Interlúdio / Notorious

Nota: ★★★★

Notorious, no Brasil Interlúdio, de 1946, é o longa-metragem número 32 dos 53 que Alfred Hitchcock realizou. O décimo-primeiro depois que trocou a Inglaterra natal pelos Estados Unidos. O segundo dos três em que dirigiu Ingrid Bergman, o rosto mais belo que já passou diante de uma câmara de cinema. O segundo dos quatro com Cary Grant. Uma obra-prima, uma maravilha.

Quando fez a série de entrevistas com Hitch, no início dos anos 60, que resultariam no sensacional livro HitchcockTruffaut, o maravilhoso diretor francês confessou ao mestre que estava ansioso para chegarem ao ponto de falar sobre Notorious:

“Eu estava de fato impaciente para chegarmos a Interlúdio”, diz François Truffaut no livro, “pois de todos os seus filmes é realmente o meu preferido, pelo menos de todos os seus filmes em preto-e-branco. Interlúdio é a quintessência de Hitchcock.”

Não sabia disso, ao rever o filme agora, para fazer esta anotação. Só li a frase agorinha há pouco, ao começar a escrever sobre o filme – e parei, antes de ler o que Hitch fala sobre seu filme. Porque gostaria de fazer alguns registros já, antes de ser influenciado pelo que diz o cineasta e o que dizem os críticos.

Quero falar de algumas características que me impressionaram demais, na revisão: o roteiro, a história; Ingrid Bergman; o tom sem galhofa, sem ironias; e o Rio de Janeiro.

Uma trama fascinante, um roteiro bem costurado

Não me lembrava, realmente não me lembrava como é bem construída a história, como é bem costurado o roteiro de Notorious. Meu, que brilho!

O roteiro é assinado pelo grande Ben Hecht (1894-1964), um dos maiores do cinema americano, autor ou co-autor dos roteiros que deram origem a mais de 160 filmes, inclusive Quando Fala o Coração/Spellbound (1945), o filme anterior de Hitchcock, também com Ingrid Bergman. Ben Hecht teve 6 indicações ao Oscar, inclusive por Notorious, e venceu duas vezes, por Paixão e Sangue/Underworld (1927) e O Energúmeno/The Scoundrel (1935).

O próprio Hitchcock deu muitos palpites no roteiro, trabalhou junto com Hecht na elaboração dele, e o dramaturgo Clifford Odets teria colaborado com alguns diálogos nas passagens românticas.

A trama é uma maravilha – a trama e a forma com que os personagens centrais se enroscam, se enrolam nos acontecimentos. Notorious é ao mesmo tempo uma história de amor e uma história de espionagem, e ela envolve maravilhosamente o espectador tanto no suspense do caso a Lei versus os Bandidos – o que será que vai acontecer? – quanto na expectativa com o desenrolar do caso de amor – ô diacho, nunca vai dar certo para eles?

A filha do nazista trabalha para os americanos

Aqui é fundamental uma sinopse. Escolho como base a do Guide des Films de Jean Tulard, longa, detalhada, precisa – e acrescento alguns pitacos meus aqui e ali:

Alicia Huberman (o papel de Ingrid) é a filha de um espião alemão condenado a 20 anos de prisão logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. (O quando, a data da ação, é informada ao espectador em um letreiro grande, e por extenso: “Mil, novecentos e quarenta e seis” – exatamente o ano de lançamento do filme.) Alicia, que nunca foi nazista e leva uma vida dissoluta, aceita trabalhar com Devlin (o papel de Cary Grant), agente dos serviços secretos americanos. Eles vão parar no Rio de Janeiro, onde alguns alemães têm atividades suspeitas. Um idílio se forma entre Devlin e Alicia. A missão dela consiste em se infiltrar no grupo de velhos nazistas, dirigido por Sebastian (o papel de Claude Rains, que, quatro anos anos, em 1942, fizera o papel do policial francês corrupto em Casablanca) e abrigado em uma imensa residência.

