A Outra Mulher / Amoureux de Ma Femme

Nota: ★★½☆

Nos tempos sombrios também é preciso haver diversão – ou talvez seja precisar haver diversão sobretudo nos tempos sombrios. Daniel Auteuil, grande ator, um workaholic que faz sempre mais de um filme por ano, optou por uma comédia ao realizar seu quarto longa-metragem como diretor, em 2018.

Os três primeiros haviam sido dramas. Como ator, vinha de dois dramas pesados, duros, As Confissões (2015) e O Orgulho (2016).

Com Amoureux de Ma Femme, no Brasil A Outra Mulher, tudo indica que quis descansar, relaxar, dar uma pausa. Divertir-se, e divertir o espectador. O filme é uma comedinha romântica absolutamente despretensiosa, terrivelmente simples – beirando o simplório. Quase bobinha.

É a adaptação de uma peça de teatro, L’Envers du Décor, de autoria de Florian Zeller – ele mesmo autor do roteiro do filme. E é interessante notar que os dois filmes anteriores dirigidos por Daniel Auteuil, Marius e Fanny (ambos de 2013) também são adaptações de peças teatrais, de autoria do lendário Marcel Pagnol (1895-1974).

A trama criada por Florian Zeller é simples como somar 1 + 1. Daniel e Isabelle (o próprio Daniel Auteuil e Sandrine Kiberlain) estão casados há mais de 20 anos; ele é um editor de livros, ela é professora. Vivem muito bem, têm um apartamento extremamente amplo e confortável.

Um dos maiores amigos de Daniel é Patrick, e a maior amiga de Isabelle é Laurence, que era casada com Patrick havia mais de 20 anos. (Patrick é o papel de Gérard Depardieu; Laurence é mencionada várias, várias vezes, mas não aparece na tela.)

E aí aconteceu o que acontece tantas vezes na vida dos casais: Patrick conheceu uma mulher mais jovem, apaixonou-se, abandonou a mulher e foi morar com a moça.

Na primeira sequência do filme, Daniel e Patrick se encontram na rua. Patrick quer que o amigo conheça a moça, Emma.

A princípio, Isabelle se recusa terminantemente a conhecer a moça que acabou com o casamento da sua melhor amiga. Mas acaba cedendo, e permite que Daniel convide o casal para um jantar na casa deles.

E então, quando o filme está ali com menos de 10 de seus 84 minutos, o casal Patrick-Emma entra no belo apartamento do casal Daniel-Isabelle.

Emma vem na pele e na beleza estonteante da espanhola Adriana Ugarte – a que fez a Julieta quando jovem no belo, triste Julieta de Pedro Almodóvar, de 2016.

A primeira impressão que Isabelle tem de Emma é de que a moça é uma puta.

Daniel se apaixonada de pela moça. Imediatamente. Perdidamente. Loucamente.

No meio da realidade, as fantasias de Daniel

Isso posto diante do espectador bem no início do filme, tudo fica bastante previsível. Nada contra, estou apenas constatando: previsibilidade e comédia romântica são coisas que vão juntas, não tem jeito.

As situações que acontecerão ao longo do jantar são engraçadas, sem dúvida alguma. Não são daquelas piadas de arrancar gargalhadas homéricas – mas daquelas que deixam o espectador com um sorriso na cara quase todo o tempo.

Desde bem o início, pouquinho depois de o casal visitante chegar à casa dos anfitriões, surgem na tela as imagens do que está rolando na cabeça de Daniel. A primeira imagem das fantasias de Daniel que vemos é surpreendente, porque absolutamente inesperada: antes de se sentar, Emma simplesmente tira seu vestido vermelho vivo e fica só de calcinha.

A partir daí, a coisa vai se repetir diversas vezes, já sem a graça da novidade, é claro: intercaladas às sequências reais do jantar, vão surgindo as imagens que Daniel vai fantasiando na cabeça.

Algumas das situações que vão surgindo no apartamento do casal Daniel-Isabelle são – além de engraçadas – vexatórias, vergonhosas, se o espectador sentir simpatia pelo pobre diabo que se apaixonou perdidamente pela nova mulher do velho amigo.

Eu, pelo menos, tenho essa tendência: se simpatizo com um personagem, sinto vergonha por ele, se ele se mete em situações vexatórias, constrangedoras. Morri de pena do pobre Daniel um monte de vezes ao longo do filme. Tadinho, meu Deus do céu!

Uma comedinha simples, mas bastante simpática

É assim: se for para ser rigoroso, dá para dizer que este A Outra Mulher/Amoureux de Ma Femme é uma comedinha romântica bobinha, bobinha.

Depende de cada espectador, é claro. Do que cada um espera do filme. Se a expectativa for grande, naturalmente a decepção será grande. Depende do momento: se o espectador estiver num momento de mau humor, vai achar tudo de fato bobo demais.

Os quatro atores, no entanto, são tão bons, tão simpáticos – mesmo Daniel Auteuil exagerando um pouco na panaquice diante daquele avião que pousa na sua casa –, que eu gostei bem de ver o filme. Pode até ser que eu tenha gostado porque estava precisando de um momento de alívio, de descanso, de relaxamento. Mas o fato é que gostei bem.

