Professor Marston e as Mulheres Maravilhas / Professor Marston and the Wonder Women

Nota: ★★★½

Nada como vidas fascinantes para render filmes fascinantes – e as vidas dos psicólogos William e Elizabeth Marston e sua aluna, depois assistente e depois amante Olive Byrne são absolutamente extraordinárias.

Nunca tinha ouvido falar neles, e imagino que muita gente também não, o que só aumenta o valor deste filme muito bom feito por uma jovem diretora e roteirista, Angela Robinson, nascida em Chicago em 1971, autora apenas de dois outros longa-metragens antes deste aqui, lançado em 2017.

William Moulton Marston (1893–1947) doutorou-se em psicologia na Universidade de Harvard, no início dos anos 1920, e criou uma teoria sobre o comportamento humano à qual deu o nome de DISC, sigla de dominance, inducement, submission e compliance – dominação, indução, submissão e conformidade –, divulgada em uma série de livros. Juntamente com sua mulher Elizabeth (1893-1993), foi um dos criadores do polígrafo, o aparelho conhecido como detector de mentiras.

O casal se envolveu com uma jovem aluna dele, Olive Byrne (1904-1985), que se tornou assistente da dupla em suas pesquisas para a criação do detector de mentiras – e, um tempo depois, tornou-se amante tanto de William quanto de Elizabeth. A relação polígama chocou a sociedade da época, e o casal de psicólogos foi demitido da universidade.

Mantiveram, no entanto, a relação a três – e cada uma das mulheres teve dois filhos de William.

No início dos anos 40, William Marston, inspirado nas suas duas mulheres, na personalidade forte delas, e em suas próprias teorias sobre o comportamento das pessoas, criou a figura da Mulher Maravilha. Marston levou a idéia e histórias da Mulher Maravilha ao editor Max Gaines, que trabalhava em uma das empresas que se uniriam na década de 1940 para formar a DC Comics.

Com o traço do artista Harry Peter, a revista em quadrinhos Wonder Woman foi lançada em 1942 – e foi um sucesso estrondoso.

Nas primeiras histórias, no auge da Segunda Guerra Mundial, a Mulher Maravilha enfrentava soldados e agentes dos três países do Eixo – Alemanha, Itália e Japão.

Por volta de 1945, o ano da fim da guerra, no entanto, grupos religiosos se opuseram frontalmente à existência da super-heroína, alegando que as histórias traziam forte conteúdo de sexo e violência – dominação, cordas, indícios de sadomasoquismo.

No mesmo ano, foi lançado novo filme Mulher Maravilha

O filme abre com uma sequência em que crianças de um belo bairro classe média para alta recolhem exemplares das revistas da Mulher Maravilha para queimá-las numa fogueira.

Uma abertura poderosíssima: uma heroína que combatia o nazismo sendo vítima dos métodos nazistas de caça às bruxas e queima de livros “subversivos”.

Além de um bom filme, além de apresentar a história fascinante desses personagens, Professor Marston e as Mulheres Maravilhas tem também esse lado importantíssimo, de alerta sobre os perigos da censura, do cerceamento às liberdades básicas, da ameaça sempre apavorante de grupos fanáticos que se arvoram em defensores da tradição, da família, e fazem de tudo para submeter toda a sociedade a seus valores.

Esses perigosos, essa ameaça às liberdades volta e meia aparecem, em todos os cantos do planeta. O fundamentalismo religioso, o apego a idéias e noções do passado, isso é uma praga que atormenta sempre a humanidade.

É interessante ver que este filme foi lançado em 2017, o mesmo ano de uma nova versão cinematográfica de aventuras da Mulher Maravilha, com a belíssima israelense Gal Gadot no papel título. Esse Mulher Maravilha 2017 ganhou 22 prêmios, fora outras 67 indicações, e ultrapassou os US$ 800 milhões nas bilheterias.

E é simbólico, emblemático ver o filme agora, quando as trevas do fundamentalismo ameaçam se abater sobre o Brasil com todo o apoio do governo eleito democraticamente.

