Rebecca, a Mulher Inesquecível / Rebecca

Nota: ★★★★

Rebecca tem 79 anos – e, no entanto, não envelheceu um único dia. Rebecca é uma daquelas provas de que o grande cinema não fica velho, é tão atual quanto qualquer produção que acabou de ser lançada.

Andei vendo nos últimos tempos uns filmes ruins de Alfred HitchcockA Estalagem Maldita/Jamaica Inn (1939), Um Casal do Barulho/Mr. & Mrs. Smith (1941). Foi excelente rever Rebecca: sim, o cara é um gênio, é um dos maiores.

Rebecca é uma maravilha, uma obra-prima.

Meu Deus do céu e também da terra, que história sensacional: é o conto de fadas perversamente transformado em conto de terror. Cinderela encontra o príncipe bem no começo, e não no fim. Cinderela vai para o castelo do príncipe – e a partir daí sofre como uma escrava, como um remador nas galés romanas, como quem come o pão que o diabo amassou bem amassadinho.

A atriz que faz a Cinderela que em vez de viver feliz para sempre come o pão que o diabo amassou nos dá uma interpretação magnífica, magistral, impressionante, das melhores que já houve. É absolutamente fantástica a atuação de Joan Fontaine como a jovem americana de origem pobre, humilde, que de repente se vê esposa de um aristocrata inglês podre de rico, tendo que administrar um castelo imenso e um séquito de serviçais – e enfrentar o ódio imenso da governanta apaixonada pela esposa do patrão que morreu, a Rebecca do título.

Joan Fontaine parece pequena, humilde, mínima, diante do papel que lhe é dado de repente, o da senhora de Winter. Não foi feita para aquilo, não teve preparo algum. Ela se assusta com tudo na sua nova casa, Manderley, mansão ainda maior que a Downton Abbey do conde de Grantham – e a governanta, a sra. Denvers (Judith Anderson, outra interpretação admirável), cuida direitinho para que a nova patroa se apavore mesmo, se sinta cada vez mais insegura, mais incompetente, mais assustada, mais ansiosa diante de tudo.

O magnífico trabalho do diretor de fotografia George Barnes com luzes e sombras amplia ainda mais a sensação de pavor da personagem de Joan Fontaine. Por mais de uma vez, a câmara mostra seu rosto em close-up, apenas ele, o rosto, iluminado, em meio a completa escuridão. O olhar da atriz, realçado pela iluminação, é pavor puro.

O espectador morre de pena daquela pobre Cinderela

Hitchcock fez Judith Anderson  – sempre de negro, o vestido negro chegando até junto do chão – caminhar como se estivesse deslizando, sobre rodinhas de borracha, sem fazer barulho algum. Isso é mais um motivo de pavor para a pobre sra. de Winter: ela está sempre temerosa de que a governanta-bruxa apareça de repente e a flagre fazendo algo que não deve.

O diretor também insistiu para que Judith Anderson não piscasse em cena – um detalhe para mostrá-la poderosa, no comando da situação, diante da patroa tímida, apavorada.

Na sala de estar matinal, a governanta-bruxa mostra para a nova patroa a escrivaninha em que Rebecca trabalhava pela manhã, lendo a correspondência, escrevendo as suas próprias cartas naqueles papéis com o R timbrado, definindo os pratos para o almoço e o jantar. A nova sra. de Winter não recebe correspondência, não tem amigos para quem escrever – e, na primeira vez em que se senta à escrivaninha de Rebecca, faz um gesto e derruba no chão uma das preciosidades da mansão, um Cupido feito de sei lá o quê.

Nervosa, ansiosa, apavorada, em pânico, a dona da mansão e de tudo o que está dentro dela reage como uma pobre criadinha pega em flagrante: junta os pedacinhos da pequena estátua e os enfia no fundo da gaveta.

Muito tempo depois, o velho mordomo Frith (Edward Fielding) levará um problema para o próprio Maxim de Winter: com toda a delicadeza e o cuidado de um bom mordomo inglês, Frith conta que está havendo uma rixa entre a sra. Danvers e Robert, um dos criados: a governanta o acusa de ter quebrado o precioso Cupido.

