Sete Psicopatas e um Shih Tzu / Seven Psychopaths

Nota: ★★½☆

Sete Psicopatas e um Shih Tzu, de 2012, tem várias cenas que poderiam estar em qualquer slasher movie, aquele tipo de filme de terror especialmente violento em que costuma esguichar sangue das veias das pessoas como se fosse um grande gêiser islandês, para a alegria de adolescentes desmiolados. Inclusive cenas de navalha cortando o pescoço e sangue esguichando como se fosse um grande gêiser islandês.

No entanto, tem uma penca de bons atores –  Christopher Walken, Colin Farrell, Sam Rockwell, Tom Waits, Woody Harrelson (da esquerda para a direita na foto abaixo), mais a beleza de Abbie Cornish e Olga Kurylenko e uma participação especial de Harry Dean Stanton. A trilha sonora é de Carter Burwell, o ótimo compositor de 10 em cada 10 filmes dos irmãos Coen. Foi escrito e dirigido pelo inglês Martin McDonagh, que cinco anos depois, em 2017, faria o excelente Três Anúncios para um Crime. O filme recebeu fartos elogios da crítica, 3 prêmios e outras 21 indicações em festivais mundo afora.

Passa volta e meia na TV a cabo. Volta e meia. Passei por ele zapeando várias vezes, e nunca tive interesse em vê-lo, até assistir Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. Se o cara dirigiu esse filme – pensei –, então esse Sete Psicopatas não deve ser ruim.

Pois é. Sete Psicopatas, um filme cheio de cenas da mais explícita, da mais insana violência… é um filme contra os filmes cheios de cenas da mais explícita, da mais insana violência!

Embora cheio de cenas que seguramente fazem a total alegria dos pirados que sentem prazer em ver sangue esguichando das veias, Sete Psicopatas é um filme sério, seriíssimamente engajado na campanha contra os filmes feitos para agradar aos pirados que sentem prazer em ver sangue esguichando das veias.

Um roteirista sem idéias e seu amigo seqüestrador de cães

É mais ou menos assim:

Abre com dois matadores de aluguel esperando a vítima passar, e, enquanto esperam, conversam sobre sua profissão. Aí chega um cara por trás e pimba! Mata os dois matadores, cada um deles com um certeiro tiro na parte de trás da cabeça – e as balas saem na testa dos matadores, que é o que a câmara está mostrando.

O herói da história é apresentado a seguir – chama-se Marty (o papel de Colin Farrell, sentado, na foto abaixo), e está no processo de escrever o roteiro de um filme que irá se chamar Sete Psicopatas.

Marty – segundo o filme mostra – é um péssimo roteirista, um péssimo escritor. Talvez até já tenha feito alguma coisa que preste, e esteja agora num daqueles períodos de total bloqueio criativo. Não consegue imaginar nada, não consegue escrever nada.

Marty tem um grande amigo, Billy (Sam Rockwell), que é um candidato a ator. A históia se passa em Los Angeles, e assim há toda uma série de referências a filmes, a Hollywood. Billy diz que gostaria de ajudar Marty a escrever seus roteiros.

Billy ganha a vida seqüestrando cachorros. Age em parceria com seu amigo Hans (o papel de Christopher Walken). Seqüestram cães e, quando o dono está desesperado e pronto para dar belo gorjeta para quem encontra e entrega seu cão, eles aparecem e embolsam a grana.

Acontece que Billy sequestra um cachorrinho shih tzu que pertence a um mafioso crudelíssimo, um tal Charlie (o papel de Woody Harrelson, de pé, na foto abaixo, o ator que tem o perfeito physique du rôle de mafioso crudelíssimo).

Dá uma imensa preguiça de continuar fazendo uma sinopse. Para simplificar, para ir mais rápido, é o seguinte: a partir daí, e como já vinha acontecendo antes disso, vem muita cena de extrema violência.

