O Grande Pecado / Valborgsmässoafton

Nota: ★★★☆

O quinto dos 55 filmes de Ingrid Bergman, Valborgsmässoafton, de 1935, quatro anos antes de ela ser importada por Hollywood, é um drama que fala de amor, da chegada da primavera – a estação do ano e toda a simbologia que ela carrega –, da questão de ter filhos, de querer ou não querer ter filhos, e da importância disso tanto para cada pessoa, cada casal, quanto para a economia de um país. Fala também, e bastante, de aborto. Mas a questão “pecado” só existe na cabeça dos exibidores brasileiros.

O filme foi exibido no Brasil como O Grande Pecado. Assim, naturalmente, é esse o título usado na caixa de DVDs com quatro dos filmes suecos de Ingrid Berman, lançada recentemente na coleção Obras Primas de uma empresa que se identifica como M.D.R.V. e vem trazendo para o mercado pencas de filmes obscuros, pouco divulgados antes.

Só existe pecado, no filme, na cabeça dos exibidores deste país ao Sul do Equador. O título original – basta ver no tradutor do Google – é Noite de Walpurgis. Nos Estados Unidos, chamou-se Walpurgis Night; em Portugal, Noite de Primavera, na Espanha, Noche de Primavera.

Na noite de Santa Walpurgis, em português de Portugal Santa Valburga, de 30 de abril para 1º de maio, comemora-se em diversos países do Norte e Centro da Europa a chegada da Primavera – o fim do inverno, o começo da estação do amor.

A rigor, a rigor, é uma história de amor: moça é apaixonada pelo chefe, que é casado, mas mal casado, num casamento que está naufragando – e ele então percebe que está também apaixonado pela secretária, exatamente na Noite de Primavera, a Noite de Santa Walpurgis. E poderiam ter sido felizes para sempre, se este não fosse um filme sueco. Como os filmes suecos sempre foram dados a examinar os muitos problemas do mundo, mesmo décadas e décadas antes do surgimento de Ingmar Bergman, a trama de Valborgsmässoafton é tão complexa e difícil quanto o título original.

O maior nome do cinema sueco até então

É um filme tremendamente palavroso. Fala-se demais, ao longo dos curtos 79 minutos de projeção. Começa com uma rápida tomada em que nada menos de cinco mulheres empurram carrinhos de bebê, em fila indiana, numa rua – seguramente de Estocolmo, onde se passa a ação. Os carrinhos não carregam bebês, e sim vários exemplares do jornal MorgonPosten – e a gente nem precisa ir ao tradutor do Google para saber que isso é algo tipo Jornal da Manhã.

Logo estamos na redação do MorgonPosten, depois de termos sido informados, por uma tomada que mostra placas, de que Gustav Palm é editor-chefe, e Frederik Bergström é editor de notícias. Palm e Bergström estão discutindo a questão da baixa natalidade que se verificava na Suécia de então. Palm argumenta que é preciso haver providências, “ou a Suécia começará a se despovoar em 20 anos”.

Palm expõe argumentos, Bergström expõe argumentos. Falam, falam, falam.

Entra na sala um redator, um rapaz mais jovem; falam, falam, falam. Bergström diz para ele que a raiz do problema da pequena natalidade na Suécia é a falta de amor.

Corta, e vemos dois novos personagens, um casal, que está imerso numa D.R. O marido quer ter filhos, a mulher, muito ao contrário, não quer saber dessa trabalheira horrorosa – quer permanecer jovem, quer aproveitar a vida. “Eu não quero ficar confinada, cercada de crianças o tempo todo”, ela diz.

Corta, e vemos uma jovem que faz curtas anotações em seu diário. A câmara mostra as anotações, e elas indicam que a moça, bem ao contrário da mulher da sequência anterior, gostaria muito de ter filhos. Indicam também que a moça está apaixonada por um homem que não demonstra interesse por ela, e deseja acabar com aquele sofrimento.

O homem do casamento que está indo para o brejo, veremos logo, se chama Johan Borg, e é vice-presidente de uma grande empresa. A moça que faz anotações no diário é exatamente a secretária dele, Lena. E Lena vem a ser filha do editor Bergström – a única dos 7 filhos dele que ainda é solteira e vive com o pai viúvo, e cuida dele.

Por não aguentar mais estar junto de Johan, o homem que ama, todos os dias úteis, no trabalho, Lena pede demissão.

Johan Borg é interpretado por Lars Hanson, um galã que já havia trabalhado ao lado de Greta Garbo.

Frederik Bergström, o editor do MorgonPosten, é interpretado (diacho, e eu não o reconheci!) por nada mais nada menos que Victor Sjöström (na foto abaixo), àquela época o mais respeitado homem do cinema sueco, o diretor de grandes clássicos – um deles, A Carruagem Fantasma/ Körkarlen, de 1921, é um filme absolutamente impressionante, uma obra-prima. De Victor Sjöström, o mestre Jean Tulard diz que é sem dúvida um dos maiores diretores do cinema mudo.

