Aconteceu em Havana / Week-End in Havana

Nota: ★★½☆

Claro, óbvio: Week-end in Havana, no Brasil Aconteceu em Havana, comédia musical da 20th Century Fox de 1941, não é assim propriamente um grande filme. Mas, meu, que preciosa peça de museu!

Para começo de conversa, o filme nos brinda com cinco números musicais com Carmen Miranda e acompanhamento de conjunto de músicos de rumba, alguns deles com numerosíssimo grupo de dançarinos e dançarinas.

Alice Faye, aquela belíssima atriz e cantora de voz grave, quente, marcante, inesquecível, apresenta cançõed. Quem não ficar de boca aberta e queixo caído diante de Alice Faye em Week-end in Havana tem tanta sensibilidade quanto Carmen Miranda tem de boa ginga de corpo.

Que não se pense, por um segundo sequer, que na frase anterior vai uma crítica à Pequena Notável. Carmen Miranda demonstra, em Week-end in Havana, terceiro dos 14 filmes que fez em Hollywood, todo seu imenso talento, sua presença forte, a persona fantástica que criou – a latina excêntrica, única, com as inimitáveis fantasias –, e, sobretudo, a voz incrível, maravilhosa.

Era uma estrela sensacional, soberba, única – a primeira brasileira que foi superstar internacional. Mas há dois dados da realidade que não podem ser contestados. O primeiro: era brasileira, sim, claro, brasileiríssima – mas nascida em Portugal. Em Marco de Canavezes, para ser exato, em 1909, o mesmo ano da minha mãe. O segundo: fascinou meio planeta, sim, claro, com sua mexidinha nos quadris – mas não era propriamente uma passista, ou sambista, ou rumbeira. Mexia os quadris, apenas e tão somente. Dura. Qualquer baiana não falsa, das que Dorival Caymmi cantava, tinha 200 mil vezes mais ginga do que Carmen Miranda – e isso é fato sabido, não fui eu que inventei.

Um exemplo de como os americanos viam Cuba

Como se não bastassem o brilho, a graça, a beleza, as vozes maravilhosas de Carmen Miranda e Alice Faye, o filme foi realizado por Walter Lang, o cara que dirigiu Marilyn Monroe em O Mundo da Fantasia/There’s no Business Like Show Business (1954), Susan Hayward em Meu Coração Canta/With a Song in My Heart (1952), Deborah Kerr em O Rei e Eu/The King and I (1956), Katharine Hepburn em Amor Eletrônico/Desk Set (1957), Shirley MacLaine em Can-Can (1960).

Walter Lang (1896-1972) sabia dirigir estrelas, sabia fazer musicais.

E Week-end in Havana traz ainda, de presente para o espectador interessado em História, política, geopolítica, ciências sociais, um maravilhoso exemplo de como Hollywood via a Cuba daqueles anos 40.

Há a velha, tradicional frase: pobre México, tão perto dos Estados Unidos, tão longe de Deus. Exatamente a mesma frase pode ser usada para Cuba.

Cuba fica a 166 km da Flórida. Menos da metade da distância entre São Paulo e Rio. Uma vez e meia a distância entre São Paulo e Campinas. Uma bobaginha – um pulo.

O filme exibe diversas paisagens de Havana em 1941. Só por isso já seria um documento importante.

Mais: mostra Cuba como um playground para os americanos. Uma ilha paradisíaca, com a vantagem de ser um tanto excêntrica, diferente, outra língua, outros sons, música sensual, atmosfera romântica – e ao mesmo tempo próxima. Ali no quintal.

Logo que terminam os créditos iniciais – curtos, como era o costume –, vemos imagens de Nova York no inverno. E, em vitrines de agências de turismo, propagandas de cruzeiros para Cuba. Em Cuba sempre é verão, sugerem os anúncios. “The Holiday isle of the tropics.” “The Year-Round Playground.” O playground do ano inteiro.

Várias décadas depois, o cinema americano mostraria a Cuba pré-revolução com cores mais fortes, mais duras, mais violentas. A trilogia The Godfather de Francis Ford Coppola e O Irlandês de Martin Scorsese mostram Cuba como uma propriedade ultramar de famílias mafiosas americanas, que exploravam ali o jogo e a prostituição.

Em 1941, quando os Estados Unidos ainda não haviam entrado na guerra contra o nazi-fascismo, essa comedinha musical mostrava, claramente, que Cuba era mesmo um quintal dos Estados Unidos.

E não um quintal qualquer, mas o lugar perfeito para quem procurava uma aventura romântica. O filme insiste nessa tecla: americanos iam a Cuba sabendo que lá encontrariam alguém para namorar e/ou transar.

