O Monge e a Filha do Carrasco / The Monk and the Hangman’s Daughter


Nota: ½☆☆☆

Anotação em 1997: Coisa ruim. E a culpa desta vez não é dos artistas e técnicos brasileiros. Os atores não estão bem, embora não estejam mal a ponto de prejudicar o filme; a fotografia é boa, a música é excelente, até mesmo a reconstituição de época é tecnicamente competente. O problema básico e imenso deste filme está mais embaixo, na fundação mesmo, no alicerce – a história, o roteiro. Os créditos dizem que tem um americano autor de história, um americano adaptador, que também foi um dos roteiristas, junto com mais outro americano e com o Walter Lima Jr, que já fez um monte de filme competente (Inocência, só pra lembrar um, é excelente). Mas a verdade é que este aqui não tem uma história. Tudo é solto, desconexo, sem sentido, frouxo, bambo.

 Em 1701, dois monges franciscanos são enviados para uma cidade, para substituir dois outros que morreram por causa de uma peste. (Na verdade, um, o protagonista, Ambrosius, interpretado por Murilo Benicio, ainda não foi ordenado, é um noviço. Também na verdade, a cidade para onde eles vão tem dezenas de franciscanos, e nada indica que esteja precisando de dois novos. E, também na verdade, não há praticamente qualquer referência a peste, no filme inteiro.)

 Mas vamos tentar ir em frente.

 Bem, temos o quando, 1701. Não temos o onde. OK, isso é proposital – o onde pode ser em qualquer lugar do mundo cristão. Pode ser Espanha, Portugal. Pelos cenários, pelas construções, vemos que é Brasil colonial, e as construções do Brasil colonial não são assim tão universais.

 Mas vamos tentar ir em frente.

 Logo ao chegar à cidade, os dois monges encontram uma mulher que tenta espantar os urubus que chegam para comer um corpo enforcado e ainda pendurado na forca. Saberemos em breve que ela, Benedicta (interpretada por Karina Barum, da qual nunca ouvi falar) é a filha do carrasco da cidade, e que por isso é considerada uma criminosa, uma outcast, uma bruxa, uma puta, embora virgem. E aí é que está. Por quê, isso? Não se explica por quê. Seria um costume universal, considerar filha de carrasco tudo isso? Talvez seja – embora eu nunca tenha ouvido falar disso, nem Marynha.

Mas vamos tentar ir em frente.

Tem na cidade uma mulher muito bonita (interpretada por Patricia Pillar) que o espectador não sabe bem quem é, que apito toca. É vista pela primeira vez jogando na rua as roupas do filho do homem mais poderoso do lugar. Depois a vemos na igreja, para a missa, em lugar nobre, destacado, com roupas muito bonitas. Depois a veremos como uma garçonete na hospedaria do lugar. Afinal, quem é ela? Não se fica sabendo. Sabemos que ela ama o tal Rochus, o filho do homem mais poderoso do lugar. E ela diz que ele, Rochus, quer é saber de comer a filha do carrasco. E por isso fala em matar a rival, cortar seu rosto com uma faca. Para, dois segundos depois, pedir ao nosso monge-noviço que vá salvar a vida da mesma rival.

Ah, pensando bem, não vou tentar ir em frente coisa nenhuma. Chega.

 Algumas semanas mais tarde, fiz o seguinte acréscimo a meu comentário acima:

 Li hoje entrevista do Walter Lima Júnior, muito antiga (saiu no Estadão em 17/8/1996) em que ele diz o seguinte: “Soube que o Jofre Rodrigues estava querendo fazer um filme, havia convidado algumas pessoas, elas não queriam. (…) Liguei então para ele, dizendo: eu estou disponível, se gostar da história, eu faço. Ele me mandou o roteiro, achei horroroso, não entendi. Só que eu conhecia o autor, um novelista americano, e fui atrás do livro – apesar de o Jofre ter um certo cuidado para que a gente não desmanchasse muito o roteiro original, incompreensível tanto para mim quanto para ele. O produtor do filme, um americano, era o próprio autor do roteiro – e ele (Jofre) não queria perder o sócio.”

 Fantástico: o próprio diretor diz que achou o roteiro incompreensível! Que nem eu, como espectador. Nessa entrevista, mais tarde, o Walter Lima diz que mexeu um pouco no roteiro, porque, lendo o texto original, descobriu que ele “falava dessa coisa de desejo, de uma forma muito irônica, do desentendimento que um monge tem de sua compaixão. O que ele julga ser compaixão é a paixão. O que ele julga ser solidariedade é o desejo. Ele é prisioneiro desses sentimentos e acaba sendo devorado por eles”. Ah, tá bom, então falou.

O Monge e a Filha do Carrasco/The Monk and the Hangman’s Daughter

De Walter Lima Jr, Brasil-EUA, 1995.

Com Murilo Benicio, Karina Barum, Patricia Pillar, José Lewgoy, Eduardo Conde, Rubens de Falco, Paul Dillon

Bas em história de Ambrose Bierce

Adaptação William Kemper

Roteiro William Kemper, Toby Coe e Walter Lima Jr.

Fotografia Pedro Farkas

Música Sandy Stein

Cor, 90 min

Um Comentário

  1. Rui Torok
    Postado em 7 julho 2009 às 11:41 am | Permalink

    Como tudo o que acontece em filmes brasileiros, mais um absurdo é detectado neste filme. Ao colocar os nomes dos musicos presentes no filme em uma das cenas na ficha de elenco, o responsável eliminou o nome de Veruska Wilke (Atriz e cantora) substituindo por outro ( da própria filha…). Mérito aos merecedores… não sei qual o motivo disto e acho de bom tom ser feito o reparo

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*