdesenvolvimento, de falta da mais fundamental educação, de saúde básica, de tudo o que é básico e elementar.

Mas não. O que vem a seguir é um embuste, um imenso amontoado de situações incompreensíveis, sem sentido, sem nexo, sem lógica, sem qualquer interesse. A trama incluirá o fato de Fausta não permitir que se enterre o corpo da mãe – que fica “embalsamado” pela própria família dentro do mesmo quarto em que a moça dorme –, a não ser na vila de onde a família saiu. Incluirá ainda um emprego de Fausta na casa rica de uma mulher estranha que consegue, apesar de sua fragilidade, jogar um piano janela abaixo, com janela e tudo, e algumas cerimônias de casamento no cume de um dos morros da favela.

A narrativa, naturalmente, como deve ser, para que o filme seja aplaudido nos festivais e receba boas críticas, inclui longos planos silenciosos e estáticos, onde nada acontece, a não ser crescer a impaciência do espectador.

         Uma outra opinião – e o que diz a diretora

Como viver é aprender, aprendi, num texto da Deutsche Welle, o seguinte:

“A personagem Fausta não havia ainda nascido quando sua mãe foi violentada. Mesmo assim, ela herda o medo e fica doente, sofrendo de uma estranha enfermidade chamada “a teta assustada”. O pavor de passar uma experiência como a que a mãe passou é tamanho, que Fausta chega a introduzir uma batata na vagina, acreditando que, assim, poderá evitar um estupro. No mais, vive isolada. Até mesmo o tio, com quem divide a casa, é para ela um estranho. Fausta não fala, só canta. E faz isso em sua língua materna, o quíchua.

“Claudia Llosa foi a diretora mais jovem a participar da mostra competitiva do Festival de Cinema de Berlim. E também a mais jovem a receber o Urso de Ouro. Seu filme foi bem acolhido não apenas pelos jurados da mostra oficial do festival, mas também pelo público e pela critica especializada, que concedeu a La teta asustada o prêmio Fipresci (Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica). O filme, segundo longa-metragem da diretora, realizado depois de Madeinusa (2006), reflete sobre a dificuldade de curar as feridas do passado no Peru. A idéia, segundo Llosa, surgiu quando ela estava acabando de montar seu primeiro filme.

“’Foi quando chegou a mim, por acaso, um livro com centenas de testemunhos de mulheres que haviam sido açoitadas durante a época do terrorismo no país. Ali havia menções à ‘teta asustada’, que concentrava numa só frase muitas coisas, entre estas a idéia de como o emocional se transmite de geração a geração. Isso me pareceu tão mágico e tão sábio que decidi me aventuar mais pelo assunto’, conta a diretora.

“Uma das principais dificuldades enfrentadas por Llosa foi a construção da personagem Fausta. ‘Nunca cheguei a conhecer ninguém com essa enfermidade, o que me obrigou a ler muito sobre o medo’, conta a diretora. Um medo vivido pela protagonista do filme ‘desde que ela nasceu. Como entender esse medo e colocá-lo numa pessoa foi, para mim, o mais complexo da história’, explica Llosa.

“La teta asustada, porém, não trata somente do medo, mas também de questões como o isolamento e a incompreensão, que permeiam a personagem mesmo dentro de seu próprio universo familiar. Ela praticamente só se comunica com sua mãe. Quando esta morre, o tio assume os cuidados da sobrinha. No entanto, a comunicação entre os dois é extremamente difícil. ‘Ainda que a família proteja a pessoa enferma, ela se distancia dela’, diz a cineasta. ‘O terrível no contexto do terrorismo foi que, em vez de ser abraçada e consolada, a família foi expulsa. Ninguém queria ter nada a ver com a vítima’, completa Llosa.

“As feridas de Fausta não são certamente as únicas não cicatrizadas no Peru de hoje, acredita a diretora. Segundo ela, ainda se vive no país ‘com a sensação de querer cruzar os dedos para que o acontecido não se repita’. De uma forma ou de outra, Llosa quis mostrar em seu filme uma sociedade peruana ‘que ri de si mesma com muita facilidade’.”

Então tá.

Devo acrescentar, para ser preciso, que o filme tem uma fotografia extraordinária, excelente. É um trabalho de fato de primeiríssima qualidade, o de Natasha Braier.

Ah, faltou dizer – o sobrenome da moça tem a ver, sim. Nascida em Lima em 1976, Claudia Llosa é sobrinha de Mario Vargas Llosa. Mas o tio não tem culpa, coitado.

A Teta Assustada/La Teta Asustada

De Claudia Llosa, Peru-Espanha, 2009

Com Magaly Solier, Susi Sánchez, Efraín Solís, Marino Ballón

Argumento e roteiro Claudia Llosa

Fotografia Natasha Braier

Música Selma Mutai

Produção Oberón Cinematográfica, Vela Producciones

Cor, 94 min

1/2

Tìtulo em inglês: The Milk of Sorrow. Título na França: Fausta

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