Elisa & Marcela / Elisa y Marcela

Nota: ★★★☆

Elisa & Marcela (2019) é um filme que se dedica com imenso empenho a demonstrar como é extremamente belo o amor de duas pessoas – e como pode ser estupidamente forte, violento, virulento, agressivo o preconceito de parte da sociedade contra aquilo que não entende, não admite, não aprova.

Tenho imensa admiração pela realizadora Isabel Coixet. Este Elisa & Marcela é o sétimo longa-metragem que vejo dela – e todos eles são bons filmes:

Minha Vida Sem Mim, Espanha-Canadá, 2003;

A Vida Secreta das Palavras, Espanha, 2005;

Fatal/Elegy, EUA, 2008;

Assumindo a Direção/Learning to Drive, Inglaterra-EUA, 2014;

Ninguém Deseja a Noite, Espanha-França-Bulgária, 2015;

A Livraria, Espanha-Inglaterra-Alemanha, 2017.

É uma cineasta que não foge dos temas complexos, complicados, difíceis, ou polêmicos, controvertido. Muito ao contrário, ela vai atrás desses temas. Aborda situações extremas, os limites a que o ser humano pode chegar. Como escrevi sobre Nadie Quiere la Noche: “Seus filmes são belos, marcantes – mas duros, densos, muitas vezes apavorantes, cruéis. Muita gente, talvez a maioria, prefere afastar os pensamentos sobre as coisas mais dolorosas da vida. Isabel Coixet, não – ela as enfrenta. O tema de seus filmes são sempre as coisas mais dolorosas da vida.”

Assim, por exemplo, em A Vida Secreta das Palavras, mostrou a relação entre um homem que passou pelo trauma de ter quase toda a pele queimada num incêndio numa plataforma marítima de petróleo e uma jovem croata sobrevivente da guerra dos Bálcãs, absolutamente traumatizada. Em Minha Vida Sem Mim, a protagonista é uma moça simples, comum, classe média baixa, que vive uma vida duríssima, mãe de dois filhos e, aos 24 anos de idade, fica sabendo que está com um câncer terminal. Em Ninguém Deseja a Noite, mostra o sofrimento maluco, completamente absurdo, de uma mulher que resolve enfrentar as temperaturas mais baixas que um ser humano já enfrentou, num ponto bem próximo do Pólo Norte.

Sem dúvida alguma, Elisa e Marcela sofrem demais, comem o pão que o diabo amassou bem amassadinho, ao enfrentar a fúria das pessoas comuns e das autoridades pelo fato de se amarem – mas, entre as personagens dos filmes de Isabel Coixet, não são propriamente as pessoas que mais sofreram,

Um filme de estilo formalista, maneirista

Assim como Josephine Peary (1863-1955), a esposa do explorador Robert Edwin Peary, que acompanhou o marido em várias de suas expedições no Círculo Polar Ártico, e é a protagonista de Ninguém Deseja a Noite, as duas personagens centrais deste filme aqui são pessoas reais. O filme informa isso já bem no início, com o letreiro “Inspirado em uma história real”.

Gosto muito quando um filme diz isto. “Baseado em história real” é algo óbvio: está-se dizendo que se pretende contar a história com fidelidade aos fatos reais. “Inspirado em uma história real” me parece ainda mais corajoso: já se indica claramente que houve muita liberdade no trato dos fatos reais – criaram-se eventos, situações, para contar de modo um tanto mais enfeitado, romanceado, uma história que aconteceu realmente.

“Enfeitado” é bem o caso aqui. É perfeitamente o caso aqui – e isso me espantou bastante.

Todos os filmes anteriores de Isabel Coixet têm um estilo bastante direto, simples, claro, objetivo, limpo.

Bem diferentemente dos anteriores, no entanto, Elisa & Marcela é – especialmente na sua primeira metade, antes que comecem a surgir os problemas, a violência, a brutalidade – um filme bastante formalista, maneirista.

“Repare como a fotografia é esplendorosa!”

