Rio Vermelho / Red River


Nota: ★☆☆☆

Anotação em 2002, com acréscimo em 2008: Eu nunca tinha visto esse classicão, que todo o mundo, sem exceção, considera um dos melhores filmes da história. E foi um dos meus maiores desencontros com um grande clássico. Sim, tem os elementos de um grande filme – as grandes panorâmicas, o cenário vasto, a fotografia deslumbrante, a música grandiosa do Dimitri Tiomkin (um tanto grandiloquente demais, talvez).

A questão é o tema, o argumento, a história, o roteiro – tudo absolutamente sem qualquer tipo de lógica ou razão. Naturalmente, para se ver um western, esse gênero tão cinematográfico, que é muitas vezes o próprio cinema, é preciso ter um certo distanciamento; é preciso abandonar a lógica comum e entrar numa outra esfera de lógica. Mas, mesmo dentro da lógica do western, essa é uma história fantasticamente ilógica.

E a pretensão – meu Deus, como o filme é pretensioso! Quer ter o – como é que os críticos dizem mesmo? – pathos da tragédia grega, o conflito pai-filho, o choque de vontades sobre-humanas, a vontade de mudar o destino. E acaba tendo momentos sublimemente ridículos, como o encontro do personagem de John Wayne com a mulher por quem o personagem do quase filho se apaixonou – e de repente lá está ele, sem a mínima lógica, pedindo a ela que tenha um filho dele! E todo o encerramento, John Wayne vindo enfrentar Montgomery Clift (um dia depois da chegada da moça que vinha junto mas de repente se apressou para chegar antes), e os dois acabando numa luta grotesca, para concluírem que se amam perdidamente.

Me lembrei da grandeza digna e imensamente menos pretensiosa e imensamente mais carregada de sentido e força que é Pistoleiros do Entardecer, possivelmente o melhor Sam Peckinpah, e certamente o menos endeusado pela crítica.

Acho que este Red River é possívelmente um dos melhores exemplos de como a história do cinema construiu mitos em cima de alicerces absolutamente frágeis.

 

Anotação em 2008: Descubro só agora, no IMDB, um detalhezinho  fascinante. Shelley Winters faz uma pontinha neste filme, não creditada, como uma garota de dance hall que aparece num vagão de trem. Só o fato de Shelley Winters ter feito ponta não creditada neste filme de 1948 já é muito interessante – mas o fascinante é que, apenas três anos mais tarde, em 1951, ela faria um papel pequeno, mas importantíssimo, em Um Lugar ao Sol, de George Stevens, também ao lado de Montgomery Clift; ela é a moça pobre que o personagem de Monty namora, engravida e assassina, na adaptação do extraordinário romance Uma Tragédia Americana, de Theodore Dreiser, que Sergei Mikhailovitch Eisenstein tentou filmar e não conseguiu.  

Rio Vermelho/Red River

De Howard Hawks, EUA, 1948.

Com John Wayne, Montgomery Clift, Walter Brennan, Joanne Dru, John Ireland

Roteiro Borden Chase e Charles Schnee

Baseado em história de Borden Chase publicada no Saturday Evening Post

Música Dimitri Tiomkin

P&B, 133 min.

4 Comentários

  1. Postado em 25 setembro 2009 às 10:00 am | Permalink

    Como muitos críticos, não o considero uma das mais perfeitas obras, embora seja uma excelencia de filme. Não o colocaria entre os meus 10 mais. Entre os 20, com certeza.
    Resslvemos as interpretaççoes de Wayne e Cliff, assim como a direção sempre segura de Hawk’s.
    É um filme pára se ver. Muito bom.
    Jurandir Lima

  2. Postado em 18 novembro 2010 às 8:05 am | Permalink

    Absurdamente um dos grandes filmes da história do gênero. O termo da Kael, “ópera a cavalo”, não poderia ser mais correto, e poucas vezes alguém fez tão bem a alusão a alguns alicerces da marcha para o oeste e do próprio gênero. Acho que o Hawks, inclusive, nunca mais conseguiu criar fotogramas tão belos como em Red River. Wayne, a bem da verdade, está muito mais à vontade aqui do que em outros filmes em que ele se relaciona com mulheres com diálogos sofríveis. O próprio Rio Bravo é um exemplo de uma relação completamente inodora, que no entanto não diminui em nada o filme.

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 22 novembro 2010 às 2:06 pm | Permalink

    Fabio, muito obrigado pelo seu comentário. É uma maravilha ter aqui outras opiniões, muitas vezes completamente diferentes das minhas, como a sua e do Jurandir – este site fica muito rico com elas.
    Um abraço.
    Sérgio

  4. Claudio
    Postado em 22 março 2016 às 8:22 am | Permalink

    Nunca fui muito fã de Westerns, mas adorei esse, aliás se tornou um dos meus filmes favoritos. Outros Westers que eu gosto são Stagecoach, ( Nos tempos da Diligêcia de John Ford; High Noon), (Matar ou Morrer de Fred Zinnemann) e Sahne, ( Os brutos também amam, de George Stevens). Acho o Rio Vermelho belo e sensível e ainda tem humor. Adoro Howard Hawks, um diretor muito subestimado. Que pena que você não gostou, mas gosto é que nem nariz cada um tem o seu.
    Gosto muito do seu blog, é muito gostoso de ler. Parabéns!

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Quando nasceram as estrelas em 30 maio 2011 às 3:52 am

    […] Brennan: Os Carrascos Também Morrem/Hangmen Also Die (1943); Rio Vermelho/Red River […]

  2. […] * O espectador fica sabendo que o Cine Royal, o único de Anarene, exibe, ao longo do tempo em que se passa a ação, O Pai da Noiva, Iwo Jima – O Portal da Glória/Sands of Iwo Jima, Winchester ‘73 e Rio Vermelho. […]

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