Anos e anos depois de A Carruagem Fantasma e deste Valborgsmässoafton aqui, em 1957, quando estava com 78 anos, o grande Victor Sjöström foi escolhido por Ingmar Bergman para fazer o papel central de Morangos Silvestres, o do dr. Eberhard Isak Borg, que está para receber um título honorário na Catedral de Lund e faz então um inventário de sua vida.

Um galã no papel de Johan Borg, o maior nome do cinema sueco nas décadas que antecederam Ingmar Bergman. E, no papel da filha do editor do jornal, apaixonada em silêncio pelo patrão que está com o casamento indo pelo ralo, uma jovem de 20 aninhos de idade – Ingrid Bergman, o mais belo rosto que já passou diante de uma câmara de cinema.

Pouquíssimos são os filmes que tratam de aborto

Quando o filme está com 10 minutos, há um corte de uma sequência para outra impressionante: Lena está trocando a fralda de um bebê, seguramente um de seus muitos sobrinhos. Faz aquilo com imenso prazer – uma jovem mulher que adoraria ter filhos, cuidar de filhos.

Corta, e na sequência seguinte Clary (Karin Kavli), a mulher de Jonan Borg, está pedindo a seu médico que a submeta a um aborto.

Forma: a arte da boa montagem é isso aí, saber usar a justaposição de cenas, uma que enfatiza a outra, ou uma que se opõe violentamente à outra, como é o caso aqui. Uma mulher que adoraria ter filhos – uma mulher que quer se livrar do filho que carrega.

Conteúdo: um filme de 1935 falando abertamente de aborto. Que coisa fantástica, maravilhosa! Que coisa avançada!

E aqui me permito uma pequena digressão.

Quando, em 1997, vi O Preço de uma Escolha/If These Walls Could Talk (1996), de Nancy Savoca e Cher, uma dessas obras verdadeiramente imprescindíveis, tentei me lembrar de quais eram os filmes que tratavam de aborto – esse tema tão importante, tão fundamental, tão polêmico. Me vieram à lembrança Cabaret (1972), de Bob Fosse, Um Assunto de Mulheres (1988), de Claude Chabrol, Este Mundo é Meu (1965), de Sérgio Ricardo. (Ainda não havia, é claro, O Segredo de Vera Drake, de Mike Leigh, de 2004.)

Em seguida fiz uma pesquisa mais metódica, com a ajuda do Cinemania, um CD-ROM absolutamente fantástico, a mais abrangente enciclopédia de cinema antes do advento do IMDb. Encontrei 11 filmes que citam o aborto só en passant, não se fixando no assunto; quatro que citam o horror do aborto praticado em condições precárias; dois feitos para a TV americana nos anos 80 que discutem seriamente a questão, apresentando pontos a favor.  Apenas dois são escancaradamente a favor do direito ao aborto legal: Duas Mulheres, Dois Destinos/L’Une Chante L’Autre Pas, de Agnès Varda (1976), e aquele O Preço de uma Escolha/If These Walls Could Talk.

Há uns 20 mil filmes sobre serial-killers. Uns 200 mil sobre bandidos de todos os tipos – de ladrões pé-de-chinelo a grandes gângsteres.

Se houver, hoje, 20 e tantos anos depois daquela pesquisa que fiz, uns 50 filmes que tratam de aborto, é muito.

E agora vem cá: qual é a percentagem de pessoas que são bandidas, entre a população geral? Uns 10%? E qual é a percentagem de pessoas que já tiveram que enfrentar a questão de abortar ou não?

É um absoluto despropósito.

Assim, fiquei absolutamente espantado – e encantado – ao me deparar com uma discussão sobre o aborto neste filme aqui, feito em 1935.

O médico não topa – e a mulher procura uma clínica ilegal

Não que o filme faça uma defesa do direito ao aborto. Não faz. Mas também não faz panfleto contra ele. Mostra o caso de uma mulher que apresenta para o médico motivos fúteis, ou no mínimo um pouco frágeis, para interromper a gravidez: a vontade de continuar jovem, de não querer enfrentar os deveres da maternidade. Discute a questão.

Clary: – “Eu sei que o senhor já ajudou outras, doutor. Por que não me ajuda?”

O médico: – “Sinto que a senhora tenha uma visão tão errada sobre a responsabilidade de um médico em um caso como este. Você é jovem, saudável e bem de vida. Não há motivo para uma intervenção médica.”

Clary: – “A gravidez não foi culpa minha. Sempre fui contra isso. (Ela se exalta.) Não quero estragar minha juventude!”

O médico: – “Estou muito triste que a senhora se recuse a ver que esse filho traria mais felicidade do que todas essas coisas sem as quais a senhora acredita que não pode viver.”

Ao que Clary encerra o assunto: – “O senhor está me forçando a ir a um charlatão”.

E Clary vai, sim, à clínica de um falso médico que faz abortos, um tal “doutor” John. Naquele exato dia, a polícia faz uma batida na clínica do “doutor” John. O falso médico consegue fazer com que ela desapareça da clínica pouco antes da chegada da polícia – mas o fato de ela ter feito um aborto na clínica que é fechada pela polícia será uma questão fundamental em toda a trama.