A pobrezinha tem que admitir para o marido que foi ela que quebrou a estátua, e escondeu os pedaços.

O espectador morre de pena, de dó, daquela pobre Cinderela.

Há muitos, muitos, muitos anos não revia Rebecca. Na verdade, fui tentar checar quando foi que vi o filme e não o encontrei nas anotações; há lacunas nos meus cadernos de cinema – alguns filmes, deixei de anotar, em épocas especialmente confusas, atribuladas da vida. Imagino que deva ter visto Rebecca no final dos anos 70 ou início dos 80, e então não me lembrava de muita coisa.

Sofri como um condenado, juntamente com a pobre sra. de Winter.

E eis aí uma qualidade fantástica do filme, de Hitchcock e, claro, de Joan Fontaine: o espectador se toma de amores por aquela jovem americana pobre, humilde, bom caráter, bom coração, que vai a Monte Carlo como dama de companhia de uma ricaça, fica conhecendo um aristocrata inglês deprimido após a morte da esposa, e daí a pouco é pedida em casamento por ele.

Tudo leva o espectador a ter imensa simpatia por aquela moça – e o espectador sofre juntamente com ela, com todo o pavor que ela sente naquela situação absurda de ter que assumir posturas para as quais jamais havia se preparado, para enfrentar o ódio da governanta-bruxa e para sobreviver à presença forte da mulher morta em cada aposento da mansão.

E quer ironia maior que o filme tenha o nome da morta, que não aparece em cena vez alguma, e que não seja dito uma vez sequer o prenome da moça que se torna a nova sra. de Winter?

Morta, Rebecca está presente em cada momento, espezinhando, tornando pequena, fraca, ínfima a sua sucessora cujo nome nos é escondido.

(Esse detalhe de o nome da moça ser propositada e cuidadosamente omitido não é criação de Hitchcock nem dos autores do roteiro e da adaptação, e sim da própria Daphne Du Maurier, a autora do romance em que o filme se baseia.)

A jovem atriz estava tão apavorada quanto sua personagem

São muito estranhos os caminhos da vida – e da arte.

Joan Fontaine estava com 23 aninhos quando foi escolhida para o principal papel feminino do filme, o primeiro a ser dirigido nos Estados Unidos pelo já à época grande Alfred Hitchcock, importado da Inglaterra pelo todo poderoso produtor David O. Selznick, o mesmo que já havia importado Ingrid Bergman da Suécia.

Vários nomes foram cogitados para o papel. Consta que 20 atrizes chegaram a fazer teste para interpretar a sra. de Winter. Entre elas estava Anne Baxter, mas ela era uma novata. (Viria a trabalhar com Hitchcock em 1953, em A Tortura do Silêncio/I Confess). Maureen O’Hara disse em sua autobiografia que foi a primeira escolha para o papel. Loretta Young foi uma das apostas do produtor Selznick. Olivia de Havilland foi outra. Mas o papel acabou indo para a irmã mais jovem de Olivia, a jovem Joan Beauvoir de Havilland, que havia adotado o nome artístico de Joan Fontaine.

Já havia trabalhado em 14 filmes, antes – mas em muitos deles em papéis pequenos. Aquela seria a primeira vez que faria uma protagonista.

O papel do aristocrata Maxim de Winter era de Laurence Olivier – e Laurence Olivier já era um gigantesco astro, no cinema e no teatro. No teatro, já era reconhecido como um dos maiores atores shakespereanos do século. Um gigante – para contracenar com a jovem de 23 anos.

Com um imenso problema adicional: Laurence Olivier queria que Vivien Leigh, sua mulher, fizesse o papel.

Consta que, durante as filmagens, Laurence Olivier tratou a pobre Joan Fontaine de forma mal-educada, grosseira, rude.

Ah, mas então Alfred Hitchcock, um gentleman, saiu firme em defesa da moça contra o astro que a maltratava, certo?

Nada, mas nada disso. Muito ao contrário. Consta que Hitchcock apavorou a pobre moça ainda mais, dizendo que muitas outras pessoas na equipe e no elenco a detestavam.

Joan Fontaine não aparece temerosa, frágil, pequena, ansiosa à toa, em Rebecca. Ela se sentia exatamente como a nova sra. de Winter.

