A Ponte / Bron / Broen – A Primeira Temporada

Nota: ★★★☆

A primeira temporada de A Ponte começa nos prometendo uma maravilha, um esplendor – algo tão belo, tão fantástico quanto a própria ponte que dá o nome à série e, desde 2000, une fisicamente a Suécia e a Dinamarca, atravessando uma das entradas do Mar Báltico.

Durante alguns segundos, apagam-se as luzes da Ponte Øresund, Um corpo de mulher é deixado bem no meio da ponte, no local exato da fronteira entre Suécia e Dinamarca. Chegam ao mesmo tempo ao lugar uma policial sueca e um policial dinamarquês.

Estabelece-se ali, de imediato, que a investigação terá que ser dos dois países, conjuntamente.

No momento em que o corpo vai ser recolhido para o exame pelos legistas… Uau! São dois corpos! Há o corpo de uma mulher da cabeça até ali pela barriga, e o corpo de uma outra mulher da barriga para baixo.

Vai se revelar que uma é sueca, a outra, dinamarquesa.

Mais sensacional ainda: vai se revelar bem rapidamente, ainda no primeiro dos dez episódios de cerca de 60 minutos cada da primeira temporada, que o autor (ou os autores, quem sabe?) não é um serial killer. É ainda pior: um terrorista – uma espécie assim de terrorista político-social, como há os terroristas ambientalistas.

O sujeito (ou o grupo de sujeitos) entra em contato com um jornalista, de maneira absolutamente sensacional, e deixa para a polícia um CD com uma mensagem de voz que começa assim:

– “Desculpem por fazer tanto drama. É muito difícil burlar o burburinho da mídia. Agora, acho que tenho a atenção de vocês. As mulheres da ponte foram só o começo.”

O que o terrorista – ou grupo – exige é justiça social

E então o sujeito (ou o porta-voz do grupo) começa a apresentar suas exigências. Ele quer chamar a atenção dos governos dos países para cinco grandes problemas, cinco grandes questões.

Cada um dos temas será apresentado separadamente. Depois de anunciar o tema, o sujeito (ou o grupo) faz exigências específicas – que, se não forem cumpridas, levarão ao assassinato de algumas pessoas.

1 – Nem todos são iguais perante a lei.

2 – Os pobres merecem menos atenção das autoridades, dos governos, que os ricos.

3 – Tem havido um contínuo corte no orçamento dos serviços sociais voltados para as pessoas com problemas psiquiátricos.

4 – Os imigrantes não são tão bem tratados quando deveriam; há dificuldades para a integração deles à sociedade, e os governos não se esforçam como deveriam para minorar os problemas.

5 – As crianças, em especial as das classes mais desfavorecidas, não têm recebido a assistência que os governos daqueles países tão ricos e avançados deveriam prestar.

Agrupei aqui de uma vez, para simplificar, os cinco grandes temas apresentados às autoridades. Na série, eles vão sendo apresentados pouco a pouco, um a um. O terrorista (ou o grupo de terroristas) faz tudo em partes, assim Jack, o Estripador. Assim, só no episódio 4, por exemplo, é revelado o terceiro grande problema. O quarto, o dos imigrantes, os policiais, as autoridades e o espectador só ficam conhecendo no episódio 6.

Como se vê, não se trata de um “simples” serial killer. É algo muitíssimo mais amplo, ainda mais ameaçador. É um sujeito (ou, mais provavelmente, pela capacidade de organização, planejamento e execução das ações, um grupo) que tem intenções políticas, sociais. Exige justiça social – não menos que isso. Cada um dos temas, ao fim e ao cabo, diz respeito a velhas, antigas, eternas injustiças que as sociedades ainda não conseguiram extinguir, ou sequer reduzir muito – nem mesmo algumas das mais avançadas do mundo, nem mesmo as de alguns dos países de melhor distribuição de riqueza do mundo, como Suécia e Dinamarca.

Então temos aí, a princípio, uma trama que é rica como a danada da Escandinávia.

Um terrorista (ou uma célula terrorista) exige justiça social – ou muita gente morrerá.

Um exemplo de como a coisa funciona. O terrorista (ou o grupo) passa para o tal jornalista escolhido para ser o intermediário o nome de quatro grupos empresariais com negócios na área imobiliária. Cada CEO de cada um dos grupos deveria entregar uma determinada fortuna – creio que eram 5 milhões de euros. Caso eles se decidissem a não pagar o resgate, a população deveria incendiar pelo menos uma das instalações de cada grupo. Se essas exigências não fossem cumpridas, quatro crianças – já tomadas como reféns – seriam executadas.

