A Via Láctea


Nota: ★☆☆☆

Anotação em 2009: A Via Láctea é um filme pretensioso, metido a besta, sacal, insuportavelmente chato.

Um sujeito sai de um prédio de apartamentos, com a cara de angustiado, desorientado, anda pela rua, atravessa, vai até o outro lado, volta para o meio da rua, há o ruído de um baque. Corta, e temos de novo o sujeito saindo do mesmo prédio de apartamentos, com a cara de angustiado, desorientado, anda pela rua, atravessa, vai até o outro lado, volta para o prédio de onde saiu, entra no carro. Corta, e temos de novo uma repetição da seqüência anterior com pequenas variações. Esta é a abertura do filme – tudo com câmara de mão nervosa, inquieta, cansativa, enervante. 

O espectador pode perceber claramente que: a) óbvio, o cara foi atropelado; a segunda seqüência não é a realidade, é o que poderia ter sido, é uma outra realidade, um sonho, uma imaginação, um delírio; b) a diretora Lina Chamie viu muitas vezes Ano Passado, em Marienbad, e todas as experiências do Godard e todos os “vanguardismos” possíveis; c) vem aí pela frente um filme pretensioso, metido a besta, sacal, insuportavelmente chato.

avia1Heitor (Marco Ricca), o sujeito da seqüência inicial, professor de literatura e escritor, conhece Júlia (Alice Braga), uma jovem atriz que abandona o palco pela faculdade de veterinária. Conhecem-se durante uma apresentação de As Bacantes, do José Celso Martinez Corrêa – e só por aí o espectador já pode ver que são uns chatos de galocha, uns intelectualóides de merda. Como são intelectualóides – vivem recitando poemas um para o outro (inclusive de Mário Chamie, o pai da diretora), citando Carlos Drummond, Manuel Bandeira, demonstrando ou pretendendo demonstrar cultura, refinamento intelectual, ou falando num estilo lítero-acadêmico-babaca –, não são felizes; Heitor tem ciúme, especialmente de Tiago (Fernando Alves Pinto), amigo antigo de Júlia.

No seu estilo fragmentado, triturado, desconjuntado, anti-cronológico, e anti-lógico, a diretora Lina Chamie nos conta que Heitor e Júlia tiveram mais uma de suas brigas ao telefone; Júlia propôs terminar o caso, disse que nem sabia mais se amava Heitor, Heitor perguntou se havia outro, se era Tiago; desligaram o telefone putos. Heitor se arrependeu, resolveu ir até a casa de Júlia – e aí aconteceu a cena mostrada várias vezes e de formas diferentes nas seqüências iniciais, Heitor chegando à rua com a cara de angustiado, desorientado – até o ruído de um baque.

Ao longo do filme, teremos 200 tomadas de Heitor em seu carro, a caminho da casa de Júlia, preso num congestionamento insuportável, desses que temos todos os dias em São Paulo.

É possível que a diretora Lina Chamie tenha tentado contar uma história entremeada de “e se tivesse sido diferente?”, “e se as coisas tivessem tomado outro rumo?”. É possível.

Lá pelo meio do filme, temos uma seqüência em que Heitor e Júlia estão no alto de um prédio no centrinho de São Paulo, provavelmente na cobertura do Martinelli; Heitor faz declarações de amor, quer casar com Júlia e viver com ela para sempre, ou pelo menos 30 anos, ou então 20, dez, cinco, três. Bem mais tarde, teremos uma seqüência semelhante – no mesmo lugar, o mesmo diálogo, mas invertido, desta vez Júlia fazendo as declarações de amor.

avia2Há também uma seqüência de três realidades distintas, diferentes, mostradas em seguida; na primeira, Júlia está em casa lavando louça (com uma cara de profunda angústia; por que uma tão profunda angústia ao lavar louça?, me pergunto) e esquentando água no fogão, toca a campanhia e Tiago chega; na segunda, Júlia está lavando louça do mesmo jeito, mas quem toca a campainha e chega é Heitor; na terceira, Júlia está lavando louça do mesmo jeito, só que Heitor também está na casa dela, e os dois vão atender à porta quando Tiago toca a campainha levando flores para ela. 

Ah, vá plantar batatas.

