Um Reino Unido / A United Kingdom

Nota: ★★★½

Um Reino Unido (2016) é daqueles filmes extremamente bem realizados em todos os quesitos: fotografia, figurinos, direção de arte… A reconstituição de época (a ação se passa na segunda metade dos anos 1940) é um brilho. A trilha sonora, do grande Patrick Doyle, é uma beleza. Mas o melhor do filme é a história, a trama.
É uma absoluta maravilha. Parece uma criação caprichadíssima do mais imaginativo roteirista. E é uma história real. Uma fantástica, apaixonante, impressionante história real – que, creio, pouca gente conhecia. Mary e eu jamais tínhamos ouvido falar nela, não sabíamos nada sobre seus incríveis personagens.

Ainda bem que este filme foi feito. Ainda bem que produtoras de quatro países – Inglaterra, Repúbica Checa, Estados Unidos, França – se reuniram para fazê-lo. Ainda bem que a diretora Amma Asante o realizou. Porque é uma história que tinha mesmo que ser contada.

Começa como uma história de amor, vira um delicado caso de política internacional. Os protagonistas comem o pão que o diabo amassou, sofrem terrivelmente, amargamente, durissimamente – e, no entanto, apesar de tudo, apesar de vivermos neste mundo que parece a cada dia mais provar que a humanidade é uma invenção que não deu certo, o final é feliz.

Moça conhece rapaz, apaixonam-se

Uma história de amor – no começo, uma história de amor como tantos milhares de outras. Londres, 1947, logo depois, portanto, do final da Segunda Guerra Mundial. Moça e rapaz ficam se conhecendo, sentem atração imediata um pelo outro. Encontram-se mais uma vez – saem para dançar. Os dois gostam de dança, de música, de jazz, de preferência tocado por americanos, não por ingleses, como a moça inglesa comenta.

Bem, a rigor há uma afirmação falsa no parágrafo acima: a história de amor de Ruth e Seretse não é exatamente igual a tantos milhares de outras, porque a cor da pele deles é diferente, e, malditamente, tragicamente, não era nada comum haver casais com cor de pele diferente que se conheciam e se apaixonavam, na Londres de 1947.

Ruth é interpretada por Rosamund Pike. Seretse, por David Oyelowo. Ela é inglesa de Londres, de 1979, já teve 29 prêmios e outras 55 indicações. Ele é inglês de Oxford, de 1976, já teve 19 prêmios e outras 40 indicações. A pele dela é clara, a dele é escura.

Há duas características bem nítidas no roteiro escrito por Guy Hibbert na descrição dos primeiros encontros de Ruth e Seretse: o filme faz questão de mostrar bem claramente que a inglesa Ruth, linda e loura, classe média, que trabalha como secretária, não tem um pingo de preconceito racial. Entende que cor de pele não faz diferença. Para ela, apaixonar-se pelo africano Seretse não tem diferença alguma com apaixonar-se por qualquer inglês Peter ou John ou o que for. E Seretse, igualmente, não dá a menor importância, naqueles primeiros encontros, ao fato de que Ruth tem a pele clara.

A segunda característica do roteiro é que ele não está interessado em demorar muito início de namoro, de história de amor. Há muita história para contar a partir daí, e então o filme passa rapidamente por aquele começo de relação.

Importa, sim, mostrar que Ruth não sabia nada, absolutamente nada sobre quem era aquele rapaz bonito, elegante, bem vestido, que frequentava faculdade de Direito.

Quando sai da reunião em que tinha visto Seretse pela primeira vez, ela pergunta à sua irmã Muriel (o papel de Laura Carmichael, a Lady Edith de Downton Abbey), que a havia levado ali, de onde ele é, e então ouve – juntamente com o espectador – a informação de que Seretse é da

Bechuanalândia, mais tarde Botsuana. Em casa, Ruth procura o país no Atlas, e a câmara focaliza a página do Atlas mostrando a parte setentrional da África.

Seria um conto e fadas, se a humanidade não fosse doida

Em um novo encontro dos dois, depois que dançam, alegres, felizes, e se sentam para conversar, ela pergunta: – “Quem é você, Mr. Khama?”

E Seretse Khama responde: – “Bem, eu cresci com minha irmã mais nova, Naledi (o papel de Terry Pheto). Nossos pais morreram quando eu tinha 3 anos, fomos criados pelo nosso tio.”

Ruth se mostra chocada, triste com a informação, mas Seretse rapidamente continua: – “Não… Fomos criados pelo nosso tio, ele é como um pai para nós. Tivemos muita sorte.”

Mais tarde, ela conta para ele que andou pesquisando sobre sua terra. (E essa sequência, que vi mais de uma vez, até para anotar partes do diálogo, me fez lembrar do início de Assim Caminha a Humanidade/Giant, de 1956, quando, ao conhecer o personagem de Rock Hudson, um fazendeiro do Texas, a mocinha linda da Nova Inglaterra, interpretada por Elizabeth Taylor no auge da beleza jovem, passa a pesquisar a história daquele lugar distante, remoto, o tal do Texas.)

– “Do tamanho da França, 121 mil habitantes”, diz ela. Ele complementa: – “Um dos países mais pobres do mundo.” E então conta: – “Pedimos proteção à Rainha Victoria, e eventualmente ela concordou. Era isso ou enfrentar uma invasão da África do Sul racista.”

Estão caminhando pelas ruas de Londres rumo à casa dela, final da madrugada, o alvorecer chegando. Ela pára, diz estavam a duas quadras da casa dela, que seria melhor ela a partir dali prosseguir sozinha – e pergunta a ele se poderiam fazer aquilo de novo, verem-se outra vez. Ela mesma percebe que talvez tenha sido ousada demais, pergunta se foi ousada demais, e e ele responde com dois nãos, um após o outro. Ela não compreende o segundo não, e é só aí que ele explica:

– “A Rainha Victória. O homem que negociou com ela para que a Bechuanalândia se transformasse num protetorado britânico era meu avô. Um rei. Eu sou o herdeiro dele. Por 20 anos meu tio tem governado o país como regente, enquanto eu me preparava para assumir. Agora minha educção está completa e devo retornar.”

Um rei. Ruth não tinha a menor idéia disso, mas tinha se apaixonado por um rei. Seria uma perfeita, linda história de fadas, um conto da carochinha, se a humanidade não fosse doida, e boa parte dela entendesse que pessoas de pele clara e pessoas de pele escura não podem se apaixonar uns pelos outros.

 Racismo nas ruas, racismo como política de Estado

Os primeiros momentos do namoro, o período de tempo antes que o mundo se volte contra Seretse e Ruth – isso não dura mais que uns 10, 12 minutos dos 111 do filme.

Numa sequência em que estão caminhando juntos pelas ruas de Londres, aí quando estamos com uns 12 minutos de filme, os dois são cercados por um grupo de uns quatro ou cinco trogloditas. Um deles grita para Seretse a frase ultrajante, nojenta:  – “Tire as mãos da nossa propriedade!” Ruth devolve com um vigoroso “Não sou sua propriedade”, mas contra a idiotice absoluta não há argumento, e os trogloditas partem para cima de Seretse. Alguns levam vigorosos socos – afinal, o rapaz treinava boxe na faculdade, como era regra entre os estudantes universitários na Grã-Bretanha.

O que virá em seguida, ao longo dos 100 minutos seguintes do filme, será ainda mais violento e perturbador do que os socos dos imbecis da rua.

Funcionários do Foreign Office, o Ministério de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, vão fazer de tudo para infernizar a vida do casal. A começar pela visita de um deles, Sir Alistair Canning (Jack Davenport), ao trabalho de Ruth, para deixá-la atemorizada e desistir da idéia de casamento.

Os dois não se intimidam, e se casam, em uma cerimônia extremamente simples, em  Londres, mas o casamento será dura e longamente bombardeado tanto pelo governo da Grâ-Bretanha – que, pelo acordo feito com a rainha Victoria, deveria agir como protetor do país africano – quanto pelo próprio tio de Seretse, o regente que governava Bechuanalândia.

Tshekedi Khama (Vusi Kunene), o tio, faz todo um raciocínio de que o casamento com uma inglesa branca será ruim para a moral do povo de seu país. Mas é racismo puro e simples – o mesmo que dominava a potência vizinha, a África do Sul, que, naquele final dos anos 1940, estava oficializando, colocando na legislação, a vergonhosa segregação entre brancos e negros, o apartheid – que só seria finalmente extinto em 1994, com a vitória de Nelson Mandela.

