Marrocos / Morocco

Nota: ½☆☆☆

Marrocos foi o primeiro filme americano de Marlene Dietrich. É do mesmo ano em que Joseph Von Sternberg e ela realizaram, ainda na Alemanha natal dos dois, O Anjo Azul, 1930 – mas o filme alemão só foi lançado nos cinemas americanos depois que este Marrocos já havia estreado.

É bem possível que isso – o fato de Marlene ser uma absoluta novidade nos Estados Unidos, com aquela beleza marcante, absurda dela, – explique o sucesso do filme, tanto de público quanto de crítica na época. Marrocos teve 4 indicações ao Oscar – melhor direção para Von Sternberg, melhor atriz para Marlene, melhor fotografia para Lee Garmes, melhor direção de arte para Hans Dreier. Foi, aliás, a única indicação ao Oscar de melhor atriz que Marlene teve ao longo de sua extraordinária carreira.

É bem possível que público e crítica tenham ficado mesmerizados com a beleza da mulher, seu charme único, marcante, sua presença magnética diante das câmaras.

O beijo que Amy Jolly – o personagem de Marlene – dá em uma mulher da platéia do nightclub em que ela se apresenta no Marrocos deve de fato ter virado a cabeça das platéias e dos críticos de 1930, aquela época pré-Código mas ainda assim bastante pudica. (O Código Hays de auto-censura dos estúdios só passaria a ser rigorosamente seguido a partir de 1934.)

O fato de Amy Jolly-Marlene se apresentar em um elegantérrimo smoking masculino deve ter deixado meio mundo zonzo.

Amy Jolly-Marlene aparecer longamente com as coxas à mostra – as coxas que seriam cantadas em prosa e verso com as mais belas do cinema – seguramente deve ter influenciado.

Deve haver alguma explicação.

Porque Marrocos é uma imensa, gigantesca, sensacional, absurda porcaria. Um abacaxi azedo, horrendo, grotesco, ridículo como pouquíssimos filmes que já vi na vida – e, diacho, já vi filme pra cacete, das maiores obras-primas aos abacaxis mais azedos.

O que há na tela não chega bem a ser uma história

O que acontece na tela…

Sim, porque não dá para dizer a história é assim, a trama é assim, porque não chega propriamente a haver uma história, uma trama.

O que acontece na tela é mais ou menos assim:

Mulher belíssima, elegante, glamourosa, chega ao Marrocos. Amy Jolly, cantora, artista de vaudeville – o papel de Marlene, claro. Chegou contratada como grande atração de um fantástico, imenso nightclub, cujo dono, Lo Tinto (Paul Porcasi), é o mais perfeito idiota. Primeira apresentação de Amy Jolly no gigantesco nightclub lotado: a mulher arrasa! Dentre todas as centenas de pessoas ali dentro, atenção para dois homens. Um é rico, fino e chique – Monsieur La Bessière, um francês biliardário que, jamais saberemos por qual motivo, adora o Marrocos e tem ali uma casa que é maior que a maior parte dos castelos do mundo, embora fique situada numa rua de grande movimento. É o papel de Adolphe Menjou. O outro é o legionário Tom Brown, um sujeito que é adorado pelas mulheres todas – claro, já que vem encarnado por Gary Cooper, o jovem galã que tout Hollywood aimait bien naquele 1930. Quem é Tom Brown, de onde veio e por que motivo se alistou na Legião Estrangeira jamais saberemos, mas o fato é que por onde ele passa há uma mulher grudada nele – às vezes elas falam em espanhol, outras em alguma coisa que parece que o filme quer nos dizer que é árabe, outras em inglês ruim para mostrar que elas não sabem bem o inglês, o que é natural, já que o Marrocos foi colonizado pelos  franceses, mas isso importa pouco. O que importa é que… tcham-tcham-tcham! Surpresa! Surprise, ladies and gentlemen! Surprise, medammes e monsieurs! Amy Jolly, ali mesmo, enquanto canta sua primeira música no novo emprego, se apaixona perdidamente por… por… O rico fino e chique? Ou o legionário bonitão? Pois é: para surpresa geral, ela se apaixona perdidamente pelo legionário bonitão. E ele por ela. Mas a mulher do superior dele, madame Caesar (Eve Southern), entra no meio, e quer porque quer dar pra ele, mas aí Mademoiselle Amy Jolly sai na noite marroquina para achar o legionário que está naquele momento com a madame Caesar, e aí acontece de dois homens vestidos como árabes atacarem o legionário Tom Brown, o que resulta em que na manhã seguinte ele está sendo interrogado pelo superior dele, o Caesar, não se sabe exatamente por que, e aí chega primeiro o rico Monsieur La Bessière, e em seguida Mademoiselle Amy Jolly, e vai daí que daqui a pouco o legionário Tom Brown combina que vai fugir com Mademoiselle Amy Jolly, mas na última hora some deixando um recado no espelho do camarim dela, e aí ela fica muito triste e bebe, e bebe, e bebe, até que um dia Monsieur La Bessière aparece e a leva para o palacete dele, e aí eles ficam noivos, mas, diabo, Mademoiselle Amy Jolly ama desesperadamente o legionário Tom Brown, e então…

“Um Sternberg inclinado ao exagero e à loucura”

Uau! Cansei.

