A Princesa e o Guerreiro / Der Krieger und die Kaiserin


Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: O título parece de um dos filmes chineses de aventuras, lutas marciais e aqueles saltos no espaço que ignoram a lei da gravidade, tipo O Tigre e o Dragão. Nada mais falso do que essa impressão. É um filme do alemão Tom Tykwer, passado na Alemanha dos dias de hoje – um filme todo estiloso no visual e na forma da narrativa, e muito, muito doidão. 

Tom Tykwer, nascido em 1965, chamou a atenção no mundo todo com seu Corra, Lola, Corra, feito em 1998, um filme cheio de vigor, frescor, inovação, atrevimento, e um ritmo vertiginoso. Eis o que diz de Corra, Lola, Corra o autor Andrew Bailey, em seu livro Cinema Now, sobre 60 cineastas importantes em ação nos anos 2000 (a edição da Taschen é no sempre saboroso português de Portugal, em que não se permitem as palavras videogame e videoclip): “O estilo visual único de Tykwer explodiu no panorama cinematográfico internacional com Corre, Lola, Corre (1998), um tríptico de histórias hiperactivas que utiliza versões alteradas do mesmo cenário frenético no qual uma jovem alemã (desempenhada por Franka Potente) tem 20 minutos para descobrir onde está uma quantia de dinheiro em falta, antes de o seu namorado desesperado assaltar um banco. Com uma produção influencida por elementos característicos dos videojogos e o corte dos telediscos, Corre, Lola, Corre catapultou Tykwer para a nata dos estilistas visuais europeus.”

Em 2002, o diretor faria Heaven, com Cate Blanchett e Giovanni Ribisi, que fala de terrorismo no Norte da Itália, baseado num roteiro deixado pelo polonês Krzysztof Kieslovski, morto em 1996; na época em que vi, achei o filme bem feitíssimo, como é o padrão de Tykwer, mas com conteúdo literalmente incompreensível. Em 2006, o diretor faria um filme bem mais convencional, mais comercial, Perfume – A História de um Assassino, produção internacional cara, baseada no best-seller de Patrick Süskind, e na época achei que, embora bem feitíssimo, com visual extraordinário, Perfume não passou de mais um filme sobre serial killer.

Mais fogos de artifício que no 4 de julho em Nova York

aprincesa1Este A Princesa e o Guerreiro é de 2000, logo depois de Corra, Lola, Corra, e é ainda mais radical na coisa estilística e de narrativa. Ando, nos meus comentários, metendo o pau no que tenho chamado de cinema de fogos de artifício, filmes em que o diretor parece ficar o tempo todo berrando no ouvido do espectador: “Olha como eu sou genial!” Neste filme aqui, Tykwer faz isso o tempo todo: dispara fogos de artifício a cada momento, berra “Eu sou genial, eu sou genial”. O problema (ou, no caso, solução) é que o bicho é extremamente competente; sabe fazer pirotecnia bem pra burro. Ele é mesmo genial – fazer o quê, a não ser reconhecer o fato?

Tykwer abusa dos dois extremos – tanto dos planos gerais quanto dos close-ups. Faz impressionantes planos gerais, vistas aéreas da cidade em que se passa a ação (não vi nenhuma referência a qual cidade é; pode ser qualquer grande cidade alemã). São planos de fato impressionantes, de tirar o fôlego, de babar, de aplaudir de pé – a câmara anda rapidamente de um pedaço a outro da cidade, uma coisa ágil, vertiginosa; não sei se ele usou as CGI, as imagens geradas por computador, se usou foto de satélite, o que foi que ele fez, mas é absolutamente fascinante.

E, no outro extremo, faz close-ups, big close-ups, super hiper big close ups dos rostos e de pedaços de rostos de seus protagonistas, Franka Potente, a mesma de Corra, Lola, Corra, e Benno Fürmann.

Seus movimentos de câmara são enlouquecedores. Todo tipo de movimento que já havia sido feito, e alguns que ainda estavam para ser descobertos, estão neste filme de visual acachapante. Só para dar um exemplo: a câmara pega o rosto de Benno Fürmann; aí ela vai sendo puxada para trás (certamente numa grua, um guindaste), até vermos que o ator está debruçado sobre um viaduto, com a cabeça para baixo; a danada da câmara descreve em torno do rosto que está filmando um ângulo de mais de 180 graus – mas não da esquerda para a direita, ou vice-versa, mas de cima pra baixo. É, de novo, de babar.

Gente “normal”, nem pensar – só tem louco

7041258Agora, a história que Tykwer criou, os personagens… Meu Deus do céu e também da terra, quanta doença. Não há personagem algum que possa ser considerado algo próximo do normal, do mediano, do simples, gente como a gente. Coisa de louco – em parte literalmente de louco mesmo, já que boa parte da ação se passa num hospital psiquiátrico. E muitos dos doidos que estão lá não chegam a ser propriamente mansos.

Sissi, a personagem central, interpretada por essa lindamente feia e extraordinária atriz Franka Potente, é enfermeira do hospital, e mora lá mesmo; é uma boa enfermeira, benquista por todos, abnegada, competente, mas vamos ver que ela própria não bate muito bem da cabeça. (Quase no final, Tykwer revelará a história da vida de Sissi, suas origens – é de arrepiar.)

