Minha Família Feliz / Chemi Bednieri Ojakhi / My Happy Family

Nota: ★★★★

Uma pérola, uma maravilha, uma extraordinária surpresa este filme que vem da Geórgia, em co-produção com Alemanha e França. Está sendo exibido na Netflix com o título em inglês, My Happy Family, o que não tem, é claro, sentido algum.

O filme é assinado por um casal, Nana Ekvtimishvili e Simon Groß; Nana Ekvtimishvili é também a autora da história e do roteiro. O sobrenome é danado de difícil, mas creio que esse nome ainda dará muito o que falar. É tudo da melhor qualidade – a história, o roteiro, a direção.

Ela é jovem: nasceu em 1978, na capital da Geórgia, Tbilisi, onde se passa a ação deste seu filme de 2017. Quando Nana nasceu, a Geórgia era uma das repúblicas socialistas que formavam a União Soviética. O primeiro longa-metragem que a moça dirigiu, em inglês In Bloom, em flor, se passava na Tbilisi de 1992, logo após o desmoronamento do império soviético – e o filme de estréia já colocou a moça no mapa do bom cinema mundial. Uma co-produção Geórgia-Alemanha França, exatamente como este Minha Família Feliz, In Bloom também era assinado pelo casal Nana & Simon, com roteiro original dela, e teve 29 prêmios internacionais, inclusive um prêmio especial no Festival de Berlim, fora outras 9 indicações.

Este Minha Família Feliz é apenas o segundo longa-metragem do casal, e é um brilho. Impressionante demais: parece feito por realizador experiente, calejado, veterano.

Manana, 50 e poucos anos, decide morar sozinha

É um drama familiar, uma história de gente como a gente, gente comum, não extraordinária. Gente que, como é dito num momento triste do solar Todas as Mulheres do Mundo (1967), de Domingos Oliveira, nasce, cresce, não é feliz e morre; ou, como diz a canção de Donovan Leitch, pessoas que logo morrem, muitas vezes nada mais sábias do que no início da vida.

Conta a história de Manana (o papel de Ia Shugliashvili), uma mulher de uns 50 e poucos anos, classe média, professora do colegial, que resolve viver sozinha. Decide sair do apartamento da grande família onde morava com os pais, o marido, os dois filhos jovens adultos e mais o marido da filha – e alugar um apartamento para morar sozinha.

Morar sozinha. Uma coisa que é, ou deveria ser, absolutamente natural, comum, ordinária.

A decisão de Manana, no entanto, cai na família como se fosse um gigantesco terremoto, maremoto, tsunami.

Quase todos protestam, reclamam, acham um absurdo, uma coisa absolutamente sem sentido. Quase todos: os dois filhos, a moça Nino, de 23 anos (Tsisia Qumsishvili), e Lasha, o garoto aí de uns 22 ou 21 (Giorgi Gio Tabidze), são os que menos contestam a decisão da mãe.

A mãe dela, Lamara (Berta Khapava), é a que mais se manifesta. Lamara não pára um momento de falar – enquanto, por trás da voz dela, Manana, assim como o espectador, ouve várias outras vozes falando ao mesmo tempo.

O espectador percebe, desde as sequências iniciais, que mostram aquelas sete pessoas convivendo no mesmo apartamento, que não há diálogo entre Manana e seu marido, Soso (Merab Ninidze). Como se fossem personagens da Trilogia da Incomunicabilidade de Michelangelo Antonioni, Manana e Soso não se comunicam. Falam pouco entre si – e claramente não se comunicam.

Bem no início do filme, acontece o aniversário de Manana. Não se diz quantos anos ela está fazendo – mas a questão é que ela não está querendo festa alguma. Exatamente como eu tenho feito nos últimos muitos anos, Manana não quer saber de festa, de reunião, no dia de seu aniversário. Ela diz isso claramente – mas a família não a ouve. Contra a vontade expressa dela, à noite a casa, que já é normalmente cheia, com aquelas sete pessoas de três gerações, fica atulhada de gente que vem beber e comer, a pretexto de parabenizar alguém que não quer ser parabenizada.

Comparecem tios, primos, conhecidos. Bebem, comem, cantam.

A aniversariante se distancia da sala, vai para a cozinha, para a pequena sacada.

O marido vai até ela, pede que ela fique com os visitantes – nem que fosse para prestar um favor a ele. Manana se recusa.

Se já não estivesse firmemente disposta a morar sozinha, contra a vontade de toda a família, Manana teria ali, no dia de seu aniversário, todos os motivos para tomar a decisão.

Não há propriamente um grande fato, uma grande questão, que a leve a querer sair daquela casa e morar sozinha. Não brigou feio com ninguém. O marido – como a mãe insiste em dizer – não bate nela, não é violento, não é um bêbado.

