Zelig

Nota: ★★★★

Há os que amam e há os que odeiam apaixonadamente Woody Allen. Peço desculpas a esses últimos, mas Zelig é um filme genial. Absurda, gritantemente genial. É inteligência de sobra, saindo pelo ladrão, initerruptamente, ao longo de 79 minutos.

É um pseudo-documentário, um documentário falso, uma ficção que finge ser um documentário – e aí é necessário lembrar que o próprio Woody Allen havia usado com sucesso esse formato, essa fórmula, justamente no primeiro filme que escreveu e dirigiu, Um Assaltante Bem Trapalhão/Take the Money and Run, de 1969, 14 anos antes. Aquele filme contava a história da figura do título brasileiro, um ladrão mais trapalhão que Didi, Dedé e Mussum juntos – e um narrador entrevistava pessoas que conheceram a figura.

Foi o primeiro de muitos pseudo-documentários, documentários falsos, ou mockumentary, a palavra que os críticos americanos inventaram para definir o formato, reunião de mock com documentary – mock é zombaria, chacota, troça, e também ludibrio, imitação, falsificação. Está na Wikipedia: “um mockumentary ou docucomedy é um tipo de filme ou show de televisão que mostra eventos ficcionais mas apresentados como um documentário”.

A Wikipedia, é óbvio, fala de Take the Money and Run e de Zelig no verbete em inglês de mockumentary: “Take the Money and Run de Woody Allen é apresentado em estilo de documentário, com Allen interpretando um criminoso fictício, Virgil Starkwell, cujos crimes são ‘explorados’ ao longo do filme. Jackson Beck, que costumava narrar documentários nos anos 1940, faz a narração sem aparecer na tela. Entrevistas fictícias são espalhadas pelo filme, especialmente dos pais de Starkwell, que usam narizes e bigodes tipo Groucho Marx. O estilo do filme foi largamente apropriado por outros realizados e revistado pelo próprio Allen em filmes como Zelig (1983) e Sweet and Lowdown (1999).”

Tudo muito bem colocado no verbete, acho eu. Só que, em Zelig, Woody Allen radicalizou.

Uma incrível mistura de ficção com documentos reais

Treze anos mais maduro, mais experiente do que quando estreou na direção com Take the Money and Run, Allen criou em Zelig um personagem complexo, multifacetado, e uma trama rica, fascinante. Nos gloriosos, alegres, loucos anos 1920, Leonard Zelig, o protagonista que o próprio diretor interpreta, tem a estranhíssima capacidade de se adequar ao meio em que está a cada momento. Assim, em Chinatown ele adquire traços dos chineses; quando está em companhia de negros, fica negro. Se convive com gordos, fica gordo. E assim por diante.

Um homem camaleão!

Logo vira um objeto de estudo da comunidade médica de Nova York. Diversos médicos o examinam, tentam dissecá-los, analisá-lo. A que mais se aprofundo no estudo do comportamento de Zelig é uma jovem e bela psiquiatra, a dra. Fletcher (o papel de Mia Farrow, no segundo dos 13 filmes que faria com Woody Allen).

Mas a grande sacada, o pulo do gato, o gol de placa de Woody Allen foi fazer todo o filme misturando imagens documentais, tiradas de cinejornais dos anos 1920 e 1930, com as sequências com os atores. A forma com que imagens de cinema-verdade se misturam com a ficção, se integram com ela, é algo extraordinário, uma fantástica conquista técnica do diretor de fotografia Gordon Willis com a equipe de efeitos especiais e a grupo que pesquisou imagens filmadas nos anos 1920 e 1930.

Assim, por exemplo, há uma sequência em que Zelig-Woody Allen desfila em carro aberto por Manhattan, sendo aplaudido por multidões. Muito seguramente aquelas são imagens do desfile de Charles Lindbergh, um dos maiores heróis americanos, homenageado após fazer o vôo transatlântico sem escalas, em 1927 – e o rosto de Woody Allen foi incrustrado no lugar do de Lindbergh.

Em outro momento, vemos Zelig-Woody Allen logo atrás de Adolf Hitler, que faz um discurso para uma gigantesca multidão de fiéis seguidores.

Sim: sem Zelig, dificilmente teria existido Forrest Gump (1994), o filme de Robert Zemeckis em que o protagonista, interpretado por Tom Hanks, aparece na tela ao lado de John Kennedy, Lyndon Johnson e diversas outras personalidades da política, dos esportes, das artes. Os criadores de Forrest Gump beberam de canudinho em Zelig.

