Quando um Homem é Homem / McLintock!

Nota: ★★☆☆

McLintock!, de 1963, assim, com um ponto de exclamação após o nome do protagonista, foi o quarto dos cinco filmes em que John Wayne e Maureen O’Hara contracenaram. E é também um dos quatro em que os seus personagens mantêm um relacionamento amoroso que é bastante tumultuado, problemático, tempestuoso, explosivo.

Em quatro dos cinco filmes em os personagens de John Wayne e Maureen O’Hara se amam, há muito mais socos e lutas que beijos. Bem, os socos e lutas não necessariamente entre eles. Mas em McLintock! há uma sequência em que o personagem dele pega Katherine, a personagem dela, bota no colo com a bunda para cima e lasca-lhe uma grande quantidade de fortes palmadas.

O Duke gostou daquele negócio de dar palmadas na bunda de Maureen O’Hara. Mandou brasa, de verdade, segunda a maravilhosa atriz de cabelos de fogo relatou em sua autobiografia: as palmadas foram tão autênticas que as marcas ficaram lá durante uma semana.

Tanto neste McLintock! quanto em Rio Bravo/Rio Grande (1950), o primeiro dos cinco filmes dos dois, quanto em Jake Grandão/Big Jake (1971), o último deles, os personagens dos dois são casados, mas estão separados faz alguns anos. E no melhor de todos os cinco filmes, na obra-prima Depois do Vendaval/The Quiet Man (1952), há brigas, sopapos, porradas, bebedeiras em quantidades industriais, a dar com o pau, saindo pelo ladrão – exatamente como neste McLintock! aqui.

Confesso que não pensei nisso, não percebi isso, mas McLintock! – diz muita gente – é assim uma espécie de versão western de A Megera Domada, a comédia de William Shakespeare que seria capaz de transformar a mais doce, suave, pacata feminista em uma lutadora de MMA (Artes Marciais Mistas, para quem ainda não sabe).

Mezzo Depois do Vendaval, mezzo Megera Domada

Outra forma de começar o texto sobre McLintock! seria assim:

Quase todas as vezes que John Wayne chegava perto de Maureen O’Hara (ou vice-versa), tinha lá um John Ford ou um McLaglen para atrapalhar.

O mestre dos mestres de Hollywood dirigiu três dos filmes que reuniram os dois atores. Inventou a parceria dos dois em Rio Bravo/Rio Grande – um ótimo western que é uma homenagem à Cavalaria do Exército americano mas, na verdade, a rigor, é uma história de um belo amor que se transformou em drama porque cada um do casal estava de um lado na Guerra Civil.

Dois anos depois, John Ford levou o americaníssimo Wayne e a irlandesíssima Maureen para o interior da Irlanda, para fazer, em Depois do Vendaval/The Quiet Man, um dos mais belos, apaixonantes filmes da História. Wayne faz um irlandês que viveu sempre nos Estados Unidos e, de volta à terra natal, se apaixona pela mais bela moça do lugar. O problema é que o irmão dela – o papel de Victor McLaglen – implica com o cara, faz tudo para atrapalhar o casamento, e o imbroglio acaba tendo que ser resolvido numa briga dos dois que pára a cidade, como se fosse o SuperBowl, a final da Copa do Mundo.

Foi também John Ford que dirigiu os dois atores no terceiro encontro deles, em Asas de Águia/The Wings of Eagle, de 1957, sobre uma pessoa real, Frank W. “Spig” Read, um piloto da Marinha americana que viraria escritor. Este filme é a exceção da regra, o único em que os personagens centrais não brigam demais e vivem um bom casamento.

O diretor de McLintock!, Andrew McLaglen, vem a ser filho do grandalhão Victor, que fez um sargento em Rio Bravo/Rio Grande e o irmão da mocinha em Depois do Vendaval/The Quiet Man.

Agora que li que McLintock! é uma espécie de recriação de A Megera Domada, posso dizer que o filme é mezzo Depois do Vendaval, mezzo A Megera Domada.

