Os Filhos de Katie Elder / The Sons of Katie Elder

Nota: ★★★☆

Os Filhos de Katie Elder, de Henry Hathaway, de 1935, é um bom, sólido western em que a personagem mais importante não aparece uma única vez na tela, porque já está morta quando a ação começa: a Katie Elder do título.

Katie era amada, respeitada, admirada por praticamente todos os moradores de Clearwater, a cidadezinha texana mais próxima do rancho em que ela e seu marido Bass criaram os quatro filhos. Todas os moradores de Clearwater que aparecem no filme – com a única exceção do bandido da história – falam bem de Katie. Era uma mulher bondosa, prestativa, sempre disposta a ajudar quem quer que fosse. Uma boa alma, uma daquelas pessoas que mais tarde Bertold Brecht chamaria de imprescindíveis.

O marido, Bass – que não também não aparece em sequência alguma -, não era lá essas coisas. Na verdade, não prestava muito. Não que fosse um sujeito ruim, um bandido. Não: era um fraco. Bebia muito e jogava muito nas cartas.

Era mesmo Katie quem carregava o piano todo nas costas, que cuidava do rancho.

Os quatro filhos – todos homens, de idades bem diferentes – foram indo embora, um a um. O mais velho, John (o papel de John Wayne), havia anos não aparecia no rancho. Tinha virado um pistoleiro, nome conhecido, tido como um dos gatilhos mais rápidos que havia – mas não era procurado como criminoso. O filme não se preocupa em explicar isso, mas dá para inferir que todos os homens que ele matou foram mortos em duelos – o que não era considerado crime.

O segundo, Tom, era bom nas cartas, no pôquer – e, andando de cidade em cidade, ganhava dinheiro em pequenas safadezas, como, por exemplo, rifar, nos saloons, o seu olho de vidro, sendo que não tinha olho de vidro coisa nenhuma. Lá pelo meio do filme ele apresenta este número no saloon da própria cidadezinha de Clearwater.

Tom é interpretado por Dean Martin – e este foi o segundo western em que John Wayne e Dean Martin contracenaram. Já haviam feito juntos Onde Começa o Inferno/Rio Bravo (1959).

As pessoas que fizeram este The Sons of Katie Elder eram velhas conhecidas. Três anos antes, o diretor Henry Hathaway e John Wayne haviam feito juntos Hatari!, uma gostosa aventura passada na África sobre um grupo de caçadores de grandes animais selvagens – não para matá-los, mas para vendê-los para zoológicos.

Os quatro filhos se reúnem para o enterro da mãe

Do terceiro filho de Katie Elder, Matt (Earl Holliman), não ficamos sabendo muita coisa, mas ele também abandonou a casa dos pais e foi viver longe.

O caçula, Bud (o papel de Michael Anderson Jr.), foi o único filho que saiu de casa porque Katie quis: ela o mandou estudar, fazer o colegial, para depois entrar numa faculdade. Era o sonho da boa senhora: ter um filho que fosse alguma coisa importante na vida – e, para ela, um filho com diploma de faculdade era o melhor que se poderia esperar.

Bud não queria estudar, não queria fazer faculdade: gostaria muito era de cavalgar por aí com o irmão mais velho famoso, o pistoleiro respeitado naquelas plagas todas.

O filme começa com Tom, Matt e Bud esperando o trem na estação de Clearwater. Haviam sido chamados de volta: Katie tinha tido um derrame, e morrera – seis meses depois do marido, que por sua vez tinha sido assassinado. O xerife Billie Wilson (Paul Fix) não tinha conseguido identificar o assassino.

O xerife, homem vivido, veterano, estava também na estação, à espera do trem, ao lado de seu assistente, um rapaz jovem, cheio de energia, Ben Latta (Jeremy Slate).

Achavam – os três irmãos Elder, e também o xerife – que John, o mais velho, chegaria naquele trem. Mas estavam enganados. John não desce do trem. Quem desce é um tipo que ninguém ali jamais havia visto, mas que o xerife saca de cara que é um pistoleiro.

E é mesmo: o espectador vê, em seguida, que o sujeito que desceu do trem, Curley (George Kennedy, em um mais um papel como homem mau), foi contratado por Morgan Hastings (James Gregory). Morgan Hastings é o tal bandido da história, citado en passant no segundo parágrafo deste texto. Era um sujeito ambicioso, do tipo espertalhão, sem escrúpulos, determinado a fazer fortuna usando todos os meios disponíveis, legais ou não. Havia chegado alguns anos antes a Clearwater, se estabelecido como vendedor de armas e munições. E, uns seis meses antes da morte de Katie, havia se mudado para o belo rancho que antes era dos Elder, onde os quatro filhos haviam sido criados.

