22 de Julho / 22 July

Nota: ★★★☆

Mais uma vez o diretor Paul Greengrass nos brinda com um belo filme que faz cuidadosa, precisa, fiel reconstituição de um fato importante, marcante – e trágico – da História muito recente.

22 de Julho mostra, detalhadamente, como foi o pior ataque terrorista da História da Noruega, perpetrado por um único homem, um jovem de extrema direita, racista, xenófobo, no dia 22 de julho de 2011, e seu julgamento, concluído em 2012. 2012 – e o filme é de 2018! Apenas 6 anos após os fatos.

Greengrass, um inglês nascido no Surrey, em 1955, vem se especializando nesse nicho – filmes que reconstituem fatos históricos recentes. Não vi Domingo Sangrento/Bloody Sunday (2002), em que ele mostrou a marcha de protesto na Irlanda do Norte em 30 de janeiro de 1972 e o subsequente massacre por tropas britânicas, mas já nesse seu quarto longa-metragem recebeu amplo reconhecimento: o filme teve 19 prêmios e outras 21 indicações.

Em 2006, em Vôo United 93, Greengrass reconstituiu, em tom de documentário, o único dos quatro vôos tomados pelos terroristas em 11 de setembro que não atingiram seu alvo (dois acertaram o World Trade Center e o terceiro, o prédio do Pentágono). Metade do filme se passa no vôo 93 da United Airlines, e a outra metade, em ações paralelas nos centros de controle de vôo. Sem astros conhecidos, sem firulas, sem invencionices, é seco, direto, duro como um soco no estômago. Ganhou 38 prêmios, fora 66 outras indicações, inclusive ao Oscar de melhor direção.

Em 2010, fez Zona Verde, um grande filme, que demonstra, tintim por tintim, como a motivação usada por George W. Bush para justificar a invasão do Iraque em 2003, a existência de armas químicas de destruição em massa, era uma grande falácia – e, de quebra, exibe as divisões entre os vários agentes americanos em ação em Bagdá.

Em 2013, em Capitão Phillips, reconstituiu um episódio estarrecedor, acontecido em 2009: a tomada de um gigantesco, monstruoso cargueiro americano por quatro piratas somalis, no Oceano Índico.

Na minha anotação sobre Capitão Phillips, citei uma boa frase da biografia de Paul Greengrass no IMDb, escrita por Enrique Bocanegra: “Seu estilo documentário fica mais dinâmico e intenso a cada filme”. E aí acrescentei: “Hum… A frase de fato é boa, mas talvez não exatamente acurada, já que dirigiu, antes e depois de Vôo United 93, dois dos títulos da série Bourne, A Supremacia Bourne (2004) e O Ultimato Bourne (2007) – filmes de ação, muita ação, artesanalmente bem realizadas, mas muito longe de qualquer proximidade com a verdade dos fatos, com a vida real.”

Em 2016, fez um terceiro filme da série Bourne, Jason Bourne. Essa nova aventura, que, sem muito rigor, dá para ser classificada como escapista, ficou imprensada, na obra de Greengrass, entre o drama pesado que é Capitão Phillips e a terrível tragédia mostrada neste 22 de Julho.

Fascinante trajetória essa de Paul Greengrass. Ele altera filmes escapistas com filmes que reconstituem, com a precisão de documentários, episódios pavorosos da História recente.

 Muito tempo após os ataques, o sofrimento prossegue

Com a precisão de documentários, mas, ao mesmo tempo, como se fosse um thriller – um thriller apavorante, com imensa carga dramática. É desta forma que o realizador mostra os ataques terroristas de 22 de julho de 2011 no centro de Oslo e na bela ilha de Utøya, situada no lago Tyrifjorden, a cerca de 30 quilômetros da capital norueguesa.