Ahnn… Alexander Sebastian não é propriamente o diretor do grupo; é o mais rico, talvez o grande financiador do projeto que aqueles nazistas estão tocando; o chefe mesmo do bando é Eric Mathis (o papel de Ivan Triesault). E o grupo não fica propriamente abrigado na “immense demeure”: na gigantesca mansão de estilo inglês, com direito a mordomo, biblioteca, imensa sala de jantar, longas escadas do hall de entrada levando do térreo ao primeiro andar e tudo o mais, moram apenas Sebastian e sua mãe, uma matrona brava como sargento nazista, interpretada por Leopoldine Konstantin, nos créditos iniciais Madame Konstantin. O grupo faz reuniões na mansão – mas não fica propriamente abrigado nela.

Sebastian, que era amigo do pai de Alícia e já havia sido apaixonado por ela no passado, fica feliz por reencontrá-la ali no Rio de Janeiro – por absoluto acaso, ela finge, e ele acredita. E logo a pede em casamento…

E acho que a esta altura dá para abandonar a sinopse do Guide de Jean Tulard.

Uma fascinante, fantástica história de amor

O cinema já contou muitas belas histórias de amor em meio a tempos ruins, difíceis, tempestuosos, em meio a guerras, a bravíssimas disputas ideológicas, políticas – como, só para dar uns pouquíssimos exemplos, os clássicos Casablanca, que Michael Curtiz fez em 1942, e Por Quem os Sinos Dobram, do ano seguinte, 1943, um na Segunda Guerra, o outro na Guerra Civil Espanhola, os dois com também com Ingrid Bergman. Ou Havana (1990), de Sydney Pollack, e Doutor Jivago (1965), de David Lean, um no auge da revolução cubana, o outro no auge da revolução russa.

Poucas vezes, no entanto, criou-se uma situação tão delicada quanto a vivida pela filha de nazista Alicia Huberman e o agente do serviço secreto americano Devlin.

Devlin foi encarregado de convencer Alicia a trabalhar para os americanos – e conseguiu seu intento. Viajam os dois de Miami para o Rio de Janeiro, ficam próximos – e, é claro, é obvio, se apaixonam. Alicia se declara, se mostra absolutamente apaixonada. Devlin, no entanto, é um profissional, está em meio a uma missão importante. E, quando seu superior hierárquico, Paul Prescott (o papel de Louis Calhern), revela para ele qual é afinal a missão de Alícia – aproximar-se do amigo de seu pai, suspeito de ser um nazista, e que já havia sido apaixonado por ela –, o agente Devlin fica absolutamente dividido entre o amor pela moça e o seu dever, seu emprego, sua profissão.

Devlin é obrigado a engolir em seco, a engolir um gigantesco magote de sapos, a ignorar os sentimentos, para seguir em frente, e empurrar a moça para os braços do nazista que se encanta novamente por ela.

E Alicia fica em absoluto pânico porque Devlin, o cara que ama apaixonadamente, não faz nada para impedir que ela continue no plano de se aproximar do homem que já havia sido apaixonado por ela.

E chega o momento em que Alexander Sebastian a pede em casamento! Ela corre para contar a novidade para o chefão Prescott, as autoridades brasileiras e o agente que faz a ligação com ela, o objeto de sua paixão, Devlin.

Seguramente ela esperava que Devlin fizesse alguma coisa para impedir o casamento dela com o nazista. Mas ele não faz nada. Dividido entre o amor por aquela mulher fantástica e o dever, opta pelo dever.

Meu, que história!

Ingrid dá um absoluto show de interpretação

Ingrid… Ah, Ingrid…

Há uma história – uma lenda, uma versão – de que Alfred Hitchcock teria dito a seguinte frase: – ““Ah, Ingrid… So beautiful, so stupid”.

A vida tem caminhos muito estranhos. Tanto Ingrid Bergman quanto Alfred Hitchcock, commodities européias – se é que podemos usar o termo –, foram importadas para Hollywood pelo mesmo sujeito, o então todo-poderoso produtor David O. Selznick. O inglês dirigiu a sueca primeiro em Quando Fala o Coração/Spellbound (1945), um mergulho nas teorias freudianas, tão caras ao realizador, neste Notorious aqui e, três anos depois, em Sob o Signo de Capricórnio/Under Capricorn (1949), um melodramão passado na Austrália em que ela interpreta uma mulher derrotada pela vida, afundada no álcool, infeliz, um horror.

Stupid?

Na minha opinião, já expressa neste site diversas vezes, e de novo no alto deste texto, Ingrid Bergman é o rosto mais belo que já passou diante de uma câmara de cinema. Mas beleza é algo extramente relativo – há quem goste de Pablo Vittar, há quem goste de tatuagem.

