Acusada / Acusada

Nota: ★★★½

Acusada, co-produção Argentina-México de 2018, trata de um assassinato e um julgamento, mas, de maneira interessantíssima, fascinante, não é um filme de tribunal, e muito menos um policial. É o que os críticos chamariam de drama psicológico. Um drama sobre vida em família.

É uma beleza de filme.

Não é a adaptação de um romance ou peça de teatro – é um roteiro original, uma história criada diretamente para o filme, por Gonzalo Tobal e Ulisses Porra. Gonzalo Tobal, um jovem nascido em 1981, é também o diretor. Este foi apenas o segundo longa-metragem que dirigiu, depois de Villegas, de 2012 – e creio que esse hiato de seis anos entre o primeiro e segundo quer dizer muita coisa. Não se demonstra um realizador prolífico, à lá Ingmar Bergman, Woody Allen, Clint Eastwood, que realizam um novo filme a cada ano. Parece mais do tipo ourives, que demora mais a completar um projeto, tipo Francis Ford Coppola, por exemplo.

O argumento, a história original que Gonzalo Tobal e Ulisses Porra criaram, e a forma que escolheram para contá-la, são os primeiros belos gols do filme.

Uma reportagem sobre uma família unida, coesa

O espectador leva alguns minutos para compreender o que está se passando. O filme abre no momento em que um fotógrafo profissional está fazendo retratos de uma família – pai, mãe, a filha moça, o filho bem mais jovem, garoto ainda. É uma família de classe média alta – dá para ver de cara, pela ampla, bela casa em que vive, com um grande jardim, piscina, maravilhosa sala.

Além do fotógrafo, está ali também uma repórter – e, mais ainda, uma moça que, veremos mais tarde, é uma relações públicas, uma pessoa especializada em cuidar da imagem dos seus contratados. Essa moça, Rochi (Margarita Molfino), também veremos mais tarde, cobra bastante caro.

Foi ela – o espectador poderá não perceber de imediato – que fez o meio de campo para que aquela equipe de jornalistas fosse à casa dos Dreirs para fazer uma reportagem para a revista apresentando a família como unida, coesa, os pais dando todo o conforto, todo o apoio à filha mais velha.

O pai se chama Luís Dreier (o papel de Leonardo Sbaraglia), e veremos, muito, muito mais tarde, é um profissional liberal, que realiza projetos; não se explicita, bem propositadamente, qual é a área de atuação dele – eu imaginei que provavelmente é um arquiteto. A mãe, Betina (Inés Estévez), também só saberemos quase ao final da narrativa que trabalhava em um hospital – muito provavelmente é médica. O garoto, o filho mais jovem, que tem aí uns 8 ou 9 anos, se chama Martin (Emilio Vodanovich).

A moça, Dolores (o papel de Lali Espósito), tem uma aparência interessante. Não é feia, de forma alguma, mas também não é uma jovem de extraordinária beleza. Na verdade, há momentos em que ela parece bastante bonita, e momentos em que não, não parece bela. É uma moça de aparência comum, normal, que não chama muito a atenção.

Eu não conhecia Lali Espósito, jovem atriz e cantora de grande fama na Argentina, nascida em 1991, que iniciou a carreira com apenas 12 anos de idade em uma série de TV, Rincón de Luz. Não dá para imaginar o que o espectador argentino sentiria ao ver a famosa Lali Espósito no papel de Dolores Dreier, mas, para quem não a conhecia, o que passa é que houve um grande acerto na escolha – por ela não ser deslumbrantemente bela, impressionantemente maravilhosa, e sim parecer o que os americanos chamam de girl next door, tipo Sandra Bullock.

Enquanto o filme começava a rolar, foi isso que senti: um grande acerto no casting da protagonista da história.

Nessa primeira sequência, em que posa junto com o irmãozinho e os pais para as fotos, Dolores está visivelmente tensa. Estará visivelmente tensa ao longo de todo o filme – na verdade, a cada sequência mais tensa ainda.

