Uma Casa à Beira-Mar / La Villa

Nota: ★★★½

Nenhum outro realizador segue tão à risca o famoso mandamento criado por Liev Tolstói – Se você quer ser universal, fale de sua aldeia – quanto o marselhês de ascendência armênia Robert Guédiguian.

Ao longo de 20 filmes em 37 anos, até aqui, Guédiguian falou basicamente de Marselha, a cidade em que nasceu em 1953, e seus habitantes – em especial as pessoas das classes trabalhadoras. Guédiguian, assim como seu colega de profissão Ken Loach, é um eterno esquerdista, não importa que caiam muros como o de Berlim e impérios como o soviético.

Neste La Villa, no Brasil Uma Casa à Beira-Mar, de 2017, afastou-se um pouquinho da cidade, mas bem pouquinho. Toda a ação do filme se passa na Calanque de Méjean, uma pequena comunidade situada alguns quilômetros a Oeste de Marselha. Do mar diante do lugarejo dá para ver ao longe a grande cidade – e lá pelas tantas, quando dois dos personagens fazem um passeio de barco, um deles aponta para Marselha e fala sobre sua beleza. (Falo sobre o que é um calanque mais abaixo.)

Uma Casa à Beira-Mar trata exatamente da relação entre as pessoas e o lugar em que nasceram e cresceram, entre as pessoas e o ambiente que as cerca, os vizinhos, os que estão próximos. Trata de conflitos familiares, essa coisa inevitável – e, como é inevitável, nestes tempos atuais, fala também dos refugiados que chegam sem cessar à Europa.

Os irmãos se reúnem quando o pai tem um derrame

Nenhum outro realizador consegue ser tão absolutamente fiel a um grupo de atores quanto Robert Guédiguian. É muito impressionante. Em 18 dos 20 filmes que escreveu e dirigiu até este La Villa, está presente a atriz Ariane Ascaride, que é sua mulher; em 18 filmes está também o ator Gérard Meylan, e em 14, Jean-Pierre Darroussin. Nem Ingmar Bergman, nem Woody Allen – conhecidos por usar as mesmas pessoas em diversos de seus filmes – chegaram a tal nível de fidelidade a um grupo de atores.

Nos filmes do marido, Ariane Ascaride já foi casada com Meylan e com Darroussin; em um deles, Marie-Jo et ses deux amours (2002), foi, como indica o título, amante dos dois.

Neste Uma Casa à Beira-Mar, os três excelentes atores fazem o papel de irmãos, que há muitos anos não se viam, e se reúnem finalmente quando o velho pai tem um derrame. (Jean-Pierre Darroussin está à esquerda na foto acima, Gérard Meylan, à direita.)

Vão, ao longo dos dias em que ficam juntos, trazer à tona antigos conflitos, conhecer melhor uns aos outros – e cada um vai, de alguma maneira, se conhecer melhor.

O filme começa no momento em que acontece o drama. Maurice (o papel de Fred Ulysse), um velho rijo aí de uns 80 e tantos anos, está sentado na ampla varanda de sua casa – a villa do título original –, situada numa encosta, um pequeno morro, com um vista absolutamente deslumbrante para a calanque, o mar daquele azul que só o Mediterrâneo tem, cheio de pequenos barcos. Maurice acende um cigarro – e logo seu rosto se contorce de dor.

Só Joseph (o papel de Gérard Meylan) vivia ali com o pai; cuidava do pequeno restaurante localizado bem perto da villa que Maurice havia passado vários anos construindo. Armand (Jean-Pierre Darroussin) saíra dali cedo, fizera longa carreira em uma grande indústria e no sindicalismo; tinha pretensões literárias também, começara a escrever um livro. Com a notícia do derrame do pai, viajara até a Calanque de Méjean com a namorada, Bérangère, uma garota bem mais nova que ele (o papel de Anaïs Demoustier).