Justiça social já, ou então sangue. Nem Lênin e Trotski foram tão simples, diretos, no alvo, na veia.

O melhor de tudo são os dois personagens centrais

Que tema, meu! Terrorista (ou grupo de terroristas) que exige justiça social em dois dos países de maior qualidade de vida do planeta! Dois dos países em que há a melhor estrutura possível para atender aos desvalidos!

Uau! Mas então temos aí uma série ou no mínimo uma primeira temporada sensacional! Uma maravilha! Uma obra-prima!

Pois é. No começo, parece que vai ser uma maravilha.

Pelo menos até o sétimo dos dez episódios, há, além de tudo, um grande suspense: quem será/serão esses terroristas, meu Deus do céu e também da Terra? O cara, ou os caras, eles são perfeitos! Eles pensam em tudo, sabem tudo, manejam bem todos os instrumentos existentes na sociedade, estão sempre à frente da polícia! São como enxadristas brilhantes, que prevêem tudo, cinco, dez jogadas à frente!

E ainda tem mais uma característica absolutamente fantástica: os dois policiais que chefiam as investigações sobre o caso, a sueca e o dinamarquês, são personagens maravilhosos, muitíssimo bem construídos e muitíssimo bem interpretados.

Na minha opinião, e na de Mary, a melhor de todas as coisas boas desta primeira temporada de A Ponte são os personagens de Saga e Martin – interpretados por Sofia Helin, sueca da pequena cidade de Hovsta, 33 títulos no currículo em 2020, 39 anos em 2011, ano da primeira temporada, e por Kim Bodnia, dinamarquês de Copenhagen, 72 títulos no currículo, 46 anos quando A Ponte foi lançada.

Naturalmente, como manda o figurino das histórias em que dois detetives trabalham juntos, Saga e Martin têm personalidades muito diferentes um do outro.

Martin está no terceiro casamento, com Mette (Puk Scharbau), uma profissional bem sucedida. Pouco antes do início da ação seu filho August (Emil Birk Hartmann), do primeiro casamento, foi morar com o pai; é um adolescente aí de uns 18, 19 anos, do tipo nem nem nem: nem trabalha, nem estuda, nem está aí para ajudar em nada da casa – nem mesmo para ajudar Mette a cuidar dos seus meio-irmãos mais jovens, três garotos, dos quais dois são gêmeos.

Com quatro filhos em três casamentos (fora muitos outros casos), Martin finalmente resolveu fazer vasectomia. Tinha acabado de fazer a operação quando houve o chamado para ver o caso da mulher deixada morta na Ponte Øresund.

Apesar de feliz no casamento com Mette, Martin, quando uma bela mulher se mostra a fim, não tem dúvidas – vai lá e crau! Acontecerá, ali pelo meio desta primeira temporada, uma trepada com Charlotte (Ellen Hillingsø), a mulher de um daqueles quatro milionários de quem o terrorista (ou o grupo de terroristas) exige 5 milhões de euros. Ele acabará confessando a rápida infidelidade para Mette, e com isso provocará uma grave crise no casamento – em meio à exaustiva investigação do caso do terrorista que a TV e os jornais começam a chamar de O Terrorista da Informação. Com mais um terrível elemento complicador: Mette descobre, pouco depois da operação de vasectomia, que está grávida.

Resumo do quadro pessoal-familiar: Martin é um sujeito de vida pessoal para lá de enrolada. Fora alguns problemas do passado, já enfrentava o problema do filho mais velho que é um estranho, não conversa direito com ele – e aí, diante de uma pulada de cerca, o casamento com Mette, até então feliz, se estremece.

Como profissional, Martin é extremamente competente, trabalhador, dedicado. Nisso ele não tem problemas. Sua relação com a chefe, Lillian (Sarah Boberg) é muito boa.

Uma policial que parece um robô, sem sentimentos

São esses os pontos de afinidade entre os dois policiais que ficam se conhecendo bem no início do primeiro episódio da temporada 1, no meio da ponte que liga Suécia e Dinamarca, quando são chamados para cuidar do caso que a princípio parece de um assassinato, logo de um duplo assassinato, mas é muito pior.

Exatamente como o policial de Copenhagen, Saga, detetive da polícia de Malmö, a cidade do lado sueco da ponte, é competente, trabalhadora, dedicada. Tem todo o respeito do chefe, Hans (Dag Malmberg).