Personalidades falam de Zelig como se ele tivesse existido

E ainda há os depoimentos de personalidades famosas, em que elas falam de Zelig como se ele de fato tivesse existido. Entre os entrevistados estão, por exemplo, a grande escritora, crítica e ativista Susan Sontag (1933-2004), o escritor Saul Bellow, Prêmio Nobel de Literatura (1915-2005), o crítico e político Irving Howe (1920-1993), o psicólogo Bruno Bettelheim (1903-1990).

Todos esses figurões, e mais vários outros, aceitaram aparecer no filme falando alguma coisa a respeito de Leonard Zelig como se ele de fato tivesse existido e sido uma personalidade importante na História!

E é fascinante notar que aqui Allen se apropriou muito claramente de um esquema que havia sido usado dois anos antes em um filme sério, seriíssimo, o Reds de Warren Beatty, o filme que conta a história da Revolução Russa de outubro de 1917 sob a visão do jornalista americano John Reed, que acompanhou de perto a instalação do primeiro regime comunista do mundo, e depois relatou o que viu no livro 10 Dias Que Abalaram o Mundo.

Beatty entremeou o relato da história com depoimentos de grandes personalidades, como, só para dar dois exemplos, o escritor Henry Miller e o historiador Will Durant.

Tudo absolutamente sério, tudo rigidamente papo de intelectual de esquerda. Pois então, apenas dois anos depois de Reds, vem Woody Allen e bota intelectuais falando abobrinhas sobre o personagem que ele inventou, Leonard Zelig, o homem camaleão.

Há aí, entre Woody Allen e Warren Beatty, um elemento em comum – e que elemento! Diane Keaton. Depois de ter vivido alguns anos com Woody Allen, e ter feito com ele cinco filmes consecutivos, entre 1973 e 1979, Diane Keaton viveu com Warren Beatty. Viveu e trabalhou: em Reds, ela interpreta Louise Bryant, a mulher de John Reed.

O narrador diz frases genialmente engraçadas

Praticamente todo o filme Zelig é em preto-e-branco, é claro, porque eram necessariamente em preto-e-branco os filmes originais feitos nos 1920 e 1930. Apenas os depoimentos dos figurões são em cores.

E, para brincar ainda mais com o formato de documentário, entre os depoimentos daqueles figurões aparecem também (em cores, exatamente como os demais), depoimentos da dra. Fletcher quando velha (interpretada por Ellen Garrison), da mãe da psiquiatra que cuida a vida inteira de Zelig (o papel de Jean Trowbridge) e mais um ou dois personagens ficticios.

Há também um filme dentro do filme: na história fictícia,  Hollywood fez nos anos 30 um filme sobre a vida de Leonard Zelig – e vemos trechos do filme, em que o ator Garrett Brown interpreta o ator que faz Zelig, e Marianne Tatum a atriz que faz a dra. Fletcher.

E, ao longo de todo o filme, ouvimos a voz em off de um narrador. A voz – maravilhosa – é de Patrick Horgan, um ator inglês que se especializou em emprestar a voz para criar livros falados destinados aos cegos; gravou todo o canon de Sherlock Holmes, as 60 histórias originais, 4 romances e 54 contos.

O texto que Woody Allen criou para Patrick Horgan ler para os espectadores, com sua voz firme, poderosa, e seu inglês britânico que adoça nossos ouvidos, é absolutamente brilhante. É cheio de momentos engraçadérrimos, hilariantes, de sacadas espertas, deliciosas.

Alguns exemplos:

– “Quem era esse Leonard Zelig que parecia criar tantas impressões diversas nos mais diferentes locais? Tudo o que se sabia dele é que era o filho de um ator iídiche chamado Morris Zelig, cuja atuação como Puck numa versão ortodoxa de Sonho de uma Noite de Verão foi recebida com frieza. O segundo casamento do Zelig mais velho foi marcado por brigas violentas e constantes. Tanto que, embora a família morasse em cima de um clube de boliche, era o clube de boliche que reclamava do barulho.”

– “Quando criança, Leonard era frequentemente importunado por anti-semitas. Seus pais, que nunca ficavam do seu lado e o culpavam por tudo, ficavam do lado dos anti-semitas. Eles o puniam muitas vezes trancando-o num armário escuro. Quando estava muito furiosos, entravam no armário com ele.”

– “A Ku Klux Klan, que via Zelig como um judeu que podia se transformar em negro e em índio, o considerava uma ameaça tríplice.”