É um filme que faz um imenso, descomunal esforço para ser belo plasticamente, visualmente. E as imagens captadas pela diretora de fotografia Jennifer Cox são sem dúvida alguma belíssimas, de babar. A amplidão das paisagens da primeira sequência, na Patagônia argentina, quase o extremo Sul das Américas. A maravilha das paisagens junto do mar em Coruña, na Galícia, extremo Noroeste da Espanha. As fantasticamente belas tomadas dos corpos das atrizes Natalia de Molina (Elisa) e Greta Fernández (Marcela) se entrelançado.

É de fato – repito, insisto – um visual belíssimo, de babar.

Mas, afe… Quanto esforço para ser belo! Fiquei exausto por ver tanto esforço para criar imagens belas. Tanto formalismo. Tanto maneirismo.

A fotografia em preto-e-branco de Elisa & Marcela se justifica plenamente: afinal, o filme relata fatos acontecidos entre 1898 e 1925 – a época em que no cinema só havia o preto-e-branco.

A opção pelo preto-e-branco permitiu uma das coisas mais fascinantes do filme, na minha opinião – a mistura, nas sequências passadas na cidade do Porto, em Portugal, de imagens do filme de agora com filmes históricos, reais, mostrando a paisagem do Porto em 1901, 1902, os anos em que concentra a maior parte da ação do filme.

Tudo bem, a opção pelo preto-e-branco é plenamente justificada – mas a sensação que tive, quase o tempo todo, era de que tudo foi feito com um esforço tremendo, hercúleo, para realçar a beleza plástica. Como se o filme estivesse o tempo todo falando com o espectador: Repare como a fotografia é esplendorosa!

Foi impossível não lembrar de outros filmes assim: A Fita Branca (2009) de Michael Haneke. Ida (2013) e Guerra Fria (2018), os dois de Pawel Pawlikowski. Todos eles de visual absurdamente belo – todos eles cansativamente gritando no ouvido do espectador que são absurdamente belos.

Talvez seja uma questão de idade. Quando era garoto, adorava todo tipo de fogos de artifício, truques visuais, criativóis. Cansei deles.

Cada vez mais me preocupa com a coisa do spoiler

Gostaria de tratar da questão que cada vez me preocupa mais ao escrever sobre um filme: a coisa de que não se deve revelar para quem ainda não viu a obra fatos que não estão bem no inicio da narrativa, porque isso é spoiler, é estraga prazer.

Não me parece correto contar de cara, sem avisar nada sobre a coisa do spoiler, fatos que acontecem só lá pela metade do filme, ou depois da metade do filme. Mesmo quando todas as sinopses contam, revelam, antecipam, entregam, estragam.

Então aqui vai o aviso: logo abaixo vão informações que, embora constem de todas as sinopeses sobre o filme, são, a rigor, a rigor, spoilers. Quem não viu o filme deveria parar de ler este texto agora – e, se for o caso, voltar depois de ter visto.

A não ser, é claro, que não se incomode em ver o filme já sabendo boa parte da história…

Atenção: aqui vão spoilers. Spoilers, spoilers.

Eis a sinopse da própria Netflix, que distribuiu o filme: “Elisa Sánchez Loriga adota uma identidade masculina para poder se casar com a mulher que ama, Marcela Gracia Ibeas, na Espanha de 1901. Baseado em uma história real.”

A do IMDb: “Em 1901, Elisa Sánchez Loriga assumiu a identidade de Mario Sánchez para se casar com sua amante por 15 anos, Marcela Gracia Ibeas”.

A da Wikipedia: “O filme conta a história de Elisa Sánchez Loriga e Marcela Gracia Ibeas, duas mulheres que se fizeram passar como um casal heterossexual para casar em 1901 na Igreja de San Jorge, em A Coruña, tornando-se o primeiro casamento do mesmo sexo realizado na Espanha.”

A de um leitor do IMDb que se identifica como lament: “O primeiro casamento de pessoas do mesmo sexo na Espanha depois da era do Império Romano aconteceu em 8 de junho de 1901. Duas mulheres, Marcela Gracia Ibeas e Elisa Sánchez Loriga, se casaram em A Coruña (Galícia, Espanha). 1885. Elas se conhecem na escola em que ambas estudavam…”

São corretas todas essas sinopses. Não há erros factuais nelas. Só antecipam o que só vai acontecer quando o filme já passou da metade de seus 118 minutos.

