Segredos de Natal / Zeit der Geheimnisse

Nota: ★★★☆

Zeit der Geheimnisse, exibido pela Netflix no Brasil como Segredos de Natal, nos países de língua inglesa como Holiday Secrets, é um tanto difícil de definir e tão fascinante quanto a família que apresenta – quatro gerações de mulheres, basicamente de mulheres, em que os homens são apenas e tão somente complementos supérfluos. Muitas vezes pesos desnecessários.

Antes de qualquer outra coisa, é preciso dizer com toda ênfase: é um trabalho muitíssimo bem feito, em absolutamente todos os aspectos. A fotografia (de Stefan Unterberger), a trilha sonora (de Annette Focks, ela mesma ao piano), a montagem (de Katja Fischer, Boris Gromatzki e Robert Rzesacz), a direção de arte – tudo é de aplaudir de pé como na ópera.

E, at last but not at least, as interpretações. As interpretações são todas, homogeneamente, corretíssimas, perfeitas, germanicamente irrepreensíveis.

OK, todas maravilhosas. Mas as interpretações das duas atrizes que fazem os papéis principais, nesta história cheia de muitas mulheres, em épocas diferentes da vida, e portanto interpretadas por diversas atrizes, são excepcionais. Alçam vôo acima do vôo alto do elenco todo muito bom. Meu, como são maravilhosas Corinna Harfouch (de A Queda! As Últimas Horas de Hitler) e Christiane Paul (de In July (O Outro Lado das Férias), A Onda,).

Dá a impressão de que a série não se leva muito a sério

Tudo certo. Os elogios são necessários, obrigatórios. Mas é preciso explicar por que esse Zeit der Geheimnisse é um tanto difícil de definir. (Zeit der Geheimnisse é, literalmente, “hora dos segredos”, parece.)

Para começo de conversa: por que uma minissérie, se poderia perfeitamente ser um filme?

São apenas 3 episódios, e os episódios são curtos – 37, 34 e 42 minutos, o que dá 113 minutos, 1h53. Absolutamente dentro dos padrões dos filmes exibidos nos circuitos comerciais do mundo todo.

Por que uma minissérie, e não um filme? Não vejo explicação – a não ser, talvez, o fato de que a Netflix, que distribuiu a produção, entenda que, mercadologicamente, minissérie vende mais que filme, atrai mais público.

Mas convenhamos que é estranho, vai…

Segundo ponto de estranhamento: nos brevíssimos créditos iniciais de cada um dos três episódios, está dito que o roteiro é de Katharina Eyssen, a criadora e produtora executiva da série – “Inspirado em Días de Navidad, de Pau Freixas”. Uau! Uma série alemã inspirada em uma obra espanhola! Isso não é nada usual…

Pau Freixas, nascido em Barcelona, em 1973, é diretor, roteirista e produtor de cinema e de TV. Diás de Navidad – informa a Wikipedia em espanhol – é uma minissérie de TV que estreou na Netflix em 6 dezembro de 2019. Nós vimos Zeit der Geheimnisse no dia 2 de dezembro de 2019. Então a minissérie alemã, também de 2019, foi inspirada em uma minissérie espanhola, catalã, que ainda não havia sequer estreado! Dá para imaginar que as duas foram produzidas ao mesmo tempo, concomitantemente.

Convenhamos: isso não é nada usual, vai! Isso é muito estranho…

Outro detalhe estranho, nada usual: o IMDb, que tem absolutamente tudo, não tem a relação de personagens-atores desta Zeit der Geheimnisse – ou pelo menos não tinha, neste início de dezembro de 2019. Na página sobre a minissérie, constavam apenas os nomes das quatro atrizes principais, as já citadas Corinna Harfouch e Christiane Paul, e mais Svenja Jung e Leonie Benesch.

Finalmente, para encerrar minha tentativa de explicação de por que achei esta minissérie – muitíssimo bem realizada, repito – difícil de definir: a criadora e roteirista Katharina Eyssen e a diretora Samira Radsi fizeram uma bela mistura de gêneros. Uma grande salada alemã, se é que os alemães têm alguma salada específica deles, assim como os russos.

