Soberba / The Magnificent Ambersons

Nota: ★★★★

É possível que The Magnificent Ambersons, no Brasil Soberba, de 1942, tivesse sido um filme genial, uma obra-prima, dos mais belos filmes da História. Não dá para se saber: o filme foi picotado, reeditado, sem a presença e a autorização de seu realizador, Orson Welles. Acrescentaram coisas que o diretor não fez, criariam até uma espécie de happy ending.

Mesmo assim, mesmo totalmente conspurcado, é incensado, reverenciado, adorado por toda a crítica. Imagine se o filme disponível para o mundo fosse o que Orson Welles gostaria de ter feito.

The Magnificent Ambersons, naturalmente, não é o único grande filme que foi profundamente alterado pelos produtores à revelia do diretor. Só para dar um exemplo, Lola Montès (1955), aquele que seria o último filme de Max Ophüls, também foi retalhado pelos produtores, à revelia dele. O próprio Orson Welles teria outro de seus filmes esfacelado na mesa de edição pelos produtores, A Marca da Maldade/The Touch of Evil (1958).

Nesses dois casos, no entanto, os filmes acabaram sendo cuidadosamente, pacientemente, diligentemente reconstituídos, e as versões que estão hoje disponíveis aos cinéfilos do mundo todo se parecem bastante com as versões originais imaginadas e/ou finalizadas por seus criadores. Lola Montès foi reconstituído em 2008, meio século depois de ter sido adulterado para lançamento nas salas da França e do mundo, num trabalho desenvolvido pela Cinemateca Francesa com o auxílio de duas produtoras e uma série de entidades.

Marca da Maldade passou por cuidadoso trabalho de reconstituição, obedecendo às idéias originais de Welles, detalhadas num longo memorando escrito por ele aos chefões da Universal.

The Magnificent Ambersons não teve a mesma sorte.

A versão que existe – e foi lançada em DVD no Brasil pela cuidadosa, ótima Versátil, e depois incluída na Coleção Folha Grandes Diretores no Cinema –, de 88 minutos, é a que a RKO ciolocou nos cinemas, depois de ter alterado profundamente o trabalho de montagem feito originalmente por Robert Wise, o mesmo montador que Welles havia escolhido para Cidadão Kane.

Welles não pôde fazer nada para impedir que seu filme foi retalhado, conspurcado, mexido, alterado: estava no Brasil, tentando obter as imagens que comporiam o novo projeto para o qual a RKO o contratara, It’s All True, É Tudo Verdade, um filme para estreitar os laços entre Estados Unidos e Brasil, numa época em que o ditador Getúlio Vargas flertava com o Eixo Alemanha-Itália-Japão: 1942, Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos recém entrados no conflito após o ataque japonês a Pearl Harbor em dezembro de 1941.

O começo do filme “revela o gênio criativo”

Remexido, retalhado, conspurcado – e adorado, incensado pela crítica. No seu tempo, e até hoje.

O atualíssimo AllMovie, um dos melhores sites sobre filmes que há na rede, dá ao filme a cotação máxima de 5 estrelas. A sinopse, assinada por Hal Erickson, começa assim: “O filme de Orson Welles após Citizen Kane (1941) era totalmente diferente de Kane em estilo e textura, mas tão brilhante quanto, do seu próprio jeito.”

O livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer se derrama em superlativos. Alguns trechos:

“Baseado no mundo da alta burguesia da virada do século (do XIX para o XX) que Welles recordava da própria infância, Soberba conta a história de George Amberson Minifer (Tim Holt), o talentoso, porém detestável, rebento de uma família aristocrata que recebe o castigo que todos desejam.”