Ingrid Bergman é uma das grandes atrizes da história do cinema – e isso não é tão relativo assim, é uma afirmação que se embasa em fatos.

Ingrid Bergman recebeu 34 prêmios, fora outras 17 indicações. Morta em 1982, aos 67 anos, apenas, não chegou à nossa época mais recente em que há mais ou menos umas 250 premiações anuais mundo afora. No tempo dela havia muitíssimo menos premiações. Entre seus prêmios e indicações, fulguram sete indicações ao Oscar (fora sete ao Globo de Ouro, três ao Emmy da TV e dois ao Bafta). Das sete indicações ao Oscar, venceu três – o que a torna uma das mais premiadas atrizes da história da Academia de Hollywood.

A interpretação de Ingrid Bergman como Alicia Huberman é uma maravilha.

Ingrid Bergman bota em seu rosto de beleza inigualável uma gama de sentimentos, de sensações, tão ampla quanto os que há numa peça de Shakespeare, num filme de Akira Kurosawa. Há ali, naquele rosto, naqueles olhos, naquela boca, raiva, medo, apreensão, alegria, paixão, tesão, dúvida, pavor, inquietação, alívio.

É um show, um absoluto, imenso show de interpretação.

O maravilhoso Rio dos anos 40 aparece bem na fita

E o Rio de Janeiro?

Ah, o Rio de Janeiro…

Haveria muito o que falar sobre o Rio de Janeiro, o Brasil, e o cinema americano dos anos 40, os anos Franklin D. Roosevelt. O governo Roosevelt forçou a barra para que o cinema americano (e também a música) puxassem o saco do Brasil. Era preciso atrair o Brasil – então uma ditadura, sob Getúlio Vargas, simpática ao Eixo Alemanha-Itália-Japão – para o lado dos aliados. E então deu-lhe simpatia do showbizz dos States pelo Brazil. O sucesso de Carmen Miranda nos EUA tem a ver com isso, de Serenata Tropical (1940) a Romance Carioca (1950), passando por Minha Secretária Brasileira (1942) e Copacabana (1947).

O Zé Carioca existe por causa dessa necessidade de tirar o Brasil da admiração getulista pelo nazi-fascismo. Há canções e mais canções americanas de loas ao Brasil pelo mesmo motivo.

OK, em 1946 a guerra havia acabado, não era mais necessário tentar seduzir o Brasil nos filmes americanos. Mas o Rio de Janeiro havia ficado um tanto conhecido, tantos tinham sido os filmes no período Roosevelt que se referiam à linda capital daquele paisão grandão da South America. E falava-se bastante, ali, naquele imediato pós-guerra, que muitos nazistas haviam se refugiado em países da América do Sul – algo que era a mais pura verdade, como a História mostraria nos anos seguintes.

Não é nada de se estranhar, portanto, que a trama de Notorious faça com que os suspeitos de serem nazistas e que estariam preparando um novo ataque ao mundo estivessem no Rio de Janeiro.

O que me surpreendeu nesta revisão de Notorious – positivamente, e demais –, foi como o Rio de Janeiro aparece bem na fita.

É absolutamente sabido que Alfred Hitchock é um ser de estúdio. Dentro do estúdio, sentia-se inteiramente à vontade. Detestava esse negócio filmagem em locação, nas ruas, ao ar livre – credo em cruz, que horror!

Alfred Hitchcock é o anti-neo-realismo em pessoa.

Alfred Hitchcock fugia do realismo, fosse ele neo, ou velho, ou velhíssimo, e fugia das ruas, da filmagem nas ruas de verdade, com o mesmo pavor com que o diabo foge da cruz, o vampiro da luz do dia, o fanático da dúvida. O cara detestava filmar fora de estúdio.

Nos filmes de Hitchcock há dezenas e dezenas e dezenas de sequências em que os personagens estão no carro, no meio da estrada. Pois muito bem: em todas elas, os atores estão dentro do estúdio, sentados em uma imitação de carro – enquanto projeta-se sobre uma tela branca, em segundo plano, uma sequência feita por uma segunda unidade, um time menor, que, num truque besta, aparece nos vidros traseiros do carro como sendo o percurso que está sendo feito pelos personagens.