É só aos poucos que o espectador fica sabendo, mas Dolores, 21 anos de idade, está para ser julgada pelo assassinato de sua melhor amiga, Camila (Agustina Larrea).

O que importa é o drama familiar

O roteiro de Gonzalo Tobal e Ulisses Porra não tem pressa – e esta é mais uma de suas qualidades.

Levamos um pouquinho de tempo para saber que houve um crime, e que o crime aconteceu dois anos e meio antes do hoje – o momento da ação, o momento em que a família Dreier posa para fotos e fala para aparecer numa reportagem de revista – podemos imaginar que seja uma revista tipo Caras.

E que o hoje, o momento da ação, está a poucos dias antes do início do julgamento – um julgamento que atrai toda a atenção da mídia nacional. O que é absolutamente normal, já que é um caso de assassinato envolvendo duas adolescentes de classe média alta, de um belo bairro de Buenos Aires .

Não se interrompe a narração para voltar lá atrás e mostrar longamente como foi que se deu o crime, ou como era a situação na época do crime. Não. Há, sim, flashbacks – mas são bastante rápidos. Algumas poucas tomadas, que se repetem alguma vezes ao longo da narrativa – cenas de uma casa após uma festa, uma zorra danada, copos e mais copos, cinzeiros cheios, um pássaro voando na sala. Apenas isso. Rápidas cenas do dia, dois anos e meio atrás, em que houve uma grande festa na casa de Camila, e Camila foi morta com vários cortes no corpo, um grande número de cortes que a deixaram sangrando, sangrando, sangrando, até morrer.

Os flashbacks – repito – são bem rápidos. Aparecem algumas vezes, mas bem rapidamente.

A ação toda se dá dois anos e meio após o crime, quando Camila está para ser julgada, e ao longo do julgamento.

O que importa no filme não é como foi feita a investigação policial que levou a Camila ser a única suspeita do crime. Sim, há sequências no tribunal – mas não é tanto a forma com que o julgamento se desenvolve que importa.

O que importa é o drama familiar.

Esta é, na minha opinião, a maior qualidade deste filme de muitas qualidades.

Os pais não têm certeza da inocência da filha

O que você faria, caro eventual leitor, se sua filha de 18 anos de idade chegasse em casa vinda de uma festa da sua melhor amiga em que essa melhor amiga tivesse sido assassinada a dezenas de golpes de faca?

O que você faria se, depois de uma investigação – sei se lá se competente, se não –, a polícia acusasse a sua filha pelo assassinato?

O que eu teria feito se minha filha, aos 18 anos, tivesse sido acusada do assassinato de uma de suas melhores amigas numa festinha de adolescentes em que rolou muito álcool, muita droga, e sexo?

Acusada faz qualquer pai, qualquer mãe ficar pensando esse tipo de coisa.

Mexe fundo com qualquer espectador que tenha um filho, uma filha, um sobrinho, um afilhado.

E se isso tivesse acontecido comigo?

Luis e Betina Dreier lutam como leões, como touros, como semideuses para proteger sua filha. Usam tudo o que é possível imaginar. Contratam o sujeito que é seguramente um dos melhores advogados criminalistas do país, um tal Ignacio Larocca (Daniel Fanego) para fazer a defesa de Dolores. Muito provavelmente com o aconselhamento do advogado, contratam uma caríssima relações públicas.

Depois da metade dos 108 minutos que duram o filme, em um diálogo aqui, outro ali, o espectador vai percebendo que a família não é tão rica assim. Num diálogo já bem para perto do fim, ficamos sabendo que Luís parou de ser requisitado para apresentar projetos e Betina perdeu o emprego no hospital em que trabalhava, depois que Dolores foi acusada de assassinar a melhor amigo, num caso de imensa repercussão na imprensa. E mais: que a fazenda da família, ao Norte de Buenos Aires, que Dolores adorava, foi vendida para pagamento dos honorários do criminalista caréssimo. E que a própria casa da família havia sido hipotecada.