É basicamente um drama. Há muito drama, muita barra pesada na relação entre as personagens. Mas há momentos cômicos – alguns de humor negro, outros de humor mesmo. E, embora seja basicamente um drama familiar, tem toques de mistério, de thriller.

Ao final, fiquei com a sensação de que eu levei a minissérie mais a sério do que ela mesma. Fiquei com a sensação de que, ao fim e ao cabo, Zeit der Geheimnisse não se tem como uma coisa muito séria: é só uma diversão, uma grande diversão.

Logo de início, parece que a matriarca morreu

A série tem um texto caprichado, elegante. Há vários momentos em que as personagens principais fazem considerações – com a voz em off – sobre a vida o amor a morte a família, e são boas considerações, expressas em belo texto. Acho que foi com isso que ela me conquistou de cara: não resisto a um belo texto.

Abre com uma moça descendo de um ônibus à beira de uma estrada bastante vazia, isolada do resto do mundo. A estrada, vemos logo, corre paralela ao mar. A moça anda na praia deserta, em direção a uma casa de dois andares grande, sólida, situada num ponto alto, sobre uma falésia, diante do marzão belíssimo. Veremos que a moça é Vivi (Svenja Jung, uma atriz lindérrima, na foto acima), a mais velha das duas filhas de Sonja, que por sua vez é filha da dona da casa, Eva. Toda a família morou ali. Agora, Vivi e sua irmã mais nova Lara (Leonie Benesch) estão vindo passar o Natal com a avó Eva. Sonja, a mãe delas, não era esperada por Vivi, mas vai chegar também.

Eva, a avó das duas moças, é o papel de Corinna Harfouch. Sua filha Sonja é interpretada por Christiane Paul (na foto abaixo). Que atrizes, meu Deus do céu e também da terra!

– “Não importa o quanto nos afastamos da família, não importa onde moramos ou quanto somos diferentes – todos passam o Natal juntos”, diz em off a voz de Vivi-Svenja Jung, enquanto a vemos caminhar rumo à casa da avó no lugar belíssimo e isolado deste insensato mundo. “O nosso é igual ao de toda família: nós comemos, bebemos e zoamos uns com os outros. Sempre foi assim. Este ano, porém, tudo seria diferente.”

E então surge o título da série, sobre um belíssimo desenho da casa da família, com, abaixo do solo, um emaranhado de longas raízes.

Na cena seguinte, uma mulher aí de uns 60 e tantos anos sobe as escadas da casa para levar o café da manhã para Eva, a matriarca. Veremos que é Llubica (Anita Vulesica), que há décadas trabalha para Eva. Ela entra no quarto, leva um imenso susto e deixa cair a bandeja com o café da manhã.

No mesmo momento, Vivi está chegando na casa. Entra chamando pela avó e por Llubi – que está descendo a escada com a expressão de absoluto choque. – “É Eva”, diz ela. “Ela morreu.”

Pouco depois, chegam à casa Lara, a irmã de Vivi, juntamente com o namorado, Moritz (Dennis Herrmnann), que não conhecia ainda ninguém da família da namorada.

As duas irmãs não sabem o que fazer, que providência tomar. Lara diz que seria melhor elas esperaram Sonja chegar. Vivi leva um grande susto à menção da mãe. Não sabia que ela viria. Fica imediatamente claro para o espectador que Sonja e sua filha mais velha têm gravíssimos problemas entre si, que faz tempo que não se dão bem.

Estão todos ali na sala da casa – a mãe, as duas filhas, o namorado de uma delas, a velha empregada da família – quando Eva desce as escadas. Não estava morta coisa alguma. Hans (Malk Solbach), o médico vizinho, velho amigo da família, que no passado havia tido um caso com Sonja, é chamado, examina Eva, diagnostica que ela deve ter tido um pequeno derrame. Diz que ela precisa ser levada para o hospital – mas Sonja, as filhas e Llubica protestam, dizem que Eva detesta pensar em hospital.