As circunstâncias que levaram Hastings a ser o proprietário do rancho dos Elder só serão esclarecidas um pouco mais adiante. A versão que o próprio Hastings apresenta para os irmãos é que Bass perdeu para ele a propriedade do rancho num jogo de cartas.

Uma mulher bela, solteira, empreendedora

O espectador vê John Elder-John Wayne pela primeira vez na sequência do enterro de Katie, quando o pastor faz um sermão cheio de elogios à mulher que todos ali amavam. O filho mais velho não participa da cerimônia: assiste a tudo bem de longe, do alto de um morro próximo ao cemitério.

Depois que todos vão embora é que ele desce e fica por um tempo em silêncio, diante do túmulo da mãe. O xerife Billy vem ter com ele – quer saber quanto tempo ele vai ficar por ali. – “Eu acabei de chegar e você está querendo me expulsar, Billy!”, ele protesta.

É o xerife que diz a John que o rancho dos Elder não é mais dos Elder, e que Katie havia passado os últimos meses de sua vida em um outro rancho, bem menor.

John vai então para o tal rancho, e ali revê os irmãos.

Estão os quatro conversando quando chega uma moça loura, bonita – embora o diretor Hathaway não nos dê sequer um close-up dela. Bud, o caçula, é que a apresenta para os irmãos: é Miss Gordon, a dona da pensão de Clearwater.

Mary Gordon conhece os irmãos, e cumprimenta um por ano. Há aí um gostoso diálogo. John Elder, com aquele jeitão John Wayne de ser, e de se balançar meio feito um joão bobo quando fala, em especial se está falando com mulheres, diz: – “Ei, você não era aquela garota magrinha que vivia perto dos Ferguson?” E Mary responde: – “Não. Eu sou aquela garota magrinha que vivia perto dos Ferguson”.

Ela foi até o rancho levando comida para os quatro homens. Fala, repete e insiste em que está fazendo aquilo não por eles, mas por Katie. Antes de morrer, Katie havia pedido a ela que cuidasse dos seus filhos, e então ela estava ali fazendo o que Katie havia pedido.

É uma personagem muito interessante, essa Mary Gordon, interpretada por uma atriz que eu acho igualmente muito interessante, Martha Hyer. Costumo dizer que, em geral, nos westerns há dois tipos de mulheres: a pura, a perfeita, mãe de família, dona de casa, e a puta – ou, se não propriamente puta, cantora de cabaré ou coisa parecida.

Mary Gordon é pura, perfeita, e é bela, mas, estranhíssimamente, é solteira. Não houve homem em Clearwater capaz de conquistá-la.

É solteira – e empreendedora. Toca a pensão da cidade. Isso não é nada comum no western.

Sete anos antes de interpretar essa interessante Mary Gordon, Martha Hyer havia feito o papel de uma jovem professora de redação de uma cidadezinha por quem o protagonista se apaixona perdidamente em Deus Sabe Quanto Amei/Some Came Running (1958), um belo melodrama de Vincente Minnelli; vi o filme bem garoto, e fiquei impressionadíssimo com a atriz.

Não foi só o adolescente belo-horizontino que se impressionou com Martha Hyer. Hal B. Wallis, poderoso produtor da Paramount, o produtor de nada menos 377 filmes, segundo o IMDb – incluindo este Os Filhos de Katie Elder – se casaria com a atriz no ano seguinte ao do lançamento do filme. Viveriam juntos de 1966 até 1986, quando ele morreu.

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Tem tudo de um bom western – mas vai além do gênero

Mary Gordon-Martha Hyer impressiona o velho John Elder-John Wayne. O filho mais velho de Katie Elder fica obviamente interessado na moça – tanto que Tom irá logo gozar a cara do irmão, dizendo que não há nada mais bobo que um homem que se derrete por uma mulher que não dá a menor bola para ele.

Nessa mesma sequência, após o funeral de Katie, em que Mary Gordon leva comida para os quatro marmanjos Elder, há uma fala fascinante. John diz para Mary que sua mãe devia ter tido muita confiança nela. E então Mary responde:

– “Se ela tivesse seus filhos por perto, não precisaria confiar em estranhos. Ela me falava de como vocês são ótimos homens, nunca se esquecendo dela, mandando dinheiro para ela, ajudando-a a mandar Bud para a escola. Ela era tão orgulhosa. Seus grandes filhos sobre quem ela sempre inventava mentiras para esconder sua vergonha. Culpava o Texas por roubar seus filhos. Texas é uma mulher, ela dizia, uma mulher grande, selvagem, bela. Você cria uma criança até ele ter uma certa altura, e aí o Texas sussurra nos ouvidos dela, sorrindo: ‘Venha se divertir comigo’. Ela dizia que já é difícil criar os filhos – mas quando tem que lutar contra o Texas, aí a mãe não tem mesmo vez. Por isso é que ela empurrou Bud para o colégio. Ela perdeu os outros para o Texas. Queria ver Bud ir para o colégio antes de morrer. Bem, ela morreu.”