OK: se a família não tivesse dinheiro, muito provavelmente Dolores sequer poderia estar aguardando o julgamento em liberdade. Mas o filme não toca nesse tipo de questão.

O que temos é que a família, felizmente, tinha bens que permitiam que Dolores tivesse uma maravilhosa defesa.

Mas as questões são muitas. O fato de o dinheiro não estar propriamente sobrando conta para que as coisas fiquem piores.

A aproximação do julgamento, com toda a publicidade que aquilo implica, deixa os nervos de todos à flor da pele.

Pai e mãe às vezes se desentendem quando à melhor forma de agir.

Betina não quer de forma alguma que o garoto Martin seja envolvido. Luis, ao contrário, acha que um depoimento da criança poderia ajudar muito a defesa de Dolores.

Mas uma das piores questões é que, ao longo de todo o tempo, Dolores deixa transparecer um sentimento de culpa.

E a pior questão é que, ao longo de todo o tempo, repito, vai ficando claro que pai e mãe não têm absoluta certeza da inocência da filha.

O caro eventual leitor pode imaginar o que é isso? Não ter absoluta certeza da inocência de sua filha?

Ao vivo, na TV, Dolores diz que vai confessar uma coisa

Em boa maior parte das vezes, pelo que eu saiba, os filmes argentinos contam com um apoio da pátria mãe, a Espanha. São muitos, muitos os filmes argentinos que são co-produção Argentina-Espanha.

Este Culpada é uma co-produção Argentina-México. Uma união dos países mais importantes, mais populosos, da América Latina de língua espanhola.

Há uma presença bem visível do México neste filme argentiníssimo, passado em bairro bom de Buenos Aires, escrito e dirigido por argentinos, com atores argentinos: lá pelas tantas, quando o filme vai se aproximando do fim, surge na tela Gael Garcia Bernal.

Bernal é hoje um ator absolutamente internacional. Já trabalhou tanto em produções mexicanas quanto hollywoodianas; já estrelou filme chileno, o ótimo No, sobre o plebiscito que acabou levando ao fim da ditadura do general Pinochet.

Aqui, tem uma participação especial como Mario Elmo, o apresentador de um popularíssimo talk-show da televisão argentina que faz uma entrevista ao vivo com Dolores quando faltavam poucos dias para o final do julgamento.

O advogado Ignacio Larocca havia preparado o que Dolores deveria dizer, o roteiro que ela deveria obedecer.

Mario Elmo passa a questionar a moça com muito mais dureza do que havia sido combinado com a produção do programa.

Nesse momento, faltam uns 20, talvez apenas 15 minutos para o fim do filme.

Dolores toma a decisão de fugir completamente do roteiro desenhado pelo advogado caréssimo. E diz o seguinte: – “Eu vou confessar uma coisa para você, Mario”.

Ao vivo na TV, num programa de imensa audiência, à véspera da decisão dos juízes, a acusada anuncia que vai fazer uma confissão. Luís, o pai, vai à loucura. O advogado treme nas bases.

Pois eu vou confessar uma coisa.

Eu tenho uma profunda, imensa, dolorosa inveja de los hermanos argentinos.

Como esses filhos da mãe sabem fazer bons filmes.

Como esses filhos da mãe têm essa fantástica escola de bons atores.

Que diabo! É irritante. Mesmo atores, atrizes que fazem papéis pequenos, como as garotas amigas de Dolores e Camila que vão prestar depoimento no julgamento, são bem formados. Sabem interpretar, diabo!

Como dizia o Paul McCartney em ”Ebony and Ivory”, a música que deixou o Milton Nascimento danado da vida porque não foi ele que fez, “Why don’t we?”

A bela história já foi refilmada pelos franceses

Uma das muitas coisas interessantes deste belo filme para os espectadores brasileiros é mostrar que, diferentemente do que acontece no sistema judiciário da Inglaterra e dos Estados Unidos, e que nós, no Brasil, copiamos, casos de homicídio não são julgados por júri popular – e sim por juízes especializados.

