Aqui em Casa Tudo Bem / A Casa Tutti Bene

Nota: ★★★☆

Quem estiver atrás de surpresas, reviravoltas, ineditismos não vai achar nada disso em A Casa Tutti Bene, no Brasil Aqui em Casa Tudo Bem (2018), de Gabriele Muccino. É um mezzo drama, mezzo comédia sobre família, relações familiares – e então não cabem surpresas, reviravoltas, ineditismos.

Como dizia o título do filme de Mario Monicelli de 1992, Parente é Serpente. E quando se diz num título que está tudo bem é óbvio que nem tudo está bem, ou então que simplesmente tudo vai muito mal. Estão aí para provar isso, por exemplo, filmes como Tudo Bem (1978), de Arnaldo Jabor, Estamos Todos Bem/Stanno Tutti Bene (1990), de Giuseppe Tornatore, e sua refilmagem americana como Estão Todos Bem/Everybody’s Fine (2009), de Kirk Jones.

Aqui, na história criada por Gabriele Muccino – e roteirizada por ele e Paolo Costella, com a colaboração de Sabrina Impacciatore –, mostra-se uma grande família que se reúne para a celebração das bodas de ouro de um casal, na ilha em que eles vivem agora que estão idosos e aposentados.

Era para ser uma festa diurna – uma celebração na igreja da ilha, a mesma em que os dois haviam se casado, meio século antes, seguida por um grande, amplo, lauto, alegre almoço. E em seguida todos os visitantes iriam embora de volta para o continente.

Só que aí acontece de chegarem ventos fortes, ondas grandes – as balsas param de trabalhar, e todo mundo fica preso na ilha.

Algo assim como uma mistura daqueles filmes citados aí acima com O Anjo Exterminador de Buñuel – sem o nonsense da falta de explicação racional para o fato de os convidados não conseguirem sair do local da reunião festiva.

Ventos fortes, a balsa não vem – e todo mundo é obrigado a ficar ali na ilha.

O clima de festa alegre vai se deteriorando. Os fantasmas escapam dos armários. Os ciúmes, as invejas, as mentiras, as raivas acumuladas – tudo vem à tona.

Lá pela metade dos 105 minutos de A Casa Tutti Bene, tudo está um absoluto horror, um inferno.

Nada menos de 18 personagens

Entre minhas muitas idiossincrasias há uma que é forte, pesada: não gosto de histórias em que todos os personagens são antipáticos, chatos, desinteressantes, mal-intencionados, maus caracteres. Porque a vida real não é assim. A vida só é assim em filmes chatos, aborrecidos, metidos a bestas.

Gabriele Muccino não caiu nessa bobagem. A família que ele criou não é formada apenas por pessoas chatas, ruins. Tem de tudo – como na imensa maioria das famílias.

São, ao todo, se não errei nas contas, 18 personagens – 18 pessoas da família, parentes, fora uns outros poucos que aparecem, como o sacerdote que faz a celebração na bela igreja da ilha igualmente bela.

Nos créditos iniciais, aparecem os nomes de 15 atores. Quinze, meu! Numa demonstração de que não há no filme protagonistas principais de um lado e coadjuvantes de outro, aparecem os nomes de 15 atores em ordem alfabética pelo sobrenome. Para vergonha e tristeza deste velho cinéfilo aqui, admirador desde sempre do cinema italiano, apenas dois dos 15 nomes me eram familiares – duas atrizes veteranas, veteraníssimas, Sandra Milo e Stefania Sandrelli. (Mas há no elenco uns seis ou sete atores de cujo nome não me lembrava mas que estão em filmes já comentados neste site.)

O filme abre com a chegada das pessoas ao cais de onde embarcarão para a ilha onde mora o casal das bodas de ouro. É gente demais: exige-se uma atenção especial do espectador. E o diretor de fotografia Shane Hurlbut usa uma câmara ágil, esperta, inquieta, que faz travellings, que se alonga mostrando os muitos personagens. Mas na verdade o estranhamento que o espectador poderá ter irá se dissipar rapidamente. O roteiro bem urdido mostrará direitinho quem é quem.

