Um Amor Inesperado / El Amor Menos Pensado

Nota: ★★★½

El Amor Menos Pensado, no Brasil Um Amor Inesperado, é uma delícia, um encanto, uma maravilha. É tudo, tudo o que a gente pode esperar de uma comédia romântica: bem humorada, inteligente, gostosa, agradável – e o casal de atores que faz os protagonistas tem química, é belo e nos dá ótimas interpretações.

Ele é Ricardo Darín, a cara do cinema argentino das últimas décadas. Ela é Mercedes Morán, quem, como Darín, é veterana, experiente – tem mais de 50 títulos no currículo, que inclui diversas minisséries da TV argentina. Não me lembrava dela, mas Mercedes Morán está no excelente Clube da Lua/La Luna de Avellaneda (2004).

É um filme adulto, maduro, que seguramente será melhor apreciado por platéias adultas, maduras: o filme retrata a vida de um casal de classe média para alta, intelectualizado, que, com 25 anos de casamento, entra em crise quando o filho único, um garotão aí de uns 21 anos, vai estudar na Espanha.

Agora, na hora de pegar as informações para fazer a ficha técnica do filme, que vai no fim deste texto, levei dois sustos. O primeiro foi saber que o filme tem mais de 2 horas – são 136 minutos. Não parece, de jeito nenhum! É aquela velha coisa: quando o filme é bom, parece curto, passa depressa.

O segundo susto foi saber que o diretor e co-autor do roteiro original, Juan Vera, estreou na direção com este filme. É impressionante, inacreditável, porque a direção é absolutamente segura, tranquila, competente – parece coisa de um profissional experiente, bem testado.

Não é um novato: atua com produtor desde 1989, tem 38 títulos o currículo como produtor – inclusive aquela maravilha que é O Filho da Noiva (2001), de que foi produtor executivo, e o elogiado Abutres/Carancho (2010), dois filmes, seguramente não por coincidência, estrelados por Ricardo Darín.

Falar das coisas retirando o dramatismo

Quando o filme foi apresentado em competição na 66ª edição do Festival de San Sebastián, na Espanha, Ricardo Darín, disse, em entrevista coletiva: “O humor é um bálsamo que permite a você abordar diferentes temas e nunca sair ferido. O filme fala de retirar dramatismo das coisas ou situações”.

É uma definição que me parece perfeita para um filme que tem o título de El Amor Menos Pensado. O filme trata de vários assuntos sérios, importantes, pesados. A síndrome do ninho vazio, quando um casal se vê sozinho com a saída dos filhos. A crise geral da meia-idade, que contamina tudo. A insegurança que vem quando o casamento está aí com um quarto de século e não há mais as novidades, as excitações do início, e as pessoas tendem a se acomodar, a não caprichar mais nas pequenas coisas – ou começa, como o casal do filme, Marcos e Ana, a pensar demais, caraminholar demais, analisar demais, e fica-se perguntando se a paixão não acabou, se faz sentido-entendimento-razão (para citar a canção de Isabel Parra) continuar juntos.

E, depois, as frustrações com os primeiros namoros pós-separação. Não uma tristeza danada: alguns namoros são bons, são gostosos, mas… fica faltando alguma coisa…

Mais para o final, o filme discute, com seriedade, um questão dura, dificílima para todos os pais: o que fazer se seu filho, no início da  vida adulta, ali pelos 23, 25 anos, resolve deixar tudo de lado, mandar tudo para o espaço, estudos, diploma, a procura de emprego, o estabelecimento como profissional, e viver a vida como um beatnik, um hippie après la lettre?

A história e o roteiro criados por Juan Vera e Daniel Cúpero abordam todas essas questões, não de uma maneira frívola, boba – mas com bom humor.

Com bom humor, essa maravilha, esse bálsamo, como diz Darín.

Sem pensar tanto, como diz o título original. Sem caraminholar demais da conta. Quase como diz a letra da canção cantada por Nana Caymmi e também por Milton Nascimento: “si quieres ser feliz, no analices”.

É um filme fino, chique, e Marcos e Ana são inteligentes, estudados, intelectualizados, citam muitos autores – mas porém todavia contudo tem uma música não cantada por gente como Isabel Parra, Nana Caymmi e Milton Nascimento, mas por Wando, aquela coisa pra lá de brega! Mas falar de “Fogo e Paixão” com Wando é passar o carro na frente dos bois.

Um casal que foi fiel durante 25 anos

O primeiro filme dirigido por Juan Vera começa com um belíssimo travelling em plongée: a câmara está bem no alto, junto do teto de um amplo, maravilhoso salão de leitura de uma biblioteca (os créditos finais informam que é a Biblioteca Nacional de Buenos Aires), e vemos então as pessoas sentadas às grandes mesas lá embaixo. A câmara vai andando suavemente em frente pelo grande salão, e, quando chega perto do final, na última das mesas, onde está sentado Marcos-Ricardo Darín, ela se abaixa e se aproxima do protagonista da história que está começando.

