Quatro Estações em Havana – Máscaras

Nota: ★★★☆

Casos complexos, e além disso politicamente delicados, por acabar envolvendo figurões do regime, insistem em cair nas mãos do tenente Mario Conde, detetive da polícia de Havana. Um dos mais difíceis – e fascinantes – é o que ele enfrenta em Máscaras, o terceiro dos livros que compõem a tetralogia Quatro Estações em Havana, e Máscaras – terceiro episódio da minissérie do mesmo título, lançada em 2016.

O caso que Mario Conde (o papel do grande Jorge Perugorría) tem que desvendar é o assassinato de um homem jovem vestido de mulher – e tudo que envolve homossexualidade, travestis, LGBT, já é bastante problemático por si só. Afinal, nos anos 60 e 70 o regime de Fidel Castro mandava para campos de trabalho forçado os homossexuais, e apenas em 1979 a homossexualidade deixou de ser crime na Cuba do comunismo.

O crime é escabroso: o competente legista da polícia identifica que o rapaz foi morto por asfixia, e enfiaram em seu ânus duas moedas de um peso.

E ainda há um terrível complicador: logo se vê que a vítima, Alexis (Reymond Miranda), é o filho único de Faustino Arayán (Max Álvarez), um veterano diplomata respeitadíssimo por todos no governo, tido como um grande revolucionário de primeira hora, que conspirou contra a sangrenta ditadura de Fulgêncio Batista, derrubada em 1959 por Fidel Castro, Ernesto Che Guevara e seus companheiros.

Tudo isso já forma um quadro pavoroso. Mas há um outro elemento que adiciona ainda mais tensão: embora policial extremamente competente, detetive que já resolveu diversos casos complexos, difíceis, o tenente Mario Conde tem “alguns problemas ideológicos”, como diz, com um grande sorriso irônico, uma bicha velha, perdão, um idoso homossexual que ele fica conhecendo durante as investigações, Alberto Marqués (Aramis Delgado, numa interpretação excelente). O próprio Marqués, intelectual, escritor, diretor teatral, havia sido, ainda nos anos 70, “parametrizado”, como Conde diz várias vezes em Máscaras – ou seja, punido por não atuar de acordo com os parâmetros exigidos pelo regime.

Um intelectual afastado de suas funções por desvios de pensamento enxergar em Conde “problemas ideológicos” não seria problema algum. A questão é que não é só Alberto Marqués.  Policiais da Corregedoria estão de olho em Conde – como de resto estão de olho também no chefe dele, o irrepreensível major Antonio Rangel (Enrique Molina), o homem que Conde admira e respeita como se fosse seu pai, e a quem considera “o melhor chefe de polícia do mundo”.

Conde tem de fato graves “problemas ideológicos”. Quando adolescente, no cursinho pré-vestibular, foi advertido por ter escrito contos que não tinham muito conteúdo “revolucionário”. Agora, tinha atitudes não “revolucionárias’: bebia muito, gostava de usar calças jeans, aquele símbolo do imperialismo ianque, e, muito pior ainda, gostava de ouvir rock!

(Lá depois da metade de Máscaras, Conde, com seus grandes amigos, na casa do maior deles, o Magro, o papel de Luis Alberto García, ouve uma canção do Credence Crearwater Revival. Pecado mortal, coisa de anti-revolucinário horroroso, nojento, tipo sujo que tem que ser extirpado para a construção da sociedade do homem novo.)

Quatro livros, quatro longa-metragens. Chamam de série

Nas duas histórias anteriores a Máscaras, o tenente Mario Conde já havia enfrentado casos que eram grandes pedreiras – não só pela complexidade dos crimes em si, mas por acabarem envolvendo figurões da nomenklatura comunista.