Seu destino vai se cruzar com o de Bodo (o papel de Benno Fürmann) de um modo absolutamente singular, quando estamos já com uns 20 minutos de filme. Bodo, que já foi soldado do exército, também tem um passado trágico, que o deixou fora de sintonia com o mundo “normal”, legal; ele está, no momento em que a ação se passa, empenhado em planejar o roubo de um banco.

De uma maneira esquisita, louca, tanto Sissi quanto Bodo irão tirar do armário os fantasmas que os assombram.

A narrativa tem jogadas, sacadas, invenções – sempre muito bem amarradas – de deixar os fãs de Quentin Tarantino de queixo caído no chão.

No meio de tanta pirotecnia, Tykwer exagera, e muito, em explicitudes de causar ânsia em boa parte dos espectadores, se não na imensa maioria. Tudo bem, Buñuel já havia, nos anos 30, feito uma cena envolvendo um olho e uma faca. Mas convenhamos que é um tanto agressivo demais mostrar, em close-up, uma traqueostomia forçada, no meio da rua, com um canivete e um canudo de beber refrigerante. Ou, também com close-ups, uma tentativa de suicídio mediante ingestão de cacos de vidro.

Mas, apesar disso, e apesar dos fogos de artifício e dos berros “Eu sou genial!”, o fato é que é um filme surpreendente, impressionante, com algumas sacadas visuais especialmente belas, e uma narrativa brilhante.

aprincesa3Embora tenha ficado bem menos conhecido do que Corra, Lola, Corra, este A Princesa e o Guerreiro – que aliás passou na 25ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – teve cinco prêmios e 19 outras indicações nos festivais mundo afora. Quatro dessas indicações foram para a ótima Franka Potente – que, na época desses dois filmes, era mulher do diretor Tykwer; segundo o iMDB, o casal se separou em 2002. Por coincidência, ou não, em 2002 ela trabalhou no primeiro dos três filmes da série Bourne, A Identidade Bourne, ao lado de Matt Damon; trabalhou também no segundo, A Supremacia Bourne, e na segunda parte do Che de Steven Soderbergh. Apesar de ter passado a fazer filmes americanos, ou com diretores americanos, ela se manteve presente também no cinema alemão.

         Lembremos de Sissi, a Imperatriz

Um pequeno detalhe. O nome do personagem da atriz é Simone – Sissi é o apelido. Sissi, obviamente, remete a Romy Schneider, a mais importante atriz alemã de todos os tempos, ao lado de Marlene Dietrich e Hanna Schygulla (ih, será que esqueci alguém?). Como todo mundo com mais de 45 anos sabe, Romy Schneider fez três filminhos baba, água-com-açúcar, nos anos 50, interpretando a imperatriz austríaca e rainha da Hungria Elizabeth (1837-1898), mulher do imperador Franz Joseph, que tinha o apelido de Sissi. (Minha mãe, maravilhada com a pompa e circunstância da corte austro-húngara, levava o Sérgio Vaz daquela antiga encadernação para ver todos os Sissi, no Cine Tupi de Belo Horizonte.)

Como detalhe puxa detalhe, é fascinante lembrar que, depois de ser assim uma espécie de Shirley Temple alemã, Romy Schneider cresceu, virou atriz séria e respeitadíssima, filmando com vários dos grandes cineastas europeus nos anos 60 e 70; e, sob a direção de Luchino Visconti, retomaria o papel da mesma imperatriz Elizabeth em Ludwig, de 1973. Claro que a Sissi de Visconti não tem nada a ver com a Sissi da série cor-de-rosa – são visões absolutamente antípodas da mesma personagem histórica.            

O título A Princesa e o Guerreiro passa a ter sentido quando se lembra da imperatriz Sissi – porque não tem nada de principesca a enfermeira um tanto doida, de história pessoal absolutamente enlouquecedora, assim como tem muito pouco de guerreiro o amargurado e deslocado ex-soldado que vira assaltante de banco.

E um detalhe do detalhe. O título alemão é Der Krieger und die Kaiserin. Krieger é guerreiro, kaiserin é imperadora. (Kaiser, czar – ambas palavras que vêm de César, o imperador romano. Eta cultura inútil da porra.) Segundo o iMDB, foi o próprio diretor Tykwer que escolheu inverter os personagens no título internacional The Princess and the Warrior. Talvez por ser mais sonoro – sabe-se lá.    

Para encerrar: vejo que, aparentemente, este filme – que vi no Cinemax – não foi lançado em DVD no Brasil. Mas está à venda no amazon.com, assim como deve estar nos demais sites do Exterior.

A Princesa e o Guerreiro/Der Krieger und die Kaiserin

De Tom Tykwer, Alemanha, 2000

Com Franka Potente, Benno Fürmann, Joachim Król, Lars Rudolph, Melchior Meslon

Argumento e roteiro Tom Tykwer

Fotografia Frank Griebe

Produção X-Filme Creative Pool

Cor, 135 min  

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