Colette

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Colette, de 2018, uma co-produção de quatro países europeus e mais os Estados Unidos, é um relato ao que tudo indica bastante fiel à realidade de um período de 18 anos da vida de Sidonie-Gabrielle Colette (1873-1954), uma das mais importantes figuras femininas da literatura francesa e uma das principais escritoras da primeira metade do século XX.

A narrativa acompanha Colette desde 1892, quando tinha 19 anos e vivia com os pais no campo, perto da cidadezinha de Saint-Sauver-en-Puisaye, na Borgonha, até 1910, o ano em que foi publicado A Vagabunda, o primeiro livro com seu próprio nome como autora, aos 27 anos, em 1910.

Focaliza, assim, os tempos de sua ida do campo para Paris e o primeiro de seus três casamentos, com Henry Gauthier-Villars, conhecido como Willy, famoso editor e escritor, e mostra como ele a fez escrever os quatro volumes sobre as aventuras de uma jovem chamada Claudine, que saía do campo e ia viver em Paris – relatos que tinham muito da própria Collete, mas que foram assinados por Willy, e fizeram um arrasador sucesso na Paris da belle époque.

É um filme de muitas qualidades – a começar pelo tema. Colette, sobre quem eu conhecia muito pouco, é uma mulher absolutamente fascinante, pelo que mostra o filme e pelo que lemos sobre ela em seguida.

Produção caprichada, feita com orçamento confortável, teve filmagens na Hungria e no interior da Inglaterra. Todos os aspectos técnicos são irrepreensíveis, como direção de arte, figurinos; a fotografia (de Giles Nuttgens, a reconstituição de época e a trilha sonora (de Thomas Adès) são excepcionais, e o elenco está todo bem. Mostra muita competência esse diretor que eu não conhecia, Wash Westmoreland, inglês de Leeds, nascido em 1966, autor de Para Sempre Alice (2014).

Mas, diabo… Colette e todos aqueles franceses e francesas falando inglês?

Isso pode não incomodar muita gente – mas a mim incomoda, e incomoda muito. Que coisa absurda. Seria admissível uma biografia de Virginia Woolf, ou Jane Austen, em que todos falassem em francês? Italiano? Alemão?

Gosto demais da Keira Knightley. É uma bela atriz, em todos os sentidos da palavra. Mas, diacho, no papel de Colette? Só se fosse dublada por uma atriz francesa. Bem, mas para ser dublada, por que não botar logo uma atriz francesa?

Tá certo, compreendo a coisa industrial: filme falado em inglês tem espaço garantido no maior mercado do mundo, Estados Unidos-Canadá, sem contar Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia. Legal. E também concordo em que não só mulheres podem fazer filmes sobre mulheres, não só negros têm direito de fazer filmes sobre negros… Tá certo… Mas Colette e todos os franceses em torno dela falando em inglês?

Uma garota do campo, mas sem receios

É dureza, é dureza. Mas depois de algum tempo – fazer o quê? –, a gente se acostuma.

E é, como já disse, um filme com muitas qualidades.

Achei uma bela sacada dos roteiristas – o próprio diretor Wash Westemoreland, mais Richard Glatzer e Rebecca Lenkiewicz – a forma com que eles apresentam ao espectador a personagem central da história, a jovem que os pais chamam de Gabrielle e já sabemos, claro, que é a jovem Colette.

Sido, a mãe – que, conforme qualquer rápida pesquisa revelará, exerceu grande influência sobre Gabrielle – acorda a filha às 7 da manhã, e avisa que Willy está vindo visitá-los. Sido é o papel de Fiona Shaw, a simpática e veterana atriz irlandesa. Willy (o papel do inglês Dominic West) chega de trem de Paris, e conversa animadamente com o casal e a garota Gabrielle na sala da casa de pequena fazenda da família. É um homem bem mais velho que Gabrielle – foi colega do pai dela no Exército. (Willy é de 1859, e Colette, de 1873 – são portanto 14 anos de diferença.)