Em Passado Perfeito, o tenente é encarregado de investigar o desaparecimento de um figurão da Corporação Nacional da Indústria, Rafael Morin, grande puxa-saco do governo. A investigação será complicada, dura, difícil, por motivos políticos – o desaparecido é figura de destaque – e também por motivos emocionais: o tal Morin era casado com Tamara, que havia sido o grande amor da vida de Conde quando eram jovens, colegas do pré-vestibular.

Tamara reaparece rapidamente neste Máscaras – ocasião para o espectador ver, ainda que por pouco tempo, a belíssima atriz Laura Ramos. Como o pai de Tamara era diplomata, Conde vai visitá-la para saber que informações ela teria sobre Faustino Arayán.)

Foi no livro Passado Perfeito que Leonardo Padura criou o personagem Mario Conde. O livro foi escrito entre julho de 1990 e janeiro de 1991, e a ação se passa no inverno. Depois da publicação foi que Padura imaginou escrever mais três, um para cada estação do ano. No prefácio de Paisagem de Outono, o quarto livro da série, concluído em 1998, ele escreveu: “Conde certa noite cochichou-me ao ouvido uma coisa que, matutada durante alguns dias, pareceu-me uma boa idéia: por que não fazemos outros romances? Decidimos, então, escrever mais três peças que (…) formaram a tetralogia Estações Havana”.

Título e estação do ano Escrito em Copyright em Cuba
1 Passado Perfeito/Pasado Perfecto (Inverno) 7/1990 a 1/1991 2000
2 Ventos de Quaresmo/Vientos de Cuaresma (Primavera) 1992 2001
3 Máscaras/Máscaras (Verão) 1994 a 1995 1997
4 Paisagem de Outono/Paisaje de Otoño (Outono) 11/1996 a 3/1998 1998

Os quatro livros foram transformados em filmes em 2016, numa colaboração Cuba-Espanha: os mesmos produtores, os mesmos atores, a mesma equipe. Os roteiros foram escritos pelo próprio Padura e sua mulher Lucia Lopez Coll – a quem os livros são dedicados – em colaboração com o diretor, o jovem espanhol Félix Viscarret.

O primeiro filme não foi baseado no primeiro dos quatro livros, e sim no segundo, Ventos de Quaresma, o que se passa na primavera. Com o título Vientos de La Habana, foi lançado como filme de cinema, e estreou no Festival de San Sebastián de 2016. Mas os três seguintes foram lançados em forma de minissérie, com o título geral de Quatro Estações em Havana.

Todos os quatro estão disponíveis na Netflix como minissérie – embora cada um deles tenha duração de longa-metragem normal, com cerca de 1 hora e meia, e cada um possa ser visto independentemente dos outros. (Por causa dessas características, considero aqui no site cada um deles como sendo um filme, e não como episódio de uma série de TV.)

A vítima estava vestida de mulher, mas não era travesti

A abertura de Máscaras é fortíssima, belíssima, impressionante. Alternam-se imagens em cores, big close-ups do que parece ser uma mulher se maquilando, se preparando para sair, com um vestido do vermelho mais vivo com pode haver, e outras em preto-e-branco, cenas de cinejornais, de imensas multidões reunidas para comemorar a vitória da Revolução Cubana de 1958-1959, de multidões reunidas para ouvir os discursos de Fidel Castro.

Há travestis que não conseguem de forma alguma esconder que são homens – e são figuras feias, desagradáveis de se ver. O travesti que vemos nessas cenas iniciais de Máscaras – e que voltaremos a ver ao longo do filme, em curtos flashbacks – é uma figura bonita, atraente. É uma perfeita mulher.

(Que o eventual leitor não veja nas afirmações do parágrafo acima preconceito ou coisa parecida. São referências apenas à coisa estética – não há qualquer tipo de juízo de valor sobre moral ou qualquer outra coisa.)

O rapaz Alexis Arayán Rodríguez – que a polícia de Havana encontra morto no meio de um grande parque da cidade, com aquele vestido vermelho vivo e uma cuidadosa peruca – não era um travesti. Sim, era um homossexual, disso não havia dúvida alguma – mas não era um travesti. Nunca antes havia sido visto vestido de mulher. (Na foto abaixo, o personagem Alexis, interpretado por Reymond Miranda.)