E é exatamente isso que o filme vai mostrando, com talento, competência: não há um fato, uma questão específica que faça Manana querer sair dali. Trata-se do conjunto da obra, da reunião de muitos pequenos fatores. Aos 50 e poucos anos de idade, ela quer ter um canto dela.

(Na foto abaixo, da esquerda para a direita, o marido, a mãe, o filho, a filha, o genro, e pai e Manana.)

Mas por que viver sozinha? O que os vizinhos vão pensar?

Manana encontra um apartamento com aluguel que ela pode pagar em um bairro um tanto distante do centro da cidade. Não é uma maravilha  – mas não é ruim, e dá de frente para a copa de árvores frondosas. Tem uma varanda, na sala, que dá de cara para o verde das árvores.

E lá ela encontra o silêncio, a tranquilidade – algo absolutamente inexistente na casa em que havia morado a vida inteira.

O único irmão de Manana, Rezo (Dimitri Oragvelidze), vai visitá-la. Antes de subir ao apartamento da irmã, reconhece vizinhos dela, vai conversar com eles. Pede a eles que defendam Manana, que a protejam contra eventuais conquistadores.

(Esses vizinhos, conhecidos dele, vão reaparecer bem mais adiante, e causar problemas.)

Rezo suplica a Manana que vá à casa da família no domingo seguinte, para que todos possam ter uma conversa.

Ela vai – para encontrar ali, além do irmão e dos seis parentes com quem vivia até então, um monte de tios, tias e primos, todos dizendo que era um absurdo aquela coisa de ela morar sozinha. Uma vergonha para a família – o que os vizinhos iriam pensar?

Não era preciso – mas surgem fatos surpreendentes

Minha Família Feliz é um filme um pouquinho mais longo que o padrão – tem exato 120 minutos, 2 horas de projeção, quando em geral a duração dos filmes varia entre 90 e 110 minutos.

Poderia ser um pouco mais curto? Algumas sequências mais longas poderiam ter sido cortadas?

Ah, seguramente. Uns 10 minutos poderiam ter sido cortados da montagem final, sem comprometer a qualidade do filme.

Mas a verdade é que isso não era necessário. Minha Família Feliz dura o tempo que tinha mesmo que durar. Não é um filme para quem tem pressa. Ah, não, de forma alguma. Não é um filme para quem gosta de ação, aventura, super-heróis, magia.

É um belo filme sobre a vida das pessoas comuns, gente como a gente.

Eu já estava absolutamente satisfeito com a forma com que Nana Ekvtimishvili e Simon Groß contavam sua história aí até um pouco mais da metade do filme – mas eis que chega a roda-viva e carrega o destino pra lá.

Quando, já depois da metade do filme, a gente está certo de que nada virá de inesperado, surgem fatos surpreendentes.

Começa com um encontro casual de Manana com uma colega de colégio. A colega a chama para uma reunião do pessoal do colégio, 35 anos após a formatura. E, nessa reunião, Manana é surpreendida por informações que desconhecia totalmente.

Evidentemente, não vou aqui revelar que informações são essas – seria absoluto spoiler. Mas não é spoiler dizer que, logo após ouvir o que suas amigas de colégio revelam para ela, Manana, chocada, transtornada, quer sair dali, ir embora, ficar sozinha, sofrer e chorar sozinha. Mas um de seus professores insiste em que ela cante para todos – nos tempos do colégio, ela impressionava todos com sua voz maravilhosa, seu domínio do violão.

Manana tenta escapar, tenta explicar que não quer. O professor insiste, bota em suas mãos um violão. Ela não tem saída – e é obrigada a engolir a dor, o choque, e cantar para aquele grande grupo de pessoas que haviam sido importantes em sua vida tantos e tantos anos antes.

É uma sequência dolorosa, angustiante – e espetacular, daquelas que dão vontade de a gente ficar de pé e aplaudir, como na ópera.

Como pode ser tão brilhante essa atriz Ia Shugliashvili? Por acaso estudou nas melhores escolas de arte dramática da Grã-Bretanha?

É uma bela trama, transformada em um belo roteiro, executado como um filme maravilhoso.

Quando terminou Minha Família Feliz, Mary e eu estávamos um tanto chapados com a beleza do filme.

Há filmes novos demais diante da gente. A oferta é excessiva. E muitas vezes nos deparamos com filmes decepcionantes, fracos, ou simplesmente horrorosos.

Dar de cara com uma obra-prima da qual a gente jamais tinha ouvido falar é um dos maiores prazeres que um cinéfilo pode ter.

