Damas de Preto / Ladies in Black

Nota: ★★★☆

É difícil que possa haver um filme mais róseo, mais Polyanna, mais positivo do que Ladies in Black, que Bruce Beresford dirigiu na sua Austrália natal e foi lançado em 2018.

Conta a história de quatro mulheres que trabalham numa grande e elegante loja de departamentos de Sydney, em 1959 – e é uma daquelas reconstituições de época absolutamente fenomenais, esplêndidas, maravilhosas.

Baseia-se em The Women in Black, o primeiro dos quatro únicos romances escritos por Madeleine St. John (1941-2006), uma australiana de Sydney mesmo, que, no ano que escolheu para datar os acontecimentos que narra no livro, tinha 18 anos, apenas dois a mais que a mais jovem das suas quatro personagens, Lisa.

Fiquei com a sensação, enquanto via o filme, de que Lisa tem muito da autora do romance. Era apenas uma sensação, e uma pequena pesquisa após o fim do filme não encontrou informação que comprovasse que Lisa é de fato uma personagem com toques autobiográficos. A não ser essa coincidência de datas. Em dezembro de 1959, Lisa (interpretada no filme por Angourie Rice) tinha 16 – e Madeleine St. John tinha 18.

Volto a falar dessa coisa de que Lisa me parece um alter ego da autora do romance mais adiante, mas isso não importa tanto. O que impressiona muito em Ladies in Black é o tom róseo.

O filme vem sendo rotulado de comédia e drama, e suas variações, tipo dramédia. Tem muitos momentos bastante engraçados, bem humorados, interessantes, gostosos, embora a graça, o bom humor, sejam daqueles que fazem o espectador abrir um sorriso – mas não propriamente gargalhar. O fascinante é a ausência de drama.

Não há drama em Ladies in Black. Não há drama nas vidas daquelas quatro mulheres. As adversidades que surgem diante delas são pequenas, bem pequenas. Não há bandidos, na trama criada por Madeleine St. John e roteirizada pelo próprio diretor Bruce Beresford e Sue Milliken, ela também australiana, também de Sydney. Não há sequer gente mau caráter.

Não estou exagerando – tenho certeza – quando digo, e agora repito, ser difícil que possa haver um filme mais róseo, mais Polyanna, mais positivo do que Ladies in Black.

Mas não é, de forma alguma, um filme pouco sério, fantasioso, escapista. Bem ao contrário.

Embora conte sua história em tom suave, leve, bem humorado, Ladies in Black é uma ode, uma elegia à imigração, à aceitação dos diferentes e das diferenças, à mistura, ao aprendizado com os não iguais.

É um delicado, elegante porém firme libelo contra os supremacistas, os xenófobos, os intransigentes, os segregacionistas, os que defendem muros em vez de pontes.

A garota cita Molière. “Molly quem?”, pergunta a outra    

Fay e Patty são amigas, confidentes; trabalham já há algum tempo na Goodes, a gigantesca loja de departamentos do centro de Sydney. Ambas estão aí na faixa dos 30 anos, e trabalham na seção de roupas femininas. Fay (Rachel Taylor) é bastante bonita, loura, solteira. Patty (Alison McGirr), também uma bela mulher, de cabelos pretos, é casada com Frank (Luke Pegler), um sujeito meio rude, meio bronco. (As duas estão na foto acima.)

O passado afetivo-sexual de Fay só será revelado na segunda metade do filme. O fato de que Frank não é muito de trepar o espectador fica sabendo logo, numa conversa entre as duas amigas.

A gerente da Goodes, a austera Miss Cartwright (Noni Hazlehurst) confia a Fay e Patty uma nova funcionária, uma estagiária, garota de 16 anos, chamada Lisa. O primeiro diálogo entre as moças define bastante sobre elas. Lisa terminou o segundo ciclo, e quer se candidatar a uma vaga na universidade – algo que, o filme deixa muito claro, não é para todos. As vagas são disputadíssimas, e a esperança de Lisa é obter bolsa de estudos. As duas veteranas – que, se percebe claramente, jamais pensaram em fazer faculdade – perguntam o que Lisa quer fazer quando for adulta, e a garotinha, com óculos gigantescos, diz que gostaria de ser poeta, ou então atriz. Fay faz uma nova pergunta relacionada a teatro de variedades, chorus line, e Lisa diz que não é bem esse o tipo de coisa em que ela pensa. Ela pensa em teatro assim de Shakespeare, Eugene O’Neill, Molière.