Mais adiante:

“Os primeiros 70 minutos revelam o gênio criativo, chegando a superar Kane. O filme começa com uma charmosa, porém mordaz, palestra sobre os costumes masculinos, narrada por Welles e demonstrada por Joseph Cotten, e então recria o mundo confuso, tacanho, vívido e estranho dos Ambersons, que é destruído aos poucos pelo século XX – simbolizado, com perspicácia, pelo automóvel – e por suas próprias fraquezas ocultas. Trabalhando com o fotógrafo Stanley Cortez em vez de Gregg Toland, Welles engendra um filme que é tão visualmente impactante quanto Kane, mas que também transmite uma nostalgia mais terna e melancólica de passeios de trenó e cartões de visita, mesmo mostrando como as injustiças de uma sociedade de classes condenam pessoas decentes a uma vida de miséria. O empresário Eugene (Cotten) perde seu amor, a bem nascida Isabel (Costello) para um palerma de uma família de renome, porém é incapaz de se dissociar da magnificência dos Ambersons, mesmo à medida que o tempo os reduz a frangalhos.”

Ahnnn… Steven Jay Schneider, o editor do livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer que me perdoe, mas creio que, muito mais do que sobre George Amberson Minifer, o filme se centra na história de amor da mãe do garotão, Isabel Amberson (o papel da linda Dolores Costello, na foto abaixo), e Eugene Morgan.

Claro: o pano de fundo são as mudanças sociais e econômicas, a chegada da industrialização, dos carros, o surgimento de novos ricos com as novas fábricas, a decadência das famílias tradicionais, aristocráticas. Mas o relacionamento entre Isabel Amberson e Eugene Morgan ao longo dos anos me parece muito mais importante, mais central na trama, do que a figura do filho, George.

Uma mãe que se deixa dominar pelo filho

Eugene, de família simples, e Isabel, a herdeira da família mais rica do lugar, eram apaixonados, quando muito jovens. Por uma questão menor, uma bobagem – Eugene vai fazer uma serenata para ela bêbado, e leva um tombo –, Isabel rompe o namoro, e logo anuncia-se que ela está noiva de Wilbur Minafer (Donald Dillaway).

Magoado, Eugene deixa a cidade em que vivem. (A cidade não é identificada em momento algum do filme; a rigor, poderia ser qualquer cidade média para grande do interior dos Estados Unidos. No livro que deu origem ao filme, a cidade é Indianapolis, onde o autor Booth Tarkington nasceu e morreu – mas numa versão bem fictícia, bem diferente da real.)

Eugene reaparece 18 anos depois, empresário, industrial, rico e enriquecendo cada vez mais – tinha sido um dos inventores do novo meio de transporte que se movia por si mesmo, sem necessidade de ser puxado por cavalos. Chega – viúvo – com a filha de 16 anos, a linda, encantadora Lucy (o papel de Anne Baxter, na foto abaixo, oito anos antes de A Malvada/All About Eve).

É absolutamente claro que ele continua apaixonado por Isabel Amberson, agora Amberson Minifer. E é absolutamente claro também que Isabel é tomada de novo pela paixão pelo namorado da juventude.

Convenientemente, Wilbur Minifer vem a falecer. E Eugene e Isabel retomam o romance interrompido duas décadas antes. Todo mundo percebe que os dois estão apaixonados – menos George, o filho dela, um idiota filhinho de papai mimado, um absoluto babaca. Que, quando finalmente fica sabendo do romance da mãe, o proíbe.

Não sei como o romance The Magnificent Andersons, de Booth Tarkington, lançado em 1918, explica por que George proíbe o romance da mãe com seu ex-namorado da juventude – nem por que, e isso é mais enigmático ainda, a mãe aceita passivamente a vontade do filho.

É possível que, nas sequências que Welles filmou e foram cortadas pelo estúdio (fala-se que foram extirpados do filme original de 20 a 60 minutos), haja alguma explicação para isso. Talvez um caso de fixação do jovem George na mãe, algo como o que Freud chamou de complexo de Édipo. Pode ser. Mas, no filme que está disponível, não há explicação alguma para o fato de aquela mulher rica, bela, na plenitude da idade madura, se deixa dominar inteiramente pelo filho mimado.

É fato sabido que Welles tinha grande admiração pelo romance de Booth Tarkington. Como o livro 1001 Filmes comenta, Welles “já havia realizado uma adaptação do livro com sua companhia Mercury Theatre, que foi apresentada no rádio.