Se o governo de Fidel Castro quisesse demonstrar, em uma propaganda do regime instaurado em 1959, como Cuba era considerada pelos Estados Unidos seu quintal, poderia perfeitamente usar trechos de Week-end in Havana, o filme lançado 18 anos antes de os guerrilheiros barbudos expulsarem do poder o governo corrupto do ditador Fulgêncio Batista.

A trama parte de uma idéia interessante

Duas atrizes-cantoras maravilhosas, muitos números musicais, a direção de um artesão competente, e, por trás, como pano de fundo, a relação Estados Unidos-Cuba em 1941. Uau, já está bom demais.

Mas ainda tem mais: Week-end in Havana tem uma boa idéia para o início da trama.

Faziam-se tantos musicais sem história qualquer que ver um musical com uma boa idéia no início da trama é uma bela surpresa.

É uma coisa um tanto complexa, que depois vai resultar em um desenvolvimento óbvio. Vou tentar resumir.

Começa em torno de uma grande empresa de navios de turismo, a McCracken Steamship Co. (Para lembrar: steamship é navio a vapor.) A empresa tem o nome do seu proprietário, Walter McCracken (George Barbier). Bem no começo da narrativa, logo após vermos Carmen Miranda apresentar, com grande conjunto, a primeira das várias canções do filme, o milionário Walter McCracken recebe a informação de que um de seus navios, que fazia a rota Nova York-Havana, havia encalhado em um banco de areia perto do litoral da Flórida.

Tudo o que o empresário milionário não quer é que se repita o que havia acontecido quando um outro de seus navios havia tido problema semelhante: alguns passageiros não haviam aceitado a proposta de acordo da empresa, e haviam entrado na Justiça exigindo uma indenização maior. Naquela ocasião, a McCracken Steamship Co. havia perdido uma fortuna na Justiça.

Assim, o milionário McCracken determina que seu mais habilidoso vice-presidente, o jovem e bonitão Jay Williams (John Payne), viaje imediatamente até o navio encalhado, e faça um acordo indenizatório com cada um dos passageiros, obtendo deles um documento garantindo que não irão à Justiça contra a empresa.

Jay Williams, o vice-presidente competente, habilidoso, é noivo da filha do patrão, Terry MvcCracken (o papel de Cobina Wright Jr.) E o casamento está marcado para daí a alguns poucos dias.

Bem. Todas as centenas de passageiros topam o acordo, e assinam o documento. Com uma única exceção: uma moça chamada Nan Spencer (o papel de Alice Faye).

Nan Spencer é uma balconista da Macy’s, a loja de departamentos de Nova York. Trabalhava na seção de sutiãs das 9h30 às 18h30. Havia economizado a vida toda para fazer aquela viagem romântica à romântica Havana – e diz para Jay que só assina o papel depois que tiver concluído o cruzeiro e tiver ficado bem satisfeita com ele.

Para garantir que a moça fique bem satisfeita, Jay se oferece para pagar todas as despesas dela em Havana – e a hospeda na cabine presidencial do melhor hotel da cidade.

Estão na mesa – perdão, na tela – todos os dados básicos para uma comédia musical romântica: é claro que o herói Jay Williams-John Payne e a heroína Nan Spancer-Alice Faye vão se apaixonar, mas haverá todo tipo de problema antes que eles finalmente possam viver felizes para sempre e The End.

Falta dizer onde entra Carmen Miranda.

E os gringos sabem a diferença entre cubanês e português?

Pois é. Carmen Miranda faz o papel de Rosita Rivers, cantora e dançarina de um dos grandes cassinos de Havana. Rosita tem um caso com seu empresário, um tal Monte Blanca, que pega todo o dinheiro da moça e perde no jogo no mesmo cassino em que ela trabalha.

Monte Blanca é interpretado por Cesar Romero (1907-1994), canastrão mas boa pinta, que interpretou latin lovers em um grande número de musicais e comédias românticas hollywoodianas. Sua filmografia tem fantásticas duas centenas de títulos, filmes realizados entre 1933 e 1998.

O tal Monte Blanca é um total zero à esquerda, mas conseguirá atrair as atenções da bela Nan Spencer. Lá pelas tantas, Rosita Rivers até tenta conquistar as atenções de Jay Williams, o gringo que só pensa em trabalho.

Há situações um tanto bobas, bocós, panacas – e também há outras bem interessantes. Nada genial, brilhante – mas muitas vezes engraçado, divertido.

E há os números musicais com essas duas atrizes e cantoras tão diferentes, e tão interessantes.

É fascinante ver a ordem dos nomes dos atores nos créditos iniciais.

A ordem dos nomes dos atores sempre foi algo importantíssimo no cinema americano, mas era especialmente fundamental nos anos 30, 40. Tinha a ver muito mais com a fama dos atores, sua importância nas bilheterias, do que com a proeminência dos personagens dentro da trama de cada filme.