Um cinema em que só trabalhador é gente boa

A deusa Stefania Sandrelli, em 2018 com gloriosos 72 anos de idade, faz Alba, a matriarca que está celebrando as bodas de ouro com Pietro (Ivano Marescotti). É bela a sequência da celebração das bodas, que vem ainda quando o filme está começando. O sacerdote (Gianfelice Imparato) faz um discurso interessante – e, quase sem que o espectador perceba, sobrepõe-se à fala do padre a fala de Pietro, já à cabeceira da grande mesa em torno de que toda a família se reúne.

Pietro lembra que, 50 anos antes, espantou os pais monarquistas de Alba, sendo ele um comunista, e do Norte. Mas, apesar de tudo, o casal foi em frente, e, com o tempo, conseguiu comprar o restaurante no qual ele, Pietro, trabalhava como garçom. E aí se esforçaram, trabalharam, trabalharam, passaram-se todos aqueles anos, e ali estavam eles, podendo comemorar os 50 anos juntos.

Faço aqui um comentário. Não foi nada à toa que Gabriele Muccino e sua co-roteirista Paolo Costella colocaram logo ali, quando o filme ainda está com só uns 15 minutos, essa explicação de que a) Pietro era comunista; b) ele trabalhava como garçom no restaurante; c) foi necessário muito trabalho duro para que o casal conseguisse enfim comprar o restaurante.

Há uma longa tradição no cinema italiano, esse cinema que foi simplesmente o melhor do mundo durante um bom tempo, entre o fim da Segunda Guerra Mundial e ali pelo menos o início dos anos 80: só gente das classes trabalhadoras são boas. Só gente que passa por necessidades é de fato gente boa. Passou um tanto da linha da pobreza, já vai ficando mau caráter. Rico, aí não tem jeito: rico é gente ruim, doente do pé e da cabeça.

Trocentos filmes italianos esculpiram essa tradição. Os grandes cineastas italianos esculpiram essa tradição – quase todos eles. Vittorio De Sica, Roberto Rosselini, o Federico Fellini inicial. De alguma forma, também Visconti, o aristocrata comunista. E mais Ettore Scola, Mario Monicelli, Dino Risi, Elio Petri. De seu próprio jeito, Pier Paolo Pasolini.

Para o cinema italiano que importa, de 1945 para cá, pobre é sinõnimo de gente boa. Rico é sinônimo de ruim, doente da cabeça e do pé.

Gabriele Muccino é relativamente jovem – nasceu (em Roma) em 1967, chegou aos 20, 21 anos ali por 1987, quando alguns dos grandes mestres já haviam desaparecido, e o encantamento geral da inteligentzia italiana pelo Partido Comunista já não era mais o mesmo.

Mas é compreensível que ele siga a tradição.

O casal tem dois filhos homens e uma mulher

A menção à ideologia não vai se demonstrar importante na trama. Os problemas daquela família não advêm das diferenças ideológicas. Lá pelas tantas alguém até cita o nojento direitista Silvio Berlusconi – mas não é de política que o filme quer falar.

É de relações humanas.

O casal que comemora os 50 anos de casamento teve três filhos: Paolo (Stefano Accorsi), Carlo (Pierfrancesco Favino) e Sara (Sabrina Impacciatore – que também colaborou no roteiro). Carlo e Sara tocam o restaurante da família; Paolo é o filho pródigo, escritor, poeta, que esteve viajando pelo mundo, visitou a distante Patagônia.

Paolo é separado da mulher, e convive muito pouco com o filho, que nem quis ir à festa dos avós.