Booth Tarkington (1869-1946) não é muito conhecido hoje em dia, mas, nos anos 1910 e 1920, era considerado o mais importante escritor americano. Foi um dos três únicos escritores a ganhar o Prêmio Pulitzer de Literatura mais de uma vez – os outros dois são William Faulkner e John Updike. Um dos seus Pulitzer foi exatamente para The Magnificent Andersons, lançado em 1918, quando já desfrutava de imenso sucesso e prestígio.

Outro de seus romances, Alice Adams, já havia sido filmado em 1935 por George Stevens, com Katharine Hepburn e Fred MacMurray; no Brasil teve o título de A Mulher Que Soube Amar.

“Surpreendente e memorável”, diz Pauline Kael

Mais loas ao filme.

Leonard Maltin dá a cotação máxima, 4 estrelas: “Brilhante drama da novela de Booth Tarkington sobre família que não quer mudar seu modo de vida com a chegada de novos tempos; mãe e filho entram em conflito sobre o amante dela. O filme de Welles depois de Citizen Kane é igualmente emocionante, a seu jeito, embora tenha sido tirado de suas mãos, remontado e com cenas adicionais feitas por outros. Anteriormente filmado em 1925 como Pampered Youth.”

Pampered Youth, literalmente juventude mimada, paparicada, no Brasil teve o título de Perdoa-me, Mãe. Foi dirigido por David Smith, e foi estrelado por Cullen Landis, Allan Forrest e Alice Calhoun.

O livro ainda seria refilmado em 2002 pelo mexicano Alfonso Arau, com a linda Madeleine Stowe como Isabel, Bruce Greenwood como Eugene, Jonathan Rhys Meyers como George e Gretchen Moll como Lucy. No original eve o mesmo título do livro e do filme de Welles, The Magnificent Ambersons, e no Brasil se chamou A Queda do Poder.

Eis o que diz do filme Pauline Kael, na tradução de Sérgio Augusto para a edição brasileira de 1001 Noites no Cinema:

“O segundo filme de Orson Welles tem mais profundidade que Cidadão Kane, embora não tenha a força propulsora que poderia lhe dar unidade. Trabalhando a partir do romance de Booth Tarkington, Welles conseguiu algumas grandes sequências de vida em família – brigas intensas, angustiantes. Tim Holt faz o filho arrogante fixado na mãe que decai da aristocracia americana para a classe operária; Dolores Costello, a frágil beleza loura do cinema mudo, é a mãe suave e abnegada; e como a tia solteirona nervosa, amarga e histérica, Agnes Moorehead (na foto abaixo) está fantasticamente forte, de uma maneira hiper-realista. (Um desempenho clássico.) Com o espantoso velho Richard Bennett como o patriarca da família, Joseph Cotten, Anne Baxter e Ray Collins. O filme não foi concluído como Welles pretendia, e alguns efeitos pictóricos parecem dimensionados para uma obra muito mais plena, mas mesmo nesta forma truncada é surpreendente e memorável.”

“Meu nome é Orson Welles”

E eis o que diz o Guide des Films de Jean Tulard sobre La Splendeur des Ambersons, que recebe a cotação (rara naquele guia) de 3 estrelas:

“Esta evocação do declínio de um velho patriarcado no lugar de uma burguesia liberal voltada para o progresso econômico consegue escapar dos piores estereótipos dos folhetins graças ao gênio de Welles, que os transcende. O uso do plano-sequência neste filme provocou diversos comentários depois de um famoso texto de André Bazin no L’Écran Française em novembro de 1946. O filme se completa com uma pirueta: Orson Welles representado por um microfone.”

É uma referência à forma com que o filme termina. Lançado em 1942, The Magnificent Ambersons antecipava uma tendência que só iria se consagrar uns 40 anos depois, nos anos 80: o filme não tem créditos iniciais. No início, aparece apena o logotipo da RKO e o título.

Ao final, o vozeirão de Welles – que o espectador ouve narrando a história ao longo de todo o filme – vai anunciando o nome dos atores, depois do diretor de fotografia, o compositor da trilha sonora (Bernard Herrmann, que já havia trabalhado com ele em Cidadão Kane), o montador (Robert Wise, idem ibidem). E, por último, enquanto a tela mostra um microfone, o vozeirão diz: “Eu escrevi o roteiro e dirigi. Meu nome é Orson Welles”.

