Consequências / The Aftermath

Nota: ★★★★

The Aftermath, no Brasil Consequências, é daqueles filmes que não enganam o espectador nem por um momento. Desde as primeiras tomadas, os primeiros minutos, demonstra claramente que estamos diante de um grande filme.

É um filmaço, uma maravilha, uma beleza essa co-produção Inglaterra-Alemanha-EUA de 2019. E o simples fato de ser uma co-produção desses três países, em si, já é um gol. The Aftermath discute os sentimentos, as sensações, as ações de alemães e ingleses logo após a fim da Segunda Guerra Mundial. Mostra as relações entre alemães e ingleses, vencidos e vencedores, justamente nos momentos que se seguiram ao conflito mais letal da História, que deixou um total estimado entre 70 e 85 milhões de mortos no mundo, cerca de 3% da população do planeta na época.

Não que seja algo inédito – não é, de forma alguma. Já houve diversas co-produções sobre a Segunda Guerra reunindo países que lutaram uns contra os outros, americanos e japoneses, alemães e franceses, italianos e russos. Só para dar um exemplo, americanos e japoneses uniram talentos e dinheiro (US$ 25 milhões, uma fortuna em 1970) para contar, em Tora! Tora! Tora!, a história do ataque à base de Pearl Harbor, no Havaí, no dia 7 de dezembro de 1941, que deu início à guerra entre os dois países. O filme mostra os pontos de vista das duas frentes—desde os dias que antecederam o ataque surpresa até uma cuidadosa reconstituição dos eventos em Pearl Harbor.

Há grandes filmes americanos e também ingleses sobre os primeiros meses e anos da Alemanha destroçada pela guerra; seria absolutamente fácil citar uma dezena, uma dúzia. Houve mais filmes americanos e ingleses, seguramente, do que alemães. Creio que dá para dizer com segurança que os próprios alemães só conseguiram fazer filmes sobre a época da guerra e o imediato pós-guerra já com uma distância de anos, ali pela década de 70, com a geração de Rainer Maria Fassbinder.

Mas eu fiquei com a clara, nítida sensação de que The Aftermath é o mais belo, o mais sério, o mais profundo filme que já foi feito sobre a relação pessoal entre vencidos e vencedores na Alemanha, logo no aftermath da Segunda Guerra.

Que isso não leve o eventual leitor a pensar que The Aftermath é um filme chato, papo-cabeça. Não, não, de forma alguma. É um belíssimo drama, uma belíssima história, uma trama sensacional. É um filme que dá imenso prazer de ver. Mas é também um daqueles filmes que oferecem imenso material para, se estiver a fim, você pensar, analisar, conjeturar, pesar.

Por trás da história fascinante, há muito elemento para a gente pensar sobre nacionalismo, ódio em escala grupal, preconceito, desejo de vingança, olho-por-olho-dente-por-dente. E também sobre coisas mais internas, mais pessoais – a forma com que se pode reagir às tragédias pessoas, a forma com que você pode optar por se relacionar com quem está perto de você, a forma com que você encara uma traição conjugal.

Pessoas que se odeiam vivendo sob o mesmo teto

A trama deste The Aftermath na verdade é mais do que belíssima, sensacional, como falei logo acima. É, literalmente, genial.

Coloca os quatro protagonistas da história morando juntos numa mesma casa, nos arredores de Hamburgo, apenas cinco meses após o fim da guerra – conforme indica uma legenda bem no início da narrativa. Dois ingleses e dois alemães. Um casal de ingleses, os vencedores, e pai e filha alemães, os derrotados.

A casa – na verdade uma mansão, bela, imensa, no meio de uma grande propriedade um tanto afastada da cidade, um tanto no meio do campo, como uma Downton Abbey – pertence aos derrotados, mas, como derrotados, pai e filha são obrigados a ceder a casa para os vitoriosos, um coronel do exército inglês e sua mulher.

A rigor, pelas regras estabelecidas pelos vitoriosos, pai e filha deveriam desocupar sua mansão, e deixá-la inteiramente para os vencedores.

É por uma deferência, uma generosidade do vitorioso, o coronel Lewis Morgan (Jason Clarke), que os proprietários da casa, derrotados na guerra, podem ficar morando ali, já que o imóvel é tão imenso – desde que eles permaneçam sempre no terceiro andar, e deixem para os ingleses todo o térreo e o segundo andar.

Ao chegar à casa em que vai viver enquanto o marido está lotado em Hamburgo, a mulher do coronel, a protagonista central da história, Rachel Morgan, se recusa a apertar a mão de Herr Lubert, o dono do imóvel do qual ela está tomando posse.