Nos créditos iniciais, assim como nos cartazes, a ordem é a seguinte: Alice Faye, Carmen Miranda, John Payne, Cesar Romero.

As mulheres na frente. Maravilha. E é muito significativo que Carmen Miranda, em apenas seu terceiro filme hollywoodiano, já fique à frente dos galãs John Payne e Cesar Romero.

A Pequena Notável é de fato um fenômeno.

Os roteiristas Karl Tunberg e Darrell Ware querem nos fazer crer que a personagem de Carmen, Rosita, é cubana – ou de outro país latino-americano de língua espanhola. Rosita-Carmen canta, é claro, em inglês: “A Week-End in Havana”, apresentada no início e reprisada no final; “When I Love, I Love” e “The Ñango”, todas da dupla Harry Warren-Mack Gordon.

Talvez o número musical mais sensacional de todos seja a canção que Carmen canta em português, a deliciosa “Rebola a Bola (Embolada)” (Aloysio de Oliveira-Nestor Amaral-Francisco Eugênio Brant Horta), uma perfeita quebra-língua, de ritmo aceleradíssimo e letra longa e difícil – que a Pequena Notável, fantástica, canta como se estivesse brincando com as palavras.

Por que raios uma cantora cubana (ou mexicana, ou nicaraguense, ou o que for) chamada Rosita cantaria num nightclub de Havana uma música brasileira?

A resposta é outra pergunta: e os gringos sabem lá a diferença entre cubanês (ou mexicanês, whatever) e português?

““Diversãozinha musical tipicamente gostosa”

Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4 e chamou o filme de fluff, um raio de palavra para a qual não achei sinônimo exato em nenhum dicionário. Segundo o Cambridge English Dictionary, é “um entretenimento percebido como trivial ou superficial” – e ainda usa um exemplo: “the movie is a piece of typical Hollywood fluff”. Chamemos, na falta de outra, de diversãozinha. “Diversãozinha musical tipicamente gostosa, em Technicolor, da 20th Century Fox, com Payne proporcionando a Faye uma bela temporada em Havana estritamente por motivos profissionais, mas se apaixonando por ela. Miranda adiciona seu usual entusiasmo aos procedimentos.”

Gostosa avaliação.

O livro The 20th Century Fox Story faz uma competente sinopse da trama e conclui: “Um agradável frou-frou musical, com a sedutora voz de Faye e vigorosas canções e danças de Miranda”.

Fluff, frou-frou. Os americanos estavam criativos na hora de escrever sobre Week-end in Havana.

Pauline Kael não usou nenhum termo assim tão fluffento para falar do filme, mas recorreu a um superlativo – cheerfullest. “Provavelmente o fim de semana mais alegre (ou mais animado) da história de Havana, com Carmen Miranda, Alice Faye, John Payne, Cesar Romero, Leonid Kinskey, George Barbier e todo o resto do pessoal da 20th Century Fox radiante com uma boa vontade imbecil. Carmen Miranda usa um chapeuzão de uvas, maçãs, laranjas, bananas, limões, abacaxis e ocasionalmente também ameixas. (…) As canções (a maioria de Harry Warren e Mack Gordon) não são de primeira linha.”

Como é chata a Pauline Kael.

Week-end in Havana é uma gostosa diversão.

Anotação em fevereiro de 2020

Aconteceu em Havana/Week-End in Havana

De Walter Lang, EUA, 1941

Com Alice Faye (Nan Spencer), Carmen Miranda (Rosita Rivas), John Payne (Jay Williams), Cesar Romero (Monte Blanca)

e Cobina Wright Jr. (Terry McCracken, a noiva de Jay), George Barbier (Walter McCracken, o patrão de Jay e pai de Terry), Sheldon Leonard (Boris, o chefão do cassino), Leonid Kinskey (Rafael, o atendente do hotel), Chris-Pin Martin (motorista), Billy Gilbert (Arbolado, dono do bar-hotel), Hal K. Dawson (Mr. Marks), William B. Davidson (capitão Moss), Maurice Cass (o alfaiate), Leona Roberts (passageira), Harry Hayden (passageiro)

Argumento e roteiro Karl Tunberg e Darrell Ware

Fotografia Ernest Palmer

Música Mack Gordon e Harry Warren. E, não creditados, David Buttolph, Charles Henderson, Cyril J. Mockridge.

Supervisão musical Alfred Newman

Montagem Allen McNeil e Gene Fowler Jr.

Coreografia Hermes Pan

Produção William LeBaron,

Darryl F. Zanuck, 20th Century Fox.

Cor, 81 min (1h21)

**1/2

Título na França: Week-end à La Havane. Em Portugal: Férias em Havana.

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