E os pontos em comum entre os dois protagonistas da história acabam aí.

Veterano, calejado, Martin, embora correto, honesto, não se furta a, quando necessário, usar as habilidades de um ladrão para abrir uma porta trancada, se ela for de um suspeito. Nem deixa de dar uns berros durante o interrogatório de um possível criminoso.

Já Saga não faz nada disso nem parecido com isso. Saga faz tudo de acordo com o que mandam as regras. Tudo, tudo, absolutamente tudo. Lá pelo episódio 6, se não me engano, Martin, sempre surpreendido pela conduta séria, irrepreensível da colega, pergunta: – “Existe alguma regra que você não siga?”

Mas isso nem é o mais fantástico na personalidade de Saga.

Saga parece não ter vida pessoal, não ter sentimentos, sensações. Vive sozinha, não tem amigos, amigas, namorado, namorada. Os colegas de trabalho, os que trabalham na sua equipe, sob seu comando, a respeitam por sua competência – mas não gostam dela. Acham que ela é estranha demais – e ela é mesmo.

Saga não tem hora para dormir, descansar, desligar do trabalho. Atravessa noites inteiras trabalhando, se for preciso, e nem repara se está cansada. Liga de madrugada para Martin várias vezes, para contar de uma nova descoberta, um novo desdobramento do caso, como se isso fosse a coisa mais comum do mundo.

Jamais mente, em momento algum – e também acha que não é preciso conversar com o colega, o parceiro, quando estão juntos no carro, ou no dele ou no dela, percorrendo os 7,8 km da Ponte Øresund ou os muito mais quilômetros pelas ruas de Copenhagen ou de Malmö. Martin a provoca sobre isso – e Saga responde que simplesmente não sabia que é costume as pessoas ficarem conversando. – “E vamos falar sobre o quê?”, ela pergunta?

Com o tempo, o espectador verá que Saga não tem pai nem mãe vivos. Vivia com uma irmã – que, quando tinha uns 16 anos, se matou. Nunca pensou muito a respeito das razões que poderiam levar alguém a se matar – para ela, o suicídio da irmã é uma coisa natural, da vida.

Ela parece que aprende as coisas pelos livros – muito mais do que pela experiência de vida.

Em muitos momentos, Saga parece um autômato, um robô – um ser de grande inteligência artificial, mas desprovido de emoções, sensações.

Até tive um entendimento errado, ao ver o primeiro dos dez episódios. Fiquei com a sensação de que a atriz que interpreta Saga, essa bela e interessante Sofia Helin, não estava trabalhando bem. Me pareceu que estava meio artificial, meio mecânica.

Não é que estivesse trabalhando mal. De forma alguma. É que Saga muitas vezes é assim – um tanto mecânica. Mais robô que gente.

Os criadores da série, os roteiristas, os diretores, e a própria Sofia Helin criaram, compuseram um personagem de fato absolutamente delicioso.

De repente dá vontade – e ela cata um homem no bar

Há coisas no comportamento de Saga que são engraçadas, interessantes, fascinantes. Saga não está preparada para a convivência normal de seres humanos educados, para algumas regrinhas básicas do convívio social. Como trabalha feito uma louca, vara noites, não tem tempo para os cuidados básicos de higiene. Assim, costuma, por exemplo, cheirar o próprio sovaco, no meio de qualquer sala da delegacia de polícia, no meio dos colegas, e, ao verificar que precisa trocar a camisa, ela tira uma e coloca uma nova que parece sempre ter à mão.

Esse detalhinho gostoso acontece mais de uma vez nos dez episódios da primeira temporada de A Ponte. Seguramente duas, mas talvez sejam até três. Adorei isso. Cada vez mais me convenço de que mostrar pequenos detalhes do comportamento dos personagens é um sinal de qualidade de um filme.

Meio robô, meio autômato – e meio um animal que parece desconhecer regrinhas básicas da convivência entre seres humanos.

A relação de Saga com sexo é também fascinante.

Uma noite, lá pelo meio da primeira temporada, Saga está lendo um livro sobre assunto de que já não me lembro – algo que tem a ver com o momento da investigação do terrorista e/ou grupo de terroristas. Está lendo de pé, caminhando pela sala de sua casa. Aí, de repente, do nada, ela enfia a mão dentro da calça comprida. Como a mão já está mesmo dentro da calça, ela enfia um pouco mais e começa a se masturbar.