– “Molly quem?”, Fay pergunta baixinho para Patty.

Bem mais adiante, a própria Fay dirá não conhece coisa alguma de literatura, de música, de teatro, de arte.

Já Lisa, aos 16 anos, está acabando de ler Anna Kariênina.

O preconceito contra os estrangeiros desaparece

A quarta das mulheres que trabalham na Goodes e são as protagonistas da história criada por Madeleine St. John não é australiana – e Fay e Patty não gostam nada dela, no início da narrativa.

Chama-se Magda (o papel da maravilhosa Julia Ormond, na foto abaixo), e é a responsável pela área da Goodes que vende vestidos da alta costura, assinados pelos grandes nomes europeus. Fay e Patty acham que ela é presunçosa, metida; não gostam da moça porque ela está sempre atraindo as estagiárias para trabalharem com ela – como fará com Lisa – e também, e talvez até principalmente, porque ela não é australiana. É uma “refugiada” – o termo que, segundo o filme mostra, os australianos usavam para todos os europeus que se mudaram para o país pouco antes, durante e após a Segunda Guerra Mundial.

Magda é eslovena, casada com um húngaro, Stefan (o papel de Vincent Perez). Um grande amigo do casal, também húngaro, Rudi (Ryan Corr), pedirá a Magda que o apresente a uma australiana da gema – ele gostaria de namorar uma australiana. Magda não consegue pensar em ninguém, mas Lisa lembrará de Fay. Afinal, Fay é uma mulher solteira.

Magda fica amiga da garota Lisa; percebe que ela é especialmente inteligente, além de boa pessoa. E convida Fay para passar o réveillon com ela, o marido, a colega de ambas Lisa e um grupo de amigos, todos imigrantes europeus.

E basta um pouco de convivência com aquelas pessoas para que o preconceito que Fay tinha contra os “refugiados” vá se desfazendo bem rapidamente.

E, afinal, como alguém lembra num belo diálogo, a Austrália não é, afinal de contas, um país de imigrantes?

Exatamente como os Estados Unidos. Exatamente como o Brasil. Exatamente como todos os países das Américas.

Um diretor de filmes suaves, mas sérios, importantes

Críticos atentos notaram a maravilha que é o que o filme diz, mostra, defende. No Hollywood Reporter, Neil Young – um homônimo do grande cantor-autor, claro – escreveu: “De forma discreta, mas efetiva, Ladies in Black salienta como são positivas a imigração e a integração, e assim merece atenção maior do que apenas em seu país.” No jornal The Australian, David Stratton escreveu: “Ladies in Black pode ser visto, erroneamente, como leve ou ligeiro; não é. Ele é cheio de subtexto e nuance, e ao mesmo tempo consegue ser um entretenimento muito agradável.”

É exatamente isso: de forma suave, mas firme, o filme de Bruce Beresford é uma abençoada ode à integração, à mistura – e, diabo, como o mundo está precisando disto, nestes tristes tempos de Donald Trump, Boris Johnson, Jair Bolsonaro!

Bruce Beresford, creio, é um realizador menos reconhecido, admirado, do que merece – apesar de ter tido duas indicações ao Oscar de melhor diretor. Depois de ver o filme, li o verbete sobre ele na Wikipedia, que fala de alguns filmes que ele realizou e foram fracassos de bilheteria ou de de crítica. Seu primeiro longa, feito na Austrália, The Adventures of Barry McKenzie (1972), foi sucesso de público na sua terra natal e na Inglaterra, mas, segundo o diretor diria mais tarde, as críticas foram tão ruins que ele teve dificuldade para conseguir uma nova oportunidade. Em 1975, dirigiu uma comédia na Inglaterra, Side by Side, que pouca gente viu. De novo na Austrália, ele escreveu e dirigiu um thriller, Money Movers (1979), que foi outro fracasso nas bilheterias. Mais tarde, depois de já haver feito filmes de sucesso, ainda amargou outro grande desapontamento nas bilheterias, Rei David (1985), com Richad Gere.