É o que consta – e eis aí algo perfeitamente plausível, até mesmo provável. Hitchcock, o gênio, o mestre do suspense, tem alma de torturador da Gestapo, da Stasi, do DOI-Codi – como mostra, detalhadamente, o filme A Garota/The Girl (2012), de Julian Jerrold, sobre as filmagen de Os Pássaros. O que Hitch fez com a estreante Tippi Hedren foi tortura, das piores.

No meio da narrativa, uma grande reviravolta

Ao longo de mais da metade dos 130 minutos de Rebecca, a pobre sra. de Winter-Joan Fontaine sofre – e o espectador sofre com ela. É sofre como em um filme de terror psicológico, à la Repulsa ao Sexo (1965), O Bebê de Rosemary (1968), O Inquilino (1976), os três do mestre no assunto, Roman Polanski.

Até chegar ao ápice da tortura inflingida pela governanta-bruxa contra a jovem que o patrão colocou no lugar que havia sido de Rebecca, na sequência em que a pobre moça aparece para o baile de fantasia usando a roupa que jamais deveria usar – e Maxim de Winter vira uma fera contra ela.

Exatamente quando está começando a rolar a primeira festa na mansão de Manderley desde que Maxim de Winter se casou de novo, desde que Rebecca morreu no mar ali da Cornualha, chega a notícia: um navio naufragou ali pertinho. A festa termina na mesma hora, as pessoas saem para tentar ajudar de alguma forma a salvar os náufragos.

E aí muda tudo na história. É uma reviravolta total, absolutamente inesperada – uma brilhante sacada da autora Daphne Du Maurier.

Pois é, Daphne Du Maurier. Nasceu em 1907, em Londres, e morreu aos 81 anos em 1989 em Fowey, exatamente na Cornualha, Corwall, onde ela criou o castelo de Manderley no romance que lançou em 1938, e que, em 1940, transformou também em uma peça de teatro. Nunca soube disso – que Daphne Du Maurier havia, ela mesma, adaptado Rebecca para o teatro, no mesmo ano em que, do outro lado do Atlântico e do continente americano, quatro pessoas trabalhavam para transformar sua história em um filme.

Quatro pessoas: nos créditos iniciais de Rebecca, aparece que o roteiro é de autoria de Robert E. Sherwood e Joan Harrison, com base numa adaptação feita por Philip MacDonald e Michael Hogan do “celebrado romance de Daphne Du Maurier”.

Não li o romance – mas, pelo que se pode ver na internet, o filme não se distancia demais da trama que Daphne Du Maurier criou em seu romance. Sim, houve mudanças – e vou falar delas ao final deste texto, porque algumas delas são spoilers, revelam fatos que não devem ser revelados para quem não viu o filme. Mas não são alterações grandes, nem mudam nada de forma substancial.

Interessante é ver que Hitchcock fez três dos seus 53 longa-metragens com base em histórias criadas por Daphne Du Maurier. É dela também o romance Jamaica Inn, lançado em 1936, e que Hitchcock filmou em 1939 – seu filme de número 23 e o último feito na Inglaterra, antes de sua mudança para os Estados Unidos. E também Os Pássaros se baseia numa história criada pela escritora – embora, nesse caso, haja diferenças muito grandes entre o original e a trama do filme.

O autor mostra uma relação dúbia com o filme

O próprio Hitchcock demonstra uma atitude dúbia em relação a Rebecca, nos longos diálogos que manteve, nos anos 1960, com François Truffaut, e resultaram na admirável obra HitchcockTruffaut. De um lado, ele afirma que “não é um filme de Hitchcock”. “É uma espécie de conto e a própria história data do fim do século XIX. Era uma história bem velhinha, bem fora de moda. Naquela época havia muitas escritoras; não tenho nada contra, mas Rebecca é uma história sem nenhum humor.”

No entanto, ele conta também que “teve a possibilidade de comprar os direitos” – “mas eram muito caros para mim”.

(Os direitos de filmagem foram comprados por David O. Selznick por US$ 50.000,00 – não propriamente uma absurda fortuna, mesmo na época.)

Truffaut pergunta se o diretor estava intimidado ao fazer seu primeiro filme americano. “Não posso dizer isso pois é um filme britânico, totalmente britânico; a história é inglesa, os atores também, e o diretor idem. E isso é interessante: como teria sido Rebecca filmado na Inglaterra com o mesmo elenco? O que teria se passado na minha cabeça? Não sei.”

Mais adiante, diante da pergunta se a adaptação do filme é muito fiel ao romance, Hitchcock responde que sim, “muito fiel”, porque o produtor Selznick insistia em que era necessário isso, ser fiel ao romance – como ele fez com … E o Vento Levou, que estava produzindo poucos meses antes das filmagens de Rebecca. Aí há um ponto fascinante no diálogo entre os dois cineastas, o já então consagrado e veterano inglês e o jovem francês.

Truffaut: – “Convém dizer que, vinte e seis anos depois, quando se revê o filme, Rebecca é muito moderno, muito sólido”.

Hitchcock: – “Aquilo ainda se mantém de pé apesar dos anos, fico imaginando como.”

Vinte e seis anos, diz Truffaut. Essa parte da conversa se deu, portanto, em 1966. Bem, euzinho disse lá em cima que, 79 anos depois, Rebecca não envelheceu um único dia, é tão atual quanto qualquer produção que acabou de ser lançada.

Quanto à brincadeira, a ironia, a boutade de Hitch, “fico imaginando como”, é muito fácil explicar por que o filme se mantém de pé apesar dos 79 anos: é uma boa história, bem contada, com bons atores, bela fotografia, bela trilha (de Franz Waxman), maravilhosa direção. É uma boa história contada de forma segura, sem invencionices, modernices, fogos de artifício – contada de forma clássica, apenas com talento.

“Fico imaginando como” uma ova. É simples assim.

A história de Cinderela.

A remissão à história de Cinderela é óbvia. Pensei nela ainda enquanto revia o filme, mencionei no começo deste texto, antes de ir procurar o que se dizia sobre o filme no livro HitchcockTruffaut. Fico contente que Truffaut fale de Cinderela, me sinto reafirmado – mas isso é bobagem, porque Rebecca é, obviamente demais, a história de Cinderela.

Truffaut: – “É também o seu primeiro filme que faz pensar num conto de fadas.”

Hitchcock: – “É tanto mais um conto de fadas na medida em que é praticamente um filme de época.”

Truffaut, mais adiante: – “No fundo, a história do romance Rebecca é muito próxima da história de Cinderela.”

Hitchcock: – “A heroína é Cinderela, e a sra. Danvers é uma das irmãs más; mas a comparação é ainda mais justificada com uma peça inglesa anterior ao romance Rebecca que se intitula His House in Order, cujo autor era Pinero. Nessa peça, a mulher má não era governanta, mas irmã do dono da casa, portanto cunhada de Cinderela. Pode-se imaginar que essa peça influenciou Daphne Du Maurier.”

11 indicações ao Oscar que Hitch nunca ganhou

Por Rebecca, Alfred Hitchcock recebeu uma indicação ao Oscar de melhor direção – a primeira de cinco. Seria indicado ao prêmio também por Um Barco e Nove Destinos/Lifeboat (1944), Quando Fala o Coração/Spellbound (1945), Janela Indiscreta/Rear Window (1954) e Psicose/Psycho (1960). Hitchcock, um dos maiores realizadores da História do cinema, jamais ganhou um Oscar de melhor direção – e, no livro HitchcockTruffaut, a mágoa dele por causa disso fica bem evidente.

Truffaut: – “O filme ganhou um Oscar, não?”

Hitchcock: – “É, o de melhor filme do ano.”

Truffaut: – “Foi o único Oscar qu você recebeu?

Hitchcock: – “Nunca recebi um Oscar”.

Dá para imaginar o velhinho louco falando com aquela sua voz cavernosa, que ele tornava mais cavernosa quando dizia uma frase especialmente importante, significativa: – “I never received an Oscar!”

Truffaut: – “Mas o de Rebecca, afinal…”

Hitchcock: – “Esse Oscar foi para Selznick, o produtor; nesse ano, em 1940, foi John Ford que ganhou o Oscar de direção, com As Vinhas da Ira.”