A sequência é uma delícia.

Fica evidente que Saga não tinha idéia de que queria se masturbar, de que iria se masturbar. Estava lá, em casa, trabalhando, lendo um compêndio a respeito de algum tema importante na investigação dos crimes – e de repente se deu conta de que estava se masturbando! Simples assim!

Bem, aí dá vontade. E ela vai para um bar, lotado como todo bar da vida e/ou dos filmes. Olha para um rapagão. O rapagão vê que ela está olhando, chega perto dela e pergunta se ela quer beber alguma coisa. Como Saga não mente, e segue uma lógica estrita de que as palavras querem dizer exatamente aquilo que elas querem dizer, à la o jeito dos portugueses, ela responde que “Nein!” O rapagão então se afasta – e obriga Saga a ir atrás dele. – “Eu não quero beber, mas isso não significa que eu quero que você se afaste!”, ela diz para o rapaz, que, veremos depois, se chama Anton (Magnus Schmitz). E, daí a um minuto, pergunta: – “Quer ir lá em casa fazer sexo?”

Uma figura fantástica essa Saga!

Um grande número de tramas paralelas

Relato essas histórias sobre o comportamento de Saga porque eles não são de forma alguma spoilers, não atrapalham em nada para quem ainda não viu a série. Não interfere em nada na trama policial.

Vou falar um pouco da trama policial mais adiante – sem dar detalhes, é claro, é óbvio. Mas antes gostaria de falar um pouco de uma outra interessante característica desta série A Ponte – e também da Ponte Øresund propriamente dita.

Os autores do argumento e do roteiro desta primeira temporada da série (são seis: Camilla Ahlgren, Måns Mårlind, Nikolaj Scherfig, Björn Stein, Hans Rosenfeldt, Morten Dragsted) fizeram questão de criar várias tramas secundárias, paralelas à principal. A trama principal, claro, são as ações do terrorista (ou grupo de terroristas) e as ações das polícias dos dois países.

O eventual leitor poderia perfeitamente me trucar e dizer que tramas secundárias existem em qualquer filme, e em especial em qualquer série. É bem verdade – mas os autores de A Ponte exageraram.

Logo de cara, nos primeiros minutos do primeiro episódio, quando equipes policiais suecas e dinamarquesas estão chegando ao local em que foram depositados os restos não de uma, mas de duas mulheres, aparece a milionária Charlotte, já citada. As duas polícias acabaram de paralisar o trânsito na ponte – que, afinal, é uma cena de crime. Charlote desce de uma ambulância, que vinha da Suécia em direção a um hospital em Copenhagen em que seu marido seria submetido a um transplante de coração. Com aquela segurança, aquela soberba dos milionários, explica a situação para os policiais – mas a detetive Saga, da polícia de Malmö, não quer nem saber: ninguém pode passar, aquilo é cena de crime.

Passam-se muitos minutos. Martin, menos rigoroso com as regras, ser humano dotado de sentimentos e capaz de perceber o drama dos outros, autoriza a ambulância com Charlotte e seu marido a passar numa pista lateral que, a rigor, não interfere em nada com a cena do crime.

Dura, implacável, seguidora fiel de todas as regras de disciplina da polícia, Saga vai denunciar Martin no seu relatório por ter tomado a decisão de deixar passar a ambulância.

Charlotte vai continuar aparecendo bastante ao longo dos primeiros episódios desta Temporada 1. O fato de ela lá pelas tantas demonstrar para Martin que está a fim de dar para ele é só um detalhe da participação dela na história.

Charlotte é apenas um exemplo de personagem de trama paralela que às vezes encosta na principal. Há diversos, diversos, diversos outros.

Há Stefan (Magnus Krepper), um sujeito de cara e atitudes estranhas, que o espectador demora bastante para perceber quem é. Na primeira vez em que o vemos, Stefan está sendo procurado por uma jovem chamada Veronika (Tuvalisa Rangström), que está com dificuldades para pagar o aluguel de seu apartamento. Veremos que Veronika tem dois filhos com um sujeito, um tal Sören (Iggy Malmborg), que é viciado em drogas e bate na mulher. A princípio, parece que Stefan não vai ajudar Veronika – mas logo ele a ajuda, e muito, de uma forma tão esplêndida que o espectador pode não entender muito bem.

Há uma moradora de rua, homeless, miserável, drogada, perdida, chamada Sonja (Maria Sundbom Lörelius), que vemos roubando uma mercearia. Depois de algum tempo, Sonja é recolhida e ajudada por Stefan – e revela-se que os dois são irmãos.