O McLaglen filho copiou o grande clássico de John Ford em pontos fundamentais. As bebedeiras – imensas, homéricas. As brigalhadas, as lutas de sopapos, murros, socos. A ambientação em uma cidade pequena, em que todos se conhecem. A cidade inteira assistindo, em transe, numa felicidade descomunal, à grande briga dos protagonistas.

Copiar é fácil. Duro é ter algum talento. Esse troço que John Ford tinha demais o filho de seu amigo Victor McLaglen, tadinho, não tem.

Não é que o filme seja um absoluto horror. Não, não é – nenhum filme com John Wayne ao lado de Maureen O’Hara poderia ser um absoluto horror.

Nada, mas nada recomendável para feministas

George Washington McLintock, GW para os amigos chegados, Mr. McLintock para o resto da humanidade, é um homem riquíssimo. Possui mais de 500 quilômetros quadrados de terra num território do Oeste cujo nome não é dito hora nenhuma, milhares e milhares de cabeças de gado, uma serraria, uma mina, e metade da cidadezinha que surgiu ali e leva seu nome.

O que é algo não muito usual em westerns: em geral, os grandes fazendeiros, os latifundiários, esses são bandidos, roubaram ao menos parte das terras que possuem, e exploram e humilham os colonos, os pequenos proprietários de terra.

McLintock é latifundiário, é milionário, mas é um homem bom, de bom coração, generoso, que trata muito bem os pobres. Claro, é o mocinho, é o papel do Duke.

Bom coração, generoso. Trata muito bem seus muitos empregados. Paga sempre bebida no saloon para os velhinhos mais pobres da cidade, é gentil com os filhos de mexicanos que vivem por ali. É grande amigo dos índios comanches agora segregados pelo governo em uma reserva. Simpatiza-se com um rapagão chamado Devlin, colono recém-chegado à cidade, e dá emprego a ele e também à sua mãe, uma bela mulher, Louise.

Louise é interpretada por Yvonne De Carlo, 1922-2007, majestosa carreira com 120 títulos de todos os gêneros, do noir Baixeza/Criss Cross (1949) ao épico bíblico Os Dez Mandamentos (1956). E Devlin, por Patrick Wayne, o segundo dos sete filhos do Duke.

Katherine McLintock, o papel de Maureen O’Hara, não vive mais com o marido na grande, majestosa casa da fazenda perto da cidade que leva o nome dele. Faz anos que divide seu tempo entra a capital do território – onde é cortejada pelo governador Cuthbert H. Humphrey (Robert Lowery) – e Nova York, com passagens por Newport, já então um lugar de gente muito rica.

Já estamos com uns 10, talvez 15 minutos de filme quando McLintock fica sabendo que Katherine está na cidade. Hospedada no hotel. Tinha vindo para ter uma conversa séria com o marido: a filha única do casal, Rebecca, Becky (Stefanie Powers, aquela gracinha, na foto), estava para chegar depois de uma temporada de estudos no Leste, e Katherine queria a) o divórcio e b) convencer o marido a permitir que a garota morasse com ela, em vez de ficar enfiada naquele final de mundo.

Katherine. O mesmo nome da megera criada por Shakespeare, que Petruchio domaria com uma brutalidade descomunal.

“Não recomendável para feministas”, avisa, com um toque irônico raro em seus textos, o crítico Leonard Maltin. Ele dá 3 estrelas em 4 para o filme: “Barão do gado briguento G. W. McLintock (Wayne) troca chifradas com sua exuberante e distante mulher (O’Hara), que voltou para casa para pedir o divórcio; a filha deles chegando da faculdade só complica as coisas. É pastelão rude quase o tempo todo – uma brigalhada envolvendo diversas pessoas que caem num gigantesca poça de lama e uma pancadaria pública do marido na mulher são apenas algumas das paradas desta versão western de The Taming of the Shrew. Não recomendável para feministas.”

Acho perfeita essa avaliação de Maltin.

Eis o que diz o Guide des Films de Jean Tulard sobre Le Grand McLintock:

“McLintock é um homem que se fez com a força dos punhos, e que suscita a admiraçãso das pessoas, inclusive de seus antigos adversários (os índios, por exemplo). Para as mulheres, é mais complicado. Mais uma vez, uma boa surra endireita as coisas… Wayne expõe suas idéias neste filme que se pretende picaresco e que consegue às vezes ser francamente cômico.”