O que seria uma sinopse séria de Marrocos?

“Uma cantora se apaixona por um legionário”, diz o Cinéguide, o guia das sinopses mais concisas, mais sintéticas de que já ouvi falar.

É conciso, sintético demais.

O Petit Larousse des Films é bem mais detalhado. Vamos lá: “No navio que a leva para a África do Norte, a cantora Amy Jolly rejeita os avanços do rico La Brassière. Pouco depois de sua chegada, é contratada por um café de Mogador frequentado por legionários que ela fascina por sua sensualidade. Ela se sente muito atraída por um deles, Tom Brown, o conquistador da região. Este finge uma indiferença e, depois de uma intriga, é enviado numa missão perigosa. Abandonada, Amy aceita desposar La Brassière, mas, quando ouvir a música da Legião, o amor será mais forte do que tudo…”

Olha… Fico achando que a sinopse séria do ótimo Petit Larousse des Films consegue ser muito mais irônica, gozativa, do que a minha…

Só que esse guia adora o filme. Eis a apreciação que ele faz da obra, depois da sinopse:

“Primeiro filme hollywoodiano de Marlene Dietrich, ao chegar, conquistadora, depois de O Anjo Azul, é a adaptação bastante fiel de um pequeno ‘roman de gare’, pressionado ao extremo por um Sternberg inclinado ao exagero e à loucura… Aquilo que poderia se derramar no ridículo atinge assim o sublime graças à magia de uma direção estruturada   como uma partitura musical.”

Que delícia! Essa é a mais pura linguagem de crítico de cinema: “Aquilo que poderia se derramar no ridículo atinge assim o sublime graças à magia de uma direção estruturada como uma partitura musical.”

O filme é uma porcaria. Um ridículo atroz, sem jeito, sem salvação. Mas, como é Von Sternberg, então neguinho dá um jeito de dizer que ele atinge o sublime graças à magia de uma direção estruturada como uma partitura musical.

Ah, meu…

Marlene conta que estava insegura nas filmagens

Informações:

Marrocos, Morocco no original em inglês, na França foi lançado como Coeurs Brülés, corações queimados. Mais tarde foi renomeado para Morocco.

A tal cena em que Amy Jolly-Marlene Dietrich beija uma mulher acontece durante a primeira apresentação da cantora no nightclub que a contrata. Ela vai caminhando entre as mesas, enquanto canta. E, diante de uma delas, pára e dá um beijo na boca da mulher sentada ali entre dois homens. Um beijo rápido – mas um beijo.

Foi, muito provavelmente, o primeiro beijo entre duas pessoas do mesmo sexo em um filme feito para exibição comercial.

O filme se baseia em um romance de autoria de Benno Vigny (1889-1965), Amy Jolly, die Frau aus Marrakesch (Amy Jolly, a mulher de Marrakech), que havia sido publicado em 1927. Como está dito no verbete do Petit Larousse sobre o filme, é um “roman de gare” – a expressão francesa para designar os romances leves, ligeiros, pouco sérios, descartáveis, de pouco valor literário.

Foi o segundo – depois de O Anjo Azul – dos sete filmes em que Josef Von Sternberg dirigiu Marlene.

Em sua sensível, fascinante autobiografia, Marlene faz todos os elogios possíveis e imagináveis a Von Sternberg. Por várias vezes ela diz que foi Von Sternberg que a criou.

“Com Marrocos começou em 1931 o trabalho conjunto Sternberg-Marlene Dietrich nos Estados Unidos”, relata ela. “Tinha tremenda dificuldades, pois precisava ao mesmo tempo falar inglês corretamente e produzir efeitos misteriosos. O enigma nunca foi meu forte. Sabia aquilo que se esperava de mim, mas jamais tive condições de criar uma aura misteriosa. Em O Anjo Azul foi completamente diferente, o papel de uma mundana ordinária e insolente, provocante e impetuosa; era exatamente o oposto da ‘mulher enigmática’ que Sternberg queria que eu interpretasse em Marrocos.”

Em seguida Marlene fala de seu primeiro dia de filmagem nos Estados Unidos, nos estúdios da Paramount – a primeira cena em que ela aparece no filme, no navio que está chegando da Europa ao Marrocos. O personagem do cavalheiro rico interpretado por Adolphe Menjou vai ao encontro dela. “Queria ajudar-me a recolher meus apetrechos e dizia: ‘Posso ajudá-la, mademoiselle?’ Então a palavra mademoiselle dava imediatamente à mulher que se curvava diante da confusão da mala um traço misterioso. Tinha que responder: ‘Obrigada, não preciso de ajuda’. Mas naquele dia bem que eu podia precisar de ajuda.”