Angèle (o papel de Ariane Ascaride) era a filha que havia se mantido mais distante do pai e de Joseph; fazia uns 20 anos que não visitava a villa onde havia vivido a adolescência. Morava em Paris, tinha uma sólida carreira como atriz de teatro.

Uma tragédia havia afastado Angèle da casa do pai

Essas informações sobre a família vão sendo passadas bem pouco a pouco, através de um diálogo aqui, outro ali. Desde o início, o que fica bem claro é que Joseph demonstra uma certa mágoa pelo fato de a irmã ter desaparecido tão completamente da vida dele e do pai.

Só quando a ação já está bem adiantada o espectador fica sabendo exatamente o que fez Angèle afastar-se tanto da casa paterna – uma tragédia acontecida muitos anos antes.

O roteiro não demora nada, no entanto, a apresentar para o espectador alguns outros personagens – moradores ali do lugar, vizinhos, amigos antigos.

Um deles é Benjamin (Robinson Stévenin), um jovem pescador, uma boa figura que parece estar sempre de bem com a vida. À medida que a trama vai se desenvolvendo, veremos que, quando ainda garoto, Benjamin havia sido levado para o pai para ver uma apresentação de A Alma Boa de Setsuan, a peça de Bertold Brecht, em que a então ovem Angèle fazia o papel da personagem-título – e, a partir daquela experiência, havia se apaixonado pelo teatro e por Angèle. Ela nunca tinha ficado sabendo disso.

E há também o casal Martin e Suzanne (Jacques Boudet e Geneviève Mnich), pais de Yvan (Yann Trégouët), um jovem médico talentoso, dedicado, trabalhador. Foi Yvan que cuidou de Maurice quando ele sofreu o derrame.

O roteiro – que é original, com história criada diretamente para o filme por Guédiguian e Serge Valletti – faz questão de não ser muito explícito sobre quais eram, exatamente, as relações entre o casal Martin e Suzanne com o velho Maurice. O espectador poderá deduzir, como eu fiz, que o casal, mais pobre, mais humilde, trabalhou para Maurice. Não que Maurice fosse rico, de forma alguma – mas era muito provavelmente um trabalhador mais qualificado, e tinha salário razoável, que permitiu que ele  construísse, com sacrifício e ao longo de muitos anos, aquela villa confortável.

O que fica claro desde sempre é que Martin e Suzanne tinham grande amizade com Maurice, grande apreço, respeito, admiração por ele.

É ponto de honra ser da classe trabalhadora

Pertencer à classe trabalhadora, ter a vida inteira trabalhado muito, não ser jamais confundido com “burguês”, parece ponto de honra para todos ali – para Maurice, o pai, e para todos os seus três filhos. Até mesmo para a mais jovem, que abandonou o lar da família, mudou-se para Paris e até obteve razoável fama no teatro.

É a marca registrada dos personagens dos filmes desse eterno comunista: os personagens que Robert Guédiguian cria, e são interpretados sempre por esses mesmos atores, são – e fazem questão de assim se definirem – gente do povo, da classe trabalhadora.

Mesmo quando – como acontece com a família retratada aqui – possuem uma villa ampla, espaçosa, de frente para o mar, e desfrutam de bom conforto material.

Na verdade, o que o filme acaba realçando muito é um certo desconforto que aquelas pessoas têm – em especial os dois filhos homens, Joseph e Armand – com o fato de estarem, afinal de contas, bem de vida.

Não foi isso, com certeza, que Guédiguian queria realçar, enfatizar – mas, para mim, uma das coisas que ficam mais fortes no filme é esse desconforto que aquelas pessoas têm com o fato de que sua vida é confortável.

Joseph diz mais de uma vez que quer manter seu restaurante com preços baixos, acessíveis, para servir às pessoas do lugar. Poderia seguramente se aproveitar da localização privilegiadíssima do lugar, de frente para o mar, naquela calanque espetacular, e ganhar muito dinheiro dos turistas. Mas não: quer se manter como sempre foi, fiel a seus princípios, sempre um homem da classe trabalhadora.