O filme de Nana Ekvtimishvili faz lembrar Asghar Farhadi

Não pensei nisso de cara, demorei um pouco para pensar nisso – como é séria, densa, pesada, esta é uma obra que a gente leva um tempinho para deglutir –, mas o filme dessa garota Nana Ekvtimishvili e seu marido Simon Groß faz lembrar o realizador iraniano Asghar Farhadi.

Asghar Farhadi – de Procurando Elly (2009), A Separação (2011), O Passado (2013), O Apartamento (2016) – é um dos grandes cineastas surgidos nas últimas muitas décadas. Vivendo e trabalhando em uma das mais absurdas ditaduras do planeta, ele consegue realizar obras-primas após obras-primas – sempre filmes sérios, densos, destinados a platéias maduras, que falam de pessoas, famílias, amigos, relações afetivas. Ou seja: simplesmente o que mais importa na vida. Enfrenta a grotesca, pavorosa ditadura teocrática de seu pais mostrando que, muito mais que as ideologias, importa na vida a forma com que as pessoas se relacionam com elas mesmas e com o mundo ao redor.

Claro, isso tem a ver com o universo de um Woody Allen, com o universo de um Pedro Almodóvar, para dar só dois exemplos. Nos filmes de Woody Allen e Pedro Almodóvar – para não falar de François Truffaut, Ingmar Bergman –, o que mais importa na vida não é a ideologia, mas a forma com que as pessoas se relacionam com elas mesmas e com o mundo ao redor.

A diferença é que, de uma forma ou de outra, Allen, Almodóvar, Truffaut, Bergman falam da vida em países desenvolvidos, ricos, estáveis. Em que imensa maior parte das pessoas não tem que se preocupar com as necessidades básicas.

Essa garota georgiana Nana Ekvtimishvili e o iraniano Asghar Farhadi fazem seus grandes filmes nos países periféricos, subdesenvolvidos, pobres.

A procura pela privacidade que o comunismo combateu

Dei uma olhadinha (confesso que rápida) no que se falou a respeito deste Chemi Bednieri Ojakhi, e o que em geral se diz é que o filme demonstra como é assustadora a decisão de uma mulher de uns 50 e tantos anos de passar a viver sozinha em uma sociedade machista, patriarcal.

Sem dúvida alguma, isso é bem verdade. Minha Família Feliz é exatamente isso, sem dúvida.

Tempos que mudam. Nesta segunda década do terceiro milênio da Era Cristã, as mulheres buscam sua independência, sua liberdade. Mesmo as mulheres mais simples, não especialmente bem dotadas, mesmo nos países periféricos, subdesenvolvidos, pobres.

Verdade, verdade.

Mas me ocorreu, no entanto, uma outra forma de ver o filme. Uma outra leitura, como dizem os críticos de cinema.

Manana está querendo se libertar não apenas do barulho, da zorra, da falação sem fim, da casa em que vivia com os pais, o marido, os filhos, o marido da filha.

Ela está procurando privacidade – essa coisa que o comunismo aboliu na Rússia e nos países em torno dela tornados satélites quando Lênin, Trótski e seus bolcheviques implantaram a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Na Tbilisi em que a autora e diretora Nana Ekvtimishvili nasceu, assim como em todas as cidades mais importantes da Rússia e dos países vizinhos que ela foi anexando à URSS, tudo deixou de ser privado – inclusive, e talvez principalmente, as residências. Os apartamentos de Tbilisi, assim como os de Moscou, São Petersburgo, Kiev, etc, etc, etc, passaram a abrigar várias famílias.

Um projeto defensável, é claro: igualdade. Direitos iguais. Nada dessa coisa de uns com tanto e tantos sem nenhum.

Teoricamente, ao menos, bastante defensável.

É aquilo que muita gente boa dizia: quem não foi comunista quando jovem, quem não teve simpatia pelo comunismo, meu Deus do céu, que pessoa egoísta, mesquinha, pequena.

Só que não deu certo. Deu no que deu: ditadura, ditadura – e a economia em frangalhos.

Em Os 27 Beijos Perdidos, uma co-produção Geórgia-Alemanha-Inglaterra-França de 2000, outra diretora nascida em Tbilisi e do mesmo prenome, Nana Djordjadze, vingou-se do realismo socialista exigido pelo seu conterrâneo Josef Stálin fazendo um filme virulentamente onírico, doidão, surrealista, que fugia do naturalismo como o diabo da cruz. Numa das sequências mais sensacionais, o viúvo Alexander come uma mulher casada de pé, encostando-a numa mesa. Para ficar mais alto e facilitar o trabalho, joga dois livrões de Karl Marx no chão e bota cada pé em cima de cada tomo do guru do comunismo. Aí a adolescente Sibylla, que havia se escondido exatamente embaixo daquela mesa, pega um isqueiro e põe fogo nos livros de Marx.