Esse Stefan volta e meia cruza seus caminhos com a investigação – e Martin e Saga, assim como o espectador, passam a achar que ele pode ser o terrorista, ou estar ligado a ele.

Há Henning (Ole Boisen), um policial dinamarquês, conhecido de Martin, que participou de uma ação, juntamente com três companheiros, em que acabou morto um imigrante de origem árabe. O caso foi coberto exaustivamente pela imprensa, e os quatro policiais iriam em breve a julgamento. Vemos que Henning não participou da ação criminosa de dois dos seus companheiros que espancaram e mataram o jovem imigrante – ele apenas observou tudo, mas não teve qualquer participação no crime. Se, no julgamento, ele contar a verdade – os companheiros espancaram e mataram o imigrante –, será odiado por boa parte de seus colegas. Se mentir, se declarar que não houve crime, abuso, e sim reação a uma violência, fará com que os colegas escapem da prisão, mas será para sempre condenado pela sua própria consciência.

Uma adolescente abandonada por pai e mãe

Há vários outros personagens assim, de tramas secundárias que têm em algum momento ligação com a trama principal, mas a que mais me tocou foi Anja (Fanny Ketter), uma garotinha adolescente aí de uns – ih, diacho, não sei calcular direito as idades das pessoas. Anja parece ser uma adolescente aí de uns 15 anos, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos.

Na primeira vez que a vemos ela está tentando furtar alguma coisa em uma loja de um shopping.

Furtar alguma coisa em loja de shopping. Shoplifting – que raios, o inglês tem substantivo para tudo. Shoplifting – muito mais doença, ou sintoma de doença, do que crime, Winona Ryder, maravilhosa atriz, e Henry Sobel, esplendoroso ser humano, que o digam, me perdoe o eventual leitor se achar que estou tergiversando.

Anja é pega pelo segurança do shopping, é levada para uma delegacia de polícia. A mãe vai tirá-la de lá. Não faz um mínimo gesto de carinho, de proximidade, de tentativa de entender o que se passa na cabeça da criatura que está no auge da adolescência, esse período da vida em que tudo é problema, tudo é um horror.

Como a mãe não fala com ela, não se dirige a ela, faz como se ela não existisse, Anja vai à procura do pai, que se casou de novo, tem novo lar, nova mulher, nova família.

A nova mulher do pai e também o pai se recusam a receber Anja, porque é aniversário do filhinho novo do casal, os amigos vão chegar – e eles não querem saber daquela adolescente problemática.

O pai de Anja, veremos depois, é um dos quatro empresários milionários escolhidos pelo terrorista (ou grupo de) que parece lutar por justiça social.

Pai e mãe que não dão atenção, carinho, proteção ao filho, como esses pais de Anja, são criminosos inomináveis, nojentos, hediondos. São da pior tipo de ser humano que há.

Um começo sério como filme de Bergman ou Dreyer

Muitos temas sérios em discussão. Injustiça social. Seres humanos que são tratados de forma diferente do que outros seres humanos. Relações pais-filhos que são o horror do horror do horror.

A Ponte não é, de forma alguma, mais uma das 251 mil séries e/ou 157 mil filmes sobre serial killers.

É, afinal de contas, uma co-produção Suécia-Dinamarca-Alemanha – a rigor, parece, muito mais Suécia e Dinamarca, os dois países vizinhos, separados fisicamente pela entrada do Mar Báltico e unidos pela Ponte Øresund, em que se passa a ação. A Dinamarca de Carl Theodor Dreyer, a Suécia de Ingmar Bergman. Esses aí são dois países que produzem alguns dos filmes mais sérios, mais densos, mais pesados, desde sempre, desde bem o início desta arte.

A Ponte, em boa parte desta sua primeira temporada, é uma série que, creio, tanto Dreyer quanto Bergman aplaudiriam.

E então chego à Ponte Øresund, a ponte concreta, a ponte que dá nome à série, onde acontecem diversos eventos importantes da trama, é focalizada diversas, diversas, diversas vezes ao longo dos cerca de 600 minutos, da série – de todos os ângulos possíveis e imagináveis.