O filme usa de licença poética com a intimidade do trio

A frase “Baseado em uma história real” aparece no início de Professor Marston e as Mulheres Maravilhas – seguida, no entanto, por reticências. É possível que as reticências tenham sido colocadas pela diretora Angela Robinson – ela também autora do roteiro – como uma indicação de que não é uma biografia oficial, de que não se pretende apresentar uma narrativa totalmente fiel à realidade dos fatos.

E, definitivamente, o filme não é mesmo uma biografia oficial, que teve apoio da família dos biografados, como acontece em tantos outros casos. É notório que William, Elizabeth e Olive viveram uma relação a três – isso é absolutamente notório, sabido, conhecido. Nos letreiros ao final do filme, antes dos créditos, é dito que Marston morreu de câncer em 1947, e Elizabeth e Olive viveram juntas por mais 38 anos, até a morte de Olive, em 1985; Elizabeth sobreviveu aos dois, e chegou até os 100 anos.

Nenhum dos três, no entanto – pelo que se informa na internet –, deixou qualquer relato sobre como foi sua vida na intimidade. E o filme mostra muito da vida íntima deles, em sequências belas, suaves, delicadas, nada apelativas ou explícitas, mas também sensuais.

Vai aí, portanto, obviamente, um trabalho de ficção, de imaginação – mesmo que a partir de datas, dados, fatos conhecidos, registrados.

O IMDb reproduz o que disse a realizadora Angela Robinson: ela conversou com pessoas que conheceram o trio, ouviu suas descrições, mas é claro que o filme é a sua própria interpretação da história. “Penso que há muitos fatos que são inequívocos sobre os Marstons, e acho que há muita coisa aberta a interpretação. Como uma diretora de cinema, apresentei a minha interpretação da história deles”.

Está também no IMDb a informação de que uma neta de William, Christie Marston, foi a público dizer que sua família “rejeita completamente quaisquer afirmações feitas no filme e de forma alguma apóia aquela obra de ficção”.

Roberto Carlos diria o mesmo sobre sua biografia não autorizada – e a biografia dele não trata de nada tão pouco convencional como uma vida sexual a três.

Ao fazer aquela afirmação tão peremptória, essa moça Christie Marston a rigor avalizou o que o filme mostra.

Lado a lado, cenas de 1928 e 1945

Em seu roteiro, Angela Robinson colocou quase simultaneamente, lado a lado, declarações que William Marston fez em sala de aula, em Harvard, em 1928, e depois repetiu, em 1945, ao ser submetido a um interrogatório por Joseth Frank (Connie Britton), diretora de uma tal de Child Study Association of America – associação americana de estudo da criança, uma das muitas organizações fundamentalistas que surgem como porta-vozes dos “valores da família”, aquele antiquíssimo blábláblá.

Logo após aquela sequência inicial que mostra a queima de exemplares da revista Mulher Maravilha, vemos Marston se apresentando para as alunas da Radcliffe, uma universidade só para mulheres montada pelos mesmos professores de Harvard, na região de Boston, Massachusetts, nos anos 20, e em seguida tentando explicar para a diretora da Child Study Association, em 1945, o que pretendia ao criar as histórias da Mulher Maravilha.

É um belo recurso cinematográfico, a justaposição dos dois momentos tão diferentes –Marston, no auge da carreira acadêmica, encanta suas alunas, e depois se vê obrigado a dar explicações, justificativas, a respeito da super-heroína dos quadrinhos que havia criado.

O interrogatório de William Marston pela diretora da Child Study Association of America evoca toda uma série de outros interrogatórios através da História. Giordano Bruno e Galileu Galileu sendo interrogados pelos religiosos do Santo Ofício sobre por que raios eles insistiam naquela maluquice de afirmar que a Terra não é o centro do universo. Romancistas, diretores, roteiristas, atores, cantores, como Dashiell Hammett, Lillian Hellman, Edward Dmytryk, Dalton Trumbo, Paul Robinson, Lee J. Cobb, José Ferrer, sendo interrogados pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas sobre os indícios de que eram comunistas e talvez comessem criancinhas. Notórios comunistas, de ficha impecável, sendo interrogados pelos torturadores a serviço de Beria e Stálin, para expurgar da chefia do Partido os que haviam caído em desgraça aos olhos do ditador.