Herr Lubert é o papel de Alexander Skarsgård. Rachel Morgan é o de Keira Knightley – e, diacho, de uma Keira Knightley no auge da beleza jovem-madura, uma beleza faiscante, de que o diretor James Kent e seu diretor de fotografia, Franz Lustig, sabem muitíssimo bem tirar proveito.

Há algumas tomadas deste The Aftermach em que Keira Knightley aparece mais bela do que em qualquer outro dos muitos bons filmes que estrelou.

Da mesma forma com que a inglesa Rachel se recusa a cumprimentar o alemão Lubert, a filha deste, Greta (o papel de Rosa Enskat), sequer tenta demonstrar qualquer educação, civilidade, para o casal que – como ela entende, e como é a rigor a verdade dos fatos – invadiu e roubou sua casa.

Vão viver sob o mesmo teto, por algum tempo, portanto, um coronel inglês que matou muitos alemães; uma adolescente alemã que tem ódio dos ingleses que roubaram sua casa; uma jovem senhora inglesa que tem profundo ódio dos alemães; e um arquiteto alemão rico que perdeu tudo quando seu país perdeu a guerra, e, conforme veremos, dependerá das boas graças dos vencedores para obter um documento que o permita andar livremente em seu próprio país.

Personagens muitíssimo bem construídos

The Aftermath, dirigido pelo inglês James Kent, se baseia no romance de mesmo nome de autoria do escritor galês Rhidian Brook. Esse autor nasceu na pequenina cidade litorânea de Tenby em 1964, 19 anos, portanto, após o fim da guerra. após a época em que passa a história que criou.

Jamais tinha ouvido falar dele, e parece que neste caso específico sequer tenho que me desculpar por minha ignorância: numa pesquisa, embora que rápida, vejo que Rhidian Brook jamais teve uma obra sua publicada no Brasil, em livro, ao menos naquele tipo de livro que entendo como livro, um troço de papel que a gente segura nas mãos e passa as páginas. A Livraria Cultura diz que tem lá umas obras dele – em e-book, e nunca em português.

The Aftermath, de 2013, é o quarto livro do autor. E o fato é que a trama que ele criou – e que ele mesmo transformou no roteiro final, depois daquele que foi escrito por Joe Shrapnel & Anna Waterhouse – é de fato magistral.

Mas não só a trama e o roteiro são magistrais. Também o desenho dos personagens é extremamente bem feito – e a direção firme, segura de James Kent, mais o talento dos atores, acabam por formatar maravilhosamente aquelas personalidades.

Atenção: a partir daqui, spoilers!

Há, na trama, informações que não são fornecidas de cara ao espectador; ao contrário, são mostradas pouco a pouco, e só serão explicitamente faladas quando o filme já vai ali perto da metade. Assim, me sinto obrigado a fazer o aviso: se o eventual leitor ainda não tiver visto o filme, deve parar de ler – e ver The Aftermath, Esta anotação aqui é um comentário para quem já viu.

Quando a ação começa, “cinco meses após a vitória dos Aliados”, como informa um letreiro bem no início – ou seja, em outubro de 1945 –, tanto a família inglesa Morgan quanto a família alemã Lubert já haviam perdido entes queridos.

Os bombardeios alemães sobre a Inglaterra mataram Michael, o filho único do casal Lewis e Rachel Morgan. Os bombardeios aliados sobre a Alemanha mataram a mulher de Lubert, a mãe da adolescente Greta.

Por isso Rachel tem ódio profundo de todos os alemães – sem parar para pensar se entre eles há nazistas e não nazistas. Para Rachel, que perdeu o filho num bombardeio alemão, todos os alemães são o horror dos horrores.

Exatamente da mesma maneira, para a adolescente alemã Greta, que perdeu a mãe num bombardeio aliado, provavelmente inglês, ou talvez americano, o que daria – na cabeça dela – no mesmo, todos os ingleses (e americanos, e russos, e franceses, e canadenses, e o escambau) são o horror dos horrores.

O ódio. Essa coisa tão absolutamente poderosa.

Greta é uma adolescente, apenas. Sabe pouca coisa da vida, do mundo. Tem ódio de quem matou a mãe.

Rachel, mais velha, é, naturalmente, uma personalidade muitíssimo mais complexa. Sim, claro, ela odeia os alemães porque foram os alemães que mataram seu filho. Não se sente nada, nada, nada bem em ter que sair de seu país para morar durante um tempo no país dos inimigos, ou ex-inimigos, vá lá. De qualquer maneira, os assassinos de seu filho.