A vizinhança da África do Sul – grande, poderosa, amplas reservas de diamantes, o país mais rico do continente, – era uma eterna ameaça à pequena e bem pobre Bechuanalândia. E foi por causa da África do Sul que o Império Britânico tanto sacrificou o país que era seu protegido, um protetorado seu, durante os vários anos em que Tshekedi Khama, o tio do rei, o regente, se recusou a passar o trono para Seretse enquanto ele permanecesse casado com a mulher branca. Não interessava, de forma alguma, ao governo britânico entrar em qualquer atrito com a África do Sul – e assim, para manter as boas as relações com o regime abertamente racista e segregacionista da potência regional, os sucessivos governos de Londres deram as costas aos interesses da Bechuanalândia e às reivindicações de seu rei.

Tudo e todos contra um casal apaixonado

O roteiro de Guy Hibbert mostra com bastante clareza todas as questões políticas que envolveram a Bechuanalândia durante os anos que se seguiram ao casamento do rei Seretse Khama com Ruth Williams – ao mesmo tempo em que mostra também o duro dia-a-dia do casal, o relacionamento de Ruth com a irmã do marido, com as pessoas próximas.

O casal enfrentou uma batalha pesadíssima – contra todo o preconceito racial, contra a soberba dos altos funcionários do Foreign Office destacados para tratar com Seretse, contra a intransigência do tio regente. Contra tudo e todos, em suma.

O filme – que começa mostrando fatos de 1947 – avança até lá pelo final dos anos 50, início dos 60. É pelos letreiros apresentados ao final da narrativa que o espectador fica sabendo que o final de tudo foi realmente feliz.

Pelos letreiros finais que contam – como sempre acontece nos filmes baseados em histórias reais – as informações básicas sobre o que aconteceu com os protagonistas após o período mostrado na tela, e por uma pesquisinha absolutamente rápida pela internet, fica-se sabendo que, com uma habilidade política extraordinária, Seretse Khama levou seu país a trocar a monarquia pelo regime republicano, presidencialista, e com isso se tornar absolutamente independente da Grã-Bretanha.

A habilidade política de Seretse – que viria a ser elogiada pelo próprio Nelson Mandela – fez com ele, de rei, se transformasse no primeiro presidente eleito do novo país independente, então rebatizado como Botsuana, em 1996.

Morreria em 1980, aos 59 anos. Quando Ruth morreu, foi enterrada junto ao corpo do marido, numa colina perto da cidade em que viveram por muitos anos, conforme informam os letreiros ao final de A United Kingdom.

A dinastia dos Khama como reis acabou – mas Seretse a rigor iniciou uma dinastia política na democracia. Ian Khama, o mais velho entre os homens filhos do casal, tornou-se presidente de Botsuana em 2008. Ele ainda estava na Presidência quando o filme começou a ser rodado, lá mesmo, na própria Botsuana.

O ator David Oyelowo contou em entrevistas que Ian Khama apareceu um dia no local das filmagens, sem ter sido previamente anunciado. Observou a filmagem de uma cena com Rosamund Pike – e depois comentou com o próprio ator que jamais poderia imaginar que veria seus pais vivos novamente. Pode não ter acontecido exatamente assim, mas é uma bela história. E as fotos da verdadeira Ruth Williams mostram que ela era, sim, uma mulher belíssima – como Rosamund Pike.

Um país que está dando certo, um oásis

Uma palavrinha sobre a diretora Amma Asante. Nasceu em Londres, em 1969, filha de pais bem sucedidos nascidos em Gana que se radicaram na Grã-Bretanha. Foi atriz ainda criança e, aos 23 anos, começou a escrever roteiros para tanto para o Channel 4 quanto para a BBC. Um Reino Unido foi seu terceiro longa-metragem como diretora. Já ganhou 13 prêmios, fora outras dez indicações; seu primeiro longa, A Way of Life (2004), como roteiro original da própria diretora, deu a ela o Bafta de novata mais promissora. É sem dúvida alguma um nome para ser observado.

