O Fotógrafo de Mauthausen / El Fotógrafo de Mauthausen

Nota: ★★★☆

“Seguramente nenhum evento da História da humanidade foi tão dissecado pelo cinema quanto a Segunda Guerra Mundial”, escrevi em 1995, quando fazia exatos 50 anos que ela havia acabado. A afirmação continua valendo hoje, quase um quarto de século depois que foi feita, 74 anos após o final do conflito. Até porque de lá para cá dezenas e dezenas de novos filmes sobre a guerra foram e continuam sendo produzidos.

É de se estranhar bastante que ainda haja episódios, histórias, personagens pouco conhecidos. Assim, O Fotógrafo de Malthausen, que a realizadora catalã Mar Targarona lançou em 2018, é, além de um bom filme, uma obra surpreendente, fascinante. Conta a história – até agora pouco divulgada – do espanhol Francesc Boix, que conseguiu guardar, esconder e depois mostrar ao mundo uma imensa série de fotografias das atrocidades cometidas no campo de concentração de Malthausen, na Áustria, ao longo da Segunda Guerra.

Nos maravilhosos créditos finais do filme, ao som de um belo tema composto por Diego Navarro, são apresentadas diversas daquelas fotografias feitas há mais 70 anos – e é impressionante como muitas delas mostram cenas que o filme reconstituiu com imenso esmero.

Cerca de 7 mil espanhóis passaram pelo campo

Confesso que jamais tinha ouvido falar sequer do campo de concentração de Mauthausen – quanto mais, é claro, de Francesc Boix (interpretado no filme por Mario Casas). Também não sabia que a ditadura de Franco havia entregue tantas centenas de espanhóis – republicanos derrotados na Guerra Civil Espanhola – aos nazistas.

Claro: problema meu, ignorância minha. Mas não creio que essas informações sejam de conhecimento de muita gente hoje, mesmo de pessoas mais estudadas, letradas.

Diz a Wikipedia: “Mauthausen-Gusen foi um complexo de campos de concentração construídos pelos nazistas na Áustria, situado a cerca de 20 km da cidade de Linz. Inicialmente consistindo apenas de um pequeno campo, transformou-se num dos maiores complexos de trabalho escravo da Europa ocupada pela Alemanha durante a II Guerra Mundial. Os prisioneiros destes campos eram usados para o esforço de guerra alemã, trabalhando em pedreiras e fabricando armas, munições, peças de aviões e minas, sob um regime de trabalhos forçados (…)

“Em janeiro de 1945, estes campos somados continham um total aproximado de 85 mil prisioneiros. Cerca de 78 mil a 100 mil pessoas perderam a vida em Mauthausen, mortas pela dureza do trabalho escravo ali realizado. Mauthausen, ao contrário de outros campos nazistas que recebiam gente de todas as classes e categorias, era destinado apenas a integrantes da Intelligentsia dos países ocupados, pessoas da alta sociedade e maior grau de educação e cultura. Foi um dos primeiros complexos de campos de concentração da Alemanha nazista e o último a ser liberado pelos Aliados ao fim da guerra.”

Como a maioria dos filmes que reconstituem episódios históricos, O Fotógrafo de Mauthausen abre com algumas informações para situar o espectador no contexto daquele momento: “Pelos muros de Mauthausen passaram mais de 7 mil espanhóis. Vinham de lutar contra Hitler com os soldados franceses. Vinham da miséria e da fome dos campos de refugiados. Vinham de perder uma guerra civil. Depois de serem capturados pelas tropas alemãs, o ministro franquista arrebatou deles até sua pátria. Para os franquistas, não eram sequer espanhóis. Os nazistas poderiam fazer com eles o que quisessem.”

Quando aparecem na tela as últimas dessas frases, surge também

um grupo de pessoas esgotadas, maltrapilhas, caminhando na neve – mais um grupo de prisioneiros espanhóis chegando ao campo de Mauthausen.

“Sem esperança, não se sobrevive nem cinco minutos aqui”

Nesta primeira sequência, destacam-se um pai e um filho. O pai não tem uma das pernas, anda com muletas; o filho é um garoto aí de uns 10 anos – veremos que se chama Anselmo (o papel de Adrià Salazar).

O pai de Anselmo é enviado para Gusen, a outra parte do complexo de campos de concentração – um lugar de onde ninguém saía vivo. Um prisioneiro já veterano ali fica condoído com o garoto que ficou em Mauthausen separado do pai; aproxima-se dele, demonstra que quer ser seu amigo.

É Francesc Boix, o protagonista da história, o personagem título.

Boix explica para o garoto Anselmo: “Aqui há gente de todo lugar: poloneses, russos, criminosos, políticos, alemães, austríacos, judeus. Nós, espanhóis, fomos os primeiros a chegar.” E conta para ele uma mentira piedosa: diz que Gusen é melhor do que ali, que seu pai ficará bem.