Falam de artes, espetáculos – o que indica que são pessoas educadas. O parisiense fala do último espetáculo de Sarah Bernhardt. No meio da conversa, como que distraidamente, se lembra de que trouxe uma lembrancinha para a garota – uma daquelas lindas bolinhas de vidro que, mexendo, a gente obtém o efeito de neve caindo sobre as casas. Gabrielle se mostra encantada.

Depois que Willy vai embora, o casal comenta que ele tem demonstrado interesse por Gabrielle – aquela era a terceira visita dele em um período pequeno. Quem sabe ele irá pedi-la em casamento?

Gabrielle está ouvindo a conversa, sem que os pais percebam. Depois entra no aposento em que eles estão e anuncia que vai dar um passeio.

Sai saltitando pelo campo, até entrar em um celeiro, onde Willy a espera. Ela chega perguntando quanto tempo eles têm; 40 minutos, ele responde – dali ele terá que caminhar até a estação de trem.

40 minutos? Epa, dá bastante tempo – e a garotinha do campo salta no colo do parisiense bem mais velho.

Os pais achando que um namoro poderia começar, e a moça já estava era dando para o cara – e, pelo jeito, fazia algum tempo!

Sidonie-Gabrielle Colette era à frente de seu tempo – mostra esse início de filme. Antes mesmo de se mudar da província para Paris.

Uma provinciana muito à vontade em Paris

Há um corte de tempo, de um ano. Aquela visita de Willy a Saint-Sauver-en-Puisaye havia sido em 1892, conforme nos informara um letreiro. Novo letreiro conta que agora estamos em Paris, em 1893, e Willy está levando Gabrielle a uma grande festa que reúne boa parte dos artistas e intelectuais do pedaço.

Willy apresenta a garotinha a várias pessoas como sua esposa – depois deixa Gabrielle sozinha e vai conversar com alguns amigos. É uma bela sequência. Dá para o espectador perceber que aquela é a primeira vez que o marido famoso leva a jovem esposa a um evento social. A jovem recém-chegada da província passeia pelos salões da festa parisiense, e a câmara passeia com ela.

Seguramente 99,9% das jovens interioranas se sentiriam em êxtase – ou cheias de vergonha, espanto, curiosidade, ou tudo aquilo junto.

Não Colette.

No caminho de volta para a casa deles, Willy pergunta como ela estava, o que tinha achado – e a garota diz que se sentiu entediada, e a coisa mais interessante que havia visto na festa tinha sido uma tartaruga, colocada em um dos salões.

Voltando para casa de várias outras festas, encontros, reuniões sociais depois, Willy se demonstra um tanto ciumento por causa de um rapaz com quem a jovem mulher havia ficado conversando por um bom tempo. Gabrielle diz que o motivo do ciúme está errado: ela estivera interessada não no rapaz, mas na jovem mulher dele.

Willy se surpreende – e certamente também os espectadores que não sabiam da bissexualidade que Colette exibiria pela vida.

Moça de fato surpreendente.

Vemos em francês o texto falado em inglês!

Não me pareceu que o filme explique muito bem o que fazia na vida esse Henry Gauthier-Villars, o famoso Willy. A Wikipedia o define como “um escritor e crítico musical francês do fin de siècle que hoje é mais conhecido como o mentor e primeiro marido de Colette”.

Mostra-se que Willy meio que explora jovens escritores – ou, para evitar expressões que indiquem algum juízo de valor, Willy usa os serviços de jovens escritores, como Veber (Ray Panthaki) e Schwob (Al Weaver), que frequentam a casa, tornam-se amigos de Gabrielle. Encomenda a eles contos, novelas, em troca de pagamento – que muitas vezes atrasa.

Dá para intuir que, como eram nomes desconhecidos, Veber e Schwob não conseguiriam publicar seus trabalhos. No entanto, assinadas por um nome já bastante conhecido, com contrato com editora, suas obras poderiam vir à luz. Um arranjo – não propriamente uma exploração, talvez. Dá para intuir – mas não me pareceu que o filme deixe isso muito claro.

O fato é que, lá pelas tantas, ocorre a Willy que Gabrielle poderia escrever também.

A rigor, até demora a ocorrer isso a ele. Pelas cartas que ela escrevia para ele lá de Saint-Sauver-en-Puisaye já dava para perceber que a moça tinha bom texto.

O filme mostra uma carta que Gabrielle escreve ao então namorado, bem no início, depois daquela visita. E isso é interessante, porque vemos o que ela está escrevendo, a letra dela – e as palavras que vemos são em francês, enquanto a voz em off de Keira Knightley fala aquilo que está dito ali em inglês.

Exatamente a mesma coisa a gente vê quando, pela primeira vez, já em Paris, Gabrielle abre um caderno – na capa está escrito “cahiers”, e não “notebook” ou qualquer coisa assim –, pega uma caneta de pena, molha a pena no tinteiro e começa a escrever o que viria a ser o primeiro livro com a personagem Claudine. As palavras que a câmara focaliza são em francês.

Coisa de louco, siô.

Livros “com uma mistura de inocência e astúcia”

O primeiro dos quatro livros da série Claudine, Claudine à l’école, saiu em 1900. Claudine à Paris veio em 1901, Claudine en ménage em 1902, e Claudine s’en va em 1903 – todos eles assinados por Willy. Os três primeiros são escritos na forma de um diário da personagem, uma jovem que, no primeiro livro, tem apenas 15 anos, e vive na pequena cidade de Montigny. Claudine se interessa pela sua professora assistente, Aimée Lanthenay – e as duas têm um caso! A professora, Miss Sargent, descobre o caso, e não só proíbe que as duas continuem se vendo fora da escola como passa a ter, ela mesma, um romance com sua assistente, para a fúria de Claudine.

Em 1900!

No terceiro livro, Claudine, já em Paris, já casada, tem um romance com um mulher rica e casada – que, paralelamente, tem um caso com o marido de Claudine, sem que um saiba do outro.

Em 1902!

O que o filme mostra é que Gabrielle escreve as histórias todas, à mão, em cadernos pautados. Rabisca trechos, reescreve. Depois, Willy lê, dá eventualmente palpites. Mas são, todos os quatro romances de Claudine, obras dela – publicadas com o nome dele, assim como saíam em nome dele os textos escritos por Veber e Schwob.

A narrativa do filme vai, como já foi dito, até 1910, o ano em que ela escreve A Vagabunda – o primeiro livro que sai com sua assinatura. Ela se separou de Willy em 1906, embora o divórcio só tenha sido concedido em 1910.

Naqueles letreiros sempre presentes ao final dos filmes baseados em histórias reais, que informam os acontecimentos posteriores aos fatos mostrados na tela, é explicado que Colette foi à Justiça pedindo pelo reconhecimento de seu nome como autora – e conseguiu. Além destes citados, informam os letreiros, ela escreveu outros 30 livros, entre romances e coletâneas de crônicas.

A vetusta, fantástica, maravilhosa Encyclopaedia Britannica começa assim seu verbete sobre Colette:

“Excepcional escritora francesa da primeira metade do século XX, cujos romances, em boa parte tratando dos prazeres e das dores do amor, são notáveis pela sua perfeita evocação sensorial dos sons, cheiros, gostos, texturas e cores. Criada em um vilarejo da Borgonha, onde uma gentil e sábia mãe a despertou para as maravilhas de tudo que ‘germina, floreja ou voa’, ela aceitou o mundo tal qual ele era, e escreveu sobre o amor e a natureza com uma mistura de inocência e astúcia e uma observação arguta que cativou cinco décadas de leitores, que, esquecendo os escândalos de sua vida, a tornaram membro da Academia Real Belga (1935), da Academia Goncourt, e uma grande oficial da Legião de Honra – honrarias a que poucas mulheres têm acesso.”

O cinema francês parece esnobar a escritora

O IMDb registra 48 títulos baseados em obras de Colette, ou em que Colette colaborou como autora dos roteiros. Se eu não estiver enganado, os dois filmes mais importantes dessa lista são Gigi (1958), de Vincente Minnelli com Leslie Caron como a personagem título, uma garotinha que está sendo educada para ser uma prostituta de luxo, e Chéri (2009), o filme do grande Stephen Frears em que Michelle Pfeiffer faz uma prostituta que ensina um filho de outra prostituta como é esse negócio de sexo.