Os leitores do IMDb não gostaram: a nota média dada por mais de 800 leitores do site enciclopédico foi de apenas 5,3 em 10.

A crítica francesa também não gostou muito. Segundo o site AlloCiné, que tem tudo sobre os filmes franceses, a média das notas dadas pela crítica foi de 2,3 estrelas em 5.

Em um site espanhol, AlohaCriticón, a crítica assinada por Marta Canacci diz o seguinte, em um certo trecho: “A aparição de uma mulher jovem na reunião de amigos maduros de moral pequeno-burguesa atua como catalizador de fantasias, de sentimentos de frustração, de ciúmes, de amargura. Os sonhos se misturam com a realidade em uma montagem bastante equivocada, confundindo com facilidade a realidade com a ficção. Intercala numerosos flashes oníricos que em princípio duram poucos segundos mas que, poucoa pouco, ficam maiores, inclusive sequências longas que se confudem com a realidade, resultando em um recurso excessivo e uma narração inepta.”

Cada cabeça, uma sentença – e ainda bem que é assim. Acho exatamente o contrário do que diz essa Marta Canacci. O fato de as imagens da realidade se confundirem com as dos devaneios de Daniel – uma confusão pensada, decidida, planejada – é uma qualidade, e não um defeito do filme.

Exatamente porque não há absolutamente nada que diferencie as imagens reais das imagens oníricas, o filme ganha um encantamento. O espectador tem que ficar atento para ver o que é um e o que é outro, onde terminou a imagem da realidade e começou a do sonho.

Me ocorreu agora – e só agora – que o filme tem bastante a ver com O Pecado Mora ao Lado/The Seven Year Itch, o grande clássico de Billy Wilder de 1955. Ali, o personagem de Tom Ewell, Richard Sherman, um editor de livros (exatamente como este Daniel aqui!), fica sozinho em seu apartamento em Manhattan enquanto mulher e filho viajam nas férias de verão. E acontece de um avião vir pousar no apartamento logo acima dele, um baita Boeing 767 – Marilyn Monroe. Entremeadas com sequências da realidade vão surgindo imagens das fantasias que passam na cabeça do pobre Richard Sherman.

Não que esse esquema tenha sido usado antes apenas em O Pecado Mora ao Lado. Enquanto via o filme, e um pouco depois, fiquei tentando me lembrar exemplos dessa mistura de sonho com realidade nessa situação de homem deslumbrado com bela mulher – e não tinha conseguido achar nenhum. Só agora, depois de ler o que essa Marta Canacci diz, foi que me lembrei de Tom Ewell sonhando com Marilyn.

“O que você deseja quando deseja o outro?”

Algumas informações:

* Daniel Auteuil havia participado, em 2016, de uma temporada da peça original no teatro, ao lado de Valérie Bonneton, François-Eric Gendron e Pauline Lefèvre.

* Detalhinho: Sandrine Kiberlain parece, no filme, bem mais alta que Daniel Auteuil. Ele de fato parece até baixinho perto de Gérard Depardieu e da atriz que faz a mulher de seu personagem. A diferença – mostram os dados do IMDb, esse site que tem simplemente tudo – é de apenas 3 centimetros: Sandrine tem 1,73, Auteuil, 1,70.

* Daniel Auteuil e Sandrine Kiberlain haviam trabalhado juntos 15 anos antes, em Après vous…, de Pierre Salvadori. Com Gérard Depardieu, essa foi a terceira vez que Auteuil contracenou, depois de Jean de Florette, O Closet/Le Placard e 36/36 Quai des Orfèvres.

* A bela canção que toca na sequência em que Daniel e Patrick, os personagen de Auteuil e Depardieu, estão andando de bicicleta se chama “Du Bout Des Lèvres”, de e com Barbara, a melhor cantora-compositora da música popular francesa, na minha opinião. Foi para mim uma das boas coisas do filme.

* O realizador-ator definiu seu filme como um trabalho sobre o sonho: “Sonhar nos torna conscientes de que temos apenas uma vida, enquanto temos apetite por mil. Este filme não é nada a não ser uma fantasia amorosa através da qual se difunde a questão que ninguém consegue responder: o você deseja quando deseja o outro?”

Anotação em agosto de 2019

A Outra Mulher/Amoureux de Ma Femme

De Daniel Auteuil, França-Bélgica, 2018

Com Sandrine Kiberlain (Isabelle), Adriana Ugarte (Emma), Gérard Depardieu (Patrick), Daniel Auteuil (Daniel)

e Christina Crevillén (a mãe de Emma), Joffrey Platel (o diretor de teatro), Brigitte Aubry (a assistente do médico), Sonia Bonny Eboumbou (a assistente do dr. Sublime), Monica Ledesma (amiga da mãe de Emma),

Eva Chico (prima de Emma), Alvaro Martínez Leon (o que toca violão na família de Emma)

Roteiro Florian Zeller

Baseado em sua peça teatral L’Envers du Décor

Produção Curiosa Films, France 3 Cinéma, Zack Films, Versus Production.

Cor, 84 min (1h24)

**1/2

Título em Portugal: A Outra…

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *