Uma Noite em Junho / Juninatten

Nota: ½☆☆☆

Ingrid Bergman já havia ido para Hollywood, já havia feito de novo o papel da pianista Anita Hoffman na refilmagem americana de 1939 do Intermezzo original de 1936, quando voltou à sua Suécia natal, a Europa engolfada pela Segunda Guerra Mundial, para fazer Uma Noite em Junho/Juninatten.

Foi uma das piores decisões que a maravilhosa atriz tomou na vida. O filme é uma absoluta porcaria, um abacaxi azedo, um troço insuportável.

Ingrid poderia perfeitamente ter passado sem isso. Sua filmografia ganharia muito. Seus admiradores seriam ainda mais gratos a ela.

O filme é tão ruim, mas tão ruim, o personagem que ela é interpreta é tão horrorosamente mal construído, a direção é tão incompetente, que – meu Deus do céu e também da Terra –, a atuação de Ingrid Bergman chega a ser fraca. Fraquinha.

O problema, seguramente, certamente, obviamente, não é dela – é da direção pavorosa, do roteiro horrendo.

Em muitos dos 13 filmes que fez antes desta imbecilidade aqui (11 na Suécia, um na Alemanha e um em Hollywood, o primeiro de vários), a jovem Ingrid havia dado amplas mostras de seu talento. Já havia provado e comprovado ser uma ótima atriz – além de belíssima, belicíssima, estonteantemente bela.

Neste Uma Noite de Junho, está fraquinha.

Nenhuma atriz do mundo conseguiria interpretar bem essa personagem mal construída, que simplesmente não fica de pé.

A malvada imprensa persegue a mocinha

Na segunda sequência do filme, Kerstin Norbäck, a protagonista da história, o papel de Ingrid, leva um tiro no peito.

É tudo muito rápido. Na primeira sequência, vemos uma família na sala de sua casa. Há um barulho no andar de cima, e a dona da casa reclama, diz que nunca mais aluga o lugar para gente desempregada.

Corta, e estamos no andar de cima, no meio de uma discussão entre um homem e uma mulher. Ele atira no peito dela.

Hospital. Médico mexe no peito aberto da moça baleada. A situação é gravíssima: a bala passou perto do coração.

Ligam da polícia para o hospital: querem saber se o cara que atirou, Nils Asklund (Gunnar Sjöberg), será processado por homicídio ou por tentativa de.

Kerstin se salva. O dr. Berggen (Carl Ström), que salvou sua vida, cuida muito bem dela.

Tribunal. Chamada a depor, Kerstin conta que se desinteressou por Nils, e o provocou. A culpa foi dela, diz. E perde: não o condenem.

O bondoso dr. Berggen cuida para que Kerstin deixe a pequena cidade em que vivia e vá para Estocolmo, onde, com novo nome, poderá recomeçar sua vida.

Mas os jornais – ah, os jornais, os jornalistas, esses vilões horrendos! – divulgam para toda a Suécia a história do cisne baleado. Um repórter, em especial, Willy Wilson (Hasse Ekman), que cobriu todo o julgamento, e inventou para Kerstin a alcunha de cisne, vai persegui-la para todo o sempre.

Em Estocolmo, Kerstin, com novo nome, Sara alguma coisa, começa a trabalhar, por indicação do bondoso dr. Berggen, numa farmácia chamada Cisne alguma coisa.

Torna-se amiga de um grupo de moças – Åsa (Marianne Löfgren), Jane (Lill-Tollie Zellman) e Nickan (Marianne Aminoff).

Nickan – vejam só como Estocolmo é uma cidade pequenina! – namora o jornalista sensacionalista Willy Wilson.

Åsa é uma enfermeira boa gente, generosa. É ela que dá todo o apoio à ex-Kerstin, agora Sara.

Åsa namora o dr. Stefan von Bremen (o papel de Olof Widgren).

O dr. Stefan e a ex-Kerstin, agora Sara, vão se apaixonar-se profundamente-se um-se pelo outro-se.

Åsa – a única personagem da história que parece verossímil, e é simpática – se ferra.

O filme e o diretor são pouco conhecidos

Meu site se chama 50 Anos de Filmes porque quando o lancei, um monte de anos atrás, fazia 50 anos que eu via filmes.

Ao longo daqueles 50 anos, e mais um monte de anos que vieram depois, vi filmes demais da conta. Poucas vezes vi filme tão mal ajambrado quanto esta obra desse tal de Per Lindberg.