A coisa do carro é só um exemplo. Esse tipo de recurso – primário, primitivo – era muitíssimo usado em todo tipo de cena. Os atores ficam no estúdio – atrás deles projetam-se imagens filmadas anteriormente que os mostram nos mais diferentes lugares.

Notorious é cheio de sequências em que Ingrid Bergman e Cary Grant estão no Rio de Janeiro maravilhoso dos anos 40.

Evidentemente, os dois astros não pisaram no solo carioca, nem muito menos o diretor gorduchinho. Eles não saíram de Hollywood. Uma segunda unidade, no entanto, foi enviada ao Rio. Filmaram o Pão de Açúcar, a entrada da Baía da Guanabara vista do alto – para aparecer na sequência em que Devlin e Alicia chegam de avião ao Rio. Mas mais, muito mais: filmaram sequências na Cinelândia, diante do Teatro Municipal. Filmaram Copacabana, a curva sensual da praia de Copacabana.

E puseram lá na retroprojeção, enquanto os atores, em Hollywood, eram filmados. O fato é que – isso é que é espetacular –, vendo o filme feito em 1946 agora, mais de 70 anos depois, não tive a sensação de que aquilo era tudo um truque de estúdio. Diacho! Parece que Cary Grant e Ingrid Bergman estavam realmente no Rio de Janeiro de 1946, aquela cidade maravilhosamente, esplendorosamente linda.

Uma última observação muitíssimo pessoal, ao rever a obra-prima agora:

Este é um dos grandes filmes de Hitchcock em que não há uma forte presença de algum tipo de humor, de ironia, de gozação.

É algo raro. Pouquíssimas vezes Hitchcock fez filmes sem essa coisa do humor, marca registrada dele.

Notorious tem uma pequena pitada humor no início, nas sequências em que o agente do governo Devlin está se aproximando da filha do espião alemão. Depois não há mais tiradinhas engraçadinhas. O filme fica sério, muito sério.

Pois bem. Depois dessas observações muito pessoais, vamos a fatos e a opiniões de quem entende.

“O velho conflito entre o amor e o dever”

Nas entrevistas que deu a François Truffaut, Hitchcock resumiu assim a história de Notorious: “Era simplesmente a história de um homem apaixonado por uma moça que, durante uma missão oficial, dormiu com outro homem e foi obrigada a se casar com ele. É essa a história.”

E mais adiante: “A história de Interlúdio é o velho conflito entre o amor e o dever. A missão de Cary Grant é empurrar Ingrid Bergman para a cama de Claude Rains. No fundo, é uma situação irônica, e Cary Grant está amargo ao longo de toda a história. Claude Rains é simpático porque foi vítima de sua autoconfiança e também porque ama Ingrid Bergman mais profundamente do que Cary Grant. Portanto, temos aí uma série de elementos de drama psicológico transpostos para uma história de espionagem.”

Truffaut não apenas fazia perguntas a Hitchcock, naquela série de sessões que se transformariam no livro HitchcockTruffaut. Ele também dava suas opiniões – e às vezes até se alongava. Lá pelas tantas, ele diz para o mestre inglês:

Interlúdio foi relançado várias vezes no mundo inteiro, o que muito me alegra, pois, vinte anos depois, permanece extraordinariamente moderno. (Como já foi dito, as entrevistas aconteceram no início dos anos 60.) Contém poucas cenas e é de uma pureza magnífica; é um modelo de construção de roteiro. Quero dizer que nesse filme você conseguiu o máximo dos efeitos com o mínimo de elementos. Todas as cenas de suspense se organizam em torno de dois objetos, sempre os mesmos: a chave e a falsa garrafa de vinho. A trama sentimental é a mais simples do mundo: dois homens apaixonados pela mesma mulher. A meu ver, de todos os seus filmes, é aquele em que se sente a mais perfeita comunhão entre o que você queria obter e o resultado na tela. (…) O grande êxito de Interlúdio deve-se provavelmente ao fato de que ele atinge o auge da estilização e o auge da simplicidade.”