Não sabia desses fracassos. O fato é que, a partir de Breaker Morant, de 1980, que deu a Beresford uma indicação ao Oscar, o realizador passou a fazer filmes bem recebidos pelo público e pela crítica. Em 1983 fez A Força do Carinho/Tender Mercies, bela história de um cantor country cheio de problemas, que deu o Oscar de melhor ator para Robert Duvall e uma indicação ao prêmio de melhor diretor.

E em 1989 veio Driving Miss Daisy, com Morgan Freeman e Jessica Tandy, Oscar de melhor filme, grande sucesso de público e crítica. Driving Miss Daisy também fala de racismo, das distâncias entre as classes sociais e das agruras da velhice – tudo de uma maneira absolutamente suave. Como escrevi ao revê-lo em 2013: “Conduzindo Miss Daisy é um filme feito de suavidade, delicadeza, sutileza”.

E depois viriam diversos bons filmes, feitos ora nos Estados Unidos, ora na Austrália, às vezes em co-produções com outros países. Não tinha idéia de que já havia tantos filmes do diretor aqui no 50 Anos:

Jogos de Conexão / A Good Man in Africa, EUA-África do Sul, 1994;

A Última Chance / Last Dance, EUA, 1996;

Risco Duplo / Double Jeopardy, EUA, 1999;

E Estrelando Pancho Villa / And Starring Pancho Villa as Himself, EUA, 2003;

O Contrato / The Contract, EUA-Alemanha, 2006;

O Último Dançarino de Mao / Mao’s Last Dancer, Austrália, 2009;

Paz, Amor e Muito Mais / Peace, Love & Misunderstanding, EUA, 2011.

O diretor foi colega da autora do livro

Há uma informação fascinante, que revela muito sobre o filme: Bruce Beresford e Madeleine St. John foram amigos, estudaram juntos na Universidade de Sydney. Ela ainda não era uma escritora: foi só nos anos 90, já radicada na Inglaterra, que passou a se dedicar à literatura.

Ladies in Black tem – para além sua aparente simplicidade, seu tom róseo – um jeito de obra que foi feita com amor, com ligação pessoal dos autores com os temas que estão sendo tratados. Fica claro, como já foi dito bem lá acima, que Lisa tem muito a ver com a autora do romance. É natural que, ao retratar uma garota classe média para média baixa de Sydney, na sua adolescência no final dos anos 50, como inteligente, sensível, leitora voraz de grandes obras, que sonhava em ser uma artista – atriz, poeta, novelista, ou as três coisas ao mesmo tempo – Madeleine St. John estivesse pensando em si própria.

Assim como é natural que Bruce Beresford tenha sido atraído para o projeto não apenas porque é uma história contra xenofobia, racismo, intolerância, mas porque tem a ver também com ele, com sua vida pessoal, que também foi adolescente na mesma época que Lisa, na mesma Sydney do pós-guerra. E por ser uma história escrita por uma colega sua de universidade.

Uma informação que está no IMDb: não existiu uma loja de departamento chamada Goodes em Sydney ou em qualquer outro lugr da Austrália. O nome é fictício – mas a loja parece bastante com uma que realmente existiu, David Jones Limited. Algumas sequências do filme foram rodadas no sétimo andar de um prédio onde funcionou uma das lojas da cadeia David Jones Limited.

Outra informaçãozinha preciosa: o filme preto-e-branco falado em francês, com legendas em inglês, que Rudi e Fay (na foto acima) vêem no cinema (e eu não reconheci, o que sempre me deixa frustrado, com a sensação de que conheço pouquíssimo) é Gervaise, no Brasil Gervaise – A Flor do Lodo (1956), de René Clement, com a maravilhosa Maria Schell no papel título. Na saída do cinema, Rudi até fala para Fay que o diretor do filme é René Clement – e ela confessa que aquela foi a primeira vez que viu um filme francês.