Eva demonstra sinais de senilidade. Pouco depois de se levantar da cama quando todos a julgavam morta, ela se refere à mãe dela, Alma, como se ela estivesse viva. E Alma (interpretada por Barbara Nusse) havia morrido dois anos antes.

Três épocas diferentes mostradas ao mesmo tempo

Eva, a avó idosa, com sinais de senilidade, depois de um pequeno derrame. Sonja, a mãe das duas moças, que chega anunciando estar nos AA, no passo 5. Vivi, a moça mais velha, absolutamente incomodada com a presença da mãe. Lara, a mais jovem, apresentando a família com muitas disfuncionalidades ao namorado que se demonstra um tanto bobão, além, de muito careta.

Já há aí elementos suficientes para uma minissérie de 3 episódios curtos. Mas haverá muito mais.

A narrativa mostra, além desses fatos dos dias de hoje, da época do lançamento – pode ser o Natal de 2018, o Natal de 2019 –, flashbacks com os eventos ali naquela mesma casa em 2004 e também bem antes ainda, em 1989.

E os acontecimentos dessas três épocas vão sendo mostrados ao mesmo tempo, simultaneamente. A narrativa vai de 2019 para 2004 e para 1989 a cada momento, e de novo para 2019, e em seguida para 1989, e para 2004.

Costumo não gostar de filmes que vão e vêm no tempo, vão e vêm, vão e vêm, como bola de pingue-pongue. Como o grande Roger Ebert, prefiro quando as histórias são contadas na velha e boa ordem cronológica, primeiro o trasanteontem, depois o anteontem, depois o ontem, depois o hoje, e aí acaba.

Mas é forçoso admitir que, neste caso aqui, contar em ordem cronológica a história dessa família diminuiria demais o impacto de tudo, das revelações que vão vindo a cada momento. Assim como é forçoso admitir que acaba sendo muito interessante a forma com que – com muito talento – o roteiro une fatos do passado distante e do passado mais recente com os acontecimentos e sentimentos daquelas pessoas agora. É até possível que o espectador se sinta um pouco perdido nos primeiros flashbacks, com tantos personagens, mas rapidamente ele compreenderá tudo.

Sonja é uma mulher de muitos amores

Em 1989, Sonja era uma jovem aí de 20 e poucos anos (interpretada por Emilie Neumeister, na foto abaixo), idealista, com a rebeldia da juventude a mil, que defendia que a Alemanha precisava passar por uma revolução para ter mais justiça social – para surpresa e espanto de Eva, sua mãe. (Eva é a única personagem interpretada nas três épocas por uma única atriz, essa fantástica Corinna Harfouch, na foto acima.)

Para tristeza de Hans (aqui interpretado por Matti Schmidt-Schaller, o estudante de Medicina que namorava Sonja), para o Natal daquele ano de 1989 ela aparece com um novo namorado, Peter (Merlin Rose), um rapaz bonitão, segundo ela músico. E estava grávida – de Vivi, sua primogênita.

Em 1989 o marido de Eva, Olaf, se não me engano, ainda estava vivo. Era um sujeito insuportável, que mentia compulsivamente sobre tudo,  era agressivo, violento. Pouco depois do Natal, quando os convidados todos já tinham ido embora, Olaf havia morrido – segundo a versão oficial, afogado no mar.

Também segundo a versão oficial, Peter, o pai de Vivi, havia viajado para a Colômbia e morrera lá, num acidente de carro.

Vivi, portanto, nunca havia conhecido o pai. Poucos anos depois dela nasceu Lara, filho de um outro homem da vida de Sonja.

Em 2004, Vivi e Lara são adolescentes (interpretadas respectivamente por Lorna zu Solms e Tilda Jenkins), Sonja aparece na casa da família com um novo caso – desta vez uma mulher, Juliana (o papel de Eva Bay).