“Ao mesmo tempo frio e cheio de sensualidade”

Depois de uma longa, detalhada sinopse – que transcrevi em parte mais acima –, o Guide des Films de Jean Tulard faz a seguinte apreciação sobre Les Enchaînés, os entrelaçados, os acorrentados, que é como Notorious foi lançado na França:

“Um dos melhores filmes de Hitchcock. Ao mesmo tempo filme de espionagem e drama psicológico, é também uma história de amor tingida de espiritualismo. O tema: pelo bem de seu país, um homem vende a mulher que ama. Esta se sacrifica para expiar os crimes de seu pai. A força da obra vem dentro da maestria da expressão e dentro de sua simplicidade, com Hitchcock recusando todos os grandes artifícios para fazer um filme ao mesmo tempo muito frio e cheio de sensualidade. Algumas cenas ficaram célebres, como aquela dos beijos ou aquele close-up de uma chave, ao final de um longo travelling que começa no alto de uma escada. Uma certa ambiguidade mostra a visão hitchcockiana do nazismo, apresentado como um conjunto de indivíduos ao mesmo tempo perigosos e vítimas do destino. O casal Ingrid Bergman-Cary Grant permanece eterno.”

Além dessa beleza de texto, o Guide des Films dá a Les Enchaïnés a cotação máxima de 4 estrelas.

“O casal Ingrid Bergman-Cary Grant permanece eterno.” É… De fato.

O cinema tem uma imensa quantidade de casais de extrema beleza e charme; Cary Grant contracenou com diversas mulheres maravilhosas, e Ingrid trabalhou ao lado dos maiores galãs de Hollywood, mas os dois juntos são realmente uma coisa fantástica, única. Os dois fariam mais um filme juntos, 12 anos mais tarde, em 1958, Indiscreta/Indiscreet, de Stanley Donen, uma gostosa comedinha romântica.

Hitchcock já havia dirigido Cary Grant em 1941, em Suspeita/Suspicion. Voltaria a dirigir o ator em dois outros excelentes filmes, Ladrão de Casaca/To Catch a Thief (1955) e Intriga Internacional/North by Northwest (1959).

Aqui vão alguns informações sobre o filme e sua produção, tiradas da página de Trivia do IMDb (a página tem nada menos que 47 itens de curiosidades), com pitacos meus:

* Cary Grant guardou como lembrança a chave com a marca “Única” que é importantíssima na narrativa – a chave que Alex Sebastian-Claude Rains guardava, da adega no subsolo da mansão, onde, além das muitas garrafas de vinho, havia também as que continham urânio. Anos mais tarde, o ator deu a chave de presente para Ingrid Bergman. Anos e anos depois, num tributo a Hitchcock, Ingrid surpreendeu o público e o próprio diretor ao entregar a chave para ele.

Deliciosa história!

* Ainda em 1944, quando começavam a trabalhar no roteiro, Hitchcock e o roteirista Ben Hecht consultaram o físico Robert Millikan, prêmio Nobel, sobre como fazer uma bomba atômica. Atenção para a data: 1944, ainda durante a Segunda Guerra. Cientistas pagos pelo governo americano ainda trabalhavam no ultra-secreto Projeto Manhattan, que visava exatamente à criação da bomba nuclear.

Por causa disso, por mexer com o tema urânio, bomba atômica, nos meses em que o Projeto Manhattan era absolutamente secreto, Hitchcock se tornou suspeito aos olhos das autoridades americanas, e durante alguns meses foi seguido por agentes do FBI.

Essa história é contada rapidamente na página de Trivia do IMDb sobre Notorious, mas o próprio Hitchcock falou disso em detalhes para François Truffaut, e o relato dele está no livro HitchcockTruffaut.

* A cena dos beijos na varanda do apartamento ocupado por Alicia-Ingrid Bergman na Avenida Atlântica, com parte da praia de Copacabana visível em segundo plano, teve bastante improviso – nas falas e no gestual. Hitch instruiu Cary Grant e Ingrid a conversarem como se fosse um casal apaixonado. A cena ia contra as determinações do Código Hays, o código de autocensura dos estúdios de Hollywood, que proibia esse negócio de beijo de língua e exigia que os beijos não durassem mais de 3 segundos.

* O todo-poderoso David O. Selznick, que tinha tanto Alfred Hitchcock quanto Ingrid Bergman sob contrato, vendeu o pacote completo – o projeto do filme, o trabalho do diretor, da atriz, o roteiro de Ben Hecht – para a RKO Pictures, pela bagatela de US$ 80 mil mais 50% dos lucros na bilheteria. Ele estava precisando de capital para concluir Duelo ao Sol (1946), um filme no qual estrava apostando tudo. Queria que o western fosse um incrível sucesso que projetasse a atriz Jennifer Jones – sua paixão avassaladora na época – como uma das maiores estrelas do cinema mundial.