– “Que Zelig podia ser responsável pelo comportamento de cada uma das personalidades que ele assumia levou a dezenas de processos na Justiça. Ele foi processado por bigamia, adultério, acidentes de trânsito, plágio, danos em imóveis, negligência e por executar extrações dentárias desnecessárias.”

Um monte de personalidades reais aparece na tela

Zelig é um dos poucos filmes de Woody Allen para os quais foram compostas trilhas sonoras. Na grande maior parte de seus quase 50 filmes, são usadas músicas já existentes – em geral, canções da Grande Música Americana e peças clássicas. Dick Hyman compôs a trilha de Zelig – e criou seis canções especialmente para o filme, com letras que fazem referência a camaleão, e são exatamente do estilo de músicas dos anos 30, de tal maneira que o espectador pode perfeitamente achar que são de fato canções daquela época. Eu não me lembrava dessas canções – tinha visto Zelig muitos anos atrás. Ao rever agora, tive a sensação de que eram de fato canções dos anos 30. Só nos créditos finais vi que são composições do Dick Hyman.

É muito impressionante.

Muito impressionante também é o número de personalidades que aparecem nos trechos de cinejornais da época e foram incluídos em Zelig. Muitos deles aparecem tão brevemente que nem o mais atento dos espectadores perceberá.

O IMDb fez uma lista dessas personalidades. Eis algumas delas: Josephine Baker, Clara Bow, James Cagney, Al Capone, Charlie Chaplin, Calvin Coolidge, Marion Davies, Joe DiMaggio, F. Scott Fitzgerald, Lou Gehrig, Joseph Goebbels, Hermann Göring, William Randolph Hearst, Rudolf Hess, Adolf Hitler, Charles Lindbergh, Carole Lombard, Adolphe Menjou, Tom Mix, Papa Pio XI, Dolores del Río, Babe Ruth.

Para dar maior autenticidade ao filme, a produção usou lentes, câmaras e equipamento de som dos anos 1920 ao filmar as sequências com os atores.

O diretor de fotografia Gordon Willis (1931-2014), que teve duas indicações ao Oscar, uma delas por Zelig, disse em uma entrevista: – “Houve um momento em que achei que nós nunca terminaríamos, e achei que ia ficar louco. Nunca trabalhei tanto para fazer uma coisa difícil parecer tão simples.”

Aqui vão outros fatos e curiosidades sobre o filme e sua produção, a maioria tirada da página de Trivia do IMDb:

* Em iídiche, a palavra zelig significa “abençoado”, ou “cara alma que já se foi”.

* As cenas em que aparece o escritor F. Scott Fitzgerald (1896-1940) são as únicas que existem, as únicas imagens de filmes em que ele aparece. O que me parece estranhíssimo, já que Fitzgerald passou seus últimos anos em Hollywood, onde deram a ele emprego como roteirista.

* O magnífico ator inglês de teatro, cinema e televisão John Gielgud (1904-2000), Oscar de coadjuvante por Arthur (1981), vencedor de dois Globos de Ouro e de três Baftas, gravou toda a parte do narrador. Depois de todo o trabalho feito, Woody Allen considerou que a voz do grande ator shakespeariano era “grandiosa demais” – e então chamou Patrick Horgan para gravar tudo de novo!

Só Woody Allen para dispensar o trabalho de Sir John Gielgud!

* A irmã de Mia Farrow, Stephanie Farrow, faz o papel da irmã da dra. Fletcher, a personagem de Mia. Stephanie voltaria a trabalhar com Allen em outro filme da Era Mia Farrow, o maravilhoso A Rosa Púrpura do Cairo (1985). Ah, sim: a Era Mia Farrow da carreira do realizador tem, como já foi dito, 13 filmes, e vai de 1982 (Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão) até 1992 (Maridos e Esposas).

* Nas duas categorias em que o filme teve indicações ao Oscar – fotografia para Gordon Willis e figurinos para Santo Loquasto –, Zelig perdeu para Fanny e Alexandre, de Ingmar Bergman, um dos ídolos de Woody Allen, um dos cineastas que mais o influenciaram. Baita coincidência.

* O filme teve duas indicações ao Globo de Ouro – melhor filme, comédia ou musical, e ator para Woody Allen. Não levou nenhum dos dois prêmios. Ao Bafta, teve cinco indicações: roteiro original, fotografia, montagem para Susan E. Morse, maquilagem e efeitos visuais. Também não levou nenhum.

* Com 79 minutos, é o longa-metragem mais curto da carreira do realizador.