E Armand, então, esse é um sindicalista, um ativista da causa operária, um teórico contemporâneo da luta de classes.

De uma certa maneira, tenha Guédiguian feito isso intencionalmente ou não, La Villa é um filme sobre as contradições que há na luta pela defesa da classe operária contra a opressão burguesa nos dias de hoje, tão diferentes daqueles da época da Revolução Industrial, do trabalho desumano nas primeiras fábricas.

Por mais duro que seja, por mais ofensivo que possa parecer, a verdade (e o filme mostra isso às claras) é que muitos dos mais autênticos representantes da classe trabalhadora, filhos de autênticos representantes da classe trabalhadora, como Maurice, hoje se parecem com… “burgueses”.

O soldado negro chama os irmãos de “burgueses”

Há uma sequência impressionante que, para mim, é absolutamente significativa, forte, impactante.

Os três irmãos e mais Bérangère, a namorada de Armand, estão conversando no restaurante de Joseph, quando chega um soldado – um jovem negro, interpretado por Diouc Koma –, e pergunta se eles viram algum refugiado por ali, se notaram algo que pode indicar a presença de algum refugiado na região.

Armand trata o jovem soldado com visível desprezo – o soldado representa, para ele, o Estado burguês, as forças da repressão, os perseguidores dos irmãos árabes e africanos que precisam ser acolhidos.

O soldado não engole o sapo, e responde à altura. Diz que ele e seus companheiros trabalham dia e noite, por um salário de fome, para garantir a segurança das pessoas. Para garantir, por exemplo, que aquele grupo de burgueses ali possa ficar tranquilamente batendo papo no restaurante à beira-mar.

Não pode haver mais violento tapa na cara de um sujeito que a vida inteira lutou contra os patrões do que ser chamado de “burguês” por um jovem trabalhador que, afinal de contas, é ele mesmo filho de imigrantes.

Desde cedo, no filme, passam ali diante da villa da família jipes com soldados. A princípio, aquilo parece uma coisa sem explicação – por que o filme está mostrando jipes com soldados naquele lugar plácido, tranquilo?

Bem aos poucos o espectador vai percebendo que os soldados estão à procura de refugiados, árabes ou negros que atravessaram o Mediterrâneo em busca de alguma oportunidade na vida.

Mas o roteiro inteligente, sensível de Guédiguian e seu colega Serge Valletti só vai mesmo escancarar a questão dos refugiados bem para o fim do filme, quando Joseph e Armand encontram, num bosque da região, três jovens que têm fome, frio, sede, e se escondem numa cabana improvisada. Uma garota mais velha, aí de uns 14 anos, e seus dois irmãos, de uns 6 ou 7. (Eles são interpretados por Haylana Bechir, uma garota linda, e os meninos Ayoub Oaued e Giani Roux.)

Três irmãos – dois homens, uma mulher. Exatamente como os três filhos do velho Maurice, agora transformado num vegetal, alheio a tudo no mundo.

O tempo que passa, o mundo que se transforma

Eu nunca tinha ouvido antes o termo calanque. E olha que sou um apaixonado por geografia.

Pelo que entendi com a leitura de alguma coisa na internet, calanque é assim uma espécie de cruzamento de fiorde com enseada.

É uma enseada, um pequena baía – só que fechada nos três lados que rodeiam a água por morros altos.

Está na Wikipedia: “Uma calanque é um acidente geográfico encontrado no Mar Mediterrâneo, que se apresenta sob a forma de uma angra, enseada ou baía com lados escarpados, composta por estratos de calcário, dolomita ou outros minerais carbonatos. (…) As calanques mais famosas localizam-se na costa sudeste do arrondissement de Marselha.”

Robert Guédiguian rodou todo o seu filme na Calanque de Méjean.

Isso registrado, vou transcrever algumas declarações do próprio realizador, que o site AlloCiné deve seguramente ter retirado de entrevistas ou textos dele na época do lançamento do filme.