Hitchcock fala dessa venda do pacote completo nas suas conversas com François Truffaut. Ele diz: “o produtor (…) nos ‘revendeu’, a nós todos, para a RKO: Ingrid Bergman, Cary Grant, o roteiro e eu; tudo isso como um pacote”. Umn pouco adiante, Hitch acrescenta que o filme custou no total US$ 2 milhões e “faturou US$ 8 milhões de lucro líquido”.

“O beijo em close mais longo do cinema” até então

E, para fechar, mais um par de opiniões.

Pauline Kael, a prima donna da crítica americana, chata de galocha, define o filme em uma frasezinha típica dela: “Great trash, great fun”. Grande lixo, grande diversão. Mas admie que Ingrid Bergman está literalmente ravishing naquela que é provavelmente sua atuação mais sexy. Nisso Dona Kael está certa: Ingrid Bergman está literally ravishing – arrebatadora, encantadora.

Leonard Maltin deu 3.5 estrelas, e não a cotação máxima de 4: “História de espionagem de primeira linha de autoria de Ben Hecht, passada na América do Sul após a Segunda Guerra Mundial, com Ingrid se casando com o espião Rains para ajudar os Estados Unidos e o agente Grant. Franco, tenso, com boas atuações e um climax supreeendente e cheio de suspense (e uma memorável cena de amor apaixonado).”

O livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer fala da história de Selznick ter vendido o pacote inteiro para a RKO, do fato de que o produtor metia a mão em tudo o que seus contratados faziam e comenta: “Até mesmo David Thomson, o biógrafo de Selznick, admite que a qualidade do filme se deve ao fato de Selznick não ter estado lá para arruiná-lo”.

E mais adiante: “O intenso drama triangular de Interlúdio nos força constantemente a mudar a maneira como no sentimos a respeito dos três protagonistas, com Rains chegando a mostrar um heroísmo bizarro no fim. O filme é também um romance suntuoso, com Grant e Bergman realizando que era, até aquele momento, o beijo em close mais longo do cinema.”

É isso. Uma maravilha de filme.

Anotação em novembro de 2019

Interlúdio/Notorious

De Alfred Hitchcock, EUA, 1946.

Com Cary Grant (Devlin), Ingrid Bergman (Alicia Huberman)

e Claude Rains (Alexander Sebastian), Louis Calhern (Paul Prescott, o chefe de Devlin), Leopoldine Konstantin (Mme. Sebastian, a mãe de Alexander), Reinhold Schünzel (Dr. Anderson), Moroni Olsen (Walter Beardsley), Ivan Triesault (Eric Mathis), Alexis Minotis (Joseph, o mordomo dos Sebastian), Wally Brown (Mr. Hopkins), Charles Mendl (o comodoro), Ricardo Costa (Dr. Barbosa), E.A. Krumschmidt (Emil Hupka), Fay Baker (Ethel)

Argumento e roteiro Ben Hecht

(com colaborações não creditadas de Alfred Hitchcock e Clifford Odets)

Fotografia Ted Tetzlaff

Música Roy Webb

Montagem Theren Warth

Produção Alfred Hitchcock, RKO Radio Pictures.

P&B, 102 min (1h42)

R, ****

Título na França: Les Enchaînés. Em Portugal: Difamação.

5 Comentários para “Interlúdio / Notorious”

  1. Não vi.
    O primeiro filme de Hitchcock que vi no cinema foi, salvo erro, Dial M for Murder que é de 1954.
    este é de 1947, ainda eu era bébé.
    É verdade que vi muitos outros filmes mais antigos em DVD mas este nunca despertou a minha curiosidade.
    Talvez por ser uma história de amor e histórias amor não me seduzem, não tenho a certeza.

  2. “Anotação em novembro de 2020”

    Além de manjar de cinema, ainda viaja no tempo.

    Belo texto, descobri o site há pouco tempo mas já favoritei. Parabéns!

  3. Opa! Obrigado, Cauê, por chamar minha atenção para o erro… Claro que é novembro de 2019. Já corrigi lá…
    Um abraço!
    Sérgio

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