Tanto Maltin quanto Ebert apontam senões no filme

Leonard Maltin deu apenas 3 estrelas em 4 para esta obra-prima: “Pseudo-documentário usando impressionante recriações de velhos cinejornais e gravações, sobre um homem camaleônico chamado Leonad Zelig (Allen), que se transforma em uma celebridade nos anos 20. Uma piada supremamente bem executada, mais inteligente que engraçada; teria funcionado ainda melhor num formato mais curto. A fotografia de Gordon Willia e a música de Dick Human são destaques.”

O grande Roger Ebert também deu apenas 3 estrelas em 4 e, como Leonard Maltin, disse que se o filme fosse menor, se tivesse apenas uma hora, já seria suficiente. Segundo Ebert, o filme foi feito com grande criatividade, engenhosidade e brilho técnico. “É uma obra-prima como técnica, mas em termos artísticos e cômicos, é apenas bastante bom.”

Le Petit Larousse des Films define Zelig como “um pot-pourri de referências históricas, literárias, cinematográficas (Cidadão Kane, Reds, O Homem Elefante), psicanalíticas e musicais”. “É o filme mais radical e o mai enigmático de Allen.” E mais adiante: “Obra-prima do distanciamento, este filme é também uma bela reflexão sobre os paradoxos da loucura e da normalidade, uma tentativa audaciosa do autor-comediante de se livrar de si mesmo ao se apresentar ao mesmo tempo onipresente e evasivo.”

No seu Guide des Films, mestre Jean Tulard resume sua avaliação do filme em uma frase: “Talvez o filme mais original de Woody Allen”.

Anotação em março de 2019

Zelig

De Woody Allen, EUA, 1983

Com Woody Allen (Leonard Zelig), Mia Farrow (dra. Fletcher)

e, como eles mesmos, sendo entrevistados, Susan Sontag, Irving Howe, Saul Bellow, Bricktop, Bruno Bettelheim, John Morton Blum, Ed Herlihy, Dwight Weist, Gordon Gould, Windy Craig, Jurgen Kuehn

e Patrick Horgan (a voz do narrador), Sol Lomita (Martin Geist, o cunhado), Mary Louise Wilson (Ruth, a irmã), Stephanie Farrow (Meryl, a irmã da dra. Fletcher), Jean Trowbridge (a mãe da dra. Fletcher), Ellen Garrison (dra. Fletcher velhinha), Elizabeth Rothschild (Meryl velha), John Buckwalter (Dr. Sindell), Marvin Chatinover (médico do diagnóstico glandular), Stanley Swerdlow (médico da comida mexicana), Paul Nevens (Dr. Birsky), Howard Erskine (médico hipodérmico), George Hamlin (o médico das drogas experimentais), Charles Denney (o ator que faz o médico), Michael Kell (o ator que faz Koslow), Garrett Brown (o ator que faz Zelig), Marianne Tatum (a atriz que faz a dra. Fletcher), Sharon Ferrol (Miss Baker), Richard Litt (Charles Koslow), Dimitri Vassilopoulos (Martinez), John Rothman (Paul Deghuee), Deborah Rush (Lita Fox), Stanley Simmonds       (o advogado de Lita), Robert Berger (o advogado de Zelig), Jeanine Jackson (Helen Gray)

Argumento e roteiro Woody Allen

Fotografia Gordon Willis

Montagem Susan E. Morse

Música Dick Hyman

Coreografia Danny Daniels

Efeitos especiais John Caglione Jr., Joel Hynick, Stuart Robinson, Richard Greenberg

Figurinos Santo Loquasto

Produção Robert Greenhut, Jack Rollins & Charles H. Joffe Productions, Orion Pictures.

P&B e Cor, 79 min (1h19)

R, ****

3 Comentários para “Zelig”

  1. Nesta altura eu ainda gostava muito de Woody Allen e fui ver o filme. Fiquei boquiaberto quando o filme começa a correr e a banda sonora é falada em português do Brasil num cinema que tinha um péssimo som. Não percebia nada. Furioso saí passados uns 10 minutos.
    As críticas da altura elogiavam o filme mas ninguém se referiu à dobragem para português, coisa que não se faz nunca, excepto em filmes para crianças.

  2. Olá, José Luís!
    Mas que loucura que os distribuidores do filme aí em Portugal fizeram! Não consigo imaginar por que resolveram fazer essas duas insanidades: primeiro, dublar e não avisar que a cópia a ser exibida era dublada. Segundo, exibir aí uma cópia dublada em “brasileiro”!
    Insanidade total e absoluta.
    Mas o filme é um brilho…
    Grande abraço!
    Sérgio

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