Por que fazer este filme:

“Dentro deste entre quatro paredes a céu aberto, alguns irmãos e irmãs, pais e mães, amigos e amantes falam de amores antigos e amores a acontecer… Todos eles têm um sentimento comum. Estão em um momento de suas vidas em que têm uma consciência aguda do tempo que passa, do mundo que se transforma… Os caminhos que eles haviam deixado abertos se fecham pouco a pouco. É necessário mantê-los abertos… ou abri-los de novo. Eles sabem que seu mundo vai desaparecer com eles. Sabem também que o mundo continuará sem eles. Será melhor, pior? Graças a eles, por causa deles? Que marca eles vão deixar? E nessa situação, de repente, chega alguma coisa que talvez vá virar do avesso todas as suas reflexões, uma revolução copérnica: crianças sobreviventes de um barco encalhado se escondem nas colinas. São dois irmãos e uma irmã, como um eco de Joseph, Armand e Angèle, e isso faz voltar a fraternidade entre eles.”

Falar de refugiados:

“Vivemos em um país em que pessoas se afogam no mar todos os dias. E eu escolhi de propósito a palavra ‘refugiados’. Não me importa que seja por razões climáticas, econômicas, ou por causa de uma guerra, eles vêm buscar um refúgio, uma casa. Com aquele três pequenos que chegam, a calanque vai reviver? Angèle, Joseph e Armand vão ficar lá com essas três crianças para criar, e vão tentar manter o restaurante, a colina e suas idéias sobre o mundo… E manter laços com algumas pessoas … e portanto a paz.”

No flashback, os mesmos atores, 31 anos antes

Mais dois registros.

* A frase exata, ipsis litteris, de Liev Tolstói, não sei qual é. Algumas décadas atrás passava-se do russo para o português através do francês, e aí as palavras vão mudando um pouco.

O sentido da frase, de qualquer forma, é claro como água da fonte: Se você quer ser universal, fale de sua aldeia.

É o sentido em qualquer das versões que podemos encontrar na internet:

Fale de sua aldeia e estará falando do mundo.

Seja universal, fale de sua aldeia.

Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.

* Filho da mãe, o tal Robert Guédiguian.

Quando este Uma Casa à Beira-Mar está se aproximando do fim, Angèle se lembra de um episódio acontecido três décadas antes com os dois irmãos, ela e o então jovem marido – um belo dia de verão em que todos se lançaram no mar e ficaram ali brincando.

E então temos um flashback, em que vemos exatamente aquelas três pessoas que interpretam os irmãos Angèle, Joseph e Armand 31 anos mais jovens.

Algo que nem sequer a computação gráfica conseguiria criar.

Robert Guediguian consegue. Ele pegou um fragmento de seu filme Ki Lo As?, de 1986, em que Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin e Gérard Meylan se lançam ao mar e ficam ali brincando.

O sujeito faz filmes universais porque fala do que bem conhece, de sua aldeia. Filmes universais – e belíssimos.

Anotação em dezembro de 2019

Uma Casa à Beira-Mar/La Villa

De Robert Guédiguian, França, 2017

Com Ariane Ascaride (Angèle Barberini), Jean-Pierre Darroussin (Joseph), Gérard Meylan (Armand)

e Anaïs Demoustier (Bérangère, a namorada de Armand), Jacques Boudet (Martin, o pai de Yvan), Robinson Stévenin (Benjamin, o jovem pescador), Geneviève Mnich (Suzanne, a mãe de Yvan), Yann Trégouët (Yvan, o jovem médico), Fred Ulysse (Maurice, o pai), Diouc Koma (o soldado), Haylana Bechir (a jovem refugiada), Ayoub Oaued (o garoto refugiado), Giani Roux (o garoto refugiado), Esther Seignon (Blanche, a filha de Angèle)

Argumento e rogeiro Robert Guédiguian e Serge Valletti

Fotografia Pierre Milon

Montagem Bernard Sasia

Casting Jacqueline Vicaire

Produção Agat Films & Cie, France 3 Cinéma, Canal+, France Télévisions.

Cor, 107 min (1h47)

***1/2

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