E dá perfeitamente para imaginar a expressão de desdém do gorducho por John Ford, o mestre de todos os mestres.

Além do Oscar de melhor filme, Rebecca levou também o de melhor fotografia para George Barnes.

Foram nada menos de 11 indicações aos prêmios da Academia que jamais concedeu a Alfred Hitchcock uma estatueta de melhor direção. Eis as outras nove: direção, ator para Laurence Olivier, atriz para Joan Fontaine, ator coadjuvante para Judith Anderson, roteiro para Robert E. Sherwood e Joan Harrison, decoração de interior em preto-e-branco para Lyle Wheeler, diretor de arte, montagem para Hal C. Kern, trilha sonora para Franz Waxman, efeitos especiais para Jack Cosgrove e Arthur Johns.

Leonard Maltin deu 4 estrelas, a cotação máxima: “O primeiro filme americano de Hitchcock é a produção suntuosa de David O. Selznick do romance de Daphne Du Maurier sobre garota que se casa com aristocrata britânico mas vive na sombra de sua antiga esposa. Atuações impressionantes de Fontaine e Anderson; trilha sonora assombrosa de Franz Waxman.”

Diz Pauline Kael, a prima donna da crítica americana e em geral a mais cricri de todos os críticos de cinema:

“Magnífico melodrama gótico-romântico, cheio de humor e inventividade de Alfred Hitchcock.”

(Ué, mas Hitch não tinha dito que a história não tem humor algum? Bem, cada cabeça, uma sentença.)

“Tem uma das raras interpretações medíocres de Laurence Olivir”, prossegue La Kael. “Ele parece pouco à vontade e por demais calculado – mas mesmo quando desconfortável em seu papel, é mais fascinante que a maioria dos atores. Joan Fontaine faz uma de suas raras atuações de fato ótimas – torna a timidez de sua personagem profundamente charmosas. E com Judith Anderson, George Sanders e Florence Bates – todos os três mostrando seu dom de interpretar pessoas desprezíveis.”

Florence Bates faz a sra. Van Hopper, a milionária americana que no início do filme tem como dama de companhia a jovem que iria virar a segnda sra. de Winter. E ela de fato abusa do dom de interpretar uma personagem desprezível. Da mesma maneira que Georges Sanders – mas Georges Sanders, esse é um especialista no assunto. Não me lembro de filme algum em que Georges Sanders interprete uma pessoa simpática, bom caráter, bom coração. Creio mesmo que ele não saberia interpretar alguém assim.

Georges Sanders interpreta Jack Favell, um sujeitinho nojento que é primo da falecida Rebecca – e, bem adiante na narrativa, ficaremos sabendo que era também amante dela.

Mas esta informação é quase um spoiler.

É muito difícil imaginar que haja alguém que tenha vindo parar aqui neste texto e ainda não tenha visto Rebecca. Mas, de qualquer forma, por excesso de zelo, aviso que, aí abaixo, mostro pontos da história em que o filme se diferencia do livro. Eles contêm spoilers.

Atenção: spoilers. Revelam-se fatos sobre o final da história

O IMDb cita vários pontos em que o filme fugiu um pouco do que diz o livro, apesar das ordens do produtor Selznick para que o Rebecca dele fosse fiel ao de Daphne Du Maurier. Segundo o grande site, as mudanças foram feitas, é claro, para ampliar o mistério e o suspense.

* Na novela, a governanta, sra. Danvers, foi quem criou Rebecca. Foi ela que passou para a outra toda aquela maldade. No filme, a sra. Danvers é muito mais nova que no livro; não se fala nada sobre seu passado, mas fica claro que foi Rebecca que transmitiu para ela o mal, o mal em si.

* Os autores da adaptação e do roteiro inventaram aquela chuva forte que cai sobre o casal no momento em que ele chega de carro conversível a Manderley, após a lua de mel. A chuva não existia no livro – e é uma bela sacada, porque a pobre nova sra. de Winter entra no hall da mansão, onde a governanta-bruxa havia reunido todo o pessoal, mais de uma dúzia de serviçais, além de vestida como uma americana classe média média, e tímida, e nervosa, e ansiosa, ainda por cima amarfanhada, molhada que nem um pintinho, sem charme algum – a antítese da primeira sra. de Winter.