É o que garante ao tenente Mario Conde o escritor e ex-diretor teatral Alberto Marqués. Conde vai interrogar Alberto Marqués depois de fazer sua primeira visita à casa dos pais de Alexis, o figurão da diplomacia Faustino Arayán e Matilde (Coralia Veloz), e lá ser informado de que, seis meses antes, o rapaz havia tido uma dura discussão com o pai e resolvera sair de casa, indo morar em um dos muitos cômodos da casa do amigo bem mais velho do que ele.

Conde, naturalmente, pergunta se Alberto Marqués e Alexis tinham um caso. O velho homossexual garante que não, que tinha pelo rapaz o afeto de um pai para o filho. Informa que Alexis tinha tido um longo namoro com um pintor chamado Salvador K (José Juan Rodríguez), mas que mais recentemente os dois haviam rompido. E garante para o policial que Alexis não era travesti, jamais havia se vestido de mulher antes.

Uma informação que perturba bastante o detetive, por embaralhar ainda mais as coisas, tornar o caso ainda mais intrigante – e complicado.

Um belo travelling, uma sequência espetacular

Conde vai comentar mais de uma vez com seu auxiliar, o sargento Manuel Palacios (Carlos Enrique Almirante), e também com seu chefe, o major Antonio Rangel, que não se sente à vontade naquela investigação, com uma frase do tipo: “Coño, yo no entendo nada de esas cosas de los maricones.”

No entanto, o tenente vai ficar um tanto fascinado com a figura de Alberto Marqués, um intelectual, cultíssimo. Como já foi dito – embora bem en passant –, Conde, quando rapaz, tinha escrito contos. Na verdade, continuava sempre com vontade de escrever, e era um leitor voraz. Nada mais natural que tivesse simpatia por Marqués.

Assim, não recusa quando o velho intelectual o convida para irem juntos a uma festa na casa de um amigo dele – lá Conde conheceria muitos da comunidade LGBT de Havana, inclusive várias pessoas que conheciam Alexis.

A sequência em que os dois vão a essa festa, ali bem pela metade do filme, é interessantíssima – e um show de cinema.

O policial e o escritor se encontram, ainda com luz do dia – é alto verão –, numa região de Havana, o calçadão do Prado, cheia de travestis. – “Se quer dar uma olhada nos gays de Havana, aqui é o lugar!”, diz Marqués. “Mas tenho que dizer que à noite o show é diferente.”

O dono da casa se diz encantado por receber ao mesmo tempo um Conde e um Marqués – e sai levando este último pelo braço, ao mesmo tempo que apresenta Conde a Poly (Yuliet Cruz, na foto acima) e pede para ela cuidar bem do convidado especial.

Poly é uma figura atraente, num vestido preto decotado, seios amplos, cabelão negro até depois dos ombros. – “Ah, você é o Conde, o escritor?” – e ele responde que é apenas aspirante.

Ficam os dois de pé no umbral de uma porta junto de uma ampla sala cheia de gente. Uma bebida é servida. Ela pergunta se ele é hétero, Conde responde com um “Até onde sei”, e devolve a pergunta a ela. Poly responde que é hétero quase sempre

Conde pede que ela fale sobre as pessoas que estão ali. Enquanto ela fala, a câmara do diretor de fotografia Pedro J. Márquez vai fazendo um suavíssimo travelling pelo lugar – um passeio por alguns dos cômodos da casa, e focalizando aquela fauna toda, até voltar ao ponto inicial e focalizar de novo Conde e Poly. É uma tomada absolutamente espetacular.