Abre, como já foi dito, na Patagônia argentina, embora não se use o termo Patagônia. Um letreiro informa: “Provincia de Chubut, Argentina, 1925”. Uma jovem mulher (e só no final do filme, quando a ação voltar a Chubut, 1925, saberemos quem ela é – chama-se Ana, e é interpretada por Sara Casasnovas) viaja num trem, depois anda mais um tanto em uma charrete numa região plana, vasta, sem fim, e praticamente deserta, até descer diante de uma casa isolada no meio do nada.

A uma boa distância da casa, depois de descer da charrete que lhe deu carona, ela pára. Fica lá parada – até que uma senhora já idosa sai da casa, e caminha com uma certa dificuldade até onde está a jovem recém-chegada.

A mais velha está toda de preto. A jovem está de branco.

A mais velha pergunta se pode passar a mão no rosto da jovem. Passa a mão.

(Formalismo, formalismo… Achei aquilo estranho, tão pouco a Isabel Coixet que eu conhecia…).

Algum tempo depois, há o diálogo:

A senhora: – “Suponho que haverá coisas que você queira saber.”

A jovem: – “Coisas? (Pausa.) Tudo.”

Pausa.

A senhora: – “É quase impossível.”

Corta, e voltamos para A Coruña, 1898, quando Elisa e Marcela se conhecem numa escola de freiras.

É paixão à primeira vista. Tremor de terra.

O filme termina ao som de uma canção de Caymmi

Depois da última sequência do filme – bela, emocionante mesmo –, e antes dos créditos finais, vemos na tela letreiros com estas informações:

“O casamento homossexual foi legalizado na Espanha em 2005.”

Meu Deus: 104 anos depois que Elisa e Marcela se casaram na Igreja de San Jorge, enganando o padre e o mundo!

“Hoje é legal em apenas 25 países do mundo.”

“Em 72 países, a homossexualidade é punida como crime: em 14 deles, é castigada com penas que vão de 14 anos até prisão perpétua.”

“Em 13 deles, com a pena de morte.”

Em seguida, surge na tela, sozinha, uma foto de um casal, em roupa de gala – seguramente, as verdadeiras Elisa e Marcela, a primeira em sua personificação de Mário. (É a foto abaixo.)

E, a partir daí e ao longo dos créditos finais que vão rolando sem pressa, ocupando mais de cinco minutos, vamos vendo fotos de diversos casamentos de mulheres.

Como se ainda fosse necessário, ao final Isabel Coixet escancara que seu filme é um hino, uma ode, uma elegia ao casamento gay.

Um detalhinho fascinante: os créditos finais começam a rolar ao som de… “Nem eu”, a maravilhosa canção de Dorival Caymmi, aquela dos versos extraordinários – “Não fazes favor nenhum / Em gostar de alguém / Nem eu, nem eu, nem eu. / Quem inventou o amor / Não fui eu / Não fui eu nem ninguém”. Foi escolhida uma gravação belíssima, mas que eu jamais tinha ouvido: as vozes de Salvador Sobral e Julio Resende, cantores portugueses, e um piano, apenas, tocado pelo segundo, que é compositor e pianista.

Uma beleza, uma beleza.

Publicações dirigidas ao público gay elogiaram muito

A página da Wikipedia sobre o filme mostra que ele foi recebido com opiniões conflitantes, opostas. Houve quem descesse o cacete de forma brutal, sem qualquer respeito pela carreira gloriosa da realizadora. Um tal Jay Weissberg da Variety, a bíblia do showbiz americano, diz que é um filme “feito aborrecidamente” que se considera “um bravo toque de clarim pelos direitos gays”.

Lee Marshall, da Screen, escreveu que o filme é “um drama de época convencional e previsível”, que “não perde uma oportunidade de fazer o amor proibido parecer chique como um anúncio de perfume”. Acho que o filme não tem nada de convencional ou previsível, mas que algumas das cenas de sexo – belíssimas, repito – parecem anúncio de perfume, lá isso parrecem.