Ela se preocupava com a pronúncia. Sabia que sua pronúncia do “th” da palavra “thanks” não era perfeita. “Centenas de pessoas apareceram para ver a recém-chegada Marlene Dietrich. (…) No final do dia, desatei a chorar. Não na frente dos técnicos, mas no meu camarim, na frente da minha maquiladora, da guarda-roupa, da cabeleireira… Era demasiado para mim. Queria voltar para a Alemanha. (…) Havia deixado meu marido e minha filha em Berlim, regressaria imediatamente para o lado deles. Sternberg ficou parado na porta do meu camarim, bateu suavemente e entrou. Em vinte minutos ele me reanimou.”

Mais adiante, em outro capítulo, Marlene relata que, na pré-estréia do filme para teste da audiência, em um cinema de Pamona, um tanto distante de Hollywood, as pessoas foram saindo no meio da sessão. Ao fim da projeção, o cinema estava quase vazio, e Marlene achou que sua carreira em Hollywood havia acabado antes mesmo de começar. No dia seguinte, no entanto, Von Sternberg apareceu na casa dela para exibir a crítica que havia sido escrita por um sujeito chamado Jimmy Starr. “Depois de o jornalista ter feito um resumo do filme, escreveu: ‘Se essa mulher não revolucionar a indústria cinematográfica, então não sei o que estou dizendo.’”

Bem. Um pouco de exagero do cara, na minha opinião. Marlene foi, além de uma mulher em tudo por tudo fascinante, de vida fantástica – sua firme posição anti-nazista é admirável – uma grande atriz, uma grande cantora e uma estrela como poucas. Mas dizer que ela revolucionaria a indústria é sem dúvida demais.

A estrela importada para concorrer com Garbo

“Paramount constrói Marlene Dietrich para rivalizar com a grande Garbo.” Esse é o título do verbete sobre Marrocos no fantástico livro Cinema Year by Year 1894-2000, que destaca os principais fatos da história do cinema com textos escritos como se fossem notícias de jornal da época. O texto é datado de Hollywood, 4 de novembro – o dia da première mundial do filme.

“O filme Marrocos, da Paramount, traz a segunda colaboração entre o diretor Josef von Sternberg e sua sensacional protegée alemã, Marlene Dietrich. Antes da estréia de O Anjo Azul, Sternberg havia mostrado uma montagem ainda não definitiva do filme à Paramount, e o estúdio concordara em contratar Dietrich para um filme. Não é surpreendente que ela tenha sido colocada de novo como uma cantora de cabaré, desta vez diante da Legião Estrangeira, desistindo do comandante Adolphe Menjou pelo belo e jovem Gary Cooper, e cambaleando atrás dele no deserto em vestido de gala. Marrocos teve sua première em Nova York no mesmo dia que a versão em inglês de O Anjo Azul, e a excitação colossal que este filme gerou fez a Paramount decidir manter a nova estrela a qualquer preço. O estúdio está também investindo milhões de dólares em uma campanha publicitária para construir Dietrich como a mais nova rival para a maior estrela importada pela MGM, Garbo. A batalha real acaba de começar.”

Bom texto. Pena que tenha cometido um errinho: o personagem de Adolphe Menjou, o milionário francês La Bessière, não pertence à Legião Estrangeira.

Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4 ao filme: “Dietrich está sedutora e exótica em seu primeiro filme em Hollywood, como uma cantora de cabaré (presa de forma improvável no Marrocos) que deve escolher entre o rico Menjou e o legionário Cooper. Um deleite. Marlene canta três números, inclusive ‘What Am I Bid’.”

Também o Guide des Films de Jean Tulard dá a cotação máxima de 4 estrelas a Coeurs Brülés. “Por detrás do romance sentimental entre uma cantora e um belo legionário, um surpreendente retrato de uma mulher desenhado por Marlene Dietrich, que ganhou com este filme seu status de estrela nos Estados Unidos.”

Então tá.

Sou fã de carteirinha de Marlene Dietrich. Mas Marrocos é uma porcaria horrorosa, isso sim.

Anotação em maio de 2020

Marrocos/Morocco

De Josef Von Sternberg, EUA, 1930

Com Gary Cooper (legionário Tom Brown), Marlene Dietrich (Mademoiselle Amy Jolly), Adolphe Menjou (Monsieur La Bessière)

e Ullrich Haupt (oficial Caesar, da Legião Estrangeira),

Eve Southern (Madame Caesar), Francis McDonald (sargento Tatoche), Paul Porcasi     (Lo Tinto, o dono do nightclub)

Roteiro Jules Furthman 

Baseado na peça Amy Jolly, de Benno Vigny       

Fotografia Lee Garmes e Lucien Ballard

Música Karl Hajos

Montagem Sam Winston

No DVD. Produção Hector Turnbull, Paramount Pictures. DVD Obras Primas, M.D.V.R.

P&B, 92 min (1h32)

1/2

Titulo na França: Coeurs Brulés, depois Morocco.

Disponível em DVD.

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