Embora tenham sido terríveis (bem, todo ataque terrorista é terrível, claro), embora tenham feito um número muito grande de vítimas fatais – foram 77 mortos -, embora tenham sido tão recentes, os atentados de 22 de julho podem não estar na memória dos espectadores. Não estavam muito na minha memória: eu me lembrava, claro, da existência dos atentados, sabia que haviam sido os mais pavorosos da história da Noruega, e que tinham a ver com extremismo de direita – mas confesso que não sabia mais que isso.

Assim, foi para mim, e também para Mary, um grande choque ver como o filme vai mostrando, passo a passo, as ações do terrorista, um tal Anders Behring Breivik, interpretado por Anders Danielsen Lie.

O fato de que eu não sabia como tinham sido os ataques fez com que eu fosse sendo surpreendido pelo filme, como se fosse uma ficção – uma ficção horrorosa, terrível, uma distopia absurda.

Por isso, creio que seria melhor não relatar aqui como foram os ataques. Embora o filme praticamente abra com eles, seria um spoiler.

Quando o filme está com 31 dos seus 143 minutos, o terrorista é dominado pela polícia.

A tragédia não termina aí. A tragédia irá longe.

O realizador Greengrass, me parece, quis demonstrar que a tragédia inclui também o que vem depois dos ataques – os efeitos sobre a sociedade e o governo norueguês, a situação dos sobreviventes, e como transcorre o julgamento de um criminoso assim num dos países mais avançados, desenvolvidos, educados do mundo.

Um absurdo horrível: os noruegueses falam em inglês!

Antes de prosseguir, quero registrar que o filme tem um grande defeito, uma coisa absolutamente incompreensível no cinema de hoje em dia: muito provavelmente por exigência dos produtores e distribuidores (o filme foi feito com dinheiro de empresas da Noruega, Islândia e Estados Unidos), todos os diálogos dos noruegueses são… em inglês!

Já deveria ser coisa do passado bem passado isso de chineses, russos, brasileiros, apaches, comanches, georgianos, japoneses, vietnamitas, marcianos, venusianos, romanos da época de Cristo falarem em inglês nos filmes americanos.

Era assim no passado mais distante. Mas, felizmente, a partir aí dos anos 80, isso começou a rarear, e as pessoas passaram a falar em suas próprias línguas, mesmo nos filmes hollywoodianos.

Esquisitissimamente, estranhissimamente, no entanto, aqui se cedeu à lei do mais forte. Como o mercado americano ainda é o maior do mundo (só agora está sendo alcançado pelo da China), e como boa parte do público americano não gosta do trabalho de ler legendas, Paul Greengrass deve ter engolido todos os sapos dos lagos de Surrey e aceitado fazer com que os atores – todos noruegueses – falassem em inglês.

É um horror. Mas paciência. Apesar disso, é um belo filme.

O terrorista e um dos sobreviventes são os protagonistas

Os números finais de um ataque terrorista, que fazem as manchetes dos jornais, são duríssimos, importantíssimos – têm mesmo que estar nas manchetes. “Ataque terrorista deixa tantos mortos e tantos feridos.” Tem mesmo que ser assim. No entanto, à custa da repetição das tragédias, os números acabam ficando frios demais. Não espelham, nem de longe, a dor tenebrosa das famílias das vítimas – nem o horror que é sobreviver com o corpo estraçalhado.

Pelo que dá para se perceber, a jornalista e escritora norueguesa Åsne Seierstad, com a experiência de quem cobriu os conflitos armados na Sérvia, na Chechênia, no Afeganistão, soube escapar do perigo da frieza dos números finais dos ataques de 22 de julho ao narrar, em seu livro One of Us: The Story of a Massacre in Norway — and Its Aftermath (um de nós: a história de um massacre na Noruega – e suas consequências), as histórias específicas de algumas das vítimas do terrorista. Ao se concentrar na narrativa das consequências dos ataques sobre algumas pessoas específicas, ela aproximou o leitor do drama.