Detalhe: no IMDb, o filme aparece apenas como Ladies in Black, sem o título com que está (ou esteve) disponível no Now, Damas de Preto. Isso indica que, ao menos até agora, setembro de 2019, o filme não foi exibido no circuito comercial do Brasil.

E, finalmente, Julia Ormond.

Julia Ormond é uma das grandes paixões cinematográficas dos meus tempos de adulto. Nem me lembro quando vi Julia Ormond pela primeira vez – deve sido em Mistério na Neve/Smilla’s Sense of Snow (1997), um drama de mistério dirigido pelo bergmaniano Bille August. Acho que ela tem, além de imenso talento, um dos rostos mais belos da História do cinema. Não teve, no entanto, o sucesso que merecia, e penso que isso tem a ver com o fato de ela ter feito o papel que havia sido de Audrey Hepburn na refilmagem de Sabrina feita por Sydney Pollack em 1995; creio que a indústria e os críticos jamais a perdoaram pela ousadia de se colocar no lugar que havia sido de Audrey. Mas minha opinião não interessa.

O fato é que ela está muito bem como essa Magda, uma eslovena fina, refinada, refazendo a vida num país distante. Inglesa do Surrey, Julia Ormond deve ter treinado exaustivamente para fazer aquele sotaque de Magda. É uma graça – é sempre um enorme prazer ver e ouvir Julia Ormond.

E é isso. Um filme róseo – e, ao contrário do que pode parecer para os mais apressados, um filme que tem o que dizer, e diz muitissimo bem.

Anotação em setembro de 2019

Damas de Preto/Ladies in Black

De Bruce Beresford, Austrália, 2018

Com Julia Ormond (Magda), Angourie Rice (Lisa), Rachael Taylor (Fay), Alison McGirr (Patty)

e Ryan Corr (Rudi), Vincent Perez (Stefan, o marido de Magda), Susie Porter      (Mrs. Miles, a mãe de Lisa), Shane Jacobson (Mr. Miles, o pai de Lisa), Noni Hazlehurst (Miss Cartwright, a gerente da Goodes), Nicholas Hammond (Mr. Ryder, o concièrge da Goodes), Luke Pegler (Frank, o marido de Patty), Celia Massingham (Myra), Geneviève Lemon (Mrs. Wentworth), Danny Adcock (médico), Deborah Kennedy (a mãe de Myra)

Roteiro Sue Milliken & Bruce Beresford

Baseado no romance The Women in Black, de Madeleine St. John     …

Fotografia Peter James

Música Christopher Gordon

Montagem Mark Warner

Casting Christine King

Produção Lumila Films, Ladies in Black SPV, Screen Australia, The Ruskin Company.

Cor, 109 min (1h49)

***

2 Comentários para “Damas de Preto / Ladies in Black”

  1. Olá! Concordo com tudo o que vc escreveu sobre o filme, que assisti duas vezes e assisto sempre quando está na programação da HBO. É um filme que provoca em mim saudades imensas, misturadas com carinho, dignidade, fidelidade, cultura. Sou filha de imigrantes e experienciei as sutilezas tratadas no filme. Parabéns por essa crítica, que evidenciou os toques subliminares que poucos conseguem perceber. Por exemplo, embora se trate de uma loja de departamento de alto padrão, as atendentes se vestem de preto, obrigatoriedade da função, mas não é um uniforme. Apenas um broche com o logo da loja as diferencia da clientela. Um respeito sutil à individualidade.

  2. Gostei muito da resenha, das informações sobre a obra. É importante obras que levem a reflexão sobre a xenofobia, a importância dos estudos para as moças, a literatura como prazer, como profissão, os relacionamentos, as tentativas de superar os preconceitos e o racismo, que todos nós em algum momento vivemos
    .Mas com vontade podemos superar, afinal, somos todos cidadãs e cidadãos do Mundo!

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