Realcei isso porque acho importante, porque acho que são pontos que fazem Os Filhos de Katie Elder ir um tanto além do básico do gênero western. Sou um absoluto fã do básico do gênero western – mas adoro quando os westerns são mais que apenas western.

Mas isso não quer dizer, absolutamente, que Os Filhos de Katie Elder não tenha tudo o que um bom western tem que ter. O filme tem, sim, senhor.

Dennis Hopper faz um sujeito covarde, medroso

Os roteiristas cometeram um pequeno equívoco, no entanto. São três os profissionais que assinam o roteiro: William H. Wright, Allan Weiss, Harry Essex, que se basearam em uma história de Talbot Jennings. Os três cometeram uma confusão com as datas.

Lá pelas tantas, John Elder encontra o exemplar da Bíblia que pertencia a Katie. Lê o nome dela, nascida em Ohio, sem data. Em seguida, lê que ela anotou ter se casado com Bass Elder em 1850.

Ora: o primogênito do casal, John Elder, vem na pele de John Wayne, que estava, quando o filme foi lançado, com 58 anos. O segundo filho do casal, Tom, é interpretado, repito, por Dean Martin, que em 1965 etava com 48 anos. Logo, os acontecimentos narrados no filme teriam se passado ali por volta 1908 – mas é evidente que a ação do filme se passa bem antes disso, provavelmente ali por 1870, no máximo 1880.

Três roteiristas – e ninguém fez umas continhas básicas, aritmética primária.

No elenco, há uma presença interessantíssima: Dennis Hopper faz Dave Hastings, o filho do bandidão Morgan Hastings. Esse Dave é um covarde, um danado de um medroso. É muito esquisito ver nesse papel o sujeito que, apenas quatro anos depois, iria dirigir e estrelar um filme que marcou uma geração inteira, Easy Rider, no Brasil Sem Destino (1969).

Leonard Maltin deu ao filme 3 estrelas em 4: “Western típico com Duke, Holliman, Anderson e Martin como os turbulentos filhos da pioneira Katie Elder, que se reúnem para vingar sua morte. O filme marcou o retorno às telas de Wayne após uma operação de câncer que foi muito falada. Diversão animada.”.

Aaaahhh… Os filhos se reúnem para o funeral da mãe, não propriamente para vingar sua morte. Mas tudo bem.

O Duke ainda viveria mais 14 anos, depois daquela primeira operação para combater o câncer, e faria um bom número de filmes. Em 1976 faria seu último, o filme de número 178 de sua carreira: em O Último Pistoleiro/The Shootist, interpreta o personagem perfeitamente descrito no título brasileiro, um veterano que está morrendo de câncer.

Discordo e concordo com Leonard Maltin quando ele define Os Filhos de Katie Elder como “um western típico”. Como já falei antes, ele tem tudo de um western típico, sim. Mas vai além.

É um bom filme.

Anotação em dezembro de 2018

Os Filhos de Katie Elder/The Sons of Katie Elder

De Henry Hathaway, EUA, 1965

Com John Wayne (John Elder), Dean Martin (Tom Elder), Martha Hyer (Mary Gordon), Michael Anderson Jr. (Bud Elder), Earl Holliman (Matt Elder), Jeremy Slate (Ben Latta, o assistente do xerife), James Gregory (Morgan Hastings), Paul Fix (xerife Billy Wilson), George Kennedy (Curley), Dennis Hopper (Dave Hastings), Sheldon Allman (Harry Eyers, o juiz), John Litel (o religioso), John Doucette (Hyselman, o agente funerário), James Westerfield (Vannar, o banqueiro), Rhys Williams (Charlie Bob Striker)

Roteiro William H. Wright, Allan Weiss, Harry Essex

Baseado em uma história de Talbot Jennings

Fotografia Lucien Ballard

Música Elmer Bernstein

Montagem Warren Low

Figurinos Edith Head

Produção Hal B. Wallis, Paramount Pictures.

Cor, 122 min (2h02)

R, ***

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