* No livro, Frank Crawley (Reginald Denny), o secretário e faz-tudo de de Winter, tira a sra. de Winter do local em que se realiza o inquérito, na cidadezinha próxima, e a leva de volta para Manderley, porque ela parecia fraca, abatida, prestes a desmaiar. No filme, ela desmaia lá mesmo, no meio do inquérito – e, assim, está presente quando Jack Favell se aproxima de de Winter com sua tentativa de extorsão, de chantagem.

* No livro, já para o final, a jovem sra. de Winter viaja para Londres junto com o marido, para o encontro com o dr. Baker (o papel de Leo G. Carroll, um dos atores mais assíduos nos filmes de Hitchcock), que vai prestar um importantíssimo testemunho sobre Rebecca. No filme, de Winter viaja com seu secretário e faz-tudo Frank Crawley, enquanto sua mulher fica em Manderley. Essa é uma bela sacada dos roteiristas, porque de fato cria um grande suspense: durante a ausência dos dois homens, o que teria acontecido com a jovem sra. de Winter?

* No livro, não se diz explicitamente o que acontece com a governanta, a sra. Danvers, nos momentos finais. No filme, é tudo absolutamente explícito: o espectador vê claramente o que acontece com ela.

Estou ficando tão cuidadoso com spoilers que mesmo quando escrevo um spoiler tento não ser spoilerento demais. E eis aí um novo adjetivo. Spoilerento.

E então é isso: Rebecca é um grande filme. Uma maravilha, um filmaço.

Anotação em maio de 2019

Rebecca, a Mulher Inesquecível/Rebecca

De Alfred Hitchcock, EUA, 1940

Com Laurence Olivier (Maxim de Winter), Joan Fontaine (Mrs. de Winter)

e George Sanders (Jack Favell), Judith Anderson (Mrs. Danvers, a governanta), Nigel Bruce (Major Giles Lacy, o cunhado de de Winter), Gladys Cooper (Beatrice Lacy, a irmã de de Winter), Reginald Denny (Frank Crawley, o secretário de de Winter), C. Aubrey Smith (coronel Julyan, o chefe de polícia), Florence Bates (Mrs. Van Hopper, a americana rica), Melville Cooper (o oficial que conduz o inquérito), Leo G. Carroll (Dr. Baker, o médico de Rebecca), Leonard Carey (Ben, o doido da vila), Lumsden Hare (Tabbs), Edward Fielding (Frith, o mordomo), Philip Winter (Robert, o criado)

Roteiro Robert E. Sherwood e Joan Harrison

Adaptação Philip MacDonald e Michael Hogan   

Baseado no romance de Daphne Du Maurier       

Fotografia George Barnes

Música Franz Waxman

Montagem W. Donn Hayes

Produção David O. Selznick.

P&B, 130 min (2h10)

R, ****

4 Comentários para “Rebecca, a Mulher Inesquecível / Rebecca”

  1. O filme é excelente, e o livro, idem. Eu o reli recentemente, e como tinha lido ainda adolescente, reler adulta me fez perceber melhor muitos detalhes. Na minha lembrança, Maxim De Winter era um nojento incapaz de ajudar a esposa – ao reler, percebe-se que ambos, esposa e marido, tem visões diferentes um sobre o outro, e agem de acordo com isso – equívocos, enfim. Ah, um spoiler: no filme, Maxim não matou Rebecca. Não ficava bem para a época. Pois é, no livro Daphne Du Maurier não teve medo disso.

  2. Só vi este filme há pouco tempo em DVD.
    Gostei mas não fiquei muito agradado, este não um dos Hitchcocks que mais aprecio.
    Falta suspense e humor, pelo menos foi a impressão que tive; não é filme que queira rever.
    Para mim continuam a ser Vertigo e Rear Window os melhores Hitchcocks.

  3. Tenho o livro, mas prefiro o filme. Tenho vontade de ler “A sucessora”, de Carolina Nabuco, para ver se a leitura é realmente parecida (a novela lembra muito).

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