– “Aqui há de tudo”, diz Poly. – “Militantes de todos os partidos. Praticantes de sexo livre, dramaturgos com ou sem obras, maricones de todos os tipos, almas em dor procurando conforto, vencedores de balé, profetas do fim dos dias, e outros com seus vales de alimentação. Convertidos ao marxismo e marxistas convertidos a nada. Hereges e praticantes de todas as religiões. Alcoólatras, psicopatas, reumáticos, dogmáticos. E um macho heterossexual.”

A repressão aos homossexuais em Cuba foi duríssima

Daí a pouco Conde perguntará se, afinal, Poly é um travesti ou uma mulher, e Poly o convidará para descobrir por si mesmo. Vão para a casa dela, e há uma bela cena de sexo. Cada um dos filmes das Quatro Estações em Havana tem cenas de sexo.

Mas aquela tomada, aquele travelling no meio da fauna de Havana, é de fato um deslumbre. Na forma e no conteúdo.

Militantes de todos os partidos. Maricones de todos os tipos. Hereges e praticantes de todas as religiões. Alcoólatras, psicopatas, reumáticos, dogmáticos.

Gente de todos os tipos – como em Miami, tão pertinho e ao mesmo tempo a tantos anos-luz dali. Como em Caracas, Santiago, São Paulo, Rio de Janeiro, Madri, Londres, Paris, Roma, Nova Delhi, Tóquio, Teerã.

Gente de todos os tipos – e nenhum deles ali parece ser el hombre nuevo com que sonhavam os guerrilheiros de Fidel Castro e Che Guevara, el hombre nuevo, o eterno revolucionário comunista, o homem do Partido.

É bem provável que, se estivesse vivo, Che Guevara mandasse fuzilar toda aquela bicharada louca. Na Cuba revolucionária idealizada por ele, Fidel e companheiros, não haveria lugar para maricones.

“A repressão a homossexuais, travestis e transgêneros em Cuba é histórica e foi reconhecia pelo próprio Fidel Castro em meados de 2010, quando ele declarou que, sim, as minorias foram perseguidas por seu regime desde a década de 1960”, diz uma reportagem de O Globo de dezembro de 2018. Transcrevo mais trechos:

“’É verdade que nós fizemos isso’, disse Fidel, então com 84 anos, em entrevista a um jornal mexicano. ‘Estou tentando limitar minha responsabilidade por tudo isso porque, de fato, eu não carrego comigo esse tipo de preconceito’, acrescentou à época.

“Nos anos 1960 e 1970, homossexuais eram enviados às chamadas Unidades Militares de Apoio à Produção (Umap), espécies de campos de concentração para ‘recuperação’ de pessoas consideradas desviantes da revolução, incluindo gays. Um dos escritores cubanos mais conhecidos, Pedro Juan Gutiérrez, retratou episódios que ele próprio viveu no livro Fabián e o caos. Nas Umaps, os homossexuais, tidos como ‘contra-revolucionários’, faziam trabalho forçado, numa tentativa do regime de reverter condutas que considerava pouco masculinas.

“Foi só a partir de meados dos anos 1990, com o colapso da União Soviética, a crise econômica e os discursos progressistas ganhando força pelo mundo, que a perseguição sistemática aos homossexuais perdeu potência. Tanto que data desta década o primeiro filme cubano a tratar do tema — Morango e Chocolate”.

Morango e Chocolate, de 1994, co-produção Cuba-México-Espanha, dirigido pela dupla de cubanos Tomaz Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío, é uma maravilha de filme. Não por coincidência, um dos dois protagonistas é interpretado pelo mesmo Jorge Perugorría, que em todas as últimas três décadas tem sido a cara mais visível do cinema cubano. Mostra a amizade de dois homens diferentes em tudo: David (Vladimir Cruz), um rapaz universitário, comunista, que tem consciência o tempo todo de que está tendo a oportunidade de fazer faculdade graças à revolução cubana, e Diego (o papel Jorge Perugorría), um sujeito que é a essência de tudo o que o regime condena: homossexual assumidérrimo, defensor arraigado do direito básico de não seguir a cartilha imposta pelos donos do poder, inimigo do conceito de partido único, crítico inabalável do governo de Fidel, leitor e admirador de escritores estrangeiros que não seguem o modelo traçado pelo comunismo cubano.