(Em 2004, Sonja, mulher feita, já é interpretada por Christiane Paul. Que beleza de atriz, que maravilha de interpretação.)

É quando Sonja comete o erro que fará que sua filha mais velha passe a odiá-la.

Um elemento importante: o terrorismo nos anos 70 e 80

A série menciona várias vezes o terrorismo na Alemanha nos anos 80. Dá para dizer, sem fazer spoiler, que um personagem foi, no passado, um membro importante do grupo terrorista (guerrilheiro, segundo ele mesmo) Baader-Meinhoff.

É um tema importante, que não deve ser nunca esquecido, que tem mesmo que ser lembrado. A então Alemanha Ocidental e a Itália, países absolutamente democráticos, tiveram, nos anos 70 e 80, essa mancha terrível: movimentos terroristas de extrema esquerda, defendendo a implantação do comunismo.

O cinema fez belos filmes sobre isso, tanto sobre as Brigadas Vermelhas da Itália quanto sobre o alemão Baader-Meinhoff. O sequestro do ex-primeiro ministro italiano Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas, em 1978, foi contado em Il Caso Moro (1986), de Giuseppe Ferrara, com o grande Gian Maria Volontè no papel de Moro. E também no belo, sensível Bom Dia, Noite (2003), de Marco Bellocchio.

Os alemães reconstituíram parte da história do grupo terrorista que matou diversas pessoas em O Grupo Baader-Meinhoff/Der Baader-Meinhoff Komplex (2008), de Uli Edel. Outro belo filme que fala sobre o grupo é O Fim de Semana/Das Wochenende (2012), de Nina Grosse, baseado num romance de Bernhard Schlink, o autor de O Leitor.

O fato de a trama deste drama familiar envolver um terrorista do Baader-Meinhoff me parece um indicativo de que a roteirista Katharina Eyssen soube muito bem fazer adaptações na história original espanhola para refletir a realidade alemã.

É uma minissérie bastante interessante esta Zeit der Geheimnisse, ou Holiday Secrets, ou Segredos de Natal. Dá vontade de conhecer os trabalhos dessa competente diretora Samira Radsi, de ver outros filmes dessas fantásticas Corinna Harfouch e Christiane Paul.

E também de ver Días de Navidad, a minissérie espanhola que inspirou esta alemã aqui.

Anotação em dezembro de 2019

Segredos de Natal/Zeit der Geheimnisse

De Katharina Eyssen, criadora, roteirista, produtora executiva, Alemanha, 2019

Diretora Samira Radsi

Com Corinna Harfouch (Eva), Christiane Paul (Sonja, a filha de Eva em 2004 e 2019), Emilie Neumeister (Sonja em 1989), Svenja Jung (Vivi, a filha mais velha de Sonja em 2019), Lorna zu Solms (Vivi em 2004), Leonie Benesch (Lara, a filha mais nova de Sonja em 2019), Tilda Jenkins (Lara em 2004), Barbara Nusse (Alma, a mãe de Eva), Anita Vulesica (Llubica em 2004 e 2019), Laura von Beloseroff (Llubica em 1989), Golo Euler (Anton), Ludwig Senger (Anton), Dennis Herrmnann (Moritz), Hans (Malk Solbach), Matti Schmidt-Schaller (Hans em1989), Merlin Rose (Peter em 1989), Eva Bay (Juliana, a namorada de Sonja em 2004), Thilo Prothmann (Walter em 2004 e 2019), Lucas Lentes (Walter em 1989)

Roteiro Katharina Eyssen

Inspirado na minissérie espanhola Días de Navidad, de Pau Freixas

Fotografia Stefan Unterberger

Música Annette Focks

Montagem Katja Fischer, Boris Gromatzki, Robert Rzesacz

Casting Simone Bär

Produção Netflix Studios, Proton Cinema, Sommerhaus Filmproduktionen.

Cor, cerca de 113 min (1h53)

***

Título nos EUA: Holiday Secrets.

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