A Rainha / The Queen


Nota: ★★★★

Anotação em 2007, com complemento em 2008: Stephen Frears é um dos maiores diretores de cinema das últimas décadas do século XX e da primeira do XXI.

Ele é capaz de ser perfeito nos mais diferentes gêneros – da adaptação de clássico da literatura francesa de séculos atrás, em Ligações Perigosas/Dangerous Liaisons, até a delícia da comédia dramática e musical em Sra. Henderson Apresenta/Mrs Henderson Presents, passando pelo terror, pelo policial, pelo drama social.

Aqui ele faz um caso-verdade, uma adaptação literal de acontecimento histórico recente, a morte da princesa Diana – com um talento descomunal, deslumbrante.

aqueen2É quase como se fosse um documentário, até porque a escolha dos atores é perfeita – eles se parecem tremendamente com os personagens reais da história. Helen Mirren de fato está parecida fisicamente com Elizabeth II, e o ator Michael Sheen encarnou Tony Blair. Frears mistura seu filme com cenas de TV, e temos Bill Clinton como Bill Clinton, Nelson Mandela como Nelson Mandela, e por aí vai.

É quase como se fosse um documentário – com a diferença de que, no seu cinema-verdade, no seu, digamos, cinema-jornalismo, algo assim como Truman Capote criou na literatura com A Sangue Frio, Frears penetra nos ambientes nos quais nenhuma câmara de TV penetrou, a intimidade da rainha da Inglaterra e seu marido caretão, bundão, em seus aposentos privados, em sua casa de campo privada, a intimidade do número 10 da Downing Street, os gabinetes internos do primeiro-ministro britânico.

Acho que fiz uma boa definição. O que Stephen Frears fez neste filme foi o que o que Truman Capote fez na literatura com A Sangue Frio. Ele recriou a história da maneira mais fiel possível, seguramente através de muitos relatos, muitos testemunhos.  

(Está no iMDB: “O escritor Peter Morgan reconstituiu os eventos da semana posterior à morte da Princesa Diana através de diversas entrevistas com muitas fontes próximas ao primeiro-ministro e à família real. Muitas dessas fontes foram capazes de corroborar os testemunhos de outras, dando a Morgan informações suficientes para imaginar as cenas.”)

Não que isso seja uma novidade. O cinema sempre perseguiu isso – A Queda/Der Untergang, com os últimos dias de Hitler em seu bunker, é um excelente exemplo de sucesso na reconstituição de fatos ocorridos nos círculos mais íntimos do poder. Mas este filme é, seguramente, o mais brilhante de toda essa linhagem.

 É um estupor.

aqueenAcho que dá para dizer, sem qualquer medo de errar, que a interpretação de Helen Mirren como a Rainha Elizabeth II é, assim como a de Marion Cotillard em Piaf – Um Hino ao Amor, uma das melhores dos últimos muitos tempos, uma das melhores de toda a história do cinema.

O iMDB contabiliza que o filme venceu 59 prêmios, inclusive o Oscar para Helen Mirren, fora 50 outras indicações. É prêmio paca. Eu diria que o filme merece cada um deles.

De resto – o que dizer dessa civilização, a mais democrática e ao mesmo tempo a mais classista do mundo? Uma das mais avançadas nos costumes, e ao mesmo tempo reverente a uma família real, essa coisa tão absolutamente anacrônica? Uma sociedade que algumas décadas atrás condenava à prisão um de seus grandes escritores pelo crime de homossexualismo, e no enterro da princesa Diana bota para cantar na Abadia de Westminster essa figura maravilhosa que ora é bicha louca ora é homossexual sério assumidíssimo? Que elege um primeiro-ministro trabalhista que faz todo o possível para preservar o respeito do povo pela família real – e depois vai sujar sua biografia dando apoio total às insanidades e imoralidades de um George W. Bush?

Eta povo doido, siô. É de se tirar o chapéu. Grande Inglaterra, que, entre otras cositas más, faz hoje o melhor cinema do mundo.

A Rainha/The Queen

De Stephen Frears, Inglaterra-França-Itália, 2006.

Com Helen Mirren, Michael Sheen, James Cromwell, Sylvia Syms, Alex Jennings

Roteiro Peter Morgan

Música Alexandre Desplat

Produção Granada, Pathé, Canal+. Estreou em São Paulo 9/2/2007.

Cor, 97 min.