Carlo está no segundo casamento, com Ginevra (Carolina Crescentini), uma mulher terrivelmente ciumenta, possessiva, que reclama de tudo – em especial de Elettra, a primeira mulher do marido (Valeria Solarino), e de Luna (Elisa Visari), a filha adolescente de Carlo e Elettra. Uma das queixas constantes de Ginevra é que o marido dá pouca atenção à filha deles, garotinha aí de uns 6 a 7 anos (não achei o nome nem da garota nem o da atriz que a interpreta).

Sara é do tipo que faz as coisas, que produz, que organiza. Foi dela a organização da festa das bodas de ouro. É casada com Diego (Giampaolo Morelli), e os dois têm um garoto aí de uns 8 anos, Vittorio (Christian Marconcini). Diego é safado, tem uma amante faz tempo; Sara sabe da existência da amante. Diego diz que o caso já acabou, Sara finge que acredita.

Num dos belos diálogos do filme, Sara pergunta para a mãe como foi que ela aguentou as traições todas de Pietro. Alba-Stefania Sandrelli diz que não foi fácil, foi muito doído – mas o que importa é que os dois ficaram juntos, estão juntos até agora, 50 anos depois.

Rola um caso entre dois primos

Sandra Milo, o outro patrimônio do cinema italiano que está no elenco, grande estrela já no início dos anos 60, faz o papel de Maria, irmã de Pietro, o patriarca. Junto com ela vão à festa de Pietro e Alba seus dois filhos, com suas respectivas mulheres.

O mais velho, Sandro (Massimo Ghini), está com Alzheimer; a mulher, Beatrice (Claudia Gerini), o adora, e cuida dele com abnegação – mas já está cansada, exausta do imenso trabalho que dá um doente de Alzheimer.

O outro filho de Maria, Riccardo (Gianmarco Tognazzi), é a ovelha negra da família. Um tanto irresponsável, não consegue parar em emprego algum, e, na época em que a ação se passa, está atolado em dívidas. Para piorar a situação, sua mulher, Luana (Giulia Michelini) está grávida. Riccardo vai aproveitar a ocasião para pedir ao tio Pietro e aos primos Carlo e Sara um emprego no restaurante da família – mas ele já havia trabalhado lá no passado, e não tinha dado certo.

E, finalmente, para completar a lista de convidados da festa, há Isabella (Elena Cucci, na foto acima), prima de Paolo, Carlo e Sara, e sua filha de uns 12 anos, Cristina (também não achei o nome da garota que faz o papel). Isabella não está nada feliz no casamento, o marido trabalha demais, viaja muito, não pôde participar da festa.

Na infância, Isabella tinha sido muito amiga de Paolo – são mais ou menos da mesma idade. Isabella está sem o marido e infeliz, Paolo está separado da mulher e disponível – vai rolar atração entre eles, é claro, para espanto e infelicidade de Cristina, a filha dela, uma garota apaixonada pelo pai.

A notícia de que os dois primos passaram juntos a primeira das duas noites em que todos ficam presos na ilha logo se espalha, e há, claro, quem reclame de Paolo – afinal, Isabella é uma mulher casada! Mas esse é o menor dos diversos problemas que vão surgir na reunião da grande família, prorrogada contra a vontade de praticamente todos. (Na foto, as duas divas, Sandra Milo e Stefania Sandrelli.)

Uma família como outra qualquer do mundo

Os distribuidores franceses escolheram para o filme o título de Une Famille Italienne – o que, claro, lembra outros exemplos, Matrimônio à Italiana (1964), Divórcio à Italiana (1961), Ciúme à Italiana (1970). Essa coisa dos estereótipos, os franceses são assim, os ingleses são assado, e os italianos, ah, os italianos são passionais, sangue quente, falam muito e falam alto, gesticulam demais, brigam muito, etc, etc, etc.

Mary achou que o filme usa e abusa desses estereótipos todos, e mais alguns: os parentes mostrados no filme falam muito e falam alto e falam um ao mesmo tempo que outro, gesticulam demais, volta e meia estão a comer – mangia, mangia che te fa bene!

