Ratos Humanos / Tight Spot

Nota: ★★½☆

Ginger Rogers teve uma das melhores atuações de sua carreira em Tight Spot, no Brasil Ratos Humanos, um drama policial dirigido por Phil Karlson e lançado em 1955. Essa é uma constatação de muita gente boa, e não há por que contestá-la.

É de fato um belo desempenho dessa estrela que brilhou muito como dançarina em diversos filmes, formando a dupla perfeita com Fred Astaire, mas fez também boas comédias (como A Incrível Suzana, de Billy Wilder, 1942, Travessuras de Casados, de Edmund Goulding, 1952, O Inventor da Mocidade, de Howard Hawks, 1952) e dramas (Ver-te-ei Outra Vez, de William Dieterle, 1944, A Viúva Negra, de Nunnally Johnson, 1954).

Aqui, Ginger Rogers faz o papel de Sherry Conley, uma “brassy blonde”, como bem define o livro The Columbia Story – uma loura atrevida, descarada, desavergonhada, que está presa por algum tipo de golpe e, na prisão, dá lições às colegas recém-chegadas, novatas, sobre como não fazer nada além da estrita obrigação, não ser jamais boazinha com as guardas e carcereiras.

Numa sexta-feira, uma funcionária senior da penitenciária, Willoughby (o papel de Katherine Anderson, uma simpática e competente atriz) aparece de repente diante de Sherry dizendo que ela está sendo chamada ao gabinete da diretora (Helen Wallace). Há uma ordem judicial para que ela seja entregue a autoridades federais por um período de tempo não especificado – e junto da diretora está um detetive da polícia, Vince Striker (o papel de Brian Keith), a quem a prisioneira será entregue. Vince e Willoughby escoltam Sherry até um carro da polícia – e a levam para uma magnífica suíte de hotel, num andar cheio de policiais.

Bem no ínicio, uma testemunha é assassinada

Sherry nem sabia muito bem disso, mas ela tinha informações que seriam fundamentais num processo que a procuradoria estava movendo contra um mafioso poderosíssimo, um tal Benny Costain (Lorne Greene).

Na verdade, ela era, agora, a única testemunha que o promotor Lloyd Hallett (o papel do sempre ótimo Edward G. Robinson) tinha para levar ao julgamento marcado para a segunda-feira seguinte pela manhã. Era a única esperança de conseguir a condenação e a extradição do mafioso.

O próprio Hallett diz isso – que Sherry é sua única esperança – pouco antes de começar a conversar com ela, na suíte do hotel em que estão também o policial Vince e Willoughby.

Toda a questão – a chave da trama, a base do filme – é saber se Sherry aceitará depor ou não.

A procuradoria tinha uma testemunha melhor que Sherry – e é com essa testemunha que o filme começa. Ainda nos créditos iniciais, dois policiais estão escoltando um homem chamado Pete Tonelli para levá-lo em segurança a um prédio oficial, onde ele ficaria bem guardado, protegido, até o julgamento na segunda-feira pela manhã. Um dos policiais diz que ele em breve vai ser um dos homens mais importantes do país. Tonelli duvida disso, e o policial resume: – “Depois de 25 anos mandando no submundo, Benny Costain, o homem mais poderoso e temido do país, será processado graças a Pete Tonelli.”

Descem do carro diante do prédio oficial os três homens, Tonelli e os dois policiais que o protegem. Andam os três escadaria acima – ouvem-se tiros, Tonelli cai morto. Não é possível localizar o atirador, que estava em um dos prédios em frente.

A sequência em que a testemunha é morta acontece nos primeiros minutos do filme. Só então vem uma sequência no presídio em que o espectador fica conhecendo Sherry Conley.

No passado – ficaremos sabendo mais tarde –, Sherry tinha tido um caso com aquele Pete Tonelli. E os dois haviam participado de uma viagem pelo Caribe num grande iate em que estava o mafioso Costain. Um fato que os dois presenciaram naquela viagem seria o suficiente para que o juiz ordenasse a extradição do bandido.

Dois bons atores em ótimo momento

Já no hotel, de cara o policial Vince se mostra grosseiro com Sherry. O promotor Hallett pede que Vince saia da suíte por algum tempo, para que ele possa começar a conversar com a mulher.

As sequências em que o promotor Hallett-Edward G. Robinson conversa com a presa Sherry-Ginger Rogers são a melhor coisa deste Tight Spot. Os dois atores, ambos já veteranos, dão um espetáculo.

Ambos veteranos. Edward G. Robinson (1893-1973) havia começado a carreira brilhante ainda em 1916. Ginger Rogers (1911-1995) havia feito seu primeiro filme em 1929. Este aqui, na verdade, foi um dos últimos trabalhos da atriz para o cinema – a partir de 1959, ou seja, apenas 4 anos depois de Tight Spot, Ginger Rogers passaria a se dedicar à televisão, em diversas séries e filmes feitos para a telinha.

Edward G. Robinson e Ginger Rogers realmente dão um show, em especial nos momentos em que estão frente a frente – ele suave, educado, jeitoso, ela despachada, falante, malandra. Ele precisando desesperadamente que ela diga sim, que aceite testemunhar – e ela insistindo em que não vai se sentar na cadeira ao lado do juiz, não vai arriscar sua vida, quer voltar para a prisão e ficar lá quietinha, e viva.

