Laços de Sangue / Hard, Fast and Beautiful!

Nota: ★★½☆

Laços de Sangue, no original Hard, Fast and Beautiful!, assim, com ponto de exclamação, não está entre os grandes filmes de Ida Lupino, essa mulher fantástica que foi uma pioneira, um exemplo, um símbolo na história do avanço feminino na indústria cinematográfica.

Ida Lupino certamente dirigiu filmes muito melhores do que este. Mas mesmo os menores filmes dela merecem atenção – e este aqui é uma obra de uma mulher sobre mulheres, algo que simplesmente não existia no cinema americano naquele início dos anos 50 (o filme é de 1951).

É um filme que merece respeito – mesmo não sendo lá essas coisas.

Além de ser dirigido por uma mulher e tratar de mulheres, Laços de Sangue tem um olhar interessante, fascinante mesmo, sobre as diferenças entre classes sociais nos Estados Unidos da América, e a ambição sem fim de subir na escala.

Uma ascensão meteórica no mundo do tênis

As protagonistas da história são mãe e filha, Millie Farley (o papel de Claire Trevor) e Florence (o de Sally Forrest), de classe média média de Santa Monica, California. A família tem todos os confortos básicos, mora numa boa casa, mas Millie é uma daquelas pessoas insatisfeitas com a vida. Considera o marido um sujeito acomodado, que não ganha tanto quanto ela gostaria e nem luta para mudar a situação. Veremos que o marido, Will (Kenneth Patterson), é uma boa pessoa, bom caráter – mas não é o marido que Millie gostaria de ter.

Millie é uma mulher frustrada porque não gosta de ser classe média – tudo que queria na vida era ser rica.

Florence, uma garota aí de uns 18 anos (Sally Forrest estava com 23 em 1951, quando o filme foi lançado, mas parece mais jovem), tem uma grande paixão na vida: o tênis. Mas a família não tem dinheiro para colocá-la num clube onde ela pudesse jogar, e Florence passa horas e horas jogando contra a porta da garagem de sua casa.

Por acaso, é vista por um rapaz simpático, Gordon McKay (Robert Clarke), que, também por absoluto acaso, trabalha no Country Club próximo ao bairro da família Farley, e também gosta de tênis. Leva Florence para o clube, começa a jogar com ela. A garota é boa, na verdade é excepcional, e passa a chamar a atenção das pessoas. O patrão do rapaz Gordon, o administrador do Country Club, J.R. Carpenter (Joseph Kearns), vê em Florence uma oportunidade de promover o nome do clube, e arranja adversárias de outras localidades para enfrentar a moça.

Logo surge um expert, um ex-campeão de tênis, na época trabalhando como treinador e empresário de tenistas talentosos, Fletcher Locke (Carleton G. Young), que bate os olhos em Florence e vê uma possível campeã.

A ascensão de Florence no mundo do tênis americano é absolutamente, mas absolutamente meteórica; bem rapidamente ela está disputando o título nacional em Forrest Hills – o Estádio de Wembley, o Roland Garros dos Estados Unidos.

Com a ascensão, vem dinheiro, é claro. Tudo que Millie, a mãe ambiciosa, pedia a Deus.

Mas a transformação de Florence em sensação nacional, e logo internacional, a obriga a ficar longe do pai, com quem tem uma bela relação, e do namorado Gordon. E a garota terá que fazer uma opção: ou a vida de riquezas que a mãe a incentiva a ter, ou os valores que ela preza, a vida simples, o amor do pai e do namorado.

A protagonista é inspirada numa grande tenista, Helen Wills

O roteiro é de uma mulher, Martha Wilkerson (1918-1999), que tem uma filmografia pequena e nenhum título de grande importância. Este Hard, Fast and Beautiful! foi o primeiro roteiro que ela escreveu.

A base é um romance de John R. Tunis (1889-1975), American Girl, publicado em 1930. Segundo consta, o romance, por sua vez, se inspira na vida de Helen Wills, uma grande tenista americana dos anos 20 e 30, que venceu 31 torneios do Grand Slam e ganhou duas medalhas de ouro nas Olimpíadas de Paris de 1924.

Tênis, para mim, é algo parecido com física quântica: não entendo bulhufas daquilo. Não sei o que os apreciadores do esporte achariam do filme: há diversas sequências de jogos ao longo dos 79 minutos de duração de Laços de Sangue. Pelo menos três profissionais ligados ao tênis – dois locutores e um comentarista – interpretam a si mesmos: George Fisher,

Arthur Little Jr. e Edwin Reimers. Obviamente, esses nomes não significam absolutamente nada para nós, mas com certeza eram conhecidos dos apreciadores de tênis na época em que o filme foi lançado.

A bela atriz Sally Forrest (1928-2015) era na época contratada da Metro; o estúdio a emprestou para a pequena produtora do filme, The Filmakers, que, se não me engano, pertencia à própria Ida Lupino. Para interpretar Florence, Sally Forrest tomou lições de tênis com Eleanor Tennant, que aparece nos créditos como consultora técnica e foi a primeira jogadora de tênis a se tornar profissional nos Estados Unios, no início dos anos 20.