No Hollywood Reporter, Clarence Tsui escreveu que, “querendo provar uma tese, a realizadora entregou uma peça desprovida das nuances emocionais que fizeram de Brokeback Mountain ou Carol, para citar duas histórias seminais de amor do mesmo sexo, tão arrebatadoras e emocionantes”.

Aparentemente, no entanto, o filme foi muito bem recebido por platéias gays e publicações dirigidas a elas. David Opie, de uma publicação chamada Gay Essential, escreveu: “A paixão que os personagens dividem é explosiva, infundindo em cada uma das cenas de amor uma urgência primal que parece mais real que a maior parte dos romances de Hollywood. Nunca obsceno, Elisa y Marcela – isso fica claro – foi filmada por uma diretora mulher, para uma audiência feminina. Não há aqui um olhar masculino.”

Na minha opinião, as cenas de amor são belas, muito belas – até exageradamente belas, parecendo mesmo, como disse o cara lá, anúncios de perfume. Não têm absolutamente nada de obsceno, de forma alguma.

As duas atrizes, Natalia de Molina e Greta Fernández, estão maravilhosas – e, bem, saber dirigir atores é uma das especialidades de Isabel Coixet. Nunca tinha visto Greta Fernández, mas ela tem já 27 títulos em seu currículo.

Natalia de Molina está em outro belo filme, Viver é Fácil com os Olhos Fechados, que Daniel Trueba lançou em 2013. Nascida na Andaluzia em 1989, Natalia de Molina, nestes seis anos que separaram Viver é Facil… deste Elisa y Marcela, amadureceu, floresceu. Está uma boa atriz e uma mulher fascinantemente, encantadoramente bela, fazendo companhia a tantas compatriotas – Penelope Cruz, Ana Belén, Paz Vega, Adriana Ugarte… Eta país de atrizes lindas, siô. E de belos filmes.

Anotação em setembro de 2020

Elisa & Marcela/Elisa y Marcela

De Isabel Coixet, Espanha, 2019

Com Natalia de Molina (Elisa), Greta Fernández (Marcela)

e Sara Casasnovas (Ana), Tamar Novas (Andrés, o lenhador), Lluís Homar (o governador de Porto), Manolo Solo (prefeito), María Pujalte (a mãe de Marcela), Francesc Orella (o pai de Marcela), Kelly Lua (Flor), Manuel Lourenzo (pároco Victor Cortiella), Jorge Suquet (médico de Dumbría), Ana Santos (a vizinha mais velha), Mariana Carballal (a monja professora de História), Roberto Leal (sacerdote de Dumbría), Luisa Merelas (a monja cega)

Roteiro Isabel Coixet

Baseado em ensaio literário de Narciso de Gabriel

Adaptação Ardwight Chamberlain

Fotografia Jennifer Cox

Música Sofia Oriana Infante

Montagem Bernat Aragonés

Casting Irene Roqué

Produção Lanube Películas, Axencia Galega das Industrias Culturais, Institut Català de les Empreses Culturals, Rodar y Rodar Cine y Televisión, Televisió de Catalunya (TV3), Zenit Television. Distribuição Netflix

P&B, 118 min (1h58)

***

 

Um comentário para “Elisa & Marcela / Elisa y Marcela”

  1. Olá!

    Gosto muito desses filmes com histórias de pessoas comuns, como nós. Eu curto filmes de aventura e ação, adoro comédias e romances e principalmente vibro com suspenses bem feitos. Mas nada me toca mais que um drama carregado de sentimentos e dores; geralmente, ao final, as personagens se mostram mudadas, melhores, e concluem que a despeito das tristezas, valeu a pena viver.

    Então, inevitavelmente, Isabel Coixet é uma diretora que muito me interessa, desde quando assisti ao seu “A Vida das Palavras”, que considero magnífico. Torço para que ela continue fazendo muitos filmes assim, agarrando e mostrando pra nós como a vida é complexa, bruta, difícil – mas inexplicavelmente bela.

    Obrigado pela indicação, vou já procurar ver este filme! Depois volto pra ler a parte dos spoilers…

    Abraços.

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