Logo em seguida, um outro preso, Valbuena (Alain Hernández), pergunta a Boix por que ele mentiu para o garoto. A resposta: – “Sem esperança, ele não vai sobreviver nem cinco minutos aqui.”

Boix tira uma foto do garoto Anselmo, para identificação dele. Veremos que Boix se tornou o aprendiz preferido de Paul Ricken (Richard van Weyden), um alto oficial do exército alemão absolutamente apaixonado pela fotografia, que fotografava tudo com sua Leica. Ricken ensinou a Boix toda a ciência de revelar os negativos na câmara escura, preparar os líquidos usados no processo – e, depois, a usar as máquinas fotográficas.

O roteiro do filme (assinado por Roger Danès e Alfred Pérez Fargas) foi escrito de tal forma que o espectador vai acompanhando o dia-a-dia de Boix, suas relações com os outros prisioneiros, sua proximidade com o oficial Ricken. Vamos vendo as condições de vida dos prisioneiros – e observando que tudo o que se passa ali vai sendo registrado pela câmara de Paul Ricken.

O roteiro realça bastante o fato de que Boix e vários dos espanhóis próximos a ele são todos membros do Partido Comunista. Isso é mencionado diversas vezes.

As fotos são a prova contundente das atrocidades

Lá pela metade dos 110 minutos do filme, o grupo de Boix fica sabendo que os nazistas haviam sido derrotados em Stalingrado, depois de meio ano de batalha. (Não há em momento algum letreiros informando as datas dos fatos; não é dito, mas a vitória soviética sobre os nazistas em Stalingrado foi em fevereiro de 1943; a guerra na Europa ainda duraria até maio de 1945.)

Um dos prisioneiros, alguém do grupo próximo de Boix, comenta que toda a situação vai mudar a partir dali: – “Até aqui os nazistas tinham a certeza de que venceriam a guerra. A partir de agora, vão começar a achar que ela pode ser perdida.”

E, de fato, é aí que o comandante do campo de concentração, Franz Ziereis (Stefan Weinert), dá ordem para que as fotos e os negativos colecionados com cuidado e carinho pelo oficial Ricken sejam incinerados. Para que não haja provas das atrocidades cometidas ali – nem das visitas ao campo de figurões importantes do governo nazista, como Heinrich Himmler, o todo poderoso comandante das SS.

A segunda metade do filme mostra a luta de Francesc Boix e seus companheiros para esconder centenas, milhares dos negativos, de tal maneira que, ao final da guerra, eles pudessem ser usados como prova dos crimes cometidos ali pelos nazistas.

Não foram só os judeus as vítimas dos nazistas

Há o grande risco da generalização, do maniqueísmo.

É muito difícil, se não praticamente impossível, fazer um filme sobre campo de concentração e evitar que os nazistas sejam mostrados como assassinos, criminosos, o retrato do Mal em Si, e os prisioneiros como pessoas honradas, corajosas.

El Fotógrafo de Mauthausen roça nesse terreno perigoso mas inevitável. Não acho que caia demais no maniqueísmo, não – mas chega perto dele. O retrato que o filme faz de Franz Ziereis, o comandante do campo de concentração, é de um homem de uma crueldade absolutamente infinita. O demônio em pessoa, o diabo, belzebu não seria capaz de tanta crueldade.

Mas de fato é praticamente impossível fazer um filme sobre campo de concentração e não mostrtar como o Mal em Si. Não foi o demônio, o diabo, belzebu que matou 6 milhões de pessoas nos campos de concentração – foram os nazistas.

E mais: segundo o IMDb, Franz Ziereis foi muito pior do que o filme mostra. No filme, o nazista executa duas pessoas no aniversário de seu filho. Na realidade, ele teria assassinado 40 pessoas!

E se há em El Fotógrafo de Mauthausen o pecadilho de chegar perto do maniqueísmo, há, no entanto, uma característica muito louvável: a de mostrar que não foram apenas os judeus que foram mandandos para os campos de concentração nazista.

Sim, claro, milhões e milhões de judeus foram vítimas do nazismo. Mas não foram os únicos. Para os campos foram enviados também, e também executados, centenas de milhares de não judeus – aleijados, ciganos, criminosos, comunistas, opositores do regime de qualquer espécie.

É sempre importante lembrar isso. Sempre.

A realizadora Mar Targarona não é uma jovenzinha – nasceu em 1953, em Barcelona. Em 1990, fundou com o marido Joaquin Padro uma produtora, a Rodar y Rodar, a princípio dedicada ao cinema publicitário. Tem trabalhos como produtora, atriz, roteirista e diretora – mas, de maneira que me parece bem interessante, sua filmografia é curta. Produziu 18 títulos, inclusive um que detestei, Os Olhos de Júlia, de 2010, mas dirigiu bem pouco – este El Fotógrafo de Mauthausen é o terceiro.