****

Um Comentário

  1. Postado em 5 dezembro 2010 às 9:10 pm | Permalink

    “Grande Inglaterra, que, entre otras cositas más, faz hoje o melhor cinema do mundo.” Concordo 100% com sua afirmação. Quisera ver nas locadoras mais do que os ingleses produzem atualmente, até filmes feitos para a tv.

16 Trackbacks

  1. […] A Rainha/The Queen, 2006 Minha Querida Lavanderia/My Beautiful Laundrette […]

  2. […] eclético. Ele fez terror (O Segredo de Mary Reilly), recriação de fatos históricos recentes (A Rainha), comédia musical (Sra. Henderson Apresenta, Alta Fidelidade), transposição de romance clássico […]

  3. […] após sua trágica morte em Paris. (O episódio foi reconstituído com brilho por Stephen Frears em A Rainha; o ator Michael Sheen tem grande semelhança física com o premier trabalhista, assim como Helen […]

  4. […] todas excelentes. Michael Sheen – que já havia sido um ótimo primeiro-ministro Tony Blair em A Rainha, de , e um ótimo jornalista David Frost em Frost/Nixon – brilha interpretando mais um personagem […]

  5. Por 50 Anos de Filmes » Vincere em 18 abril 2011 às 3:17 pm

    […] história. É uma coisa marcante demais, inesquecível – como Helen Mirren como Elizabeth II em A Rainha, como Marion Cotillard em Piaf – Um Hino ao […]

  6. […] é claro, desde porcarias absolutas, como Elizabeth – A Era de Ouro, até obras-primas, como A Rainha, passando por filmes corretos mas não marcantes, como A […]

  7. Por 50 Anos de Filmes » Além da Vida / Hereafter em 31 maio 2011 às 3:15 pm

    […] ator e melhor atriz – O Último Rei da Escócia (Forest Whitaker interpretando Idi Amin Gaga) e A Rainha (Helen Mirren interpretando Elizabeth II). São dele também os roteiros de Frost/Nixon, Maldito […]

  8. […] não ficar apenas nos filmes americanos: A Rainha, de Stephen Frears, reconstituiu a letárgica, insensível reação da família real inglesa à […]

  9. […] rei George VI, o rei gago, em O Discurso do Rei, de uma Helen Mirren como a rainha Elizabeth II em A Rainha, de uma Marion Cotillard como Edith Piaf em Piaf – Um Hino ao Amor, para lembrar de […]

  10. […] A Rainha, de Stephen Frears, por exemplo, também é um brilho. Reconta, com precisão cirúrgica e interpretações memoráveis, o episódio da morte da Princesa Diana e os momentos em que a insensibilidade de Elizabeth II ameaçou deixar a maior parte de seus súditos contra a monarquia – e foi preciso a ajuda do então jovem e promissor primeiro-ministro trabalhista, Tony Blair, para fazer a família real dar à princesa morta ao menos parte da importância que ela merecia, e conter a onda de descontentamento sem paralelo nos muitos séculos que duram a fascinação e o respeito do povo inglês por seus soberanos. […]

  11. […] Feliz/Happy-Go-Lucky, Ataque Terrorista/Shoot on Sight, Um Lugar Chamado Brick Lane/Brick Lane, A Rainha/The Queen, Sra. Henderson Apresenta/Mrs Henderson Presents, De Bico Calado/Keeping Mum, Simplesmente […]

  12. Por 50 Anos de Filmes » 360 em 31 dezembro 2012 às 2:43 pm

    […] e roteirista que tem em seu currículo os roteiros de Frost/Nixon, O Último Rei da Escócia, A Rainha e A […]

  13. […] Mundial; ele seria sucedido, em 1952, pela sua primogênita, Elizabeth Alexandra Mary, a atual rainha Elizabeth II – mas esta é outra […]

  14. Por 50 Anos de Filmes » Diana em 3 novembro 2014 às 3:28 pm

    […] preciso registrar que este Diana e A Rainha, que Stephen Frears lançou em 2006, completam-se à perfeição, como goiabada e queijo, arroz e […]

  15. […] II, a atual monarca da Grã-Bretanha, que ela mesma, Helen Mirren, interpretou magistralmente em A Rainha (2006), de Stephen […]

  16. Por 50 Anos de Filmes » The Crown em 12 novembro 2016 às 2:18 pm

    […] Charles, Diana Spencer, a princesa de Gales – que foram muitíssimo bem mostrados no filme A Rainha (2006), do grande Stephen Frears, em que ela foi interpretada, brilhantemente, por Helen […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*