O mesmo recurso – colocar em ações simultâneas Marston dando aulas em Radcliffe e depois depondo diante do comitê chefiado por Joseth Frank – é usado outras vezes ao longo do filme.

Três atores não americanos nos papéis principais      

Os três personagens centrais da história – todos eles nascidos nos Estados Unidos – são representados por atores não americanos. E todos os três são um grande acerto da produção. Para o papel de William Marston foi escolhido o galês Luke Evans, que tem uma filmografia cheia de títulos de ação e fantasia, como A Bela e a Fera de 2017, Drácula: A História Nunca Contada (2014) e três bobagens da série Velozes e Furiosos. Mesmo com menos experiência em dramas sérios, Luke Evans está muito bem.

O papel de Elizabeth, mulher inteligente, corajosa, firme, forte, absolutamente segura de si, foi para a inglesa Rebecca Hall – e não poderia haver acerto maior. Rebecca Hall, de tantos bons filmes – Vicky Cristina Barcelona (2008), Einstein e Eddington (2008), Atração Perigosa (2010), Pronto Para Recomeçar (2010), O Despertar (2011), Uma Promessa (2012), Circuito Fechado (2013) –, tem todo o physique du rôle, com seu rosto expressivo, forte, de beleza nada convencional.

E houve o mesmo acerto na escolha da jovem australiana Bella Heathcote para o papel de Olive Byrne, essa garota lindérrima, cuja beleza deixa tontos, desde o primeiro momento, tanto William quanto Elizabeth. Bella Heathcote nasceu em 1987, dois anos depois da morte da Olive Byrne que ela encarna no filme; começou a carreira em 2008, e em 10 anos juntou 18 títulos na filmografia, incluindo O Preço do Amanhã (2011), ficção do genial Andrew Niccol, e Sombras da Noite (2012), deliciosa brincadeira vampiresca de Tim Burton.

A diretora e roteirista Angela Robinson criou belos diálogos para serem ditos por esses três atores. Bem no início, há uma sequência em que William e Elizabeth estão sentados nas escadas de entrada de um dos prédios do campus. Na grama, a uma distância não muito longa deles, está Olive e uma colega; um rapaz chega para conversar com as duas, obviamente fascinado pela beleza da moça.

Marido e mulher conversam sobre a jovem que havia chamado a atenção deles na sala de aula. Observam os movimentos dela, analisam cada gesto. – “Quero estudá-la”, ele diz, e Elizabeth responde que ela o mataria de paixão, e deixaria o corpo dele no meio de uma poça de sangue e sêmen. Mas em seguida diz: – “Vá em frente”.

Ele: – “Você não teria ciúme?”

Ela: – “Eu não tenho ciúme de sexo. E quem sou eu para lutar contra a natureza? Sou sua mulher, não sua carcereira.”

Na sequência seguinte, Olive entra na sala que o casal William e Elizabeth ocupam na faculdade. Só Elizabeth estava presente. As duas conversam um pouco, começam a se conhecer. Após rápidos minutos, Elizabeth, expressão séria, seriíssima no rosto, diz: – “Eu apreciaria muito se você não trepasse com meu marido.”

Mãe e tia progressistas, e criada por freiras

Angela Robinson e os três atores conseguiram mostrar na tela três personagens interessantes, fascinantes. É deliciosa a sequência em que, ainda no início do filme, os dois psicólogos levam a aluna para um speakeasy, um bar clandestino que, como tantos outros, país afora, vendia bebida alcoólica naqueles tempos de Lei Seca. Lá pelas tantas, a jovem aluna fala uma frase séria, importante, que uma tia sua costuma dizer, e William diz: – “Essa frase é de Margaret Sanger”. E Olive concorda: – “Sim, ela é minha tia”.

Os dois psicólogos ficam boquiabertos: Margaret Sanger (1879-1966) era uma famosérrima – entre os americanos mais letrados – escritora, feminista, ativista em prol do controle da natalidade.

E em seguida, com a maior naturalidade, Olive diz que sua mãe é Ethel Byrne – e William e Elizabeth ficam ainda mais boquiabertos. Ethel Byrne (1833-1955), assim como a irmã Margaret, era famosa como ativista pelo feminismo e pelo controle da natalidade. Foi Ethel que abriu a primeira clínica de controle da natalidade dos Estados Unidos.