Discursos contra a vingança, contra a Lei do Talião

A trama é bem engendrada. É uma trama um tanto complexa, que envolve muitos personagens, muitas situações estranhas, esquisitas, engraçadas às vezes, apavorantes em outras. Há um ex-monge tibetano vietnamita que quer se vingar dos americanos pelos mortos na guerra dos anos 60 e 70. Há um sujeito que saía com a mulher matando assassinos, à la o Dexter da série com Michael C. Hall. É complexo e tem personagens demais, mas é tudo maravilhosamente bem engendrado – e bem feito.

No fim, depois de exibir mais cenas violentas, cruéis, do que uns cinco slasher movies autênticos, o filme faz uns discursos contra a vingança, a Lei do Talião, o olho por olho dente por dente. Marty, o roteirista, é contra a violência, a vingança. Hans, o sequestrador de cães, abandonou um passado de violência e vingança e se tornou um firme defensor da não-violência.

Há, por exemplo, este diálogo entre os parceiros Hans e Billy, o psicopata mais doido de todos os muitos que há na história:

Hans: – “Olho por olho deixa todo mundo cego. Acredito nisso piamente.”

Billy: – “Não, não deixa, não. No final haverá um cara com um olho. Como que o último cara cego vai tirar o olho do último cara que restou, que ainda tem um olho? Tudo que esse cara tem a fazer é correr e se esconder atrás de um arbusto. Ghandi estava erado. É que ninguém teve coragem de dizer isso.”

É o tal do humor negro. O problema é meu: eu simplesmente não consigo entender humor negro. Todo mundo que vê o filme morre de rir, parece. Já eu não dei um sorriso sequer ao longo dos 110 minutos do filme.

“Um delicioso filme pateta, que sabe que é um filme”

O grande Roger Ebert gostou muito do filme, e deu a ele 3.5 estrelas em 4. Eis como ele começa o texto.

“Bem, deram o título certo. Não sei como aquelas pessoas se encontraram, se acharam umas às outras, mas elas certamente pertencem à mesma lista. Todas elas têm papéis em um roteiro intitulado Sete Psicopatas, que está sendo desenvolvido por um escritor chamado Marty Faranan, interpretado por Colin Farrell. Em Hollywood, ‘que está sendo desenvolvido’ significa ‘tudo que eu tenho é o título’.

Escrito e dirigido por Martin McDonagh (In Bruges, no Brasil Na Mira do Chefe), este é um delicioso filme pateta, autoconsciente, que sabe que é um filme. Já ouviu falar de um filme dentro de um filme? Acho que este é um filme sem um filme. Parte da história acontece om Marty, parte acontece na imaginação de Marty, e parte parece acontecer numa categoria e então invadir a outra.”

É isso. Se Roger Ebert gostou tanto é porque o filme deve ser muito bom. O problema não é do filme, o problema sou eu.

Anotação em agosto de 2019

Sete Psicopatas e um Shih Tzu/Seven Psychopaths

De Martin McDonagh, Inglaterra-EUA, 2012

Com Colin Farrell (Marty, o roteirista), Woody Harrelson (Charlie, o mafioso), Christopher Walken (Hans, o sequestrador de cães), Sam Rockwell (Billy, o psicopata amigo de Marty), Abbie Cornish (Kaya, a namorada de Marty), Olga Kurylenko (a namorada de Billy e de Charlie), Željko Ivanek (Paulo, capanga de Charlie), Gabourey Sidibe (Sharice, a empregafa de Charlie), Michael Pitt (Larry), Michael Stuhlbarg (Tommy), Linda Bright Clay (Myra, a mulher de Hans), James Hebert (matador), Joseph Lyle Taylor (Al), Kevin Corrigan (Dennis), Brendan Sexton III (Zachariah jovem), Amanda Mason Warren (Maggie)

E, em participação especial, Tom Waits (Zachariah), Harry Dean Stanton (homem com o chapéu)

Argumento e roteiro Martin McDonagh

Fotografia Ben Davis

Música Carter Burwell

Montagem Lisa Gunning

Casting Sarah Finn

Produção CBS Films, Film4, British Film Institute, Blueprint Pictures

Cor, 110 min (1h50)

**1/2

 

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