O que é bastante estranho, porque parece a obra de uma diretora experiente, calejada, que já realizou muitos, muitos filmes.

El Fotógrafo de Mauthausen é um filme que deve ser visto.

Um guia dos filmes sobre a Segunda Guerra

Gostaria de voltar àquele texto de 1995 que citei na abertura desta anotação. Aquela frase é o inicio do texto de abertura, de apresentação, de uma seção do CD-ROM produzido pela Agência Estado sobre a Segunda Guerra, no ano em que se completava meio século do seu final – uma seção que era uma espécie de guia dos filmes sobre o conflito. Escrevi todo o guia – fichas técnicas e sinopses de dezenas e dezenas e dezenas de filmes.

Pode parecer um tanto cabotino, mas aproveito para transcrever aqui o tal texto de abertura:

Seguramente nenhum evento da História da humanidade foi tão dissecado pelo cinema quanto a Segunda Guerra Mundial. Agora, quando se completam 50 anos da derrota do nazi-fascismo, faz 56 anos que o cinema trata desse tema. Desde 1939, quando o conflito começou, realizam-se filmes sobre ele: as batalhas, as armas, as vidas dos grandes líderes, dos oficiais, dos soldados rasos, de suas famílias, dos espiões, dos resistentes, o holocausto dos judeus, o cotidiano das pessoas comuns afetadas pela guerra. Mostraram-se as condições que levaram à eclosão do conflito e as profundas feridas que ele deixou entre os sobreviventes.

Todos os principais eventos abordados neste CD-ROM foram objeto de filmes, feitos pelos vencedores e pelos vencidos: Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Japão, a ex-União Soviética, a ex-Iugoslávia, Polônia, a ex-Checoslováquia, Austrália, Hungria, Espanha, Dinamarca, Suécia, Canadá, Holanda, Noruega, Bélgica, até o Brasil.

A mais universal das artes (e a de maior penetração de massa) fez com que pessoas de países que estavam de lados opostos nos campos de batalha se unissem para produzir obras sobre a guerra: americanos e japoneses, japoneses e chineses, alemães e franceses, italianos e russos.

Praticamente todos os grandes cineastas desta segunda metade da história do cinema fizeram filmes sobre o conflito. Alguns dos melhores filmes de todos os cem anos de cinema são sobre esse tema — e certamente alguns dos piores também. E a relação entre o cinema e a Segunda Guerra persiste. No final de 1993, quando a maioria dos judeus que conseguiram sobreviver aos campos de concentração nazistas já estava morta, ou muito velha, A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, mostrou a toda uma geração o que significou o holocausto de uma raça; neste ano de 1995, os cinemas brasileiros exibiram pela primeira vez Stalingrado — A Batalha Final, uma produção alemã de 1992; e em Paris, a partir de 22 de março de 1995, apesar de todos os ataques dos críticos, o povo encheu os cinemas que exibiam Les Misérables, a versão de Claude Lelouch do romance de Victor Hugo adaptada para o século XX e passada, em sua maior parte, durante a Segunda Guerra.

Aqui você encontra um amplo levantamento sobre esses filmes — o mais amplo que já foi feito no Brasil.

Hum… Cabotino – e metido a besta!

Não sou, não. Mas deu vontade de ver este texto aqui no 50 Anos de Filmes. E aí está.

Anotação em outubro de 2019

O Fotógrafo de Mauthausen/El Fotógrafo de Mauthausen

De Mar Targarona, Espanha. 2018.

Com Mario Casas (Francesc Boix)

e Richard van Weyden (Paul Ricken, o oficial alemão fotógrafo), Alain Hernández (Valbuena), Adrià Salazar (Anselmo Galván, o garoto), Eduard Buch (Fonseca), Stefan Weinert (Franz Ziereis, o comandante do campo), Nikola Stojanovic (Bonarewitz), Rubén Yuste (Rosales), Frank Feys (Popeye), Marc Rodríguez (enfermeiro), Albert Mora (músico), Joan Negrié (Lejías), Luka Peros (Karl Schulz), Rainer Reiners (Poschacher, o empresário), Macarena Gómez (Dolores)

Roteiro Roger Danès, Alfred Pérez Fargas

Fotografia Aitor Mantxola

Música Diego Navarro

Montagem José Luís Romeu

Casting Irene Roqué

Produção Rodar y Rodar Cine y Televisión, We Produce 2017, FilmTeam, Institut Català de les Empreses Culturals (ICEC), Instituto de la Cinematografía y de las Artes Audiovisuales (ICAA), Radio Televisión Española (RTVE), Televisió de Catalunya (TV3). Distribuição Netflix.

Cor, 110 min (1h50)_

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