Com a mesma naturalidade, a jovem Olive conta que sua mãe não a criou: entregou-a aos avós paternos, que acabaram a deixando em um orfanato cuidado por freiras. Ao que uma Elizabeth Marston absolutamente espantada diz: – “Você é filha de duas das mulheres mais progressistas, mais avançadas do país, e foi criada por freiras?”

Muito mais tarde, depois que a vida dos três já havia mudado demais, William Marston diz para Elizabeth: – “Ela é linda, inocente, gentil e pura de coração. Você é brilhante, feroz, engraçada e uma grande filha da mãe. Juntas, vocês são a mulher perfeita.”

Wonder Woman. Mulher Maravilha.

Um crítico diz que o filme é mais sonolento do que sexy

Uma das muitas qualidades do filme é o uso, em diversos momentos da narrativa, de páginas das revistas da Mulher Maravilha. A câmara focaliza, em close-up, páginas das revistas, e vemos nos quadrinhos, ainda que bem rapidamente, situações que ilustram perfeitamente o que está sendo discutido – poses claramente sensuais, o uso de cordas para amarrar os inimigos, mostras de dominação, suaves sugestões de sadomasoquismo.

Ainda que bem rapidamente. Sim: a montagem, nesses momentos em que a tela é inteiramente tomada pelos quadrinhos, e em diversos outros, é rápida, quase frenética – tomadas bem curtas que se sucedem bem depressa. É um recurso muito bem usado.

Outra grande qualidade do filme é a trilha sonora, de autoria de um compositor de quem eu jamais ouvira falar, Tom Howe. É uma belíssima trilha, e Tom Howe é um nome para o qual se deve prestar atenção. É um rapaz jovem, nascido em Londres em 1977, mas já experiente. Sua filmografia como compositor tem 70 títulos.

Apesar de todas as qualidades, o filme não foi um grande sucesso na bilheteria: nos Estados Unidos e Canadá, rendeu US$ 1,5 milhão, segundo o site especializado Box Office Mojo. Uma quantia ínforma para uma produção americana.

É um drama sério, e alguns temas – como a relação sexual entre três pessoas – afugentam boa parte do público.

Aparentemente, não teve também muitas loas da critica. O ótimo site AllMovie, por exemplo, deu ao filme apenas 2 estrelas em 5. Assim começa a crítica assinada por Tim Holland:

“Para qualquer pessoa que não conheça a origem da Mulher Maravilha dos quadrinhos, pode ser um choque saber que a gênese da super-heroína em 1941 envolve sadomasoquismo, servidão, jogos de perversão e um escandaloso ménage à trois. Você poderia pensar, com base numa história tão suculenta, que um filme sobre a criação da princesa amazona seria irresistível, se não abertamente estimulante. Mas você estaria errado: nas mãos da autora-diretora Angela Robinson, essa história real um tanto obscena fica mais sonolenta do que sexy.”

Cada cabeça, uma sentença.

Este é um filme muito, muito bom.

Anotação em janeiro de 2019

Professor Marston e as Mulheres Maravilhas/Professor Marston and  the Wonder Women

De Angela Robinson, EUA, 2017

Com Luke Evans (William Moulton Marston), Rebecca Hall (Elizabeth Marston), Bella Heathcote (Olive Byrne)

e Connie Britton (Josette Frank), Monica Giordano (Mary), JJ Feild (Charles Guyette, o homem da sex shop), Chris Conroy (Brant Gregory, o namorado de Olive), Oliver Platt (M.C. Gaines, o editor), Maggie Castle (Dorothy Roubicek), Alexa Havins (Molly Stewart), Sharon Kubo (Kate), Allie Gallerani (Sara), Christopher Jon Gombos (Fred Stewart), Forry Buckingham (médico), Stacy Fischer (Linda)

Argumento e roteiro Angela Robinson

Fotografia Bryce Fortner

Música Tom Howe

Montagem Jeffrey M. Werner

Casting Eve Battaglia e Angela Peri

Produção Opposite Field Pictures, Boxspring Entertainment, Stage 6 Films, Topple Productions.

Cor, 108 min (1h48)

***1/2

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