Paul Greengrass se baseou no livro de Åsne Seierstad para escrever o roteiro de 22 de Julho. E escolheu uma das vítimas destacadas no livro, o rapaz Viljar Hanssen (interpretado por Jonas Strand Gravli, nas fotos acima e abaixo), para ser o personagem central do drama.

Ao longo de todo o tempo, desde bem o início, o filme vai mostrando paralelamente, simultaneamente, as trajetórias, os movimentos do terrorista Anders Behring Breivik e do rapaz Viljar Hanssen.

Nos dias e horas que antecederam os ataques, enquanto Breivik preparava as muitas bombas que explodiria junto dos principais prédios do governo da Noruega – o gabinete do primeiro-ministro, ministérios – e os armamentos pesados que usaria logo em seguida na ilha de Utøya, o jovem Viljar Hanssen participava, exatamente ali na ilha, de um acampamento de verão, juntamente com o irmão Torje (Isak Bakli Aglen), o maior amigo, Simon (Harald Nordmann), e algumas dezenas de jovens estudantes das mais diversas partes do país.

Há referências, no acampamento, ao Partido Trabalhista Norueguês. O espectador de fora não tem a obrigação de saber, claro, mas a ilha de Utøya pertence ao Arbeidernes ungdomsfylking, ou AUF (Juventude trabalhista), ligada ao Partido Trabalhista. ”A AUF organiza anualmente acampamentos de verão na ilha, recebendo mais de 800 pessoas oriundas de toda a Noruega e de outros países” a cada ano, informa a Wikipedia.

Nas primeiras – e rápidas – sequências no acampamento do verão de 2011, Viljar se destaca entre aquelas dezenas de estudantes, tanto no esporte quanto nas reuniões sobre política, em que defende a convivência de pessoas de todas as nacionalidades na Noruega e na Europa como um todo.

Como aponta a chefe do acampamento, uma moça simpática (interpretada por Monica Borg Fure), ali estão reunidos alguns dos futuros líderes da sociedade norueguesa – e em rapidíssimas pinceladas o filme nos mostra que aquele garoto Viljar é um dos mais promissores. Tem boa pinta, é atlético, inteligente, articulado e os colegas gostam muito dele.

Ao desembarcar de uma lancha na ilha de Utøya, para onde se dirigiu velozmente após acionar as bombas junto à sede do governo no centro de Oslo, o terrorista Breivik primeiro mata aquela simpática chefe do acampamento e o chefe da segurança do lugar. Em seguida sai pela ilha à procura de quem estivesse pela frente para matar. Enquanto atira, xinga aqueles “filhos da elite”.

Um assassino que se vangloria do que fez

Ao longo dos cerca de 110 minutos de filme após a prisão de Breivik, o filme vai mostrando, sempre simultaneamente, paralelamente, suas conversações com o advogado que pede para defendê-lo, Geir Lippestad (Jon Øigarden), e a via crucis de Viljar e sua família.

Viljar foi atingido por várias balas disparadas pelo terrorista. Uma delas explodiu dentro da sua cabeça. O filme mostra o trabalho dos médicos, desde o momento em que as equipes de resgate o levam, juntamente com diversos outros feridos, para os hospitais de Oslo, até as várias operações que são realizadas na tentativa de retirar os estilhaços de bala de seu cérebro.

Quase como um milagre, Viljar não fica tetraplégico nem em estado vegetativo, apesar da gravidade dos ferimentos. Acorda do coma após alguns dias; perde a visão do olho direito e parte da capacidade de mover as pernas, em especial a direita. E pior: após novas cirurgias, os médicos desistem de tentar retirar todos os fragmentos da bala, porque o risco de mexer ali poderia resultar na morte do rapaz. Ele será obrigado a conviver com dores de cabeça – e com a ameaça de que algum fragmento remanescente se movimente e provoque danos ainda maiores.