Uma bela atriz que virou diretora, uma pioneira

Quando Laços de Sangue foi lançado, em 1951, Ida Lupino era a única diretora mulher trabalhando em Hollywood.

Não é pouca coisa. Ela foi de fato pioneira em um ambiente que até hoje é dominado pelos homens: quase 7 décadas e uma revolução feminista depois, são proporcionalmente bem poucas as realizadoras mulheres. Só para lembrar um exemplo: a primeira mulher a receber um Oscar de melhor direção foi Kathryn Bigelow, por Guerra ao Terror/The Hurt Locker, em 2010.

E não é um fenômeno americano apenas: no livro 501 Movie Directors, editado e organizado por Steven Jay Schneider, há apenas 34 mulheres. É impressionante demais: 467 homens, 34 mulheres.

Nascida em Londres em 1918, Ida Lupino começou a carreira de atriz bem cedo, ainda na Inglaterra, mas logo se radicou nos Estados Unidos, no início dos anos 30. Linda, com os cabelos tingidos de louro claríssimo, platinado, foi chamada de Jean Harlow inglesa. Depois de uma década e meia como atriz em dezenas de filmes, fazendo em vários deles mulheres fortes, independentes, num mundo dominado por homens interpretados por grandes atores como Humphrey Bogart, Ronald Colman, John Garfield e Edward G. Robinson, lançou-se na direção em 1949.

Não estava contente com os papéis que eram oferecidos a ela, e decidiu criar sua própria produtora. O primeiro filme que ela própria produziria seria Not Wanted, com roteiro dela e de Paul Jarrico – sobre uma garota simples de uma cidade pequena seduzida e abandonada grávida por um pianista. O diretor Elmer Clifton teve um ataque cardíaco pouco depois do início das filmagens, e a própria Ida assumiu a tarefa. Seu nome, no entanto, não apareceu nos créditos como diretora – a realização foi creditada a Elmer Clifton.

Dirigiu apenas sete filmes para o cinema, entre 1949 e 1953; este Laços de Sangue foi seu quarto. A partir de 1956, passou a trabalhar na televisão; dirigiu episódios de diversas séries de TV, inclusive da famosa Alfred Hitchcock Presents, em 1960 e 1961, Os Intocáveis, com Robert Stack como Eliot Ness, O Fugitivo, Dr. Kildare, Além da Imaginação e A Feiticeira – todas elas de imenso sucesso e que foram também exibidas no Brasil.

“História simples, direta, linear, filmada de forma desajeitada”

Leonard Maltin foi duríssimo com o filme, para o qual deu 2 estrelas em 4: “Mãe dominadora empurra a filha para o mundo competitivo do tênis.        História simples, direta, linear, filmada (e interpretada) às vezes de forma desajeitada. A diretora Lupino e Robert Ryan fazem rápidas participações especiais.”

Nem reparei nisso. O IMDb explica que os dois aparecem quando o filme está com 34 minutos, no meio dos espectadores, numa sequência em que Florence está jogando em Seabright, Nova Jersey.

Ida Lupino e Robert Ryan trabalharam juntos em um filme lançado naquele mesmo ano de 1951, Cinzas Que Queimam/On Dangerous Ground, de Nicholas Ray. Ida dirigiu algumas sequências do filme, durante dias em que Ray esteve doente; não há menção a isso nos créditos, mas o IMDb coloca Cinzas Que Queimam como um dos sete filmes dirigidos por ela.

Laços de Sangue/Hard, Fast and Beautiful! foi lançado em 2018 pela ótima Versátil Home Vídeo em um boxe de dois DVDs chamado Mulheres na Direção. Tem a honra de dividir o mesmo DVD com L’Une Chante L’Autre Pas, aquela maravilha de filme feminino até a medula que Agnès Varda lançou em 1977.

Anotação em setembro de 2019

Laços de Sangue/Hard, Fast and Beautiful!

De Ida Lupino, EUA, 1951

Com Claire Trevor (Millie Farley), Sally Forrest (Florence Farley), Carleton G. Young (Fletcher Locke, o técnico e empresário), Robert Clarke (Gordon McKay, o namorado de Florence), Kenneth Patterson (Will Farley, o pai de Florence), Marcella Cisney (Miss Martin), Joseph Kearns (J.R. Carpenter, o administrador do clube), George Fisher (o locutor, fazendo papel dele próprio), Arthur Little Jr. (o comentarista em Forest Hills, fazendo papel dele próprio), Edwin Reimers (o locutor, fazendo papel dele próprio)

Roteiro Martha Wilkerson

Baseado no romance de John R. Tunis

Fotografia Archie Stout

Música Roy Webb

Montagem George C. Shrader e William H. Ziegler

Produção Collier Young, The Filmakers, distribuição RKO Radio Pictures. DVD Versátil.

P&B, 79 min

**1/2

Título em Portugal: O Preço da Fama. Na França: Jeu, set e match.

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