Não sabia da existência da Ponte Øresund. Depois que ficamos conhecendo, ao ver na série, fomos ao Google. É uma obra de arte a tal da ponte. É uma daquelas coisas extraordinárias que mostram “a força da grana que ergue e destrói coisas belas” – embora eu sempre ache que o Caetano teria acertado muito mais no seu verso se tivesse dito “a força da mão que ergue e destrói coisas belas”, porque, muito mais que a grana, importa é a capacidade do homem de erguer e destruir.

Ponte, meu, ponte é uma absoluta maravilha, ponte é o contrário do muro: muros separam, pontes unem. Muro é vergonha, como o de Berlim, como o que Donald Trump queria fazer entre os Estados Unidos e o México. Ponte é aproximação, união.

Blém, blém, blém – exagero na tergiversação. OK. Vamos baixar a bola.

A ponte, que a série tanto mostra, é de fato uma fantástica obra de arte. É rodoferroviária, tem dois andares: acima passam os carros, no pavimento inferior passam os trens. Foi construída em pouco menos de cinco anos, por uma empresa privada. Tem uma grande parte como ponte mesmo, depois se apóia numa ilha artificial e em seguida vira túnel, para permitir a passagem de navios de calado maior.

Agora vem o spoiler. Atenção, cuidado, spoiler.

Pois é. Uma grande ponte. Dois grandes países. Uma bela, caprichada produção. Dois personagens sensacionais, bem elaboradíssimos. Uma trama que começa inteligente, surpreendente, que promete maravilhas. E, no entanto, esta primeira temporada de A Ponte se destrói nos dois episódios finais.

Revela-se…

E, pelamordeDeus, veja o eventual leitor que avisei que agora vem spoiler.

O eventual leitor que não viu ainda a série tem que parar de ler aqui.

O que vem a seguir é para quem já viu a série.

Revela-se que tudo não passa de uma vingança de um cornudo que ficou bravo porque foi corneado.

Meu Deus do céu e também da terra, mas que absoluta decepção!

Vai pro lixo toda a discussão das injustiças sociais. Vai pro lixo toda a seriedade. Vai pro lixo toda a possibilidade de grandeza.

Vira uma besteira. Uma idiotice.

Um único sujeito que consegue ser mais Super-Homem, mais Super-Herói do que todos os Super-Homens, todos os Super-Heróis juntos.

Nossa mãe do céu, quanto desperdício de boas idéias!

Anotação em março de 2020  

A Ponte/Bron/Broen – A Primeira Temporada

De Hans Rosenfeldt, Charlotte Sieling, Bo Ehrhardt e Anders Landström, autores e roteiristas, Suécia-Dinamarca-Alemanha, 2011

Diretores: Henrik Georgsson, Charlotte Sieling, Lisa Siwe

Com Sofia Helin (Saga, a policial sueca), Kim Bodnia (Martin, o policial dinamarquês)

e Sarah Boberg (Lillian, a chefe de Martin), Dag Malmberg (Hans, o chefe de Saga), Puk Scharbau (Mette, a mulher de Martin), Emil Birk Hartmann (August, o filho mais velho de Martin), Lars Simonsen (Jens), Magnus Krepper (Stefan, o assistente social), Ellen Hillingsø (Charlotte, a mulher do milionário), Maria Sundbom Lörelius (Sonja, irmã de Stefan), Magnus Schmitz (Anton, o escolhido por Saga), Fanny Ketter (Anja, a filha de um dos milionários), Ole Boisen (Henning, o policial), Iggy Malmborg (Sören, o marido abusador de Veronika), Tuvalisa Rangström (Veronika), Rafael Pettersson (John), Julie Carlsen (Barbara), Anette Lindbäck (Gry), William Legue (Navid), Kristina Brändén Whitaker (Anne), Elliot Metzdorff (Nikolaj), Freja Frost Barlach (Johanne), Christian Hillborg (Daniel), Kristian Lima de Faria (Åke), Rasmus Hammerich (Colbert), Anton Frost Barlach (Carl), Dietrich Hollinderbäumer (Göran)

Roteiro Camilla Ahlgren, Måns Mårlind, Nikolaj Scherfig, Björn Stein,

Hans Rosenfeldt, Morten Dragsted

Fotografia Jørgen Johansson, Olof Johnson, Ari Willey

Música Patrik Andrén, Uno Helmersson, Johan Söderqvist

Produção Filmlance International AB, Nimbus Film Productions, Sveriges Television (SVT), Film i Väst, Zweites, Deutsches Fernsehen (ZDF), Danmarks Radio (DR).

Cor, cerca de 600 min (10h)

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Disponível na HBO Go em março de 2020.

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