Marcos olha para a câmara e lê para o espectador um trecho de Moby Dick, de Herman Melville. E depois nos conta que aquele parágrafo do livro se parece com a situação em que ele e Ana ficaram, quando Luciano, que eles chamam de Luchi (Andres Gil), embarcou para a Espanha para um período de alguns anos de universidade.

E então vemos o casal se despedindo de Luciano no aeroporto. Pouco depois que chegam de volta ao seu grande, belo, confortável apartamento, Ana começa a ver fotos da família, desde o tempo em que Luciano era criança. Marcos diz a primeira frase engraçada e inteligente de um filme que será cheio de frases engraçadas e inteligentes: – “O avião ainda nem sobrevoou o Uruguai e você já está mergulhada em lembranças!”

Veremos que Marcos e Ana não são do tipo que têm amantes, casos. Pelo jeito, sempre foram fiéis – bem ao contrário dos seus maiores amigos, o casal Lili e Edi (Claudia Fontán e Luis Rubio). Num momento qualquer, Lili comenta com Ana sobre o amante que teve durante alguns anos. E Edi sempre conta para Marcos sobre como vai o namoro com Anabella, uma garota bem mais nova do que ele – quando a ação começa, o namoro com a mocinha já tem cinco anos.

A ação de El Amor Menos Pensado se estende por vários anos, pelo menos uns cinco, creio.

Homens e mulheres empatados em direitos e deveres

É numa festa de aniversário de Edi que o espectador ouve Wando cantando “Fogo e Paixão”. Edi faz um discurso, e então Lili pede a atenção de todos para mostrar um filmete que reúne fotos do casal ao longo do 25 anos em que estão casados. (A jovem namoradinha de um dos amigos de Edi e de Marcos comenta com o coroa: – “É mais tempo do que eu tenho de vida!”)

O filmete das fotos vem acompanhado de “Fogo e Paixão”.

Levei um susto com aquilo. Uma música brasileira – e uma música brasileira que eu não conheço, cacete! Como assim? O que raios é aquilo? Foi só nos créditos finais que fiquei sabendo que aquilo era “Fogo e Paixão” de Wando, o cantor sobre quem as fãs costumavam jogar as calcinhas, no meio dos shows.

É bem provável que tenham escolhido essa breguice para indicar que o gosto musical do casal Lili e Edi não é lá essas coisas. Mais tarde, numa sequência em que Marcos e Ana estão fazendo um inventário das coisas que há no apartamento do casal, eles ouvem – e o espectador também, é claro – “Le Tourbillon”, a canção de George Delerue com letra de Bassiak que Jeanne Moreau canta em Jules et Jim de Truffaut. Há hermanos de bom gosto musical e hermanos de gosto duvidoso.

Haverá outra menção a Brasil y los brasileños, bastante en passant. Veremos que Marcos e Ana gostam de viajar, citam viagens que fizeram a vários países, México, Equador. Lá pelas tantas, Ana menciona que comprou um determinado objeto em Florianópolis.

Também em entrevista coletiva na época da apresentação do filme em San Sebastián, a bela, simpática Mercedes Morán fez um comentário interessante: ela diz que o filme é “uma história de amor de nossos tempos, em que o divórcio não é visto como derrota ou fracasso”. “Aqui”, diz ela, “duas pessoas decidem acabar com uma coisa e começar outra. E, nessa situação, meu personagem está muito longe da insatisfação ou da histeria. O homem sozinho sempre teve uma posição melhor que a mulher sozinha. Aqui, os dois estão bastante empatados.”

É bem verdade. El Amor Menos Pensado mostra de fato uma realidade destes nossos tempos, como diz a atriz Mercedes Morán: um meio em que as mulheres estão empatadas com os homens em direitos e deveres.

“Uma história que pode ter a ver com a sua própria vida”

O meio que Juan Vera mostra é o de pessoas de classe média, que não padecem de sérios problemas materiais, que não enfrentam a falta dos confortos básicos. Gente que teve a oportunidade de estudar, que tem um trabalho que garante o sustento até com alguma folguinha. Exatamente como boa parte das pessoas que vai ao cinema e curte bons filmes, no mundo inteiro, seja em Buenos Aires, São Paulo, Nova York, Paris ou Teerã. Os personagens de Juan Vera são exatamente do mesmo estrato social dos personagens de Procurando Elly (2009), A Separação (2011), O Passado (2013). O Apartamento (2016), do iraniano Asghar Farhadi. (A referência a Farhadi não é à toa: ele foi o diretor do outro filme que Ricardo Darín fez em 2018, Todos Já Sabem.)

Gosto demais disso: filmes que retratam a vida de gente da classe média, gente como a gente. Não é só nos países ricos que há gente da classe média: há gente como a gente também em Teerã, em Istambul, em São Paulo, em Buenos Aires, em Santiago. E essa gente é que está retratada filmes de François Truffaut, Ingmar Bergman, Woody Allen, Domingos Oliveira, Asghar Farhadi – e Juan José Campanella, Daniel Burman, Juan Taratuto, Marcos Carnevale, para citar alguns argentinos. Juan Vera vem agora se unir a essa turma.