Um veículo para o Duke expressar seu reacionarismo

O Guide des Films de Tulard, sempre bom, sempre competente, toca num ponto que tem que ser registrado: sim, o filme serviu de veículo para John Wayne expor suas idéias. Como se sabe, o Duke tinha este defeito: era um danado de um reacionário, conservador até a medula. E ele podia fazer o discurso que quisesse: a produtora do filme, a Batjac Productions, era dele. Quem assina a produção é Michael Wayne, o mais velho de seus filhos.

Assim, no início do filme, antes mesmo que a beleza de Maureen O’Hara surja na tela, há toda uma conversa entre McLintock e um amigo, também criador de gado, sobre as levas de colonos que chegavam sempre do Leste para se estabelecer ali, e depois há um discurso de McLintock aos próprios colonos, dizendo a eles que terra nunca é dada, terra é conquistada com trabalho duro – mas aquelas terras ali, daquele lugar, não eram boas para arar, só para criação de gado.

Há diversas referências desairosas aos políticos. McLintock é um crítico feroz do governador do território, e não apenas porque o governador paquera sua mulher. Acha o camarada fraco, tíbio, insípido. E – como nota o IMDb, na página de Trivia sobre o filme – faz questão de chamá-lo pelo nome inteiro, Cuthbert H. Humphrey. A intenção, diz o grande site, é fazer uma paródia com o senador Hubert H. Humphrey, um liberal do Partido Democrata que Wayne, um republicano ferrenho, detestava imensamente. “Embora o filme em geral seja visto como simplesmente uma comédia escrachada, John Wayne também pretendia, com ele, fazer um balanço de suas visões políticas conservadoras”, diz o IMDb.

O IMDb também afirma que Wayne ficou profundamente irritado por ter que adiar os eventos promocionais de lançamento do filme por causa do assassinato de John F. Kennedy, em novembro de 1963, exatamente nas semanas que antecediam a estréia. O direitista Wayne detestava Kennedy; culpava o presidente pelo fracasso no episódio da Baía dos Porcos, e achava que ele foi fraco no enfrentamento de Nikita Kruschev durante a crise dos mísseis soviéticos em Cuba.

Mas – penso eu aqui – ficar irritado por causa do atraso do lançamento de seu filme em vez de se comover, como o mundo inteiro se comoveu, com o assassinato de um político jovem, moderno, carismático, é algo de um baixo nível absurdo, grotesco, inimaginável.

Mas a verdade é que o espectador pode perfeitamente passar batido pelo papo político do Duke, e se divertir com a guerra dos sexos encenada por ele e Maureen O’Hara.

Não é, nem de longe, um grande filme. Mas tem momentos bem divertidos. E ver Maureen O’Hara é sempre um imenso prazer.

Anotação em março de 2019

Quando um Homem é Homem/McLintock!

De Andrew V. McLaglen, EUA, 1963.

Com John Wayne (George Washington McLintock)

e Maureen O’Hara (Katherine McLintock), Yvonne De Carlo (Louise Warren), Patrick Wayne (Devlin Warren), Stefanie Powers (Rebecca McLintock, Becky), Jack Kruschen (Birnbaum), Chill Wills (Drago), Jerry Van Dyke (Matt Douglas, Jr.), Edgar Buchanan (Bunny Dull), Bruce Cabot (Ben Sage), Perry Lopez (Davey Elk), Michael Pate (Puma), Strother Martin (Agard), Gordon Jones (Matt Douglas), Robert Lowery (governador Cuthbert H. Humphrey), H.W. Gim (Ching), Aissa Wayne (Alice Warren), Chuck Roberson (xerife Lord), Hal Needham (Carter), Pedro Gonzales Jr. (Carlos)

Argumento e roteiro James Edward Grant

Fotografia William Clothier

Música Frank DeVol

Canções de By Dunham, cantadas por The Limelighters

Montagem Otho Lovering

Produção Michael Wayne, Batjac Productions

Cor, 122 min (2h02)

**

Título na França: Le Grand McLintock. Em Portugal: McLintock, o Magnífico.

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