Mas a coisa é bem complexa. Desde que Michael morreu no bombardeio, ela e o marido foram ficando absolutamente distantes um do outro. Eles se amavam – mas a morte do filho único os fez se distanciarem, se fecharem, cada um deles, como se fossem porcos-espinhos, tatuzinhos-bolas.

A dor que sente por ter perdido o filho – e, de alguma forma, também o marido – a faz pensar só nela mesma. Transformou numa pessoa incapaz de perceber o mundo além de seu nariz e sua dor. É absolutamente incapaz de ver a profunda miséria em que a Alemanha e os alemães foram lançados, as cidades transformadas em gigantescos amontados de ruínas – tudo é escasso, tudo é difícil, as pessoas passam fome.

Herr Lubert é, entre os quatro protagonistas da história, o mais difícil de se definir – provavelmente o mais multifacetado.

Não era nazista, de forma alguma. Como ele diz de forma firme, peremptória, num interrogatório conduzido por um militar inglês que parece terrivelmente com um interrogador da Gestapo, sempre foi contra tudo, absolutamente tudo o que os nazistas defendiam.

Era um homem muito bem de vida – a mulher tinha fortuna, era herdeira de proprietário de estaleiros. Não batalhou contra os nazistas, quando os nazistas eram ainda um banco de idiotas, malucos, bagunceiros – assim como toda a grande burguesia alemã. De alguma maneira, permitiu – assim como sua classe social toda – que eles chegassem ao poder. E depois não dava para fazer mais nada.

Claro, tinha ódio dos aliados que mataram sua mulher. Mas é forçado a engolir em seco esse ódio, a escondê-lo. Esforçava-se para se dar bem com o casal que veio ocupar sua casa – afinal, precisava obter o documento de “limpo”, de não colaborador com os nazistas, para sobreviver.

Lewis Morgan – o coronel do exército inglês, o homem que estava ali enfrentando a duríssima realidade de ajudar a administrar uma cidade destruída, com a população miserável – é o único, dos quatro protagonistas da história, de quem se pode dizer que é uma boa pessoa, uma pessoa altruísta, magnânima, uma pessoa que pensa nos outros, que se preocupa com os outros tanto quanto consigo mesmo – ou talvez até mesmo mais.

Quando ele e a mulher recém-chegada da Inglaterra passam de carro pela Hamburgo quase completamente destruída pelos bombardeios aliados, Lewis contabiliza para Rachel que os aliados jogaram não sei quantas vezes mais bombas sobre Hamburgo em apenas poucos meses de 1945 do que os nazistas lançaram sobre Londres ao longo de toda a guerra.

A informação não comove Rachel. Não chega a tocar em Rachel. Ela está fechada em si pelo ódio, não consegue enxergar o mundo.

As pessoas fechadas em si pelo ódio não enxergam nada além de seu próprio nariz, além de seu próprio ódio. Temos no Brasil, nestes terríveis anos de 2019, 2020, a comprovação disso.

Há os que têm simpatia pelos miseráveis – e os que não

Há uma personagem secundária, que aparece pouco, mas tem importância na história. É um ser maligno, uma pessoa do mal. Chama-se Susan (Kate Phillips), e é uma inglesa de Londres, amiga de Rachel; reencontram-se num elegante restaurante de Hamburgo para um chá vespertino. Ela é casada com aquele inglês com jeitão de torturador da Gestapo, um tal Burnham, creio (que, se eu estiver certo, é interpretado por Martin Compston).

Susan se refere a Lewis Morgan como “o Lawrence de Hamburgo” – e, como Rachel não mostra qualquer reação, ela insiste: – “O que simpatiza com os habitantes da colônia”.

Uma atitude racista, colonialista, filha da puta – uma referência a Thomas Edward Lawrence, o militar britânico que teve papel fundamental na revolta árabe da época da Primeira Guerra Mundial, e seria retratado no extraordinário épico de Sir David Lean Lawrence da Arábia (1962).

Lewis Morgan de fato se importa com os alemães que vivem ali em Hamburgo na mais absoluta miséria, em meio a uma cidade quase inteiramente destruída pelos bombardeios aliados. Simpatiza com eles, tem profunda pena da miséria em que vivem.

Para os seres malignos, as pessoas do mal, ter simpatia pelos absolutamente destituídos, pelos absolutamente miseráveis, é algo horroroso, que deve ser combatido.