O que é, mais que uma pirueta, como diz o Guide de Jean Tulard, uma triste ironia, já que aquele não foi exatamente o filme que ele havia dirigido.

O CineBooks’ Motion Picture Guide (que, naturalmente, dá a maior cotação, 5 estrelas, ao filme), historia o processo de deturpação que o filme sofreu depois que Welles o concluiu:

“Dadas as drásticas reações das audiências nas premières, que não entenderam o filme, é até de se estranhar que The Magnificent Ambersons tenha sobrevivido. Durante uma primeira apresentação em Pomona, na Califórnia, os espectadores falavam alto com os personagens, riam, faziam piadas. A reação deixou George J. Schaefer, presidente da RKO, aterrorizado; ele saiu do cinema acreditando que Welles tinha cometido um desastre financeiro.

“O estúdio havia gastado US$ 1,125 milhão na produção do filme. Em desespero, Schaefer ordenou a Robert Wise que fizesse cortes drásticos. Welles já havia reduzido o filme de 148 para 131 minutos, mas Robert Wise cortou para 88 minutos, incluindo um final otimista que foi adicionado (…).

“O corte de mais de 3 mil pés do filme de Welles até se chegar a uma versão truncada não foi o insulto final ao gênio do diretor. Schaeffer, o presidente da RKO, deixou o estúdio antes de a montagem final ser completada, e ficou chocado ao saber que The Magnificent Ambersons foi tratado como material descartável pelos seus sucessores. O filme foi distribuído para cinemas de segunda categoria, como parte de programas duplos com produções B. Dessa forma, o filme deu um prejuízo de US$ 625 mil, e só recuperaria o investimento depois de várias reapresentações.”

Apesar de ter sido selvagemente trucidado pelo estúdio, o filme teve quatro indicações ao Oscar, nas categorias de filme, atriz coadjuvante para Agnes Moorehead, fotografia em preto-e-branco para Stanley Cortez e decoração de interiores. Não levou nenhum. O que não é de se espantar, porque Oscar e Orson Welles nunca combinaram muito. Cidadão Kane, o filme que 11 entre cada 10 críticos considera o melhor que já foi feito, foi indicado para 9 estatuetas, mas levou apenas uma, a de roteiro original.

Segundo Peter Bogdanovich, um dos maiores estudiosos da obra do realizador, Orson Welles disse muitas vezes que The Magnificent Ambersons poderia ter um filme muito melhor que Cidadão Kane. Ainda segundo Bogdanovich, citado pelo IMDb, Orson Welles uma vez, nos anos 70, acabou revendo este filme, que estava passando na televisão, numa ocasião em que o realizador estava com vários amigos. O que foi notável, porque era conhecida a fama de que ele jamais revia seus próprios filmes. Os amigos disseram que o homemzarrão chorou copiosamente ao rever The Magnificent Ambersons – e disse que, embora o final que inventaram sem a sua concordância não funcionasse, ele ainda gostava do filme.

Anotação em setembro de 2018

Soberba/The Magnificent Ambersons

De Orson Welles, EUA, 1942

Com Joseph Cotten (Eugene Morgan), Dolores Costello (Isabel Amberson, depois Isabel Anderson Minafer), Anne Baxter (Lucy Morgan, a filha de Eugene), Tim Holt (George Amberson Minafer), Agnes Moorehead (Fanny Minafer, a irmã de Wilbur), Ray Collins (Jack Amberson, o irmão de Isabel), Erskine Sanford (Roger Bronson), Richard Bennett (Major Amberson, o pai de Isabel e Jack), Donald Dillaway (Wilbur Minafer, o marido de Isabel), Orson Welles (a voz do narrador),

Roteiro Orson Welles

Baseado no romance homônimo de Booth Tarkington

Fotografia Stanley Cortez

Música Bernard Herrmann

Montagem Robert Wise

Produção Jack Moss, George Schaefer, Orson Welles, Mercury Productions, RKO.

P&B, 88 min (1h28)

R, ****

Título na França: La Splendeur des Amberson. Em Portugal: O Quarto Mandamento.

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