Vi no IMDb um interessante comentário de leitor sobre o filme. O leitor se assina avgalia, e não diz sua nacionalidade, mas escreve em inglês. Deu como título a frase “Not for everybody, but excellent film”, e começa o texto assim: “Maravilhoso filme. O ‘não para todas as pessoas’ se relaciona a um comentário que ouvi durante a projeção do filme. Alguém perto de nós comentou: ‘Não acontece nada!’ Imagino que haverá pessoas que possam achar isso, mas o problema é que este é um filme que requer que o espectador se adapte ao seu ritmo. Há um monte de coisas acontecendo durante todo o filme, mas você precisa prestar atenção e ter um ‘feeling’ para observar. A atuação de Darín e Morán é soberba, mas não são apenas eles. Aparições curtas de Claudia Lapacó, Norman Brisky e Chico Novarro são memoráveis. Os diálogos são críveis e inteligentes. Se você for ao cinema procurando brigas, perseguições de carro e coisas desse tipo, este aqui não é para você. Mas se você se comove com a história contada na tela, que pode ter a ver com a sua própria vida, não perca este aqui.”

Uma história que pode ter a ver com a sua própria vida. É isso aí. É exatamente isso aí.

Me impressiona demais o fato de que há muito mais filmes sobre super-heróis e bandidos do que sobre gente como a gente, como as pessoas que vão ao cinema, que gostam de ver filmes.

O título brasileiro é absolutamente ridículo

É necessário um registro sobre os três atores que o leitor do IMDb citou. São, todos eles, bem veteranos. Norman Brisky faz Rafael, o pai de Marcos; aparece apenas em uma sequência, em que janta na casa do filho. Nasceu em 1938, e tem mais de 80 títulos no currículo.

Claudia Lapacó é de 1940, com quase 60 títulos, e Chico Novarro, de 1934, com mais de 20 títulos. Ela faz Cora, a mãe de Ana, que, na terceira idade, chegando aos 80 anos, está lépida, fagueira – e apaixonada. Vai se casar com Ioshi, o papel de Chico Novarro.

É outro dos temas sérios que o filme aborda, sempre com bom humor: o envelhecimento pode se dar com alegria, com prazer de viver.

E, por fim, um outro registro: o título brasileiro, Um Amor Inesperado, não é uma criação exclusiva dos exibidores brasileiros. É idêntico ao usado pelos exibidores dos Estados Unidos, onde o filme é An  Unexpected Love.

São absolutamente ridículos esses títulos, tanto o americano quanto o brasileiro. Não há amor inesperado algum na história. Muito antes ao contrário: é tudo completamente previsível – como acontece sempre nas comédias românticas.

Anotação em abril de 2019

Um Amor Inesperado/El Amor Menos Pensado

De Juan Vera, Argentina, 2018

Com Ricardo Darín (Marcos), Mercedes Morán (Ana)

e Claudia Fontán (Lili, mulher de Edi, amiga de Ana), Luis Rubio (Edi, amigo de Marcos), Andrea Pietra (Celia, namorada de Marcos), Jean Pierre Noher (Eloy, namorado de Ana), Norman Briski (Rafael, o pai de Marcos), Juan Minujín (Anselmo), Gabriel Corrado (Fabián), Andrea Politti (Betaldi, a moça do Tinder), Claudia Lapacó (Cora, a mãe de Ana), Chico Novarro (Ioshi, o namorado de Cora), Andres Gil (Luciano, o filho de Marcos e Ana), Mariu Fernández (Milagros), Irene Tsou (Lao Phen, a namorado de Luciano)

Argumento e roteiro Daniel Cúparo & Juan Vera

Fotografia Rodrigo Pulpeiro

Montagem Pablo Barbieri Carrera

Desenho de produção Mercedes Alfosín

Produção Patagonik Film Group, Kenya Films, Boneco Films, Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales.

Cor, 136 min (2h16)

***1/2

Título nos EUA: An Unexpected Love. Na França: Retour de Flamme.

2 Comentários para “Um Amor Inesperado / El Amor Menos Pensado”

  1. Só dei uma passada de olhos no texto, depois volto para ler direito, mas tô besta de você falar que não conhecia “Fogo e Paixão”. É sério isso??? Como assim não conhecia esse hino do nosso cancioneiro brega? haha

    Não vi o filme ainda (só li alguns comentários no Twitter; o Darín dá RT quando o marcam), mas também acho que a música não combina com o casal.

    Parece que os hermanos são chegados numa música brasileira ruim. Em “Um Namorado para Minha Esposa” lembro de que havia umas músicas brasileiras assim também, ou no mínimo de gosto duvidoso. Com tanta música nossa boa, né? Vai entender…

  2. Olá Sérgio! Quanto tempo que não apareço por aqui! Vc sempre me surpreendendo! Seus textos, como sempre, extremamente maravilhoso, belos… É de uma beleza, que me toca muito! Não assisti a este filme mas, vou ver se consigo achá-lo, pois, pelo que vc expôs, devo gostar muito!!! Abraços!

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