“Mario Conde é como Havana, decadente e atraente”

Os livros de Padura e os filmes baseados neles não são panfletos políticos. Não são virulentamente anti-regime castrista. São, acima de tudo, apaixonados por Cuba e pelos cubanos. Mas não fogem da política, de forma alguma – e aqui e ali mostram as mazelas do regime, sem vergonha alguma. Na verdade, com uma coragem e uma explicitude que chega a intrigar o espectador: ué, diacho, como foi que a rígida censura do Partido Comunista deixou isso aqui passar?

Nesse ponto, Máscaras é bastante diferente dos dois anteriores, Ventos de Havana e Passado Perfeito. Desde as cenas iniciais mostrando as multidões aplaudindo a revolução e os líderes revolucionários, passando por aquela sequência na festa que reúne tudo o que o regime gostaria de aniquilar, Máscaras tem um tom mais panfletário. Não basicamente anti-comunista – mas pró-LGBT.

Um filme com um tom planfletário pró-LGBT. Que é realçado ainda mais nas sequências finais, depois que o caso policial se resolve, depois que o assassino de Alexis é descoberto por Mario Conde, e confessa.

Ao final, o filme do espanhol Félix Viscarret mostra sequências e fotos de gays cubanos. Uma grande série de imagens de gays. Um panfleto tipo: quiseram acabar com isso aí? Não conseguiram, seus idiotas. Olha aí a diversidade sexual solta, olha aí os milhares e milhares de gays.

Quando o filme Vientos de La Habana foi exigido no Festival de San Sebastián, um repórter de El País, Gregorio Belinchón, perguntou a Jorge Perugorría o que ele pensava de Mario Conde. A resposta é um brilho:

– “É um sujeito cativante. O representante de uma geração que se criou na Revolução acreditando em um modelo de país que nunca chegou a se concretizar e que nunca vai se concretizar, porque o mundo mudou. Por isso ele se alimenta de nostalgia. É igual a Havana, tão decadente como atraente. Ambos vão caindo aos pedaços, e no entanto mantêm seu encanto.”

Anotação em maio de 2020

Quatro Estações em Havana – Máscaras/ Cuatro estaciones en La Habana – Máscaras

De Félix Viscarret, Espanha-Cuba, 2016

Com Jorge Perugorría (tenente Mario Conde)

e Carlos Enrique Almirante (sargento Manuel Palacios), Enrique Molina (major Antonio Rangel), Aramís Delgado (Alberto Marqués), Max Álvarez (Faustino Arayán, o pai de Alexis), Reymond Miranda  (Alexis Arayán Rodríguez), Coralia Veloz (Matilde Rodríguez, a mãe de Alexis), Obelia Blanco (Maria Antonia, a empregada dos Arayán), José Juan Rodríguez (Salvador K), Yuliet Cruz (Poly), Luis Alberto García (Carlos, o Magro), Mario Guerra (Candito, o Vermelho), Aurora Basnuevo (Josefina, a mãe de Carlos), Hector Pérez (Miki Cara de Jeba), Jorge Martínez (Andrés), Alexis Díaz      (Conejo), Felix Beatón (capitão Cicerón), Ernesto del Cañal (Crespo),

e, em participação especial, Laura Ramos (Tamara)

Roteiro Lucia Lopez Coll, Leonardo Padura & Félix Viscarret

Baseado no romance de Leonardo Padura

Fotografia Pedro J. Márquez

Montagem Antonio Frutos e Javi Frutos

Casting María Mercedes Hernández e Camilla-Valentine Isola)

Produção Mistery Producciones, Movistar+, Nadcon Film, Radio Televisión Española (RTVE), Tornasol Films, Wild Bunch

Cor, 87 min (1h27)

Disponivel na Netflix em 5/2020

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