É verdade que houve também Claudine, uma minissérie francesa de 1978, dirigida pelo respeitado Édouard Molinaro, de quatro episódios, cada um baseado em um dos quatro livros da série Claudine da juventude da autora.

Sobre essa personagem histórica absolutamente fantástica, fascinante, que é Colette, houve, segundo vejo numa busca pelo IMDb, Becoming Colette (1991), de Danny Huston, co-produção Alemanha-Inglaterra-França. As sinopses mostram que não é um filme muito próximo da verdade dos fatos.

O que parece indicar que o país de Colette, exatamente o país que criou o cinema, o país que mais ama o cinema, o país em que melhor se escreve sobre o cinema… não dá muita importância à sua mais famosa escritora.

A não ser que minha rápida pesquisa tenha sido ruim demais, parece que o cinema francês não fez nenhum filme de alguma importância a partir das obras de Colette nos últimos 50 anos. Nem, nos últimos 50 anos, fez um filme sobre sua vida, ou ao menos parte dela – e é bom lembrar que, diacho, cada pedaço da vida de Colette parece oferecer tema para um monte de filmes.

O que me leva a fazer aqui duas pequenas pensatas, teorias, ou confirmações do já muito sabido.

Um:

Os modos, o comportamento, a moral francesa são, sem dúvida alguma, muito mais abertos, soltos, livres, do que aqueles dos ingleses e do povo da maior de suas ex-colônias, os Estados Unidos. Menos rígidos, menos pudicos, menos caretas.

Em 1900, 1903, publicavam-se romances com casos de homossexualidade, bissexualidade, triângulo amoroso, mènage – e o mundo não acabava por causa disso. Do outro lado do Canal da Mancha, Oscar Wilde ia para a prisão pelo “crime” da homossexualidade, e, já em 1926, proibia-se a circulação de O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, que aliás foi impresso primeiro na França, e só seria lançado no país do autor em 1928, depois de reescrito. Do outro lado do Atlântico, naquela colônia inglesa grandona, se diz que beijo de língua é “French kiss”: para os americanos, beijo sensual é coisa de francês.

Dois:

Os artistas franceses – esse país historicamente mais avançado, mais civilizado, mais permissivo do que os chatos, caretões dos anglo-saxões –

parecem considerar Colette uma escritora menor. Como ela fazia sucesso, vendia livros feito água, e era compreendida também pelas pessoas menos letradas (leia-se menos frescas, menos metidas a besta), a inteligentzia francesa não a aprova. Não a leva em consideração.

É preciso que venham os ingleses fazer um bom filme sobre a vida dela.

Ao terminar este texto, estou gostando ainda mais do filme. Acho que, se fosse revê-lo, sequer acharia ruim o fato de Colette e amigos falarem em inglês.

Anotação em maio de 2020

Colette

De Wash Westmoreland, Inglaterra-USA-França-Hungria-Holanda, 2018

Com Keira Knightley (Colette),

e Dominic West (Willy), Denise Gough (Missy), Eleanor Tomlinson (Georgie Raoul-Duval, a milionária americana), Fiona Shaw (Sido, a mãe de Colette), Ray Panthaki (Veber, escritor), Al Weaver (Schwob, escritor), Dickie Beau (Wague, o dançarino), Julian Wadham (Ollendorff, o dono da editora), Aiysha Hart (Polaire), Robert Pugh (Jules), Sloan Thompson (Matilde, a empregada), Arabella Weir (Mme. De Caillavet), Máté Haumann (conde Muffat), Janine Harouni (Jeanne De Caillavet), Jake Graf (Gaston De Caillevet), Rebecca Root (Rachilde), Virág Bárány (Lotte Kincelar), Polina Litvak (Lily)

Roteiro Richard Glatzer & Wash Westmoreland & Rebecca Lenkiewicz    

Baseado em “história” de Richard Glatzer  

Fotografia Giles Nuttgens

Música Thomas Adès

Montagem Lucia Zucchetti

Casting Susie Figgis

Produção Number 9 Films, Killer Films, Bold Films,

BFI Film Fund, Pioneer Stilking Films.

Cor, 111 min (1h51)

Disponível no Now em maio de 2020

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