É uma forma bastante diferente de se julgar um crime.

As vantagens do júri popular – o júri em que o acusado é julgado por seus pares, seus iguais, e não por juízes, doutores, especialistas – são assunto extremamente discutível, polêmico, complexo. Imagino que os juristas discutam isso longamente, profundamente.

Bob Dylan, na canção “Hurricane”, sobre o boxeador negro acusado de ter cometido crime de morte

e que foi levado a um júri totalmente de brancos, fez uma frase que vale por mil trabalhos universitários: “How can the life of such a man / Be in the palm of some fool’s hand?”

Como a vida desse homem pode estar na palma da mão de alguns tolos?

Em 12 Homens e uma Sentença/12 Angry Men (1957), Sidney Lumet defende que a idéia pode ser boa – desde que, entre os 12 sujeitos escolhidos para definir o destino daquele acusado ali, haja pelo menos um homem íntegro, honesto, bom. Algo, vamos e venhamos, arriscadíssimo.

Bem, paciência. Vamos em frente.

Acusada foi admitido para participar da mostra competitiva do Festival de Veneza, um dos três mais importantes do mundo, ao lado de Cannes e Berlim. Entrevistado lá, o garotão Gonzalo Tobal disse: “O filme pega o crime como o disparador para explorar tudo o que se arma ao redor dessa situação na sociedade e na exibição nos meios de comunicação como geradora de climas e emoções. O filme trabalha sobre a ambiguidade da imagem, porque o público pode ter diferentes leituras ao tentar decifrar parte da história a partir do rosto da protagonista, o que pode despertar reações e leituras muito diferentes, e isso é o interessante.”

A trama criada por Gonzalo Tobal e Ulisses Porra é tão interessante, tão fascinante, que, apenas dois anos depois, o cinema francês lançou uma refilmagem, La Fille au Bracelet, a garota da pulseira. O filme foi dirigido pelo jovem Stéphane Demoustier, que assina o roteiro, mas parece que confessa que ele se baseou no roteiro deste Acusada. Pelos atores, dá para ver que, na refilmagem francesa, a garota acusada do crime, interpretada por Melissa Guers, é filha de um casal multi-racial, formado por Roschdy Zem e Chiara Mastroianni.

E parece também que a refilmagem transformou a acusada e a vítima em amantes.

Aplicaram-se, então, pelo jeito, mais complicações a uma trama que originalmente já era bastante impressionante.

Besteira.

O filme argentino-mexicano é bom demais. Não precisava de refilmagem alguma.

Anotação em junho de 2020

Acusada / Acusada

De Gonzalo Tobal, Argentina-México, 2018

Com Lali Espósito (Dolores Dreier)

e Leonardo Sbaraglia (Luis Dreier, o pai de Dolores), Inés Estévez (Betina Dreier, a mãe), Daniel Fanego (Ignacio Larocca, o advogado), Emilio Vodanovich (Martin Dreier, o irmão de Dolores), Martina Campos (Flo, a amiga de Dolores), Lautaro Rodriguez (Lucas, o namorado de Dolores), Margarita Molfino (Rochi, a relações públicas), Ana Garibaldi (Marisa Nieves, a mãe da vítima), Daniel Campomenosi (Rodolfo, o padrasto da vítima), Gerardo Romano (Dr. Taboada, o promotor público), Agustina Larrea (Camila Nieves, a vítima)

e, em participação especial, Gael García Bernal (Mario Elmo, o apresentador de TV)

Argumento e roteiro Gonzalo Tobal e Ulisses Porra

Fotografia Fernando Lockett

Música Rogelio Sosa

Montagem Alejandro Carrillo Penovi

Produção Kramer & Sigman Films, Piano, Rei Cine, Sam Spiegel International Film Lab,

Televisión Federal, INCAA.

Cor, 108 min (1h48)      

Disponível no Now em junho de 2020

***1/2

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