         Uma diretora “densa, poética e perturbadora”

De qualquer forma, agora que já anotei o que achei, vou dar uma olhada na internet; com toda certeza, haverá textos com elogios à genialidade da moça.

Opa! Temos aqui um texto assinado por Márcio Ferrari, editor de UOL Cinema, que explica de que trata o filme:

“De acordo com Lina, é uma ‘história de amor vertiginosa’ que tem na cidade de São Paulo um de seus personagens. O ponto de partida é uma briga de casal por telefone. Ele é um ‘professor de literatura quarentão’; ela, ‘uma jovem veterinária voluntariosa’. Na discussão telefônica a jovem anuncia a ruptura da relação de alguns anos, mas o professor não se conforma e sai de carro rumo à casa dela para tratar do assunto cara a cara. Começa um trajeto que é o próprio filme, e na verdade são dois: o caminho atravancado em meio ao trânsito do fim de tarde em São Paulo e as idas e vindas da memória e da imaginação de Heitor, o professor de literatura. ‘As impossibilidades da cidade vão dialogando com sua viagem interior’, diz Lina.”

Ah, bom!

E tem mais:

“Há, segundo ela (a diretora Lina Chame), uma espécie de corpo-a-corpo entre a cidade e Heitor. No filme isso se traduz pelas imagens captadas em mini-DV durante todo o trajeto de carro. A agilidade da câmera pequena permitiu a gravação ininterrupta da matéria-prima que originou 80% da metragem final do filme. Os outros 20% foram gerados em película – parte em 35 mm e parte em super-16. Ao todo, foram mais de 60 horas de material filmado. Essa opção técnica ‘criou uma linguagem e se transformou numa pegada do filme’, segundo Lina. ‘A câmera rouba momentos sem interferência, como se a cidade pudesse falar por si só.’ Na alternância de texturas, os trechos imaginários e idílicos têm a luz mais límpida e repousante, obtida por meio de película. ‘O filme se espalha pela cidade e tem um destino, que é a tentativa de chegar a um ponto de descanso.’ Levada pela constatação de que o amor é a maior motivação para ficar ou ir embora, Lina construiu a história – em parceria com o co-roteirista Aleksei Abib – como uma jornada que é também do desejo e do delírio.”

Falou.  

Na internet há, sim, diversos outros textos babando com o filme, dizendo que Lina Chamie é densa, poética e perturbadora.

Falou.

A Via Láctea

De Lina Chamie, Brasil, 2007

Com Marco Ricca, Alice Braga, Fernando Alves Pinto

Argumento Lina Chamie

Roteiro Lina Chamie e Aleksei Abib

Produção Girafa Filmes

Cor, 86 min

*

2 Comentários

  1. JsPatricio
    Postado em 18 julho 2010 às 3:19 am | Permalink

    Se o filme fosse feito em um país tipo Argentina você diria que o filme é bom e que é disso que o cinema nacional precisa, mas já que o longa é Made in Brasil você mete o pau.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 18 julho 2010 às 3:34 pm | Permalink

    Não é assim. Não é verdade o que você diz.
    Confesso que sua mensagem, dando a entender que meto o pau sistematicamente no cinema brasileiro, me assustou -porque isso não é verdade, e eu não gostaria, de forma alguma, de passar essa impressão.
    Por isso, fiz um levantamento sobre as cotações que dei para os filmes brasileiros já no site. É assim:
    Quatro estrelas – 5 filmes
    Três estrelas e meia – 4 filmes
    Três estrelas – 7 filmes
    Duas estrelas e meia – 12 filmes
    Duas estrelas – 2 filmes
    Uma estrela e meia – 1 filme
    Uma estrela – 3 filmes
    Meia estrela – 5 filmes.

    Levando em consideração que duas estrelas e meia equivalem a regular, temos que no site há 28 filmes brasileiros considerados de regular para excelente, contra 11 abaixo de regular.
    Os números são claros, eloquentes.
    Sérgio

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » É Proibido Fumar em 15 julho 2010 às 12:43 pm

    [...] cineastas acabam retratando o seu próprio mundinho, tipo, só para dar um exemplo de filme ruim, A Via Láctea, ou, para dar exemplo de filmes bons, Todas as Mulheres do Mundo ou Edu Coração de Ouro. Nada, [...]

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