Uma crítica ao filme que vi na internet realça como estereótipo sobre os italianos o fato de que todos os homens no filme traem suas mulheres.

Não achei que o filme exagere na coisa de estereótipos. Os problemas que vão surgindo ali naquela família poderiam perfeitamente acontecer em qualquer família do mundo, da Dinamarca a Botsuana, da Suécia ao Brasil, da Noruega ao Irã. No meio de uma briga todo mundo fala alto, berra, fala ao mesmo tempo que o outro.

E não são só os homens que traem suas mulheres. Isabella trai o marido com o primo Paolo – e, no final, quando menos se espera e de onde menos se espera, surge a revelação de que outra daquelas mulheres também trai o marido.

Uma carreira entre a Itália natal e Hollywood

Gabriele Muccino tem tido uma carreira interessante, dividida entre sua Itália natal e os Estados Unidos. Depois de quatro longa-metragens na Itália – entre eles Para Sempre na Minha Vida / Come te Nessuno Mai (1999) e No Limite das Emoções / Ricordati di Me (2003), fez em Hollywood À Procura da Felicidade / The Pursuit of Happyness (2006), que reuniu Will Smith e seu filho Jaden Smith. Em 2008, de novo com Will Smith, fez Sete Vidas / Seven Pounds.

Depois desses dois filmes em Hollywood, voltou à Itália para fazer Beije-me Outra Vez/Baciami Ancora (2010), em que retomou as vidas dos personagens de seu filme de 1999, O Último Beijo/L’Ultimo Baccio, com, é claro, os mesmos atores. Alguns desses atores estão também neste A Casa Tutti Bene, exatamente os que fazem os três irmãos filhos do casal das bodas de ouro: Stefano Accorsi, Pierfrancesco Favino, Sabrina Impacciatore.

E voltou a Hollywood para fazer lá Um Bom Partido / Playing for Keeps (2012) e Pais e Filhas/Fathers & Daughters (2015). Para novamente voltar à Itália e filmar este A Casa Tutti Bene.

É um bom realizador, esse Gabriele Mucino.

Anotação em outubro de 2019

Aqui em Casa Tudo Bem/A Casa Tutti Bene

De Gabrielle Muccino, Itália, 2018

Com Ivano Marescotti e Stefania Sandrelli (Pietro e Alba, o casal das bodas de ouro),

Stefano Accorsi (Paolo, o filho escritor), Pierfrancesco Favino (Carlo, filho), Sabrina Impacciatore (Sara, a filha),

Carolina Crescentini (Ginevra, a mulher de Carlo), Valeria Solarino (Elettra, a ex-mulher de Carlo), Elisa Visari (Luna, a filha de Elettra e Carlo), Renato Raimondi (Edoardo, o amigo de Luna),

Sandra Milo (Maria, irmã de Pietro), Massimo Ghini (Sandro, filho de Maria), Claudia Gerini (Beatrice, a mulher de Sandro), Gianmarco Tognazzi (Riccardo, filho de Maria), Giulia Michelini (Luana, a mulher de Riccardo),

Giampaolo Morelli (Diego, o marido de Sara), Christian Marconcini (Vittorio, o filho de Sara e Diego),

Elena Cucci (Isabella, prima de Paolo, Carlo e Sara),

Gianfelice Imparato (o sacerdote)

Roteiro Gabriele Muccino & Paolo Costella, com a colaboração de Sabrina Impacciatore

Baseado em história de Gabrielle Muccino

Fotografia Shane Hurlbut

Música Nicola Piovani

Montagem Claudio Di Mauro

Casting Barbara Giordani

Produção Lotus Production, Rai Cinema,

3 Marys Entertainment, Leone Film Group.

Cor, 105 min (1h45)

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Título na França: Une Famille Italienne. Nos EUA: There’s No Place Like Home.

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