O filme vai mostrando então, lado a lado, dois absurdos, dois totais, absolutos absurdos: um terrorista que não mostra arrependimento algum, que se vangloria de seus feitos, que se acha um herói da guerra da Europa pura contra a imigração, e um jovem que era belo, inteligente, na flor do final da adolescência, e teve a vida praticamente destruída.

Há ainda uma terceira parte da história, mas esta aparece bem menos. É o primeiro-ministro Jens Stoltenberg (interpretado por Ola G. Furuseth) e seu entorno.

O filme retrata Jens Stoltenberg – um político jovem, nascido em 1959, que tinha apenas 46 quando assumiu o cargo de primeiro-ministro, em 2005 – como um homem calmo, controlado, atento às suas funções, trabalhador. Um bom político, em suma. Mas, como seria de se esperar, depois dos atentados surgem acusações de que o governo poderia ter sido mais cuidadoso, que houve falhas nos sistemas de inteligência, que os ataques poderiam ter sido evitados. Uma comissão é nomeada para estudar e investigar as atuações de extremistas, e eventualmente vai concluir que de fato houve falhas.

Mas essa parte política, oficial, é mostrada com bem menos destaque. O que importa, para o realizador Greengrass, é mostrar as duas tragédias – a quantidade de esterco que há no cérebro do terrorista e a dor que envolve as famílias das vítimas, a de Viljar como um exemplo.

Os discursos racistas, supremacistas, xenófobos do terrorista Anders Behring Breivik (na foto abaixo, o ator Anders Danielsen Lie), não para pedir desculpas ou perdão, mas para se vangloriar por suas ações, são literalmente nauseantes. Resolvi que não é o caso de rever partes do filme para transcrever aqui alguns exemplos das falas dele. De discursos nauseantes vindos dos esgotos, das trevas, contra todos os avanços que a civilização conseguiu a duras penas, já estamos cansados demais, neste Brasil de hoje.

Anotação em dezembro de 2019

22 de Julho/22 July

De Paul Greengrass, Noruega-Islândia-EUA, 2018

Com Anders Danielsen Lie (Anders Behring Breivik, o terrorista), Jonas Strand Gravli (Viljar Hanssen, sobrevivente), Jon Øigarden (Geir Lippestad, o advogado), Maria Bock (Christin Kristoffersen), Thorbjørn Harr (Sveinn Are Hanssen, o pai de Viljar), Seda Witt (Lara Rachid, sobrevivente), Isak Bakli Aglen (Torje Hanssen, o irmão de Viljar), Ola G. Furuseth (primeiro-ministro Jens Stoltenberg), Marit Andreassen (auxiliar do primeiro-ministro), Øystein Martinsen (auxiliar do primeiro-ministro), Valborg Frøysnes (auxiliar do primeiro-ministro), Harald Nordmann (Simon Sæbø, amigo de Viljar), Anders Kulsrud Storruste (Anders Kristiansen, amigo de de Viljar), Monica Borg Fure (a líder do acampamento de Utøya), Mathias Eckhoff (o segurança de Utøya Security)

Roteiro Paul Greengrass

Baseado no livro One of Us: The Story of a Massacre in Norway — and Its Aftermath, de Åsne Seierstad     

Fotografia Pål Ulvik Rokseth

Música Sune Martin      

Montagem William Goldenberg

Casting Cecilie Enersen, Daniel Hubbard, Ellen Michelsen     

Na Netflix. Produção Scott Rudin Productions, distribuição Netflix.

Cor, 143 min (2h23)

***

 

Um comentário para “22 de Julho / 22 July”

  1. Maravilhoso sua análise, do filme, adorei o filme, fiquei triste com o atentado, muito triste, muito mesmo, mais fiquei feliz por saber que apesar de tudo, um país de primeiro mundo europeu, trata as pessoas como elas deveriam ser tratadas como ser humano, quem dera o Brasil fosse assim, parabéns Sérgio. Parabéns Noruega.

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