Falei lá atrás que produtoras de vários países se uniram para colocar dinheiro no projeto, fazer o filme – mas não mencionei que a Botsuana aparece oficialmente como um dos países que produziram o filme. Sim: Um Reino Unido é uma co-produção Inglaterra-República Checa-EUA-França-Botsuana. Boa parte das filmagens ocorreu lá mesmo.

E o hospital mostrado na sequência em que Ruth dá à luz sua primeira filha foi feita no hospital onde a Ruth real de fato teve a filha.

É impressionante saber, por exemplo, que a casa usada nas filmagens como a que abrigou Ruth e Seretse quando eles se se mudaram da Inglaterra para a Bechuanalândia é de fato a casa em que o casal morou.

A produção convidou moradores locais a participar das filmagens como extras – e, no primeiro dia, cerca de 3 mil pessoas apareceram, registra o IMDb.

O final feliz a que me referi duas vezes não é apenas o dessa fantástica história de amor. É também a história – até agora, ao menos – do país de Seretse Khama.

A Botsuana parece ser um oásis de democracia, liberdade e prosperidade no continente tão convulsionado por conflitos tribais, raciais, ditaduras sanguinárias.

Desde a independência e a proclamação da República, em 1996, a Botsuana tem tido eleições regulares e “é tido como exemplo de estabilidade política na África”, como registra a Wikipedia. Que informa também: “Como um dos países que se opõem ao regime de segregação racial na África do Sul, foi alvo de incursões do Exército sul-africano, sob acusação de abrigar guerrilheiros do Congresso Nacional Africano. A partir de 1990, as relações bilaterais melhoram, com o fim do apartheid. Na década de 1980, o produto interno bruto (PIB) cresce à média anual de 10,3%.”

Dá para ter inveja da Botsuana. Para nós, brasileiros, então, dá uma inveja danada: “Através de uma política fiscal sadia e uma economia liberalizada com baixas intervenções estatais, o país transformou-se de um dos mais pobres da África em uma economia de nível intermediário, superior em renda per capita a muitos outros países em desenvolvimento. A sua dívida externa é pequena, US$ 513 milhões em 2007. A história de crescimento econômico de Botsuana em relação aos seus vizinhos africanos teve seu início quando o governo decidiu usar o rendimento gerado pela exploração de diamantes para abastecer o desenvolvimento econômico com as políticas fiscais prudentes e uma política exterior cautelosa. O país atualmente é o maior produtor de diamantes do mundo.”

É um belo filme, este A United Kingdom – e que belo título, cheio de ironia quanto ao Reino Unido que vem se desmantelando e se desunindo nas últimas décadas. Mas, além de um belo filme, é um muito bem-vindo documento para nos apresentar esse casal fantástico, Seretse Khama e Ruth Williams, e nos informar sobre esse país igualmente fantástico, a Botsuana.

Anotação em maio de 2019

Um Reino Unido/A United Kingdom

De Amma Asante, Inglaterra-Repúbica Checa-EUA-França-Botsuana, 2016

Com David Oyelowo (Seretse Khama), Rosamund Pike (Ruth Williams)

e Tom Felton (Rufus Lancaster), Jack Davenport (Sir Alistair Canning), Laura Carmichael (Muriel Williams, a irmã de Ruth), Terry Pheto (Naledi Khama, a irmã de Seretse), Jessica Oyelowo (Lady Lilly Canning), Vusi Kunene (Tshekedi Khama, o tio), Nicholas Lyndhurst (George Williams, o pai de Ruth e Muriel), Anastasia Hille (Dot Williams, a mãe), Arnold Oceng (Charles), Charlotte Hope (Olivia Lancaster), Theo Landey (Michael Nash), Abena Ayivor (Ella Khama), Jack Lowden (Tony Benn)

Roteiro Guy Hibbert

Baseado no livro Colour Bar, de Susan Williams

Fotografia Sam McCurdy

Música Patrick Doyle

Montagem Jonathan Amos, Jon Gregory

Casting Sasha Robertson

Produção Pathé, BBC Films, Ingenious Media, British Film Institute, Yoruba Saxon Productions, Harbinger Pictures, Perfect Weekend, Film United.

Cor, 111 min (1h51)

***1/2

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