O mafioso Costain tem de fato um poder imenso. Seus asseclas conseguem descobrir onde a polícia e a promotoria estão escondendo Sherry, e alguns pistoleiros conseguem chegar à suíte e atirar em Willoughby, em Vince e em Sherry – os dois últimos só são feridos de raspão, sem gravidade. Willoughby, no entanto, é atingida duramente e levada para um hospital em estado grave.

É depois desse momento de altíssima tensão que Sherry passa a exigir ser levada de volta para a penitenciária. Hallet quer que ela vá para a cadeia da cidade, bem mais próxima. O diálogo é duro – um dos vários bons diálogos entre o promotor e a presa:

Hallett: – “Qual é a diferença entre você ser levada para lá (a penitenciária) ou para a cadeia ali perto?”

Sherry: – “Porque a cadeia é mais perto daquele banco de testemunha, que é exatamente o último lugar do mundo em que eu quero estar.”

Hallett: – “Então é assim que é?”

Sherry: – “Sim.”

Hallett: – “Não faz diferença alguma a prisão. Você simplesmente decidiu que por você todas as demais pessoas podem se ferrar.”

Sherry: – “Você quer dizer que eu estava escondendo isso de você?”

Diálogos tirados de um caso real

Ao longo das horas tensas na suíte do hotel, apesar da rispidez com que os dois se tratam inicialmente, Sherry vai se interessando cada vez mais por Vince Striker. Brian Keith, o ator que interpreta o policial, é altão, boa pinta, e Sherry vai se encantando com ele.

É uma das boas sacadas do roteirista William Bowers e do autor da peça teatral em que o filme se baseia, Leonard Kantor.

Outra boa sacada é uma reviravolta que acontece quando o filme já está se encaminhando para o final – mas revelar essa reviravolta seria um spoiler.

O IMDb informa, na página de Trivia, em que há apenas 3 itens, que o dramaturgo Leonard Kantor se inspirou em fatos reais ao escrever os diálogos entre o promotor Hallett e Sherry. Ele reproduziu, ao menos em parte, as táticas que o senador Estes Kefauver usou para tentar convencer uma testemunha chamada Virginia Hill a testemunhar contra o mafioso Bugsy Siegel.

Esse Bugsy Siegel – tido como o responsável por transformar Las Vegas na cidade dos cassinos – é uma figura presente em alguns filmes. Barry Levinson fez um filme sobre a vida dele, Bugsy, de 1991, em que o mafioso é interpretado por Warren Beatty. Em 1974, Harvey Keitel fez o papel de Bugsy Siegel em um filme chamado exatamene Virginia Hill, dirigido por Joel Schumacher e com Dyan Cannon no papel título.

O livro The Columbia Story diz que o filme foi feito para Ginger Rogers brilhar. “O roteiro de William Bower dava ao diretor Phil Karlson bastante tensão crua e algumas reviravoltas – e ele soube usar esses elementos até o máximo efeito. Rogers e Robinson estavam sensacionais juntos e fizeram maravilhas para desviar a atenção dos espectadores do fato de que há muita verborragia e de que a maior parte da ação se passa em um único quarto.”

Leonard Maltin gostou bastante do filme, deu 3.5 estrelas em 4 e o definiu como “um sólido pequeno filme, com Rogers em uma das melhores performances”.

Jean Tulard escreveu o seguinte sobre Coincée: “Ex-manequim que deve testemunhar num processo de um gângster é solta da prisão sob a guarda de um promotor, Lloyd Hallett. Uma situação perigosa. Bom thriller sobre um tema um pouco gasto de testemunha sob risco de ser abatido.”

Sim, na França o filme o título de Coincée – presa, bloqueada, encurralada. O título original, Tight Spot, de fato é difícil de ser usado em outras línguas. Literalmente, é lugar apertado, aperto. Os exibidores portugueses foram de O Alvo é uma Mulher. Os brasileiros, que, nos anos 30 a 60, adoravam títulos melodramáticos, inventaram o tal de Ratos Humanos.

O filme é bem melhor que o título brasileiro.

Anotação em julho de 2019

Ratos Humanos/Tight Spot

De Phil Karlson, EUA, 1955

Com Ginger Rogers (Sherry Conley), Edward G. Robinson (Lloyd Hallett), Brian Keith (Vince Striker),

e Lorne Greene (Benjamin Costain, o mafioso), Katherine Anderson (Mrs. Willoughby), Allen Nourse (Marvin Rickles), Peter Leeds (Fred Packer), Doye O’Dell     (Mississippi Mac, o cantor na TV), Eve McVeagh (Clara Moran, a irmã de Sherry), Helen Wallace (a diretora da prisão), Frank Gerstle (Jim Hornsby), Gloria Ann Simpson (Miss Masters), Robert Shield (Carlyle), Norman Keats (Arny), Tom de Graffenried (médico), Joe Hamilton (o juiz), Alfred Linder (Pete Tonelli), Lucy Marlow (moça da prisão),

Roteiro William Bowers

Baseado na peça Dead Pigeon. de Leonard Kantor

Fotografioa Burnett Guffey

Música George Duning

Direção musical M.W. Stoloff

Editor Viola Lawrence

Figurinos Jean Louis

Produção Lewis J. Rachmil, Columbia Pictures.

P&B, 97 min (1h37)

**1/2

Título na França: Coincée. Em Portugal: O Alvo é uma Mulher.

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