O Círculo do Poder / The Inner Circle


Nota: ★★★½

Anotação em 2007, com complemento em 2008: Eis aí um filme bom, muito bom, e muito importante. Uma característica fantástica é o fato de ele ter sido feito ainda na União Soviética, numa co-produção ítalo-soviética-americana. Eram os momentos finais, era o auge da glasnost de Gorbachev, 1991, mas o império ainda existia, e o filme foi todo rodado em Moscou.

É fantástico também saber que aquilo se baseia em fatos reais. O personagem central, Alexander Ganshin, existiu de fato, e estava vivo quando o filme foi rodado; Tom Hulce, o ator que havia feito Mozart no Amadeus de Milos Forman, e que interpreta Alexander Ganshin, conversou com ele, na época da filmagem.

 Ganshin era um competente projecionista de filmes, um sujeito humilde, apolítico, simplório, meio bobo, meio pateta, mas competente no que fazia – e, um belo dia, foi chamado ao Kremlim para ser o projecionista na sala onde Josef Stálin (Aleksandr Zbruyev) via filmes com sua camarilha, o inner circle, o círculo do poder do título. Foi o projecionista do ditador até a morte dele, e o filme conta toda a sua história, desde o dia em que é levado pela primeira vez ao Kremlim, em 1939, até 1953, o ano da morte de Stálin. Aliás, as seqüências em que uma multidão imensa presta as derradeiras homenagens ao chefe do regime que assassinou milhões são belíssimas.

O filme mostra os dois ambientes – a vida do projecionista com sua mulher em uma habitação coletiva, a dura vida real das pessoas normais, e a sala de projeção no Kremlin. Tom Hulce está um tanto exagerado nas caretas, assim como Lolita Davidovich, como sua mulher, pessoa humilde que de repente passa a ter um marido assim com os homens lá do alto do império, e é capaz de, de vez em quando, levar, para a habitação coletiva restos das iguarias servidas na Versalhes do Ditador Sol, coisas que os vizinhos nunca tinham visto na vida.

Sim, os dois estão um tanto exagerados, mas é impressionante o striptease que o diretor Andrei Konchalovsky faz da hipocrisia dos próximos ao poder, do medo onipresente de que um pequeno passo em falso de qualquer pessoa do povo naquele império totalitário pudesse levar à degradação, à prisão, à morte. 

É um belo filme, profundamente triste, desolador, para qualquer pessoa que já tenha tido alguma vez na vida a esperança de que o socialismo pudesse criar uma sociedade melhor.

Interessante é que ele é muito próximo de Leste-Oeste, que vi poucas semanas antes, e que também trata da vida das pessoas comuns sob a duríssima ditadura stalinista.

Sim, há momentos em que o filme até exagera no tom ao denunciar o tamanho absurdo do culto à personalidade do ditador – mas dá para entender o ódio que Konchalovsky tinha daquilo tudo.

O diretor nasceu em 1945, o ano do final da Segunda Guerra e o primeiro da guerra fria; era garoto, portanto, quando Stálin morreu, em 1953, e os crimes stalinistas começaram a ser denunciados dentro da União Soviética. Filho de dois escritores, descendente de um pintor famoso, irmão do também cineasta Nikita Mikhalkov, ele estudou cinema e ficou próximo de Andrei Tarkovsky, um diretor que Stálin seguramente teria banido para a Sibéria por ser independente demais. Como ele, Konchalovsky se afastou da ortodoxia do cinema soviético, e sofreu duras críticas por isso; acabou passando uma temporada no Ocidente, onde fez, entre outros, Os Amantes de Maria/Maria’s Lover, com Nastassja Kinski, Gente Diferente/Shy People, com Jill Clayburgh e Barbara Hershey, e até um policialzinho, Tango e Cash, com Sylvester Stallone e Kurt Russell. Voltou para a terra natal para fazer esta beleza de filme.

O Círculo do Poder/The Inner Circle

De Andrei Konchalovsky, EUA-URSS-Itália, 1991.

Com Tom Hulce, Lolita Davidovich, Bob Hoskins, Aleksandr Zbruyev

Roteiro Andrei Konchalovsky e Anatoli Usov

Cor, 137 min

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