Esta Nana autora de Uma Família Feliz, a Ekvtimishvili, exatos 30 anos mais jovem que Nana Djordjadze, não foi pelo irrealismo/surrealismo que tantas outras produções dos países ex-comunistas adotaram. Ela e o marido fizeram um filme sóbrio, um drama consistente, maduro, formalmente convencional, sem fogos de artifício. Mas creio mesmo que, ao mostrar a luta de uma mulher pela sua privacidade, Nana Ekvtimishvili e Simon Groß quiseram também se vingar dos tempos do comunismo.

A vida em grupo, em comunidade, pode ser uma maravilhosa opção – mas nunca uma obrigação.

Cada pessoa tem direito à sua privacidade, ao seu espaço pessoal.

Uma atriz pouco conhecida. E o amor à música

Isso aí acima era um bom fecho de texto – mas, diacho, ainda gostaria de fazer dois ou três registros.

Essa senhora Ia Shugliashvili, que nos apresenta uma atuação tão espetacular, fez pouquíssimos filmes, segundo o IMDb. Este aqui foi seu segundo filme. Depois dele, terminou mais um, o terceiro, e, neste mês de junho de 2020, já estavam em pós-produção mais dois títulos com ela. O grande site enciclopédico não diz mais nada sobre ela. E ela não consta da Wikipedia, nem mesmo em inglês ou francês.

Um segundo ponto: este filme maravilhoso demonstra, de forma inequívoca, que os georgianos adoram música.

É uma delícia ver isso, ao longo deste filme sério, pesado, triste.

É uma coisa que paira acima das gerações. Os mais velhos adoram cantar – juntam-se várias vozes, fazem um belo coral. Os jovenzinhos, igualmente. A música é uma coisa da alma, de todos. Impressionante.

Nisso, e em muitos outros pontos, Minha Família Feliz mostra que os georgianos são bastante parecidos com os iranianos que vemos nos filmes de Asghar Farhadi, nos de Mohsen Makhmalbaf (que, aliás, com problemas no seu Irã natal, fez um filme na Geórgia, O Presidente, de 2014) e de vários outros bons realizadores. Bastante parecidos também com brasileiros, mexicanos, argentinos, australianos, neo-zelandeses, húngaros, austríacos, irlandeses.

E somos, todos, muito maiores que as ideologias.

Anotação em junho de 2020   

Minha Família Feliz / Chemi Bednieri Ojakhi / My Happy Family

De Nana Ekvtimishvili e Simon Groß, Geórgia-Alemanha-França, 2017

Com Ia Shugliashvili (Manana)

e Merab Ninidze (Soso, o marido), Berta Khapava (Lamara, a mãe), Tsisia Qumsishvili (Nino, a filha), Giorgi Khurtsilava (Vakho, o marido de Nino), Giorgi Gio Tabidze (Lasha, o filho), Goven Cheishvili (Otar, o pai),

Dimitri Oragvelidze (Rezo, o irmão), Mariam Bokeria (Kitsi, a noiva de Lasha), Lika Babluani (Tatia Chigogidze). Manana Gamtsemlidze (tia Meri), Avtandil Sakhamberidze (tio Zaur), Anzor Kherkhadze (tio Vaja), Vakhtang Amanatidze (primo Dato), Ketevan Abuladze (primo Ketino), Rusudan Bolkvadze (a mulher da companhia de gás), Asmat Tkabladze (a dona do apartamento), Piqria Niqabadze (Bela, a mulher de Rezo), Eka Mjavanadze (Nato, colega de escola)

Argumento e roteiro Nana Ekvtimishvili

Fotografia Tudor Vladimir Panduru

Montagem Stefan Stabenow

Casting Leli Miminoshvili

Produção Arizona Films, Augenschein Filmproduktion, Centro Nacional de Filmes da Geórgia, Polare Film. Distribuição Netflix.

Cor, 120 min (2h)

***1/2

Um comentário para “Minha Família Feliz / Chemi Bednieri Ojakhi / My Happy Family”

  1. Obrigado Sérgio amigo por esta crónica que me levou a ver outro belíssimo filme; já perdi a conta de quantos bons filmes eu vi graças aos seus conselhos.
    O filme é mesmo excelente e é o primeiro que vejo oriundo da Geórgia.
    Acho que a questão central do filme está no desejo de privacidade da protagonista.
    É impressionante a reacção dos familiares quando ela decide ir viver sozinha, uma coisa perfeitamente natural.
    Parece que toda a gente a quer ter amarrada triste e amargurada àquela cáfila familiar.
    Eu vivo sozinho há muitos anos e sinto-me perfeitamente; em tempos vivi com uma mulher um ano ou dois mas não resultou.

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