 “O resultado ou período que se segue a um evento ruim”

Aftermath.

Consequências, o título escolhido pelos exibidores brasileiros, é bom, tem tudo a ver, sim, com o espírito, com toda a história, e, afinal, é a tradução mais literal. Mas de alguma maneira me parece tão mais fraco que o original…

Aftermath, me parece, é uma palavra mais ampla, mais poderosa do que consequência. Mesmo que no dicionário seja quase sinônimo. Diz o Dictionary of English Language and Culture da Longman – e aí há a diferença: “O resultado ou período que se segue a um evento ruim, como um acidente, tempestade, guerra, etc”. O grifo é meu. Aftermath é a consequência, sim – o resultado. Mas é também o período – algo que a palavra portuguesa não abrange.

Há bem poucas informações sobre The Aftermath no IMDb, o site enciclopédico que tem tudo sobre os filmes. Ou ao menos havia, em abril de 2020, quando vi o filme e fiz esta anotação. A única informação interessante na página de Trivia sobre o filme é que não é o corpo de Keira Knightley que vemos nas cenas de sexo: é uma dublê.

“Keira Knightly usa uma dublê nas cenas de nudez do filme”, diz o IMDb. “Depois de ter dado à luz sua filha em maio de 2015, Keira Knightley, que tinha sido vista nua na tela diversas vezes desde os 16 anos, anunciou que não iria mais fazer cenas de nudez. Disse que no passado não se incomodava em expor seus seios porque ‘eles são tão pequenos que as pessoas na verdade não estão tão interessadas’ – porém não mais. ‘Eu me sentia mais confortável com a nudez antes. Tenho uma filha, estou nos meus 30 anos, estou muito feliz com meu corpo’, disse. ‘Mas não sinto que tenha que mostrá-lo como antes.’”

Achei interessante essa decisão da atriz.

Nua desde os 16 anos, é? Essa informação me fez ir atrás da filmografia de Keira Knightley, uma atriz que aprecio muito, que tem um número grande de bons filmes na carreira.

Keira Knightley nasceu em Middlesex, Inglaterra, em 1985. Começou a carreira em 1993, com apenas 8 anos de idade – eu não sabia disso. Não vi filme dela algum aí de 2001, 2002, quando tinha 16, 17 anos. Vejo agora – nunca soube disso – que ela interpretou Lara Antipova numa versão minissérie inglesa de 2002 do Doutor Jivago de Bóris Pasternak, o papel que havia sido de Julie Christie no filme dirigido por Sir David Lean em 1965.

Meu Deus: a moça foi Lara Antipova com 17 aninhos! E, em 2005, aos 20 aninhos, foi Elizabeth Bennet, a protagonista de Orgulho & Preconceito dirigido por Joe Wright – que a dirigiria de novo no absolutamente extraordinário Desejo e Reparação/Atonement, de 2007. E em 2012 foi Anna Karenina na – que eu saiba – quarta versão importante do livro, também sob a direção de Joe Wright.

Meu Deus do céu e da terra: em 2012, aos 27 anos de idade, a moça já havia feito o papel das heroínas criadas por Bóris Pasternak, Jane Austen, Ian McEwan e Liev Tolstói!

Reafirmo: poucas vezes esteve tão extraordinariamente bela quanto no papel dessa tão triste Rachel Morgan.

O que é apenas uma das qualidades deste filme extraordinário.

Anotação em abril de 2020

Consequências/The Aftermath

De James Kent, Alemanha-Inglaterra-EUA, 2019

Com Keira Knightley (Rachael Morgan), Jason Clarke (Lewis Morgan), Alexander Skarsgård (Stephen Lubert), Flora Thiemann (Freda Lubert, a filha de Stephen)

e Anna Katharina Schimrigk (Heike, uma das empregadas da casa dos Lubert), Kate Phillips (Susan, a amiga de Rachel), Martin Compston (Burnham, o militar da área de inteligência), Jack Laskey (Wilkins), Fionn O’Shea (Barker), Mirco Kuball (soldado), Rosa Enskat (Greta), Frederick Preston (Michael Morgan, o filho de Rachel e Lewis),

Roteirto Joe Shrapnel & Anna Waterhouse e Rhidian Brook   

Fotografia Franz Lustig

Música Martin Phipps

Montagem Beverly Mills

Casting Arwa Salmanova

Produção BBC Films, Amusement Park Films, Fox Searchlight Picturesm Scott Free Productions.

Cor, 108 min (1h48)

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Disponível no Now em abril de 2020

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