Clary havia mentido ao marido que iria visitar uma amiga, passar a noite com ela – exatamente a Noite de Primavera, a Noite de Santa Walpurgis. Seria a noite que ela passaria na clínica, descansando após o aborto. (País civilizado é assim: ainda em 1935, as clínicas clandestinas de aborto eram limpas, organizadas, e as pacientes passavam lá uma noite de descanso após o procedimento.)

Johan, o marido, havia reservado uma mesa num bom restaurante para comemorar o início da primavera com a mulher.

Aquele era o último dia em que Lena trabalharia como secretária dele. Já que a esposa resolveu visitar uma amiga Johan convida a moça para jantar com ele.

O casamento já vinha muito mal, em ruínas. O cara sai com a secretária simpática, lindérrima – ela sofrendo de paixão. Não dá outra: Johan percebe que está apaixonado.

Mas tudo vai se complicar tremendamente.

O aborto era tema de muita discussão na época

“Estima-se que em 1935 cerca de 20 mil mulheres suecas recorreram ao aborto ilegal.” Em 1934, o ginecologista Ivar Olsson foi levado aos tribunais suecos acusado de ajudar 160 mulheres a fazerem aborto. O julgamento do então médico criou debate na sociedade, e a partir de então o movimento em defesa do direito ao aborto passou a crescer, com o apoio de muitos profissionais de saúde.

O aborto foi legalizado na Suécia em 1938, com restrições. Só era concedido nos casos de gravidez causada por estupro, doença genética ou doença terminal da mulher. Em 1948, as restrições foram bastante reduzidas. Finalmente, em 1974, a Suécia aprovou a legalização do aborto sem restrições para todas as mulheres até a 18ª semana de gravidez.

Essas informações acima foram dadas por Verônica Ferreira Iwarson no site Brasileiras pelo Mundo, e não há por que duvidar delas. Verônica, paulista, se formou em Psicologia pela Universidade de Estocolmo, e vive na capital sueca com a família há mais de 15 anos.

É fantástica a informação de Verônica sobre o julgamento de um ginecologista em 1934, um ano antes do lançamento deste filme aqui. O que indica que o filme retratava uma questão que estava em discussão naquele exato momento na Suécia.

Claro: dá um profundo desânimo quando a gente pensa em quão atrasado o Brasil está na questão do aborto. Mas também, diacho, em que questão o Brasil não está absolutamente atrasado?

Ingrid fez 12 filmes antes de ir para Hollywood

No mais, vêm aí no 50 Anos de Filmes, espero que em breve, textos sobre mais três filmes suecos de Ingrid Bergman.

Aproveito para fazer um esclarecimento sobre a afirmação inicial desta anotação, de que este aqui foi o quinto filme dos 55 que a atriz faria. Sim, foi, a rigor, a rigor, o quinto – mas poderia ser considerado o quarto. No primeiro, de 1932, Landskamp, que aparentemente não chegou a ser lançado no Brasil, ela faz pouco mais que uma figuração, como uma garota que espera numa fila. Passaram-se 3 anos, e, em 1935, ela fez quatro filmes: O Conde de Munkbro, Bränningar, Swedenhielms e este Valborgsmässoafton aqui.

Em seguida, Ingrid faria 7 filmes ainda na sua Suécia Natal. Em 1939 já estrearia em Hollywood, importada pelo produtor David O. Selznick – o mesmo que no ano seguinte importaria da Inglaterra Alfred Hitchcock.

Anotação em maio de 2020

O Grande Pecado/Valborgsmässoafton

De Gustaf Edgren, Suécia, 1935

Com Victor Sjöström (Frederik Bergström, editor), Lars Hanson (Johan Borg, vice-presidente de empresa), Ingrid Bergman (Lena Bergström, filha de Frederik, e secretária de Johan), Karin Kavli (Clary Borg, a mulher de Johan), Erik ‘Bullen’ Berglund (Gustav Palm, o secretário de Frederik), Sture Lagerwall (Svensson), Marie-Louise Sorbon (a sra. Svensson), Georg Rydeberg (Frank Roger, o bandido), Georg Blickingberg (Landberg), Richard Lund (o “doutor” Smith), Linnéa Hillberg (enfermeira), Stig Järrel (Grane),

Roteiro Oscar Rydqvist

Baseado em história de Oscar Rydqvist e Gustaf Edgren

Fotografia Martin Bodin

Música Eric Bengtson e Friedrich Kuhlau  

Montagem Oscar Rosander     

Direção de arte Arne Åkermark

Produção Svensk Filmindustri. DVD Obras-Primas, M.D.V.R.

P&B, 79 min (1h19)

***

Ttulo nos EUA: Walpurgis Night. Na França: La Nuit de la Saint-Jean. Em Portugal: Noite de Primavera. Na Espanha: Noche de Primavera.

Disponível em DVD.

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