Poucas vezes vi uma trama tão mal construída, que parte do nada e vai a lugar algum. Uma protagonista tão absolutamente insustentável, indefinida, sem contorno, sem personalidade.

Tudo isso aí é opinião minha – e é fundamental registrar que não sou dono de verdade alguma. Minha opinião vale tanto quanto a opinião de qualquer pessoa. Assim, procuro sempre registrar, nestas anotações sobre filmes, outras opiniões.

O Dicionário de Cinema – Os Diretores, de Jean Tulard, fala sobre mais de 2 mil realizadores, mas não tem verbete sobre o sueco Per Lindberg (1890-1944). O Dicionário de Cineastas de Rubens Ewald Filho, na edição de 2002, revista e ampliada após a primeira edição, de 1998, também não traz Per Lindberg.

O guia de Leonard Maltin (16 mil títulos) não traz A Night in June, nem June Night, os títulos em inglês que o filme recebeu.

O guia de Jean Tulard (15 mil títulos) não traz La Chair est Faible, a carne é franca, o nome que os distribuidores franceses deram à porcaria.

A porcaria foi lançada no Brasil em uma preciosa caixa de dois DVDs com 4 filmes da fase sueca de Ingrid Bergman. Os outros três filmes da caixa são, todos eles, bons, interessantes, para dizer o mínimo – O Grande Pecado (1935), Intermezzo (1936), A Mulher que Vendeu Sua Alma (1938).

Os filmes suecos da maravilhosa atriz haviam sido lançados antes numa caixa de DVDs da Criterion, uma das mais respeitadas empresas de home vídeo do mundo, ao lado da MK2 francesa – as duas são especializadas em lançamentos de cópias restauradas, bem cuidadas de obras clássicas e raras.

Para a caixa da Criterion, a crítica Pamela Hutchinson escreveu um longo, cuidadoso artigo. O trecho em que ela fala deste Juninatten, o último filme sueco de Ingrid jovem, encerra o texto com o intertítulo “Canto do cisne”.

Trechos:

“Depois de rodar em Hollywood a refilmagem de Intermezzo, em 1939, Ingrid Bergman voltou à Suécia para mais um filme. June Night (Juninatten, 1940) oferece um de seus melhores papéis. Esse conto negro é puro filme noir, desde a explosão inicial de violência até a franqueza sobre o sexo e ênfase na crueldade humana – para não mencionar a iluminação chiaroscuro e ângulos oblíquos de câmara. E a Sara de Bergman é a verdadeira femme fatale: uma mulher misteriosa que fascina homens, despertando seu desejo e curiosidade.”

E mais adiante:

“Bergman excelente, liderando um bom grupo de atores interpretando uma heroína romântica com profundeza trágica, e mostrando à indústria sueca de cinema o que eles estavam para perder. Um crítico do

Öresunds-Posten escreveu que Bergman “se estabelece como uma atriz que pertence à elite mundial. O diretor Per Lindberg, que trabalhava principalmente no teatro mas fez nove filmes, também merece elogios por enfrentar o material pesado com um toque delicado.”

Cada cabeça, uma sentença.

Para Mary e para mim, foi um martírio aguentar esse abacaxi azedo até o fim.

Anotação em junho de 2020

Uma Noite em Junho/Juninatten

De Per Lindberg, Suécia, 1940.

Com Ingrid Bergman (Kerstin Norbäck)

e Marianne Löfgren (Åsa, a enfermeira), Lill-Tollie Zellman (Jane), Marianne Aminoff (Nickan, a telefonista do jornal), Olof Widgren (Stefan von Bremen, o médico), Gunnar Sjöberg (Nils Asklund, o que atira em Kerstin), Gabriel Alw (professor Tillberg, médico), Olof Winnerstrand (Greven), Sigurd Wallén (Jason-Eld, o redator-chefe), Hasse Ekman (Willy Wilson, o repórter), Maritta Marke (Fröken Vanja), Gudrun Brost (Fru Nilsson), John Botvid (Gurkan), Karin Swanström (Fru Cronsiöö),

Carl Ström (Dr. Berggren, o médico que salva Kerstin)

Roteiro Ragnar Hyltén-Cavallius      

Baseado no romance de Tora Nordström-Bonnier

Fotografia Åke Dahlqvist       

Música Gunnar Johansson, Jules Sylvain   

Montagem Oscar Rosander     

Produção Svensk Filmindustri. DVD Obras Primas, M.D.V.R.

P&B, 89 min (1h29).

Títulos em inglês: A Night in June, June Night. Na França: Quand la Chair est Faible.

Disponível em DVD. 

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